Pular para o conteúdo
Relatos Ardientes

A noite em que Camila subiu ao palco

4(6)

Camila e eu nos conhecemos há doze anos. Viramos amigas na universidade, numa daquelas ligações que sobrevivem aos namorados, às mudanças e aos trabalhos que não duram. De segunda a sexta, ela trabalha como enfermeira numa clínica particular perto do centro. Nos fins de semana, dança em um clube em que se entra com reserva antecipada e código na porta.

Ela me contou isso há três anos, uma noite depois do jantar, com aquela calma que tem para largar coisas enormes como se fossem comentários de passagem. Disse que dançava, que ganhava bem, que não pedia permissão a ninguém. Perguntei se podia ir vê-la alguma vez. Ela riu. Disse que sim, algum dia.

Esse algum dia chegou na sexta-feira passada.

Camila mede quase um metro e setenta e quatro. A maior parte dessa altura são as pernas dela, longas e com aquele formato que torna difícil não olhá-las quando ela anda. Tem o cabelo escuro e liso que chega ao meio das costas e uns olhos que mudam entre castanho e verde dependendo da luz e do humor. Quando sorri, aparece uma covinha na bochecha esquerda que bagunça tudo.

Eu a desejo há muito tempo. Não sei exatamente desde quando, embora eu ache que foi durante uma viagem que fizemos juntas para a praia, há quatro verões. Dividimos o quarto com uma única cama de casal. Naquela noite, demorei horas para dormir com o corpo dela a dez centímetros do meu, ouvindo sua respiração tranquila enquanto eu não conseguia parar de pensar no quão perto a mão dela estava da minha sobre o travesseiro. Me toquei em silêncio sob os lençóis, mordendo o lábio para não fazer barulho, pensando na buceta dela, em como seria enfiar a língua até o fundo enquanto ela dormia.

Nunca disse nada a ela. Somos amigas há doze anos e isso vale mais do que qualquer fantasia. Mas as fantasias continuam ali, mesmo quando ninguém as convida. Elas se acumulam, se refinam, pegam emprestados detalhes de conversas reais e de olhares que duram um segundo a mais do que o necessário.

Camila é a fantasia mais recorrente que tenho. E ela não sabe.

***

O clube fica numa rua sem saída ao sul da cidade, atrás de um portal de madeira escura sem placa. Camila me passou o código por mensagem naquela mesma tarde, junto com um “não chegue atrasada” sem mais explicação.

Por dentro é maior do que parece por fora. Mesas baixas, luz baixa em tons âmbar, um balcão longo ao fundo. O palco circular com uma barra vertical no centro ocupa quase um terço do espaço. Não havia mais do que quarenta pessoas. A música era suave, ao fundo, o bastante para cobrir as conversas sem impedir os próprios pensamentos.

Sentei numa mesa perto do palco, pedi alguma coisa para beber e esperei.

Quando Camila saiu ao palco, levei um segundo para reconhecê-la. Ela usava o cabelo solto com uma leve onda que não costuma usar no dia a dia, algo brilhante aplicado sobre os ombros e os braços que os fazia reluzir sob a luz, uma peça preta mínima que não deixava espaço para a imaginação: dois triângulos de tecido cobrindo mal os mamilos e uma tanga enfiada entre as nádegas. Ela caminhou até a barra central com aquele jeito de se mover que eu sempre notei, mas que naquela noite era completamente diferente. Mais deliberado. Mais consciente de si mesma.

A música começou. E Camila começou.

Há pessoas que dançam para a sala. Há pessoas que dançam para si mesmas. Camila fazia isso com uma concentração que transformava todo o resto em ruído de fundo. Era precisa, era fluida. Ela se pendurou na barra de cabeça para baixo, abriu as pernas bem escancaradas, e da minha mesa vi como o tecido da tanga se colava na buceta, marcando cada dobra. Minha boca secou.

Os olhos dela percorreram a sala. Quando chegaram à minha mesa, pararam.

Ela sorriu. Não o tipo de sorriso de “que alegria que você veio”. O tipo de sorriso que diz algo que não se traduz bem em palavras, mas que eu entendi perfeitamente da segunda fila.

Não desviei o olhar.

Ela também não.

Ela dançou durante quinze minutos que, para mim, pareceram três. Quando desceu do palco, caminhou direto até a minha mesa. Parou na minha frente, me olhou de cima com as mãos na cintura e disse:

—E então?

—Você está incrível —respondi, e não sei se saiu natural ou se ficou óbvio demais o que havia por trás da frase.

Ela pegou minha taça, bebeu um gole sem me pedir licença e se sentou ao meu lado. Cheirava ao perfume dela misturado com o calor do palco, e essa combinação fez algo no meu estômago que tentei ignorar com pouco sucesso.

***

O que vou contar a partir daqui não é exatamente o que aconteceu naquela noite. É a versão que se repete na minha cabeça quando não consigo dormir. O que imaginei no táxi de volta para casa, com a cidade passando escura pela janela e o coração ainda acelerado e as coxas apertadas uma contra a outra.

Na que eu imagino, Camila se senta bem perto. Tão perto que sinto o calor da pele dela e aquele perfume que ela sempre usa, floral com algo mais escuro por baixo. Ela me olha por um momento com aqueles olhos que mudam de cor e diz:

—Você passou o número inteiro me olhando como se quisesse comer a minha buceta.

—É porque eu quero —eu digo. Na fantasia isso sai sem esforço, sem o peso de doze anos de amizade puxando do outro lado.

Ela não diz nada. Me encara um segundo a mais. Depois me beija.

Não é um beijo de cumprimento nem de qualquer outra coisa com nome conhecido. É deliberado e lento, com uma mão na minha bochecha me orientando exatamente para onde ela quer. Ela enfiou a língua até o fundo, entrelaçou com a minha, e sinto a outra mão dela descer pela minha coxa e apertá-la com força por cima da calça. Sinto no estômago, no peito, na buceta que já está encharcada antes de alguém encostar nela.

Quando ela se afasta, não vai longe. A testa dela encosta na minha.

—Há quanto tempo você está pensando nisso? —pergunta.

—Quatro anos —respondo.

—Eu cinco —ela diz, e sorri com a covinha na bochecha esquerda—. Cinco anos imaginando que gosto você tem.

Nós nos perdemos nos bastidores, numa salinha pequena com um sofá de couro e um abajur de pé que dá uma luz quente e alaranjada. Camila tranca a porta, se vira para mim e desabotoa minha jaqueta com os dedos, devagar, sem tirar os olhos dos meus. O tecido cai no chão. Ela apoia as palmas abertas na minha clavícula e as desce muito devagar pelo meu decote, até apertar meus seios por cima do sutiã.

—Para —digo.

Ela para imediatamente.

—Para eu poder tirar a camisa sozinha —esclareço.

Nós duas rimos, e há algo nessa risada compartilhada que faz tudo parecer mais real, mais nosso. Tiro a camisa pela cabeça e ela abre meu sutiã com uma só mão, com a prática de quem já fez aquilo muitas vezes. Quando meus seios ficam expostos, ela baixa a cabeça sem dizer nada e chupa um mamilo, devagar, desenhando círculos com a língua, enquanto com os dedos belisca o outro. Me escapa um gemido agudo que eu mesma não reconheço.

—Puta merda, que peitos você tem —murmura contra a minha pele—. Todo esse tempo escondidos debaixo da roupa.

Ela me empurra suavemente para o sofá e se senta em cima de mim com os joelhos de cada lado dos meus quadris. O peso dela é exatamente como eu imaginei todas aquelas noites em que me proibi de imaginar. Agarrou a bunda dela com as duas mãos por cima da tanga e ela começa a se mover sobre mim, esfregando a buceta na minha coxa, deixando uma mancha de umidade na minha calça que eu sinto perfeitamente. Eu arranco os dois triângulos de tecido preto que cobrem os seios dela e lá estão eles, redondos e firmes, com os mamilos escuros e já duros como pedra.

—Chupa —ela me diz, segurando a minha nuca e baixando a minha cabeça.

Eu chupo. Enfio um mamilo inteiro na boca, passo a língua ao redor, puxo de leve com os dentes. Ela arqueia as costas e solta um gemido longo que me sobe direto para a buceta. Mudo para o outro, dou o mesmo tratamento, e sinto como ela se mexe mais rápido sobre mim, como a respiração dela se parte.

Ela beija meu pescoço. Devagar, traçando uma linha com a língua desde a mandíbula até onde começa o ombro. Tenho os dedos enterrados no cabelo dela e não me lembro de tê-los colocado ali. Ela desliza as mãos pelo meu abdômen até baixo, desabotoa minha calça, enfia a mão por baixo da roupa íntima sem cerimônia e me toca diretamente.

—Você está encharcada —diz, e há algo triunfante na voz dela—. Você está pingando, Marta.

—Estou assim desde que você entrou no palco —confesso.

Ela enfia um dedo. Depois dois. Move dentro de mim com uma precisão que me faz apertar a mandíbula. Com o polegar, procura meu clitóris e começa a fazer círculos lentos, enquanto me olha no rosto para não perder nenhuma das minhas reações.

—Me diz o que você quer —diz contra o meu pescoço.

Tem coisas que a gente sabe exatamente, mesmo quando nunca as teve.

—Quero que você coma a minha buceta —eu digo, sem me desculpar por isso, sem baixar a voz—. Quero sua língua dentro de mim. Agora.

Ela sorri contra o meu pescoço.

—Bom —diz.

***

Ela sai de cima de mim e se ajoelha no chão entre as minhas pernas. Tira minha calça puxando pelas pernas, depois a roupa íntima, e joga as duas de lado. Abre minhas coxas com as palmas, sem pressa, apreciando o que vê.

—Que buceta —diz, mais para si mesma do que para mim—. Todos esses anos e eu não fazia ideia.

Ela não desce de uma vez. Primeiro beija a parte interna das minhas coxas, uma e depois a outra, subindo com a boca centímetro por centímetro. Quando chega em cima, passa direto pela buceta de propósito e beija o osso do quadril. Sobe mais. Lambe minha pele abaixo do umbigo. Desce de novo pela outra coxa, mordendo de leve.

—Camila, por favor —digo, e já não me importa como isso soa.

—Por favor o quê —ela diz, me olhando de baixo com os lábios brilhantes e as sobrancelhas erguidas.

—Come. Por favor.

Ela baixa a cabeça. A primeira passada da língua é plana, longa, de baixo para cima, e faz minhas pernas tremerem e meus dedos se cravarem no couro do sofá. A segunda é mais precisa: a ponta da língua direto no clitóris, círculos pequenos e constantes, com uma pressão exata que me faz soltar um gemido sem filtro.

Ela sabe o que está fazendo. Não há teste, não há busca. Com a língua, estabelece um ritmo constante e preciso sobre meu clitóris, sem pressa e sem interrupções. Alterna: chupa, lambe, enfia a ponta da língua bem fundo para tirá-la em seguida, volta ao clitóris. Cada vez que me aproximo do limite, ela percebe e ajusta a pressão ou o ângulo no ponto exato para me manter ali, nessa borda, um pouco mais. É deliberado. Ela faz de propósito. E eu sei disso, e isso torna tudo ainda mais difícil de aguentar.

—Camila —digo, e não sei se é reclamação ou súplica ou simplesmente o nome dela, que eu gosto de como soa quando o pronuncio assim—. Camila, por favor, não para, não para.

Ela levanta o olhar sem parar. Tem o queixo brilhando, encharcado de mim, e essa imagem sozinha tensa meu corpo inteiro. Os olhos dela estão escuros, concentrados, com algo neles que eu nunca tinha visto porque até esta noite eu nunca a tinha tido aqui, nessa posição, com a boca metida na minha buceta e me olhando assim de baixo.

Ela enfiou um dedo dentro de mim, depois dois, e curva as pontas para cima buscando aquele ponto exato que a maioria não encontra. Ela encontra de primeira. O ritmo que mantém com a língua se sincroniza com o movimento da mão dela e, de repente, tudo vira uma coisa só: a língua por cima, os dedos dentro, o polegar da outra mão apertando minha coxa para me manter aberta. Sinto a tensão se acumular dos pés até o centro, densa e urgente, como uma onda que se levanta bem devagar e não vai baixar até quebrar.

—Vou gozar —aviso, com a voz apertada—. Camila, vou gozar na sua boca.

Ela geme contra a minha buceta e essa vibração é o que termina de me quebrar. Agarrei o cabelo dela com as duas mãos, apertei mais do que deveria, empurrei o rosto dela contra mim sem nenhum cuidado.

—Não para —eu digo—. Não para, porra, não para.

Ela não para. Pelo contrário: acelera o ritmo da língua, enfia os dedos mais fundo, mais rápido, e chupa meu clitóris entre os lábios com uma sucção que me destrói.

Quando chego, chego devagar e depois de repente, com as costas curvadas para a frente e um som na garganta que eu não reconheço como meu, um uivo apertado que sai de muito baixo. O orgasmo me sacode em ondas, uma atrás da outra, e cada uma é mais longa que a anterior. Camila sustenta o ritmo até a última contração, chupando e lambendo enquanto eu me contorço debaixo dela, até eu soltar o cabelo dela e me deixar cair contra o encosto do sofá com a respiração ainda ofegante e os músculos sem força.

Ela tira os dedos devagar, brilhantes e encharcados, e os leva à boca sem parar de me olhar enquanto os chupa um por um.

—Você é exatamente como eu imaginava —diz.

—Vem aqui —peço, com uma voz fininha.

Ela sobe pelo meu corpo e eu a beijo. Ela tem gosto de mim na boca, salgado e denso, e só esse detalhe me reascende. Enfio a mão entre as pernas dela por baixo da tanga e a buceta dela está tão molhada que meus dedos escorregam de um lado para o outro sem aderência. Ela geme contra a minha boca.

—Deita —digo a ela.

Ela se deita de barriga para cima no sofá e eu me posiciono por cima dela, encaixando minha coxa entre as dela. Arranco a tanga de um lado, sem desfazer nada, e ela solta uma risadinha curta que vira gemido quando eu enfio dois dedos de uma vez. O corpo inteiro dela se tensiona. Mordo o pescoço dela enquanto a fodo com os dedos, procurando o mesmo ponto que ela procurou em mim, e pela cara dela eu sei quando encontro.

—Aí —ela diz, com os olhos fechados—. Aí, aí, não sai daí.

Eu a monto contra a minha própria coxa, movendo o quadril no mesmo ritmo dos dedos, e ela crava as unhas nas minhas costas com tanta força que sei que amanhã vou ter marcas. Desço a boca aos seios dela, mordo um mamilo sem medo, e ela geme mais alto, sem se importar se do outro lado da parede alguém a escuta.

—Marta, porra, assim, assim, não para —diz ela, e a voz dela soa diferente de qualquer voz que eu tenha ouvido nos doze anos em que a conheço.

Eu não paro. Enfio um terceiro dedo, mudo o ângulo, esfrego o clitóris com a palma cada vez que empurro para dentro. Ela arqueia as costas no sofá, abre a boca sem som, e quando chega lá ela aperta as pernas em volta da minha mão, prendendo meus dedos dentro dela enquanto goza em ondas longas que percorrem todo o corpo.

Quando termina, fica quieta por um instante, com os olhos fechados e um sorriso pequeno. Depois me puxa para cima dela e me abraça, ainda dentro dela, e fica assim respirando contra o meu pescoço.

Ela não diz nada por um tempo. O quarto cheira a sexo, ao perfume dela e ao couro do sofá, e lá fora, muito longe, a música do clube continua como se nada tivesse acontecido, embora para mim tudo tenha acontecido.

Então ela diz:

—Quatro anos guardando isso?

—Quatro anos e pouco —confirmo.

—Que desperdício —ela diz, e ri—. E agora vamos ter que recuperar o tempo perdido, né?

Eu também rio. Nós duas rimos. E, na fantasia, ficamos assim por um bom tempo, nuas e grudadas no sofá, sem que seja preciso dizer mais nada.

***

O que aconteceu de verdade foi que Camila se sentou ao meu lado, bebeu da minha taça e ficamos conversando até uma da manhã. Sobre o trabalho, sobre uma viagem que ela está planejando para o verão, sobre uma série que nós duas estamos assistindo sem ter contado uma à outra até aquela noite. Eu a levei de carro até o prédio dela. Ela me deu um beijo na bochecha ao descer, como sempre faz desde que nos conhecemos, e desapareceu dentro do edifício.

No táxi de volta para casa, me perguntei se um dia diria alguma coisa a ela. Se chegaria o momento em que o peso de guardar isso seria maior do que o de perder o que temos. Não cheguei a conclusão nenhuma. Nunca chego. Cheguei em casa, me enfiei na cama sem trocar de roupa e me toquei pensando nela, na boca dela, na buceta apertada sob a tanga, e gozei em menos de dois minutos com o rosto enterrado no travesseiro.

Na quarta-feira, combinamos de jantar.

Eu vou. Vou olhá-la como sempre a olho, com esse segredo que só eu conheço. E provavelmente a fantasia vai continuar sendo minha para sempre, se acumulando em silêncio como todas as anteriores.

Mas, quando perguntei se podia voltar na próxima sexta para vê-la se apresentar, Camila riu.

Disse que sim.

E aquele sorriso com a covinha durou um segundo a mais do que o normal.

Ver todos os contos de Lésbicas

Avalie este conto

4(6)

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Entrar ou criar conta

Escolha como quer continuar.