O que fiz para que minha mulher voltasse a me olhar
Voltei mais cedo, abri a porta de casa e entendi que o silêncio entre nós tinha um nome, uma voz grave e um sorriso que não era para mim.
Voltei mais cedo, abri a porta de casa e entendi que o silêncio entre nós tinha um nome, uma voz grave e um sorriso que não era para mim.
Dei-lhe um comprimido para dormir, vesti a saia mais curta que tinha e desci ao bar do hotel em busca do que ele já não sabia me dar.
Meu marido saía às seis da manhã. Ele chegava às sete. Aquela diferença de uma hora foi tudo de que precisei para começar a traí-lo sem culpa.
Voltei ao campo depois de anos na cidade e, procurando meu pai entre o milho, encontrei minha mãe de joelhos diante de um dos peões.
Eu o ouvia todas as noites do outro lado da parede e imaginava estar no lugar da minha mãe, com aquele homem que me devorava com os olhos quando achava que ninguém via.
Nós dois tínhamos parceiros e nós dois sabíamos disso. Mesmo assim, tirei o suéter no banco do passageiro e deixei que ele me olhasse como vinha querendo havia semanas.
Meu celular caiu na água e precisei usar o da minha mãe. Nunca imaginei que uma conversa salva revelaria quem entrava em casa quando eu não estava.
O marido passava meses embarcado, e ela subia pelas paredes. Eu só ia afastar alguns móveis, mas naquela tarde a casa estava vazia e a porta, aberta.
Durante quase um ano tive duas vidas: a esposa perfeita no jantar em família e a mulher que esperava a segunda-feira para encontrá-lo naquele hotel afastado.
A ideia foi dele: procurar um desconhecido que me fizesse o que ele não ousava. O que ele não calculou é que eu não o olharia mais do mesmo jeito.
Eu tinha duas opções: acabar com tudo e afastá-la dele, ou dar caminho livre para que ele ficasse com o que eu mais queria. Escolhi a pior das duas.
A porta estava só encostada e lá dentro alguém repetia que sim, que sim. Eu não devia ter olhado, mas fiquei cravado no corredor, prendendo a respiração.
Desci para tomar um café com a do quinto e voltei de boca aberta: ela me contou, em detalhes, o que fez com o homem casado do oitavo andar.
Voltei do segundo encontro com o coração acelerado, e o que eu menos imaginava era que meu próprio marido me pediria, naquela noite, que contasse tudo.
Atravessei a cidade inteira achando que íamos comer algo. Quando abri o guarda-roupa do quarto dez, ela saiu com um bolo aceso e um sorriso nada inocente.
Eu vinha percebendo há semanas o jeito como o amigo do meu marido me olhava. Naquela noite, sozinhos no quintal, entendi que nada era coincidência.
Fez as malas com roupa recatada e um corpo cansado de esperar. O que encontrou na casa da amiga a mudou para sempre, embora jamais tenha contado.
Estacionou em frente ao prédio, se olhou no retrovisor e não reconheceu a mulher que devolvia o olhar. Naquela noite, havia decidido deixar de ser a esposa perfeita.
Planejamos aquela noite por uma semana: o marido dela no futebol, minha mulher na aula. O que não calculamos foi quantas vezes seríamos interrompidos.
Quando ela me pediu ajuda com a máquina de lavar, não imaginei que acabaria olhando para ela sem disfarçar. Uma mulher assim não devia ficar sozinha com tanta frequência.