A au pair francesa voltou ao meu escritório
«Vem às cinco. Temos que falar do sábado. Sozinha.» Eu mandei isso pela manhã e, desde então, só pensei em ouvi-la descer a escada.
«Vem às cinco. Temos que falar do sábado. Sozinha.» Eu mandei isso pela manhã e, desde então, só pensei em ouvi-la descer a escada.
Fecho a porta do depósito, troco de roupa e viro outra. Ninguém na minha rua suspeita do que vou fazer nesta noite, e é justamente isso que eu mais gosto.
Sentei na borda do cais sem procurar nada, mas o olhar dele, de homem que sabe o que quer, me desmontou antes de eu dizer uma única palavra.
Sempre brincávamos de ser namoradas na frente de todo mundo, até que o calor, o rio e umas cervejas apagaram a linha entre a brincadeira e o que realmente queríamos.
Eu estava secando as costas quando a porta se abriu de repente. Ela me viu inteiro, pediu desculpas e saiu correndo. Não imaginei que voltaria a encontrá-la ainda naquela manhã.
Ele só tinha feito seu trabalho de médico. Ela entrou sem bater, fechou a porta e lhe disse que aquela noite não vinha falar do filho doente.
Eu o vi entreabrir a porta enquanto eu estava de joelhos. Eu podia ter parado. Em vez disso, pisquei para ele e deixei que continuasse olhando.
Combinamos de nos ver cedo, quando ainda não havia ninguém. O que começou como mais um dos nossos jogos por mensagens terminou virando algo que eu não consegui tirar da cabeça o dia inteiro.
Ela era casada há vinte anos com um homem que rezava antes de cada refeição. Naquela tarde, sob a árvore do parque, confessou de quem realmente sentia falta.
Eu estava sozinha no balcão, entediada e com dois drinques a mais, quando ele se sentou ao meu lado e me olhou como se já soubesse tudo o que íamos fazer naquela noite.
Às três da madrugada ela ainda estava acordada, com a cabeça no meu braço, esperando o momento exato em que eu abrisse os olhos para começar.
Diante do espelho, com os lábios pintados e os saltos calçados, não vi ninguém fantasiado: vi a mulher que sempre quis ser quando me deixo levar.
Cruzei a porta do bar de saltos novos e o coração na garganta. Eu não imaginava que naquela noite alguém do meu passado entraria.
Na primeira tarde, eu ainda nem tinha desfeito a mala e já sabia que ali ninguém desviaria o olhar. E o pior era isso: eu estava começando a gostar.
Ela bateu à porta encharcada pela chuva, sem orgulho e sem nada a oferecer além do próprio corpo. Eles a olharam, se olharam, e ela soube que tudo recomeçava.
Eu sabia que o professor Aníbal me olhava o corpo toda vez que eu me despedia. Naquela tarde, entrei na sala dele disposta a usar aquele olhar a meu favor, custasse o que custasse.
Subiu ao depósito de manutenção sem avisar e me pegou sem camisa. A risada dela, sem vergonha, foi o começo de algo que levei anos para confessar.
O divórcio não me afundou: me devolveu o fôlego. Naquela noite, com o vestido de botões e uma bebida servida, deixei que um desconhecido muito mais jovem me fizesse voltar a me sentir viva.
Estava há cinco anos transando com homens e, de joelhos outra vez, fiz as contas exatas de quantos tinham passado pela minha boca. Naquela noite entendi que algo tinha quebrado.
Havia um único limite que Marisa nunca cruzava, e eu tinha aprendido a respeitá-lo. Até que uma manhã, no café da manhã, me ocorreu um jeito de burlá-lo sem que ela sofresse.