A entrevista em que aprendi a obedecer
«Se ficar, deixa de ser a estudante perfeita», ele me disse sem me tocar ainda. Olhei para a porta trancada. Minhas pernas não se moveram.
«Se ficar, deixa de ser a estudante perfeita», ele me disse sem me tocar ainda. Olhei para a porta trancada. Minhas pernas não se moveram.
Todas as noites desço às masmorras com pão e água. Ontem à noite, a mulher acorrentada à coluna me esperava nua e com uma ordem nos lábios que eu não podia desobedecer.
Fico vermelha só de pensar que vocês vão ler isto, mas ele me ordenou: devo contar, sem esconder nada, como aprendi a me ajoelhar e agradecer.
Apoiado na bancada, ele e a moça acharam que a casa estava vazia. Não contavam que ela voltaria antes da hora, nem com o que guardava para quem ousasse enganá-la.
Voltei ao colégio naquela tarde com a desculpa de estudar na biblioteca, mas nenhuma de nós ia abrir um único livro. Íamos por eles.
Era meu melhor amigo, meu confidente. Naquela noite de feira, entre vinho e risadas, a mão dele na minha cintura acendeu algo que eu jamais tinha sentido por ele.
Começou como um interesse acadêmico pelo aluno mais brilhante do grupo. O que acabou acontecendo na minha sala ainda me custa colocar em palavras.
Baixei a guarda assim que ele cruzou a porta da cocheira. Não vim atrás de nada disso, mas a voz dele me mandou ajoelhar e eu já não soube dizer não.
Esperei as portas se fecharem. Diego já beijava a namorada sem disfarçar, e a irmã dela me olhava de soslaio, mordendo o lábio, sem saber o que fazer com as mãos.
Subimos para estender a roupa com qualquer pretexto. Entre as caixas d’água da laje, descobri que ela estava tão impaciente quanto eu para parar de fingir.
Reconheci o cesto de roupa que não era o meu e, antes de pensar, já tinha enfiado a mão nas peças dele. O que aconteceu depois me mudou por dentro.
Eu o ouvi dizer ao telefone: “essa velha já tá pronta”. Eu devia ter me ofendido. Em vez disso, senti que me molhava inteira contra o balcão.
Ela subia para o quarto, abria o armário e se trocava sabendo que a gente a observava da rua. Eu era o mais novo do grupo, mas fui o primeiro a entrar pela sua porta.
Eu tinha jurado que a virgindade dela era inegociável. Naquela manhã, no apartamento emprestado por um amigo, ela me mostrou até onde estava disposta a ir.
Me escondi no beiral do vestiário com Bruno colado nas minhas costas. Lá embaixo, minha mãe e a amiga dela se despiram entre os operários, e eu não consegui tirar os olhos.
Começou com um tornozelo torcido na quadra e terminou muitas semanas depois, numa noite em que a casa dela ficou vazia e já não houve motivo para segurar o desejo.
Voltei por Bryan, mas foi Andrés quem me parou no meio da rua, me agarrou sem vergonha e me chamou para o dia seguinte. Eu já sabia o que ia acontecer e não fiz nada para evitar.
Eu a olhava havia anos de um jeito errado. Nessa noite, depois de pegá-la com outro, ela entrou no meu carro sem saber que eu também escondia um segredo.
Tínhamos combinado de trocar umas fotos. O que nenhum dos dois disse em voz alta era que esse reencontro já estava esperando há meses para acontecer.
Durante anos eu me disse que era o típico cara hétero. Menti. Minhas punhetas eram dedicadas aos colegas do vestiário, e demorei demais para admitir.