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Relatos Ardientes

O que descobri sobre meu filho às duas da madrugada

O tribunal federal de Houston cheirava a pó velho e tinta seca. Aquele ar viciado não era ar; era um sudário tecido com milhares de depoimentos e traições. Eu, Verônica — a mulher que durante oito anos caminhou por salões de mármore e noites de seda — sentia as paredes se fecharem sobre o meu corpo com a paciência de um animal antigo. Cada um dos meus saltos batia no chão polido e devolvia um eco que já não me pertencia.

A sentença caiu como uma pedra: prisão perpétua, sem possibilidade de saída. O juiz pronunciou as palavras com voz neutra e um silêncio espesso invadiu a sala. Olhei para Octavio, aquele homem de barba grisalha e cabelo prateado que durante quase uma década tinha sido meu chefe, meu amante e minha condenação. Ele não se abalou. Seu rosto guardava a calma terrível de quem sabe que sua queda não será a última.

Seu império não morria com ele. Seus filhos, herdeiros pontuais da crueldade familiar, assumiriam o comando. E eu, que durante oito anos havia trabalhado ao lado dele enquanto descia na minha própria moral, me tornava seu primeiro alvo. A vitória do FBI era, na verdade, a minha sentença particular.

Eu vestia um terno cinza-acinzentado e uma blusa de seda que se colava à pele com uma fidelidade quase indecente. Tinha os traços latinos tensos sob uma maquiagem perfeita. Não era vaidade o que me mantinha ereta, era uma armadura. Da mesa da defesa, Octavio me dedicou um último olhar de posse. Não era o olhar de um condenado, mas o de um colecionador que acabava de ter sua peça mais preciosa confiscada.

Recordei o peso das mãos dele sobre as minhas coxas. Mãos que haviam ordenado mortes com a mesma delicadeza com que desabotoavam minha lingerie francesa, com a mesma paciência com que ele havia afastado minhas pernas centenas de vezes sobre a escrivaninha de mogno do escritório, sussurrando ao meu ouvido o quanto meu cu ainda continuava apertado depois de tantos anos de serviço. Recordei o sabor acobreado do sêmen dele na minha língua, a forma como ele agarrava minhas tetas por trás enquanto me fodia contra a janela, me obrigando a olhar as luzes de Houston com a rola enterrada até o fundo. Senti um arrepio entre as pernas e afastei a lembrança antes que ela encharcasse minha calcinha no meio da sala.

—Já terminou, mãe? — a voz do meu filho, ao meu lado, cortou o fio das lembranças.

Olhei para Andrés. Aos dezoito anos, ele já não era o menino que dormia no andar de cima enquanto eu pecava na sala. Diante de mim se erguia um homem jovem, de ombros largos e olhar azul carregado de uma melancolia antiga. E ali, sob a luz crua do tribunal, senti o vertigem: era a imagem viva de Esteban, o pai dele. O mesmo cabelo loiro, a mesma estatura imponente, o mesmo corpo atlético que meu marido exibia antes de desaparecer sem deixar rastro.

Observar a linha da mandíbula dele me provocou uma cãibra elétrica que percorreu minha coluna e se instalou no ventre. Imediatamente, o nojo de mim mesma me atingiu. É seu filho, é seu próprio sangue. Obriguei-me a desviar o olhar, envergonhada da minha própria pele, envergonhada da umidade que começava a infiltrar-se na minha calcinha de renda preta.

***

O agente Reyes nos esperava na penumbra do corredor. Sua pele lembrava pergaminho velho, seca e amarelada. Ele tinha sido o arquiteto da minha traição, usando-me como uma peça de xadrez durante anos de chantagem emocional.

—Diga adeus a Verônica — sentenciou mais tarde, no quarto de um hotel que cheirava a café queimado—. Digam olá para Marta e Mateo Hidalgo. O perigo é real. Os filhos do velho já assumiram as rédeas e não perdoam.

Ele nos entregou um envelope marrom com nossa nova identidade e um destino: Vicksburg, Mississippi. A viagem foi um calvário de céus de chumbo. O Mississippi nos recebeu com o cheiro inconfundível do seu rio: lama, madeira podre, ar denso. Reyes nos deixou dinheiro suficiente, a promessa de enviar o resto de nossos pertences em menos de um mês e regras claras: discrição absoluta, nenhuma amizade apressada, um perfil tão baixo que roçasse a inexistência.

Nossa nova casa era um monumento ao anonimato: pequena, branca, gelada. Dois quartos, um único banheiro, uma cozinha funcional e uma sala que cheirava a confinamento. Tinha uma varanda de madeira que rangia sob o peso dos nossos segredos. No quintal cercado, o único elemento que destoava era um jacuzzi de madeira, um luxo estranho no meio da miséria.

Eu trabalharia de casa como contadora virtual, refugiada na frieza das planilhas. Andrés — agora Mateo — frequentaria a universidade local para continuar a engenharia que havia começado no Texas. No envelope havia também fotografias alteradas com inteligência artificial: retratos de uma Marta mais jovem e de um Mateo criança que nunca existiram, fabricações digitais que deveríamos colocar nas molduras da sala para dar à casa um passado fictício.

***

Por baixo dessa superfície de viúva cinzenta, meu sangue continuava correndo como um rio de fogo. Eu me surpreendia tocando texturas com uma desesperação sensorial: a aspereza da toalha, o frio da torneira, a rudeza de lençóis baratos que noite após noite irritavam uma pele acostumada à seda. No silêncio da madrugada, minha mão descia por instinto entre as pernas, encontrava meu cu inchado e carente, e eu esfregava o clitóris com três dedos até gozar mordendo o antebraço. Mas esses orgasmos rápidos e solitários não me acalmavam; ao contrário, deixavam um vazio maior, uma fome de pau de verdade, de peso, de estocadas.

E ele estava ali. Mateo.

Ele se movia pelos corredores com uma graça felina. Eu o observava das sombras da minha própria repressão, vendo-o estudar na mesa de jantar, e a semelhança com Esteban se tornava insuportável. Ver as costas dele se tensionarem sob a camiseta despertava em mim memórias eróticas que deviam estar enterradas. Eu sentia uma vertigem que me obrigava a apertar as coxas sob a saia, seguida por uma onda de culpa que me deixava fisicamente exausta.

O primeiro incidente aconteceu numa tarde, poucos dias depois de nos instalarmos. Mateo saiu do banheiro envolto numa nuvem densa de vapor, esculpido pela umidade, com uma toalha branca amarrada tão baixa que mal se sustentava sobre a crista dos quadris. Meu olhar, traidor, desceu até o volume desenhado sob o tecido úmido. Notei com nitidez aterradora as dimensões do membro dele: uma presença pesada, grossa, pendendo em direção à coxa esquerda, a ponta marcando o algodão molhado com uma obscenidade quase grosseira. A rola dele parecia dormindo e, ainda assim, fazia uma saliência de um jeito que me cortou a respiração; com a toalha ligeiramente aberta num canto, consegui intuir a sombra escura dos pelos pubianos, o nascimento do tronco grosso, a promessa de uns ovos pesados.

Por um segundo, a mãe desapareceu. Nesse vazio moral, perguntei-me, com uma curiosidade doentia, como seria para uma mulher — qualquer mulher, não eu — receber uma pica daquelas até a garganta, como um cu se esticaria ao redor daquela base grossa, quanta porra uma rola assim poderia cuspir. Foi um relâmpago de desejo proibido que puxou meu ventre e apertou meus mamilos sob a blusa até doerem. Imediatamente, a condenação caiu sobre mim como um bloco de chumbo. Que tipo de monstro você é?

Mateo notou a fixidez do meu olhar. O rubor subiu pelo pescoço e tingiu suas bochechas. Ele ajeitou a toalha sem jeito, desviando os olhos azuis que tanto me lembravam Esteban.

—Desculpa, mãe... não sabia que você estava aqui —murmurou com a voz embargada.

—Não, filho... tudo bem —respondi com uma voz aguda que me denunciava como presa encurralada.

Virei-me e fugi para o meu quarto. Encostada na madeira fria, senti meu cu pulsar com o mesmo calor úmido que Octavio havia despertado anos atrás. Meteu a mão por baixo da saia sem pensar, afastei a calcinha para o lado e enfiei dois dedos na minha carne encharcada. Eu estava tão molhada que ouvi o som grudento dos meus próprios fluidos ao tirar os dedos. Levei-os à boca e chupei enquanto imaginava que era o gosto do meu filho, enquanto esfregava o clitóris com a outra mão em círculos frenéticos. Gozei em pé, contra a porta, com a saia erguida até a cintura, mordendo o lábio para não gritar o nome proibido. Mas, dessa vez, a origem do incêndio era o fruto do meu próprio sangue, e o orgasmo tinha gosto de cinza e de glória ao mesmo tempo.

***

A noite em Vicksburg não era um intervalo de tempo, era uma presença física: um sudário de umidade que se grudava à pele com a persistência do remorso. O Mississippi, esse colosso de lama a poucas quadras dali, exalava um hálito pesado que se infiltrava pelas frestas das venezianas cinzentas.

Eram duas da madrugada quando a sede me obrigou a sair da cama. Não era sede de água, era uma necessidade celular de movimento, de ar, de confirmar que eu ainda estava viva naquele mausoléu branco. Descalça, senti a madeira fria sob as solas e me movi com a leveza de um espectro que percorre as ruínas da própria santidade. Eu usava apenas um robe de seda velho sobre uma camisola curta, sem roupa íntima; o ar quente lambia minhas coxas a cada passo.

Ao chegar ao fim do corredor, parei em seco. Um brilho azulado piscava na soleira da sala. A televisão estava ligada, projetando sombras retorcidas nas paredes. O som era um sussurro, um murmúrio de vozes anônimas perdidas na penumbra, gemidos femininos e arfares masculinos que reconheci de imediato: pornô.

E ali, no centro daquele teatro de sombras, estava Mateo.

Me escondi atrás de uma coluna de madeira, prendendo a respiração até o peito doer. Mateo estava no sofá, com a calça de moletom cinza nos tornozelos e a camiseta levantada até a metade do peito. A curva firme das nádegas, a linha dos oblíquos, tudo ficava exposto sob a luz fria da tela. A rola dele, a mesma que eu tinha vislumbrado sob o vapor, agora estava em plena forma. Longa, grossa, veias saltadas, perturbadoramente linda, com a pele do tronco tensa e as veias desenhadas como raízes escuras sob a epiderme. A glande, inchada e brilhante, aparecia acima do prepúcio recolhido, úmida com uma gota transparente de líquido pré-ejaculatório que escorria devagar em direção aos dedos. Seus ovos, pesados e firmes, pendiam entre as coxas abertas, movendo-se a cada puxada do punho.

Ele a segurava com uma lentidão rítmica, quase solene, como se oficiasse uma liturgia privada no altar da própria juventude. A mão subia desde a base, apertando com firmeza, torcendo o pulso ao chegar à cabeça para arrastar a umidade da ponta para baixo, lubrificando cada centímetro do tronco. Depois descia de novo, mais devagar, parando na base para massagear os ovos com dois dedos, puxando-os com uma intimidade que só se conhece na solidão.

Meus olhos percorriam cada detalhe com uma voracidade que me assustava. A tensão dos ombros, os bíceps marcados a cada movimento do braço, o suor fino que brilhava no abdômen como pérolas sob o clarão. Na tela, uma mulher morena de seios enormes chupava dois homens ao mesmo tempo, e Mateo a observava com a boca entreaberta, a língua aparecendo entre os dentes, enquanto o punho acelerava e desacelerava no ritmo da cena. Ele não se masturbava com a urgência desajeitada de um adolescente, fazia isso com uma lassidão cruel, aproveitando cada centímetro da própria pele.

Senti um calor úmido e vergonhoso, uma maré espessa que inundou meu sexo. O robe se abriu sozinho sobre minhas pernas quando me agachei contra a coluna para vê-lo melhor. Sem conseguir evitar, enfiei a mão sob a seda, afastei a camisola e encontrei meu cu já encharcado, os lábios inchados, o clitóris duro como uma pedrinha pulsando sob a pele. Meus dedos, trêmulos, abriram caminho entre as dobras escorregadias e começaram a esfregar em círculos apertados, enquanto com a outra mão beliscava um mamilo por cima da camisola, sentindo-o endurecer até doer. Tentei sincronizar minhas pulsações com o ritmo da mão dele. Éramos dois estranhos compartilhando um segredo na escuridão, unidos por um fio invisível de fluidos e eletricidade estática, mãe e filho se masturbando separados por três metros de ar viciado.

Ele gemia baixo, um som gutural que me fazia vibrar até a medula. Era o mesmo tom que eu lembrava em Esteban, mas com uma frescura devastadora. O ouvi soltar um arfar mais longo, e então murmurar entre os dentes: «Mmm, caralho, sim...», e essas duas palavras roucas arrancaram de mim um espasmo entre as pernas. Enfiei três dedos dentro de mim, até os nós, sentindo meu cu escorrendo ao redor, e comecei a me foder, imitando o ritmo do punho sobre a rola dele.

Nesse instante, a loucura terminou de devorar minha razão. Imaginei, com uma nitidez aterradora, sair das sombras, me ajoelhar entre as pernas abertas dele, afastar suas mãos e substituir o punho pela minha boca. Imaginei o peso quente da rola encostando na minha língua, o sabor salgado do pré-ejaculatório, o estiramento dos meus lábios ao abri-los para engolir centímetro por centímetro. Imaginei subir e descer a cabeça com fome, chupar a ponta com as bochechas afundadas, sacar a língua para lamber os ovos enquanto eu também me masturbava, e esperar de boca aberta ele gozar em jatos grossos sobre meu rosto, sobre minha língua, sobre minhas tetas. Imaginei a mão dele enroscada no meu cabelo, empurrando minha cabeça para baixo, me engasgando com a brutalidade de quem não conhece o pecado, só a lei da pele e da fome. Imaginei depois subir em cima dele, me ensartar sozinha com aquela pica grossa, sentir como ela abria caminho à força no meu cu apertado de anos sem foder como devia, e cavalgar até gozar encharcando as coxas.

Mateo acelerou o ritmo. O punho agora subia e descia em golpes rápidos e secos, e o som úmido do pré-ejaculatório espirrando contra a palma encheu a sala. O corpo dele se tensionou como uma corda prestes a arrebentar. A espalda arqueou, os quadris começaram a empurrar para cima contra a própria mão, fodendo o punho como se fosse um cu, os ovos se apertando contra o corpo. Os olhos se fecharam, a mandíbula travou, e no rosto dele se desenhou uma expressão de êxtase e dor. Soltou um rosnado rouco, longo, animal, enquanto a primeira onda disparava. Um jato espesso e branco voou até respingar no peito, quase alcançando o queixo; o segundo caiu sobre o abdômen tenso; o terceiro, o quarto e o quinto escorreram pelos dedos, pelos ovos, deslizando grossos entre as dobras da coxa. A semente brilhava sobre a pele como uma película de óleo, e ele continuava apertando a rola, extraindo as últimas gotas com a mão trêmula.

No mesmo instante, eu também desmoronei. Um orgasmo violento, escuro, me sacudiu da cabeça aos pés. Meu cu se fechou em espasmos ao redor dos meus próprios dedos, escorrendo na palma da minha mão, encharcando o interior das coxas até os joelhos. Tive que morder a outra mão, cravando os dentes até sentir o gosto metálico do sangue, para abafar o grito que lutava para escapar. Minhas pernas tremiam tanto que temi cair no chão e me denunciar. O fluido quente encharcava a barra da camisola e pingava na madeira do corredor, marca invisível da minha traição.

Fugi para o quarto antes que ele pudesse perceber minha presença. Entrei na cama, mas dormir era impossível. Voltei a abrir as pernas sob os lençóis, voltei a afundar os dedos no meu cu encharcado, e gozei mais duas vezes lembrando cada jato de sêmen do meu filho, cada gemido, cada veia da rola dele, até pegar no sono com a mão entre as pernas e o cheiro do meu próprio desejo impregnado nos lençóis.

***

O amanhecer não trouxe luz, trouxe uma revelação de sombras. Acordei com o peso da noite anterior incrustado nos ossos e o cu ainda inchado, sensível ao atrito da calcinha limpa que eu havia vestido ao me levantar. Mateo era um homem consciente do próprio magnetismo, ou eu era a única arquiteta dessa depravação? Essa dúvida era o prego em brasa ao qual eu tentava me agarrar para não cair no abismo.

Me envolvi no robe de seda e desci para a cozinha. Mateo estava lá, de costas, recortado contra o brilho da janela onde o sol começava a lamber os vidros com uma língua dourada. Ele vestia apenas a calça de moletom cinza, a mesma da noite anterior, pendendo dos quadris com uma negligência que me obrigou a fechar os olhos por um segundo. Por baixo, eu sabia — tinha visto — que ele carregava uma rola que ainda podia me levar ao orgasmo só de lembrá-la.

—Bom dia, mãe — disse sem se virar. Sua voz, um barítono profundo, vibrou nas paredes de madeira.

—Bom dia, Mateo — respondi, tentando impedir que a minha denunciasse o tremor das mãos.

Ele se virou. Os olhos azuis, tão parecidos com os de Esteban, me olharam com uma transparência insuportável. Não havia sorriso lascivo, não havia piscadela cúmplice. Apenas o olhar limpo de um filho. Ou era isso que eu queria ver?

Ele se aproximou para deixar uma xícara de café na minha frente. Ao se inclinar, o torso dele ficou a centímetros do meu rosto. Pude ver os pelos finíssimos do peito, a pele se esticando sobre as costelas a cada respiração, o mamilo esquerdo pequeno e escuro à altura exata da minha boca. Inalei o aroma dele — sabão, sono, suor limpo e a vitalidade ofensiva dos dezoito anos — e senti o oxigênio desaparecer dos pulmões. Meus mamilos endureceram sob a seda do robe, e rezei para que ele não percebesse. Os dedos dele roçaram os meus ao soltar a xícara. Foi um milésimo de segundo de fricção que percorreu meu braço como uma descarga de alta voltagem, e senti uma fisgada direta no clitóris, como se ele tivesse acabado de me tocar entre as pernas.

—Você parece cansada — comentou, sentando-se à minha frente—. Não dormiu bem? O ar estava muito quente ontem à noite.

Senti o coração na garganta. Era uma pergunta inocente sobre o clima ou uma alusão velada ao que ambos sabíamos que tinha pairado no ar?

—A casa faz uns barulhos estranhos à noite — admiti, num sussurro—. Achei que tinha ouvido algo na sala.

Ele pousou a xícara com lentidão deliberada. Por um instante, o tempo pareceu parar. Seus olhos voltaram aos meus e, pela primeira vez, me pareceu ver um brilho que não era inocência. Uma faísca de autoconsciência que desapareceu antes que eu pudesse agarrá-la. Sob a mesa, notei suas coxas se deslocarem de leve, e me pareceu distinguir um volume novo esticando o tecido cinza da calça.

—Eu também ouvi algo — disse, e a voz desceu um tom, tornando-se mais íntima—. Achei que fosse você.

O ar na cozinha ficou irrespirável. Se ele sabia, a naturalidade dele era uma crueldade requintada. Se não sabia, eu era o monstro profanando a intimidade dele com meus desejos de mulher murcha. Senti um fio quente escorrer entre as minhas coxas sob a mesa.

Ele se levantou para deixar a xícara na pia. Ao passar por mim, o braço dele roçou meu ombro e o quadril quase tocou o meu. Senti o calor dele irradiando para a nuca, a respiração movendo as mechas soltas do meu cabelo. Na altura do meu rosto passou justamente o volume da calça dele, e juro que notei que ele roçava deliberadamente a beira da mesa contra o meu cotovelo. Por um momento eterno, esperei que as mãos dele caíssem sobre meus ombros, que as descessem pelo decote do robe, que encontrassem minhas tetas nuas por baixo e as agarrassem com a brutalidade de um homem jovem, que a boca dele buscasse meu pescoço, que a máscara caísse e o desejo nos consumisse aos dois. Esperei sentir os dedos dele afundando na seda entre as minhas pernas, esperei que ele me arrastasse sobre a mesa e me fodesse ali mesmo com o café fumegando ao lado da minha cabeça.

Mas nada aconteceu.

—Vou correr até o rio — disse, retomando o tom cotidiano—. Precisa de alguma coisa da cidade quando eu voltar?

—Não, nada — consegui dizer sem me virar.

Ouvi-o se afastar, os passos pesados sobre a madeira, o som da porta da frente se fechando. Só então me permiti desmoronar. Apoiando a testa na mesa, chorei sem lágrimas, presa na geometria de uma dúvida que estava me destruindo. Sob o robe, minha calcinha estava encharcada pela segunda vez em poucas horas.

***

O sol da tarde caía com uma pesadez dourada sobre o bairro quando uma mulher cruzou pela primeira vez os limites da nossa propriedade. Não era a vizinha imediata: ela morava duas casas adiante, separada de nós pela casa dos Sullivan, um casal idoso que raramente punha o nariz para fora e cuja casa permanecia sempre em silêncio sepulcral. Essa distância, em vez de me tranquilizar, fazia sua aproximação parecer uma procissão deliberada pelo asfalto quente.

Eu estava na entrada, lidando com uma das últimas caixas da mudança, uma que o FBI nos tinha enviado quinze dias depois da nossa chegada. O suor colava a blusa nas minhas costas e eu me sentia desarmada pelo caos da mudança. Então a vi vindo do fim da calçada. Ela caminhava com uma confiança que ignorava a umidade do ambiente, vestida com um conjunto floral de verão que se movia com uma brisa que só ela parecia gerar. Nas mãos trazia uma bandeja de biscoitos envolta por um laço de ráfia perfeito.

—Oi, eu sou Carolina. Moro duas casas adiante, na esquina — disse com uma voz harmônica, quase musical—. Vi o caminhão da mudança e achei que um pouco de açúcar ajudaria a adoçar o primeiro dia no bairro.

Forcei um sorriso educado. Enquanto ela se aproximava, meus olhos fizeram aquele escaneamento cirúrgico que só uma mulher aplica sobre outra. Calculei trinta e seis anos; aquela idade perigosa em que a pele ainda conserva uma elasticidade insultante. Um metro e sessenta e cinco, manejável e quase delicada, mas com pernas firmes à mostra sob um vestido tão leve que parecia flutuar. Uns seios pequenos, mas altos, empurravam o tecido floral sem necessidade de sutiã, os mamilos apenas desenhados sob o algodão. Cabelo loiro-acinzentado preso num rabo de cavalo displicente. Uns olhos translúcidos, frios, que cravaram nos meus uma confiança que me fez me sentir velha e desleixada no meio de tantas caixas.

—Muito obrigada. Eu sou Marta — respondi com dificuldade, tentando esconder meu cansaço.

Nesse momento, Mateo saiu de casa carregando um par de lâmpadas pesadas. Vestia uma camiseta sem mangas que deixava à mostra os braços empoeirados pelo esforço e o começo de uma musculatura que a mudança realçava com uma nitidez perturbadora. Ele parou de repente ao ver a mulher à nossa frente. Carolina não desviou o olhar; pelo contrário, seus olhos percorreram a figura do meu filho com uma lentidão quase clínica, detendo-se nos ombros, descendo pelo peito, calculando a largura dos quadris, adivinhando — eu soube, eu senti — o peso pendurado entre as coxas dele sob o tecido da calça. Uma avaliação silenciosa que durou apenas um segundo, mas que pareceu uma invasão da nossa privacidade mais íntima. E senti, com uma fisgada terrível entre os seios, um chicote de ciúme cru e absurdo. Ele é meu. Nem sequer é meu, e eu já te odeio por olhar para ele assim.

—E este deve ser seu filho — comentou, voltando a atenção para mim, embora sua linguagem corporal permanecesse magneticamente voltada para ele—. É um homem muito bonito, Marta. Você tem muita sorte de ter uma ajuda tão vigorosa.

Mateo, com a timidez dos dezoito anos ainda intacta como uma camada protetora, assentiu levemente e coçou a nuca, visivelmente incomodado com o elogio direto de uma desconhecida.

—Oi... sou Mateo — conseguiu dizer, com uma gravidade masculina que pareceu surpreendê-lo também.

Carolina entregou a bandeja a ele, certificando-se de que seus dedos roçassem os dele durante a troca de uma maneira lenta e deliberada. Um choque de pele contra pele. Vi Mateo piscar, confuso com a descarga. Vi também os olhos de Carolina descerem por um instante até a virilha do meu filho antes de subirem de novo ao rosto dele, sorrindo com a satisfação tranquila de uma mulher que havia catalogado sua presa.

—Meu marido Daniel e eu moramos na casa da cerca escura — disse, apontando, passando por cima da fachada silenciosa dos Sullivan—. Se precisarem de qualquer coisa, uma ferramenta, um conselho sobre o bairro ou simplesmente companhia para escapar do confinamento dessas paredes, não hesitem em andar essas duas casas. Gostamos de conhecer bem nossos vizinhos.

Despediu-se com uma inclinação — e no gesto o decote se abriu o suficiente para que eu visse a curva pálida de um seio sem sutiã — e voltou sobre os próprios passos, caminhando com um rebolado rítmico que senti como uma promessa. Mateo ficou ali, segurando a bandeja como se fosse um objeto carregado de eletricidade, olhando para as costas de Carolina, a queda do vestido sobre a bunda firme, até ela entrar em casa.

—Parece simpática — murmurou, ainda distraído, sem parar de olhar para a esquina. Sob o tecido da calça, um volume pequeno, mas inconfundível, denunciava o que sua boca calava.

Eu não respondi. Olhei para a casa de Carolina sentindo um arrepio que não tinha nada a ver com o clima da tarde. Não soube explicar por quê, mas naquele primeiro encontro, enquanto o aroma dos biscoitos ainda quentes flutuava entre nós, senti que a nossa pequena casa de dois quartos acabava de deixar de ser um refúgio. Acabava de se tornar um alvo.

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