O verão em que desejei a mulher do meu irmão
A primeira coisa de que me lembro daquele verão são as mãos rachadas do caseiro e os olhos da garota da franja. A última, o que vi entre as árvores antes do amanhecer.
A primeira coisa de que me lembro daquele verão são as mãos rachadas do caseiro e os olhos da garota da franja. A última, o que vi entre as árvores antes do amanhecer.
Desci do trem com uma única ideia na cabeça, e ao atravessar a porta do apartamento dele soube que nenhum dos dois fingiria que aquilo era uma visita de família.
A chave ainda aquecia meu bolso desde a noite anterior. Eu sabia que ela estaria acordada, me esperando, com o robe aberto e a cafeteira no fogo.
Quando o apartamento ficava vazio, eu abria a gaveta da minha mãe e me transformava em outra. Naquela tarde, uma sombra na janela mudou tudo.
Quando as portas travaram entre dois andares, soube que faltavam horas para o resgate. Não imaginei que minha irmã já tinha outros planos para aquela espera.
Toda vez que ele olhava para o meu rosto, via minha mãe. E eu aprendi a usar essa semelhança, uma saia curta e um cumprimento íntimo demais, para apagar a linha entre nós.
Faltavam duas horas para o sim; quis roubar um último beijo de namorados e atravessei a mata até a cabana dele. A janela dos fundos me mostrou algo que eu jamais esqueceria.
Ainda sentia o eco da noite anterior entre as pernas quando entrei no quarto dela. Minha filha dormia com cara de anjo e eu só pensava em repetir.
Eu a olhava havia anos quando ninguém olhava. Naquela noite, com a casa vazia e uma garrafa de vinho entre nós, parei de fingir que era só o marido da filha dela.
Eu cuidava dela havia anos, pagava tudo, suportava seus gritos. Nessa madrugada, diante do beco vazio, decidi que pela primeira vez ela ia me dar algo em troca.
Vinte e oito anos de casamento tranquilo, e bastou uma foto escondida para Carmen não conseguir tirar da cabeça o que o irmão caçula escondia.
Eu achava que conhecia meu filho até aquela noite, quando a confissão dele me obrigou a escolher entre a indignação e algo muito mais sombrio que eu guardava havia anos.
Quando minha tia perguntou se eu já tinha namorada, todos riram. Minha prima Camila não. Debaixo da toalha, o pé descalço dela subiu pela minha perna e eu entendi que a noite estava só começando.
Voltou do clube com aquele sorriso torto e uma história sobre meu irmão que não devia ter me contado. Nessa noite, entendi até onde ele era capaz de me empurrar.
Quando ela abriu a porta de um golpe, com o rímel borrado e o vestido amassado, eu soube que aquela noite tinha acontecido algo que mudaria tudo entre nós.
Quando levantei o olhar e a vi ali varrendo a sala, soube que minha prima era a única que podia me salvar. Não imaginei até onde iríamos naquela tarde.
Eu a tinha feito comer às pressas, e agora ela se sentava de cavalinho em mim, molhada, sussurrando no meu ouvido que não ia me deixar em paz até a noite.
Eu a via de salto e meia-calça a vida inteira, mas até aquela noite no sofá nunca tinha imaginado o que os pés dela podiam me fazer sentir.
Nunca imaginei que uma conversa de madrugada com minha avó, os dois copos pela metade e a TV ao fundo acabaria revelando o que acontecia todo sábado na outra casa do povoado.
Ela levantou o vestido no primeiro semáforo e eu entendi que aquela volta de carro não era para fazer compras. Minha mãe tinha outros planos para nós dois.