Encerrados com minha mãe, deixamos de fingir
Marisol e Adrián continuavam deitados na mesma cama estreita, um ao lado do outro. As paredes brancas não tinham mudado, nem a luz constante do teto, nem o silêncio sem horas daquele lugar que seus captores usavam como laboratório. Nada lá fora era diferente. O diferente estava dentro deles.
Já não havia aquele espaço prudente entre seus corpos. Adrián, com seus vinte e três anos e uma calma que ele mesmo desconhecia, passou a mão aberta pela cintura dela e a deixou repousar ali, sentindo o calor da pele. Marisol não se afastou. Pelo contrário, acomodou-se contra ele entre beijos lentos e exploratórios, daqueles dados por quem tem tempo de sobra e nada a perder.
—Teus olhos —murmurou ele contra a bochecha dela—. Nunca tinha visto eles tão claros. Como o mar ao meio-dia.
Ela riu baixinho, um som suave que ficou vibrando na garganta.
—É porque estou com você —sussurrou, e levou a mão dele aos lábios para beijar seus nós dos dedos.
É perfeito demais, pensou Adrián, e a dúvida voltou como uma sombra fria.
—E se tudo isso não for real? —disse em voz alta—. E se estiverem colocando lembranças falsas na nossa cabeça, brincando com a gente?
Marisol afastou da testa dele uma mecha de cabelo úmido. Seu olhar se tornou sério, quase doloroso de tão honesto.
—Eu também penso nisso a cada segundo —admitiu—. E se fosse um sonho, seria a coisa mais cruel do universo. Mas eu juro que prefiro isso a qualquer verdade que exista lá fora.
Para ele, aquelas palavras bastaram. Deixou de olhá-la como a uma mãe. Olhou-a como a uma mulher: a curva larga de seus quadris, seus peitos pesados de mamilos escuros e largos, a pele pálida sob aquela luz estranha, o pelo negro e espesso entre suas coxas grossas. Uma fêmea que o desejava, e que estava disposta a dizê-lo sem culpa.
Ela sentiu o peso daquele olhar e, pela primeira vez, gostou de ser olhada assim. De serem observados. Que o mundo inteiro desmoronasse lá fora. Aqui, naquela cama, só existiam os dois.
Adrián a beijou outra vez. Não foi um beijo assustado nem desesperado. Foi um beijo que reivindicava, que abria caminho. As línguas se procuraram, se enroscaram, saíram e entraram de uma boca à outra num ritmo úmido que dizia mais do que qualquer promessa. Ele chupou o lábio inferior dela, mordeu-o de leve, e sentiu como ela arfava dentro da boca dele. Enquanto se beijavam, ela sentiu o pau duro contra o ventre, insistente, a pica marcando sua pele como um ferro em brasa, marcando o compasso do que vinha.
Marisol decidiu tomar a iniciativa. Rompeu o beijo devagar, com os olhos escurecidos de desejo, e desceu a mão pelo abdômen tenso do filho até fechá-la em torno da vara dele. Envolveu-a com firmeza, sem a timidez de antes, e começou a masturbá-lo da base à ponta, devagar, deliberadamente, sentindo cada veia inchada sob a palma. Com o polegar espalhou a gota que já surgia na glande e a usou como lubrificante para deslizar melhor o punho para cima e para baixo. Adrián fechou os olhos e se entregou àquelas mãos que o conheciam desde que tinha memória e que agora o descobriam de outro jeito, tocando-o onde ninguém deveria tocar.
—Como você cresceu, meu amor —murmurou ela com a voz rouca, apertando a base—. Olha como pulsa.
Adrián soltou um gemido e arqueou os quadris, empurrando a pica contra o punho da mãe. Ela continuou, agora mais rápido, e com a outra mão acariciou os ovos dele, pesando-os, puxando de leve a pele.
***
Uma ideia foi tomando forma nela, selvagem e total. Se isso é o fim, então que tenha tudo. Todas as experiências. Sou a mãe dele, sim, mas também sou a única porta que ainda lhe resta para o prazer. Vou abrir todas elas para ele.
Parou a mão. Adrián abriu os olhos com uma pergunta no olhar.
—Há tantas coisas que quero que você sinta —disse ela, a voz áspera—. Antes que… você sabe.
Ele não respondeu com palavras. Enlaçou a nuca dela e a puxou para outro beijo. Quando se separaram, ofegantes, disse-lhe ao ouvido:
—Com você, tudo. Sem limites. Você é o único universo que me importa agora.
Aquilo foi toda a permissão de que ela precisava. Marisol se moveu com uma graça que a surpreendeu até a si mesma, virou o corpo e se acomodou de joelhos sobre ele, mas ao contrário, um sessenta e nove improvisado, sua bunda larga e sua xana aberta bem sobre o rosto do filho. Inclinou-se para a frente até encontrar de novo a pica de Adrián com a boca. Passou a língua por todo o comprimento, dos ovos à ponta, uma lambida lenta e gulosa, e depois a enfiou inteira até a garganta, engolindo-a de uma só vez.
Ele não podia acreditar. A poucos centímetros tinha o mais proibido do mundo, real, vivo, oferecido. O pelo negro e encaracolado, o aroma denso de xana molhada e pele, os lábios carnudos que se entreabriam brilhantes, o clitóris aparecendo entre as dobras como uma pérola rosada. Era de onde tinha vindo ao mundo, e agora lhe era oferecido não para nascer, mas para se perder.
Não precisou de instruções. Agarrou os quadris dela com as duas mãos, cravou os dedos nas nádegas e mergulhou com a língua entre os lábios da mãe, sem medo, sem vergonha, como um animal sedento que encontra um oásis. A língua achatada percorria cada vinco, entrava fundo no buraco, saía e voltava a entrar, saboreava aquele sal espesso que era o gosto da mãe no cio. Era um explorador com pressa de conquistar cada centímetro de um território novo. Abriu os lábios dela com os polegares e enfiou o rosto até o nariz ficar colado na bunda e a boca engolir inteira aquela xana ensopada.
Marisol soltou uma gargalhada sufocada, mistura de surpresa e deleite indecente. Sentia a boca do filho voraz, inexperiente, porém faminta, e isso a acendia até o delírio. Ao mesmo tempo, ela o tomou até o fundo, marcando um ritmo profundo, o pau batendo no seu palato, enquanto a mão livre massageava os ovos dele com uma perícia que ele jamais teria imaginado nela. Tirava a pica inteira, via-a brilhar de saliva, cuspia sobre a glande e voltava a engoli-la até a base, engasgos e tudo, sem parar de chupá-la como se a vida dependesse disso.
Eles estavam encaixados um no outro, um circuito fechado de prazer. Cada gemido dela vibrava contra a pica dele e lhe mandava arrepios até a nuca. Cada movimento da língua dele a fazia se contrair e apertá-lo mais entre as coxas, afogando-o na própria carne. Alimentavam-se mutuamente.
***
Adrián, levado pela curiosidade, percorreu o máximo que pôde com a língua até tropeçar em algo diferente: um ponto pequeno, firme, mais sensível que o resto. Lambê-lo quase por acidente e Marisol soltou um gemido gutural, um som que vinha de muito fundo e que saiu com o pau ainda dentro da boca. A vibração da garganta dela viajou direto até ele.
Aquele era o ponto. A chave. O clitóris da mãe dele. E ele, com a ferocidade de quem acaba de descobrir um segredo, se dedicou não só a lambê-lo, mas a chupá-lo inteiro, envolvendo-o com os lábios, sugando-o uma e outra vez, fazendo círculos com a ponta da língua e voltando a chupá-lo com fome, buscando arrancar dela aquele som de novo. Cravou as unhas na bunda dela para mantê-la contra a boca, comeu-a sem descanso, alternando a sucção com lambidas longas que iam do clitóris ao buraco.
Foi demais para ela. O corpo se tencionou como um arco e um espasmo doce e violento a percorreu dos pés à cabeça. Teve que soltar a pica dele para poder gritar, um grito abafado contra o ventre dele, a baba e o gozo premonitório escorrendo pelo queixo. Os quadris se mexeram sozinhos, esfregando-se contra o rosto do filho, besuntando-o inteiro, buscando mais daquela sensação que a desmanchava e a refazia ao mesmo tempo. O jato quente de seus sucos encharcou-lhe o queixo. As pernas tremeram e afrouxaram dos lados da cabeça dele, que ficou preso embaixo, respirando o prazer dela, sufocando no cheiro de fêmea arrebentada.
Adrián não parou. Seguiu, teimoso, naquele botão agora inchado e ultrassensível, chupando-o com a ferocidade de um bezerro recém-nascido. Mal passou a primeira onda e veio uma segunda, depois uma terceira, uma cadeia que a deixou sem forças, reduzida a um tremor e a um gemido contínuo. Agarrou a pica do filho como a uma boia e voltou a enfiá-la até o fundo da garganta; aquela sucção desesperada, úmida, suja, foi o que o levou ao ponto sem retorno.
Seu corpo arqueou. Convulsões sacudiram suas pernas e seu ventre, os ovos se contraíram duros como pedras, e ele gozou na boca da mãe com uma descarga selvagem, incontida. O primeiro jato bateu na garganta dela, o segundo encheu seu palato, e vieram mais quatro ou cinco, espessos, quentes, até a boca dela transbordar. Marisol o recebeu com uma entrega quase reverente. Contou os espasmos mentalmente, um atrás do outro, até não restar nada. Engoliu tudo devagar, saboreando o gozo do filho, sentindo-o descer denso pela garganta, e não se afastou: continuou chupando com suavidade as últimas gotas de sêmen, pequenos tesouros que não queria desperdiçar, passando a língua pela glande inchada até deixá-la limpa e brilhante.
***
Depois de um tempo suspenso no tempo, ela rolou e ficou deitada ao lado dele, os pés perto da cabeça dele, os dois olhando o teto branco, o peito subindo e descendo no mesmo compasso. O ar cheirava a suor, a xana, a sêmen, e a algo selvagem e novo.
—Isso… isso foi incrível, mãe —disse Adrián, a voz rouca e satisfeita, ainda com o gosto dela colado aos lábios.
Marisol virou a cabeça e riu, livre, sem culpa, com os lábios inchados e brilhantes.
—E você aprende rápido —disse, os olhos brilhando de malícia—. Aquele pontinho… você pegou o jeito na hora. Chupou como se fizesse isso há anos.
Ele se surpreendeu por um segundo. A crueza da frase o sacudiu. Mas então entendeu: haviam cruzado um limiar, e do outro lado as regras eram outras. Já não eram mãe e filho no sentido de sempre. Eram cúmplices. Amantes encerrados na mesma jaula. E decidiu abraçá-lo com toda a força.
—Vou fazer isso todos os dias —prometeu—, se for o que você gosta. Vou comer sua xana até você não ter mais forças para gritar.
A risada dela foi mais funda desta vez. A simples imagem do filho entre suas pernas toda manhã, com a boca colada em sua xana, fez com que se estremecesse. E a ele, a ideia de ter esse acesso diário ao centro do prazer dela devolveu a rigidez com um pulsar promissor. A pica voltou a crescer sobre o ventre, marcada de saliva e gozo seco.
—Fico feliz que tenha aceitado fazer algo «especial» —sussurrou ela, prolongando a última palavra como um segredo sujo—. Porque minha cabeça está cheia de ideias. Coisas que uma mãe decente nem deveria imaginar. Coisas de puta.
—Sempre quis fazer coisas especiais com você —respondeu ele, e agora aquela palavra soava diferente, mais densa—. Mas agora estou com vontade de algo mais.
E antes que ela pudesse prever sua rapidez, Adrián se atirou. Não foi desajeitado: foi rápido, deliberado, como um felino que muda de posição. Ficou sobre ela, os joelhos de ambos os lados da cabeça dela, as costas arqueadas, a pica pendendo dura e gotejante sobre a boca dela. Desta vez não era ela quem oferecia. Era ele quem tomava. Roçou os lábios dela com a glande, passou-a pela bochecha dela, traçou uma linha brilhante da comissura até o queixo.
***
Meu garoto está quente como um filhote que quer tudo o que vê, pensou Marisol, e a imagem a fez soltar uma risada sufocada. Abriu a boca escancarada, a língua de fora, um convite silencioso que ele aceitou de imediato, enquanto descia os quadris e enfiava a pica inteira até o fundo da garganta. Ela sentiu a glande bater em sua úvula e lágrimas se juntaram em seus olhos, mas não fechou a boca. Pelo contrário, pôs mais a língua para fora para lhe lamber os ovos enquanto ele metia a pica na sua boca. Adrián, por sua vez, baixou a cabeça e voltou a mergulhar nela, a língua outra vez sobre o clitóris inchado, e ela gemeu de imediato, o som abafado pela carne que a preenchia.
Adrián começou a se mover, entrando e saindo da boca dela por instinto, fodendo-a com estocadas curtas e rítmicas, um programa antigo que o guiava sem que ninguém tivesse ensinado. A saliva dela escorria pelos ovos, gotas espessas que caíam sobre o peito de Marisol. Cada vez que tirava a pica, ela brilhava, envolta numa camada grossa de baba, e ele voltava a afundá-la até o fundo, ouvindo o ruído úmido da garganta da mãe estrangulando-o. E nela um pensamento perverso e lindo ao mesmo tempo a atingiu: esse menino está fodendo a boca da própria mãe. Esse menino saiu por onde agora eu como sua xana e me mete a pica até a garganta.
A contradição —o homem que agora a dominava era o mesmo que anos atrás se enfiava em sua cama por medo das tempestades— deu a ela um prazer tão fundo que se cravou nos ossos. Misturou-se ao ritmo feroz da língua dele chupando o clitóris e explodiu de novo, um orgasmo súbito que a sacudiu inteira sob o corpo dele. As coxas apertaram a cabeça de Adrián como um alicate e um jato quente encharcou-lhe o queixo e o pescoço.
Mas no meio da entrega faltou-lhe o ar. Adrián, perdido no próprio frenesi, havia deixado cair todo o peso e lhe obstruía a respiração com os ovos esmagados contra o nariz e a pica cravada na garganta. O instinto de sobrevivência falou mais alto que o desejo: com um gesto firme ela o conteve, empurrando seus quadris com as duas mãos, e ele se ergueu de súbito. A pica saiu da boca dela com um ploc obsceno, um fio de baba ainda conectando-a aos lábios dela.
—Você estava me sufocando —disse ela, tossindo, recuperando o fôlego, a voz ao mesmo tempo irritada e divertida, a saliva escorrendo pelo queixo—. Quase me enfiou isso nos pulmões, animal.
O rosto de Adrián se tingiu de vermelho. De repente ele voltava a ser um menino repreendido, sentado sobre o peito da mãe com a pica duríssima apontando para o rosto dela.
—Desculpa, mãe… —murmurou, sem saber para onde olhar.
Marisol suavizou o tom. Não queria quebrar o feitiço, apenas pôr as regras.
—Você tem que me tratar bem —disse, acariciando a coxa dele, deslizando depois a mão para envolver de novo a vara dele e voltar a masturbá-lo devagar—. Devagar, sem me sufocar. Mete até onde eu deixar. Continuamos?
Ele assentiu, arrependido e ansioso ao mesmo tempo, a pica latejando na mão dela. Ela sorriu com paciência de professora. Vou ter que educá-lo, pensou, para que não me quebre em dois. E com essa ideia, que era aviso e promessa, voltou a recebê-lo, a boca aberta, a língua bem para fora, mas desta vez apoiou uma mão firme sobre o quadril dele: um limite físico, uma lição silenciosa. Ela o deixava entrar só até certo ponto, marcando com os dedos o fundo permitido. O prazer, sim, mas sob seus termos.
***
Adrián continuou, agora mais moderado, cada investida profunda porém controlada, seguindo o ritmo que ela lhe marcava com a mão no quadril. Tinha aprendido. Fodia-lhe a boca devagar, dando a ela tempo para respirar entre uma investida e outra, e ela o recompensava envolvendo a glande com a língua, chupando a ponta como um doce toda vez que ele saía. Quando o sentiu no limite, um rosnado baixo lhe subiu do peito, o som de um homem que já não consegue se conter, os ovos apertados contra o queixo da mãe, e ele gozou pela segunda vez. Ela engoliu o que pôde, mas o segundo jato escapou e desenhou uma linha branca pelo pescoço dela. Caiu rendido sobre ela, um peso morno e suado, até que todo o corpo relaxou.
Ele virou a cabeça e seu olhar voltou a encontrar a xana da mãe, ainda aberta e úmida sob a luz pálida, os lábios inchados, o clitóris aparecendo entre a carne rosa. As palavras saíram quebradas.
—Eu te amo. Não quero me separar de você nunca.
—Eu também não, meu bem —respondeu ela, com uma ternura que doía, enquanto limpava com o dorso da mão o sêmen do queixo e o levava à boca—. Quero passar com você o que me restar.
Uma fisgada de ironia gelada a atravessou. O que me restar. Talvez nunca saíssem dali. Talvez aquelas quatro paredes fossem o mundo inteiro deles. A ideia era apavorante e, ao mesmo tempo, estranhamente tranquilizadora. Dormiram assim, enredados, com o cheiro de sexo preso à pele, sem saber se se passaram minutos ou horas, porque ali não havia sol nem noite, só a luz impassível do teto.
***
Foram acordados por uma voz que não ressoou no quarto, mas se implantou direta na mente deles, um prego de gelo na quentura que haviam construído. Era fria, sem gênero. Seus captores voltavam a observá-los.
—«Ilustrativo» —repetiu Marisol, indignada, cobrindo os peitos com um gesto tardio de pudor—. O que tem de ilustrativo nisso? Não basta nos manterem trancados? Agora também ficam nos espionando quando…? —Não conseguiu terminar. As palavras que queria dizer lhe pareceram demasiado suas para serem profanadas diante daquele observador.
Adrián a abraçou, puxando o corpo nu contra o dela, uma couraça de pele e calor contra a invasão fria. Não estamos sozinhos. Estamos juntos. O medo dela começou a se dissolver, substituído por raiva quente e uma estranha solidariedade.
—O que queriam que fizéssemos? —sussurrou ele ao ouvido dela—. Rezar? Se vamos morrer do mesmo jeito, prefiro morrer fodendo você.
A lógica era tão brutal e tão simples que ela sorriu, torta, amarga, mas sorriu. Ele tinha razão. E então Adrián falou à voz, com uma calma que surpreendia:
—Já entendi. Não vamos sair daqui. Somos ratos num laboratório. Pra quê prolongar a farsa?
A segunda voz que irrompeu era mais aguda, mais cortante, como a de um técnico zombando de um usuário. Perguntou-lhes por que os humanos viviam presos ao que os outros iam dizer, ao medo, à culpa. Por que chamavam de ruim quem quebra uma regra mesmo sem fazer mal a ninguém. Marisol tentou defender o mundo que conhecia —os marginalizados, os estranhos, os apontados—, mas a voz lançou uma pergunta que a deixou sem ar:
—«Mas são menos felizes?»
Ela ficou de boca aberta. Sabia que aqueles seres podiam ler sua mente; não ousava mentir. Eram menos felizes? Ela, em seu pequeno apartamento, com seu emprego estável e suas contas a pagar, havia sido feliz alguma vez como nestas últimas horas, com a boca do filho entre as pernas e o sêmen descendo por sua garganta? Não soube responder. Simplesmente se calou. E, assim como chegaram, as vozes se foram.
***
—Não vão embora —pediu Adrián—. Estamos com sede há horas. Se não bebermos, vamos morrer. Queremos água, por favor.
A voz voltou, curiosa e sem uma gota de empatia, e perguntou o que era água.
—H2O —respondeu ele, com um lampejo da inteligência que sempre o distinguiu—. Essa é a fórmula.
A presença se desfez e, poucos segundos depois, voltou com dois tubos de cristal cheios de um líquido incolor. Ambos se ergueram e beberam, mais por desespero do que por outra coisa. Não tinha gosto de nada, nem mesmo do metálico da água engarrafada. Era só úmido, frio. Mas bastou para acalmar a ardência das gargantas.
Quando devolveram os recipientes, as duas presenças desapareceram sem mais nenhuma palavra. A ausência foi mais avassaladora do que a chegada, como se o universo inteiro tivesse prendido a respiração e então a soltado, deixando-os sozinhos e nus no centro do nada.
O silêncio voltou a preencher o espaço branco, mas soava diferente. Adrián estendeu o braço e a puxou para junto de si. Marisol se encaixou contra o corpo dele como se sempre tivesse pertencido ali, a bochecha contra o peito morno, o batimento dele a ancorando na realidade.
—Acho que nunca sairemos daqui —disse ela, num fio de voz—. E tudo isso é culpa minha. Foi minha ideia fazer essa viagem. Se tivéssemos ficado em casa…
Rompeu em choro, uma convulsão de dor que a sacudiu até que ele precisou apertá-la com força para que não se desmanchasse nos braços dele.
—Meu amor —disse ele ao ouvido dela, firme—. Se nos deram água, é porque ainda querem a gente vivo. Ninguém te mata de sede para depois trazer água. Se acalma.
Ela o interrompeu com um rancor antigo:
—Se não fosse o animal do teu pai, tudo ainda estaria bem.
Adrián se afastou só o suficiente para olhá-la nos olhos, que tinham ficado cinza como o céu antes da tempestade.
—Você realmente acha que antes estávamos bem? —perguntou, sem reproche, quase dissecando-a—. Há pouco você me disse que foi a maior experiência da sua vida. Qual é a verdade, mãe?
A pergunta a deixou sem fôlego. Ele tinha razão.
—Eu estava falando do teu futuro —respondeu ela por fim, a voz áspera—. Você tem uma vida inteira pela frente, e eles tiraram isso de você. Eu nunca vou me perdoar por isso.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos.
—Minha vida é você —disse, cada palavra uma declaração—. E temos uma vida pela frente, juntos. Não há nada a lamentar. Não vê? Descobrimos algo lindo.
Beijaram-se outra vez, já não com o desespero do fim do mundo, mas devagar, fundo, um pacto selado com saliva e pele. O mundo lá fora pode virar pó, dizia aquele beijo. Mas isto é nosso.
Voltaram para a cama, não como dois prisioneiros resignados, mas como dois amantes que se buscam na escuridão. Adrián a envolveu com o braço, o peito dele colado às costas dela, a pica outra vez morna e semi-ereta encaixada entre as nádegas da mãe como uma promessa adormecida, e Marisol se sentiu segura como nunca: não a segurança de fechaduras nem de contas no banco, mas a de um corpo quente contra o frio do universo. O cheiro dele era agora o seu lar. Adormeceu com essa certeza, com o peso da perna dele sobre a sua, decidida a que, se tivessem de viver entre quatro paredes, ao menos as habitariam os dois.