O dia em que deixei de ser Adrián atrás do balcão
Pedi trabalho de garçom num clube à beira da estrada. Três semanas depois, servia copas de tanga, salto alto e um nome novo: Adriana.
Pedi trabalho de garçom num clube à beira da estrada. Três semanas depois, servia copas de tanga, salto alto e um nome novo: Adriana.
Ela caminhava pelo corredor acarpetado com o coração disparado: do outro lado daquela porta a esperava o homem que passara metade da vida imaginando.
Paguei a entrada, procurei a cabine do fundo e achei que seria só um minuto. Então ouvi aquela voz grave perguntando se tinha alguém do outro lado da parede.
Disse que ele tinha esquecido uma camiseta só para tê-lo na minha cama. O que ele descobriu naquela noite não se parecia em nada com a esposa que deixou.
Ela veio pedir a impressora e acabou olhando para a tela com uma pergunta na ponta da língua que mudou tudo entre nós.
Subi para segurar a escada sem imaginar o que encontraria ao levantar o olhar. Naquela tarde, no depósito, aprendi quem mandava de verdade.
Eu disse que tudo seria adiantado. Ele sorriu, transferiu metade e me marcou num apartamento onde ninguém faria perguntas. Eu subi pronta para cobrar cada minuto.
Tínhamos pulado o gradil de uma chácara vazia. Ele marcava meu ritmo com a mão na minha nuca e eu me deixei levar sem pensar em mais nada.
Acordo cedo para ter a academia só para mim. Mas, há três semanas, existe um motivo muito melhor para chegar antes de todo mundo: ele, e aquele sorriso de escândalo.
Aos quarenta e nove anos, eu achava que já tinha visto de tudo, até que aquele desconhecido encharcado tirou a camiseta no meu quintal e eu soube que a tarde não terminaria com jardinagem.
Nunca pensei que me sentir observada por completos desconhecidos me excitasse tanto. Naquela noite, atrás do vidro, descobri o que eu realmente gostava.
Quando abri a porta, esperava encontrá-la sozinha no sofá, como sempre. Não contava com a segunda silhueta que me fitava da penumbra da sala.
Desliguei o motor no canto mais escuro do posto, retoquei os lábios no retrovisor e soube que naquela noite eu não iria embora sozinha.
Você me mandou “tô com fome” e eu soube exatamente o que queria. Não somos um casal, nem você é meu tipo, mas há algo entre nós que ninguém entenderia.
Ela me pegou olhando para ela enquanto folheava um Cortázar. Sustentou o olhar por três segundos, sorriu de lado e eu soube que aquela tarde na livraria não terminaria entre livros.
No escuro, a poucos metros do meu portal, o pau dele brilhava sob o único poste da rua. E eu já sabia que ia baixar a cabeça de novo.
Quando os quatro caras entraram no apartamento às cinco da manhã, eu soube que viveria algo que nunca contei a ninguém.
Não me importou que ele tivesse trinta anos a mais. Com o balanço da estrada, a mão dele encontrou minha cintura na escuridão e eu parei de fingir que aquilo não me agradava.
Cheguei tarde ao jantar, mas não por causa do trânsito. Foi pelo desvio que fizemos até aquele terreno baldio a cinquenta metros do restaurante.
Todas as tardes eu atravessava o jardim para ajudá-lo com as videiras, mas os dois sabíamos que eu ia por outro motivo: pela forma como aquele homem enorme me olhava.