A noite em que perdi a inocência no quartel
Meu pai, o general Arturo Montoya, sempre foi um homem de poucas palavras e muitas ausências. Desde pequena aprendi a ler o silêncio dele: o silêncio de quem chega tarde, o de quem vai embora cedo, o de quem não sabe como dizer à filha que a ama. A disciplina militar havia substituído nele qualquer impulso de ternura.
Meu nome é Lucía e fui, segundo todos, uma menina difícil. Cresci com roupas caras, quarto próprio e a sensação constante de que me faltava algo fundamental. Minha mãe morreu quando eu tinha dezesseis anos. Depois disso, papai e eu deixamos de falar dela, de quase tudo. Vivíamos na mesma casa como estranhos que dividem o banheiro.
O mais curioso de crescer com um pai assim é que acabei desejando exatamente o que ele queria evitar: liberdade, risco, transgressão. Tudo o que ele me proibia se tornava mais tentador. Aos vinte e três anos eu ainda era virgem, não por falta de oportunidades, mas porque nenhuma situação me parecera intensa o bastante. Eu não queria simplesmente transar com alguém. Queria que a primeira vez fosse algo que eu lembrasse para sempre.
Eu não imaginei que seria em uma base militar.
***
Papai estava a três meses da aposentadoria quando finalmente cedeu aos meus pedidos para visitar o quartel. Não sei o que o convenceu, talvez o medo de me perder de vez, o mesmo medo que o perseguia desde aquela discussão quando eu tinha dezesseis anos.
Me vesti com cuidado naquela manhã. Short verde-oliva, tão justo que era quase uma declaração de intenções, e uma regata branca que deixava ver a curva dos meus seios. Papai me olhou ao descer as escadas e apertou os lábios, mas não disse nada. Isso também era novo.
O quartel ficava a quarenta minutos da cidade. Era maior do que eu imaginava: blocos de concreto, pátios de cascalho, homens marchando em formação sob o sol de janeiro. Ao entrar, senti todos os olhares pousarem sobre mim como uma temperatura diferente na pele. Alguns cadetes quase tropeçaram tentando não virar a cabeça.
O general caminhava dois passos à frente, como sempre, apresentando-me a outros oficiais com aquela formalidade que tinha para tudo. Eu sorria, respondia o que cabia, e observava.
Havia algo nos soldados jovens que me parecia hipnótico. Não eram só os corpos, que eram muitos, mas a maneira como se moviam: com uma segurança física que não tinha nada a ver com arrogância, e sim com treinamento. Com o hábito do esforço.
Quando papai entrou em uma reunião e me disse para esperar no pátio, decidi não esperar.
***
Vi a placa de «Zona restrita — Somente pessoal autorizado» e a li duas vezes. Depois atravessei.
Não tinha um plano claro. Tinha curiosidade e as pernas me levando na direção do proibido, como sempre. O setor era um corredor longo entre dois blocos, quase em silêncio àquela hora. Uma porta entreaberta ao fundo deixava escapar o cheiro de desinfetante e metal: vestiários.
Entrei.
Era um espaço amplo, com fileiras de armários metálicos pintados de verde, bancos de madeira no centro e chuveiros ao fundo com divisórias de plástico translúcido. Estava vazio. Fiquei olhando os armários como se esperasse encontrar algo, sem saber bem o quê.
Então ouvi passos no corredor.
Dois pares. Rápidos, com o peso característico das botas militares. Me movi sem pensar e me escondi atrás de uma coluna de armários ao fundo. Ridículo, eu sei. Eu estava em área restrita, vestida como se fosse à praia, escondida como uma criança.
Entraram dois soldados. Jovens, os dois. O mais alto era moreno, com os ombros largos e uma mandíbula quadrada que projetava uma sombra breve no pescoço. O outro era mais magro, mas igualmente forte, com o cabelo curto e uma pequena cicatriz sobre a sobrancelha direita.
Pararam de repente ao me ver.
—Olha isso —disse o alto, sem se dirigir a mim ainda.
O outro não respondeu. Os dois me olhavam com uma expressão meio surpresa, meio algo que eu reconheci sem conseguir nomear com precisão.
—Sou a filha do general Montoya —disse. Quis que soasse como autoridade. Soou exatamente o contrário.
O alto se aproximou devagar. Não correu, não me contornou. Caminhou na minha direção com a calma de quem não tem pressa nenhuma.
—O que a filha do general está fazendo nos vestiários a esta hora? —perguntou, com uma voz grave sem ser ameaçadora.
Não respondi.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando alguma coisa.
—Como você se chama?
—Lucía.
—Lucía —repetiu, como provando o som. Depois olhou para o outro—. Rodrigo, fecha a porta.
O da cicatriz se moveu sem dizer nada. Ouvi o clique da tranca.
O coração batia na garganta. Eu tinha medo, sim. Mas também tinha aquela outra coisa que nem sempre se consegue nomear: antecipação. O tipo de excitação que só existe quando algo está prestes a acontecer e você não pode controlar. Mais de uma vez eu tinha me imaginado em uma situação assim, presa com dois desconhecidos que me olhavam exatamente daquela maneira.
—Não quero arrumar problema —disse.
—Nós também não —respondeu o alto. Ele havia parado a menos de um metro. Eu podia sentir o cheiro do sabonete dele, algo neutro e limpo. Os olhos não se afastavam dos meus—. O que você estava procurando aqui?
Não soube responder. Ele soube.
Levantou uma mão devagar e roçou minha bochecha com os nós dos dedos, um gesto estranhamente delicado para a situação. Eu não me mexi.
—Relaxa —disse—. Ninguém vai fazer nada com você que você não queira.
***
Rodrigo se aproximou por trás. Senti antes de vê-lo: o calor, a proximidade da respiração. As mãos dele tocaram meus ombros com cuidado, quase como uma pergunta. Eu não protestei.
O alto se chamava Héctor. Ele me disse isso enquanto acariciava meu cabelo, afastando-o do meu rosto. Tinham tempo, explicou. Papai ficaria na reunião por pelo menos uma hora.
O que se seguiu foi lento no começo. Mais lento do que eu esperava.
Héctor começou pelo pescoço, com os lábios de leve, quase sem pressão. Rodrigo tirou minha regata por cima da cabeça e eu deixei, com as mãos erguidas como se estivesse me rendendo. De certo modo, eu estava. E era exatamente o que eu queria.
Nunca ninguém tinha me olhado daquele jeito. Com atenção total, sem pressa, como se eu fosse a única coisa importante naquele quartel e naquela cidade. Isso me fez sentir poderosa de uma maneira que eu não tinha antecipado.
—É a primeira vez? —perguntou Héctor, com a boca perto do meu ouvido.
—É —disse.
Houve um breve silêncio.
—Então vamos devagar —respondeu, e não era uma promessa vazia.
Me levaram até um dos bancos de madeira. Sentei e eles se ajoelharam na minha frente, os dois, o que de repente me pareceu quase cômico e ao mesmo tempo completamente sério. Rodrigo tirou minhas sandálias. Héctor abriu o zíper do short com os dedos, devagar, olhando no meu rosto o tempo todo para ver se eu interrompia alguma coisa.
Não interrompi nada.
Quando fiquei de calcinha, Rodrigo passou os dedos pela renda e lançou um olhar de soslaio para Héctor. Héctor assentiu como se houvesse uma pergunta implícita entre os dois que eu não podia ouvir.
—Você é perfeita —disse Rodrigo. Era a primeira vez que ele falava. Tinha uma voz mais suave do que eu esperava.
Não soube o que fazer com aquele comentário, então me concentrei no que as mãos deles faziam.
***
Me tomaram o tempo deles. Muito mais do que eu teria imaginado possível naquela situação.
Héctor me beijou da boca até o peito, descendo pela linha do pescoço, a clavícula, o centro dos seios que já estavam duros pela expectativa. Os lábios dele não eram delicados no sentido romântico; eram firmes, precisos, como se soubesse exatamente onde me tocar para me fazer tremer. Rodrigo, atrás de mim, abriu meu sutiã e o deixou cair para o lado sem cerimônia. Eu inspirei fundo quando o ar frio roçou minhas tetas e os mamilos endureceram de repente.
—Olha como você ficou —murmurou Rodrigo, com a boca quase colada no meu ouvido.
Eu não respondi. Estava toda arrepiada.
Héctor envolveu um dos meus seios com a mão e o apertou devagar, testando o peso, enquanto com a outra deslizava minha saia para baixo. Não havia nada de elegante na maneira como me despiram; havia fome contida, paciência e uma espécie de disciplina suja que me enlouquecia. Quando o tecido caiu no chão, fiquei só de calcinha, e os dois me olharam como se já soubessem o tamanho exato da minha excitação.
Rodrigo me beijou na boca pela primeira vez então. Não foi um beijo terno: foi um beijo de língua, úmido, longo, profundo. Ele segurou meu rosto com uma mão e com a outra me prendeu pela cintura para me puxar até sentir o volume duro da ereção contra meu ventre. Era grande, inegável, e essa certeza me arrancou um gemido breve que ele engoliu com outro beijo.
Héctor baixou minha calcinha com dois dedos, primeiro de um lado e depois do outro, devagar, como se desenrolasse um curativo. Quando o tecido deslizou pelas minhas coxas, o ar do vestiário lambeu minha buceta já encharcada. Deu vergonha me sentir tão molhada e, ao mesmo tempo, essa vergonha me fez arder ainda mais.
—Tá toda molhada —disse Héctor, com um sorriso mínimo.
Rodrigo se ajoelhou entre minhas pernas e abriu minhas coxas com as mãos, sem brusquidão. Vê-lo ali, tão perto da minha sexo exposto, me fez apertar os dedos no banco. Ele me olhou uma vez, esperando permissão. Eu apenas ergui um pouco o quadril na direção dele como resposta.
Então ele começou a me chupar.
A primeira passada de língua foi lenta, direta, úmida, e me arrancou um suspiro que me surpreendeu. Ele estava tocando minha vulva com uma concentração obscena, separando os lábios com a boca, lambendo de baixo até o clitóris, voltando a descer para me recolher por inteiro. A língua dele era quente e firme; sabia exatamente onde insistir para me fazer perder a cabeça. Héctor me segurava pela nuca por trás, obrigando-me a manter o tronco ereto enquanto Rodrigo me comia sem vergonha, com o rosto colado na minha buceta como se aquilo fosse a única coisa importante no mundo.
—Assim, putinha —disse Héctor, e mordeu suavemente o lóbulo da minha orelha—. Deixa fazerem com você.
Eu estava tremendo. Meus quadris queriam se mover sozinhos, empurrar-se contra a boca de Rodrigo, pedir mais. Ele enfiou um dedo dentro de mim sem parar de me lamber, primeiro um e depois dois, me abrindo com paciência enquanto o polegar pressionava meu clitóris. Senti como ele me esticava por dentro, como o corpo começava a responder com uma precisão brutal, cada investida dos dedos roçando o ponto exato que me fazia arquear.
—Você gosta, não gosta? —perguntou Rodrigo com a voz abafada entre minhas coxas.
—Sim —disse, quase sem voz.
Héctor soltou uma risada baixa, satisfeita. Pegou um seio com força suficiente para doer só um pouco e o apertou enquanto me beijava o pescoço outra vez. O contraste entre a pressão dos dedos dele, a boca de Rodrigo e o calor do corpo atrás de mim me deixou completamente tomada. Comecei a mover a pélvis contra a mão dele, já sem pudor, já sem nada a esconder.
Cheguei à beira várias vezes antes que qualquer um dos dois se movesse para tirar a roupa. Quando o fizeram, foi sem pressa e sem exibicionismo. Simplesmente a roupa deixou de estar ali.
Me puseram de joelhos sobre o banco. Héctor na frente, Rodrigo atrás. Eles me explicaram como ia funcionar, com palavras curtas e diretas, como se fosse uma instrução tática. Em outro contexto, teria me parecido estranho. Naquele, foi exatamente o que eu precisava.
—Se quiser que a gente pare, você diz para —disse Héctor—. A qualquer momento.
Assenti.
—Tem certeza?
—Tenho —disse.
Héctor se posicionou entre minhas pernas, alinhando a cabeça do pau contra minha entrada. Eu o senti grande mesmo antes de entrar, quente, duro, insistente. Rodrigo atrás de mim abriu meus quadris com as duas mãos e me segurou firme, como se preparasse um disparo. Quando Héctor empurrou, a primeira dor foi aguda e clara, um puxão de dentro que me arrancou o ar dos pulmões. Fiquei imóvel, mordendo a língua, sentindo como ele me abria devagar, centímetro a centímetro, enquanto não tirava os olhos do meu rosto.
—Isso —murmurou—. Respira.
Ele entrou mais um pouco. Depois mais outro. A dor continuava ali, lancinante, mas por baixo surgiu uma pressão nova, uma plenitude brutal que me fazia me sentir invadida e, estranhamente, completa. Rodrigo me beijou entre as escápulas e foi falando no meu ouvido, uma sequência de ordens baixas para que eu não me tensionasse. Héctor parou mais uma vez quando sentiu meu corpo se fechar, esperando até eu assentir de novo.
Depois disso, o tempo funcionou de outro jeito.
***
Não sei quanto durou. Lembro de fragmentos: a luz branca do tubo fluorescente, o som distante de uma formação lá fora, o cheiro de suor limpo misturado com o desinfetante dos vestiários. Lembro das costas de Héctor sob minhas mãos, os músculos se movendo como cabos tensionados. Lembro de pensar, em algum momento, que nunca tinha estado tão presente no próprio corpo.
Héctor começou a se mover dentro de mim com uma cadência lenta no início, medindo a profundidade de cada investida, e depois mais forte, mais seca, mais rítmica. Cada golpe da pélvis dele contra a minha fazia minhas pernas estremecerem. Rodrigo, atrás, colou o pau na minha bunda e começou a se esfregar contra mim, duro como pedra, as mãos cravadas nos meus quadris para me fazer acompanhar o ritmo. Eu estava presa entre os dois, atravessada pela pica de um e pela pressão faminta do outro, completamente aberta, completamente tomada.
—Olha como você está engolindo ela —disse Rodrigo, respirando pesado contra minha nuca—. Olha como você está fazendo ela gemer, Héctor.
—Ela nasceu pra isso —respondeu Héctor, e apertou meus peitos com as duas mãos enquanto continuava entrando e saindo de mim, cada vez mais úmido o som dos nossos corpos se chocando.
Eu gemia sem conseguir evitar. O banco se movia sob meus joelhos; as botas deles raspavam o chão de cimento a cada impulsão. Héctor segurou meu queixo para me obrigar a olhá-lo enquanto me comia, e essa violência mínima me deixou ainda mais desarmada. Rodrigo enfiou dois dedos na minha boca e eu os chupei por reflexo, sabendo que estava recebendo meu próprio gosto misturado com o dele quando depois ele me beijou.
Então Héctor mudou o ângulo da entrada, mergulhando mais fundo, e o golpe exato contra um ponto dentro de mim abriu de repente um grito que já não consegui conter. Gozei quase sem perceber, o orgasmo subindo do ventre em uma onda feroz que me deixou tremendo da cabeça aos pés. Senti toda a buceta se contrair ao redor da pica dele, a umidade escorrendo sem eu conseguir impedir, o corpo inteiro pulsando em espasmos curtos e desordenados.
—Isso, Lucía —disse Héctor, com a voz quebrada pelo esforço—. Assim, assim.
Rodrigo continuou se movendo contra mim, sem me deixar sair por completo do tremor. Héctor me segurou pelos quadris enquanto terminava com investidas mais curtas e profundas, respirando forte, até o corpo inteiro se tensionar e ficar imóvel dentro de mim. Senti o calor da porra dele me enchendo por dentro, espessa, pulsante, o jato de sêmen ficando no meu sexo enquanto ele gemia bem baixo, cerrando os dentes para não fazer mais barulho do que o necessário.
Depois, Rodrigo me virou um pouco, o suficiente para me colar a ele e afundar meu rosto no pescoço dele. Ele não me deixou cair. O pau dele, duro e tenso, continuava pressionando minha bunda como uma ameaça deliciosa. Me beijou outra vez, com força, saliva e respiração entrecortada, e senti a mão dele descer entre minhas pernas para me tocar ainda molhada, recolhendo o que tinha sobrado de mim e de Héctor num gesto obsceno que me fez estremecer de novo.
Gozei quase sem perceber, como se estivesse subindo uma ladeira sem ver o topo e, de repente, já estivesse do outro lado. Mordi o lábio para não fazer barulho. Rodrigo passou a mão no meu cabelo para trás e isso foi suficiente para que tudo desabasse junto.
Quando terminou, nós três ficamos um tempo imóveis. Sem falar. Rodrigo foi buscar uma toalha no armário dele. Héctor se sentou ao meu lado no banco e passou o braço pelos meus ombros, sem dizer nada.
Foi o gesto mais simples do mundo e foi o que eu mais gostei de toda a tarde.
***
Me vesti sozinha. Eles também.
—Ninguém precisa saber de nada —disse Héctor, me olhando enquanto abotoava a camisa.
—Eu sei —respondi.
—Você está bem?
Pensei um segundo, de verdade.
—Sim —disse—. Estou muito bem.
Rodrigo abriu a porta do vestiário e enfiou a cabeça para verificar se o corredor estava vazio. Fez um sinal com a cabeça para mim. Saí primeiro.
Voltei ao pátio antes que papai terminasse a reunião. Sentei em um banco à sombra de uma árvore e peguei o celular, embora não o tenha olhado. Eu observava o quartel, os pátios de cascalho, os blocos de concreto, os soldados que cruzavam em grupos com seus uniformes.
Eu me sentia diferente. Não transformada nem marcada para sempre como nos filmes. Só diferente. Como quando você termina de ler um livro que muda algo pequeno, mas permanente, na maneira como vê o mundo.
Papai saiu vinte minutos depois com o uniforme impecável e aquela cara de sempre. Me olhou de cima a baixo, procurando alguma coisa fora do lugar.
—Como foi? —perguntou.
—Bem —disse—. Muito bem, papai.
Ele assentiu e começou a caminhar em direção à saída. Eu o segui, dois passos atrás, como sempre.
Mas naquela tarde, enquanto o carro se afastava do quartel pela estrada de cascalho, pela primeira vez em muito tempo eu me senti em paz com alguma coisa. Não sabia bem com o quê. Talvez só comigo mesma.