Descobri que era trans entre as roupas da minha mãe
Desde que me entendo por gente, havia algo dentro de mim que não se encaixava no que supostamente eu devia ser. Na época eu não entendia, claro. Meu corpo dizia uma coisa e o mundo confirmava: calças, camisetas, tênis. Menino. Ponto. Mas, quando ninguém olhava, eu olhava para as mulheres.
Não com o desejo que vendem nos filmes. Era outra coisa, mais difícil de nomear. Eu as observava — a forma como se moviam, as roupas que usavam, a segurança com que ocupavam o espaço — e sentia uma inveja que eu não sabia o que fazer com ela. As músicas em que uma mulher cantava sobre o próprio poder me davam arrepios. Eu não queria possuí-las. Eu queria ser aquilo. Queria me sentir assim.
Sempre fui o mais submisso do grupo. O que cedia, o que escutava, o que nunca lutava pelo controle. Durante muito tempo atribuí isso ao meu jeito. Levei anos para entender que não era timidez: era que eu me sentia mais confortável no papel que o mundo atribuía às mulheres. Esse instinto de seguir, de agradar, de me deixar levar, de me abrir, não era fraqueza. Era quem eu era.
Mas isso eu só entendi muito depois. Naquela tarde de outubro eu tinha acabado de completar dezoito anos e a casa inteira era só minha.
***
Minha mãe tinha saído para resolver uns recados. Minha irmã mais velha tinha ido à casa de uma amiga e só voltaria à noite. Eu tinha horas pela frente, o silêncio de um apartamento vazio e uma tesão acumulada que vinha crescendo na minha virilha havia semanas, sem que eu soubesse como descarregá-la.
Primeiro fui até o quarto da minha irmã. Abri a gaveta de roupa íntima dela com movimentos lentos, quase cerimoniosos, como se o ruído pudesse me denunciar em uma casa vazia. O que encontrei eram peças simples: calcinhas de algodão com pequenas estampas, nada que deixasse meu pau duro de verdade. Toquei nelas, levei ao rosto, senti o cheiro do algodão limpo, dobrei tudo de novo com cuidado e coloquei exatamente no lugar.
Não era isso o que eu procurava. Não exatamente.
***
O quarto da minha mãe cheirava ao perfume que ela sempre usava e a madeira velha. Entrei devagar, com o coração batendo no peito de um jeito que não era exatamente medo, mas antecipação. A luz entrava de lado pela persiana meio fechada e desenhava faixas douradas no piso de madeira. O pau já marcava forte na minha calça, duro e pulsando, e eu o apertei com a palma por cima do tecido para acalmá-lo por um segundo.
Fui direto à gaveta da cômoda. Eu sentia que ali tinha algo diferente.
E tinha.
Embaixo de um lenço dobrado encontrei três peças que mudaram minha tarde inteira: um babydoll azul-claro de tecido semitransparente com alcinhas finíssimas, uma tanga combinando com o fio mais fino que eu já tinha visto na vida e um conjunto de sutiã com calcinha de renda fúcsia com acabamento preto. No fundo da gaveta, quase escondido entre dois pares de meias enroladas, havia um pequeno frasco de lubrificante. Um tubo de plástico transparente, meio cheio, com o rótulo gasto de tanto uso.
Fiquei olhando tudo por um instante sem me mexer. Meu pau pulsava tanto que eu sentia na garganta.
Ninguém vai voltar por horas.
Tirei a roupa. Tudo. A camiseta, a calça, a cueca de garoto que eu odiava havia meses sem saber ao certo por quê. Quando me vi nu no espelho, com o pênis duro apontando para cima, senti o desconforto de sempre: esse pedaço de carne entre as pernas que não combinava com o que minha cabeça via. Mas hoje seria diferente. Hoje eu ia cobri-lo, domá-lo, transformá-lo em outra coisa.
***
A tanga foi a primeira coisa. Coloquei-a no chão, com o triângulo de tecido virado para a frente, e enfiei as pernas nela com uma calma que eu não sentia por dentro. Puxei devagar pelas coxas, centímetro por centímetro, até o tecido tocar meus quadris e o fio escorregar entre as nádegas de forma natural, como se soubesse exatamente onde precisava ir. A parte da frente mal cobria o pau duro; a ponta escapava por cima, vermelha e úmida de líquido pré-ejaculatório, então eu a empurrei para baixo com os dedos, achatando-a contra o púbis, e prendi tudo com o elástico. Ficou preso, dobrado, pulsando contra a renda.
O fio traseiro desapareceu por completo entre as nádegas, apertando o cu. Esse contato — um atrito fino, quase cortante, bem ali — me arrancou um gemido que eu nem sabia que carregava dentro de mim.
Parei. Respirei.
Nunca tinha sentido algo assim. Não era só a roupa. Era o que a roupa fazia com meu corpo: me transformava de um jeito que eu não conseguia transformar sozinho. Ela me transformava. Me fazia perceber cada centímetro de pele, as nádegas separadas pelo fio, os mamilos endurecidos ao ar, o ânus se contraindo sozinho com a sensação do elástico.
Coloquei o babydoll por cima. O tecido desceu sobre meu corpo como água, translúcido e fresco, roçando só metade das coxas. Me vi no espelho da porta do armário e o que encontrei não foi estranhamento. Foi reconhecimento.
Aí está você.
A garota no espelho me olhava com os mesmos olhos com que eu a olhava. Pela primeira vez em tantos anos, a pessoa que eu via no reflexo era a que eu sentia que era. Não a versão oficial. A real.
Naquele momento, dei um nome a ela. Lucía. Sem pensar, sem hesitar. Eu simplesmente soube que aquele era o meu nome e que ele sempre tinha estado comigo.
***
Fiquei assim por um bom tempo: me olhando, girando devagar, aprendendo como aquele corpo era quando o vestiam de outro jeito. Passei as mãos pelos peitos lisos que eu desejava que fossem maiores, belisquei os mamilos através do babydoll e me arrepiei. Estavam duríssimos. Apertei com mais força, até doer, e o pau preso na tanga deu um solavanco contra a renda. Um fio de líquido pré-ejaculatório manchou o tecido por dentro.
Andei pelo quarto. Sentei na beirada da cama e cruzei as pernas como eu via as garotas fazerem na aula. Levantei e caminhei até a janela sem abri-la, só para sentir o tecido do babydoll se mover a cada passo, o fio da tanga serrando entre minhas nádegas. Cada passada era uma carícia interna que subia pela minha coluna.
Experimentei também o conjunto fúcsia. O sutiã, claro, ficava grande no peito, mas eu o ajustei com os fechos traseiros até onde deu e alguma forma acabou sendo sugerida. As calcinhas de renda repousavam sobre meus quadris de um jeito que ressaltava minhas curvas escassas e transformava o que não havia em sombra e promessa. Na frente, o volume do pau duro se destacava obscenamente contra a renda fúcsia. Toquei por cima, com dois dedos, desenhando um círculo lento na ponta presa, e soltei um gemido que ecoou pelas paredes do quarto da minha mãe.
Voltei ao babydoll. Era o que eu mais gostava. O que mais me fazia sentir como aquilo que eu queria ser.
Sentei de novo na beirada da cama, com o espelho na minha frente, e fiquei me olhando por um longo tempo. Meu pulso tinha se acalmado um pouco, mas o pau continuava duro, pulsando contra o fio, encharcando a tanga com minha própria baba. Havia algo mais que eu queria. Algo que eu sabia que queria desde o momento em que meus dedos tinham roçado o frasco de lubrificante na gaveta.
O que você faz agora, Lucía?
***
O medo era real. Medo da dor, medo do desconhecido, medo de aquilo me mudar de um jeito que eu não pudesse desfazer. Mas atrás do medo havia uma tesão brutal, física, apertada nas entranhas, que me implorava para eu enfiar alguma coisa no cu de uma vez.
Me ajoelhei na cama com os joelhos separados, as costas arqueadas, as nádegas levantadas. O espelho me devolvia a imagem inteira: uma figura magra envolta em tecido azul translúcido, a tanga sumindo entre as nádegas, o rosto sério e concentrado, a boca entreaberta.
Afastei o fio da tanga para o lado. O cu ficou exposto, branco e virgem, o buraco fechado e limpo esperando o que viesse.
Abri o frasco de lubrificante.
O cheiro era suave, quase neutro. Coloquei uma quantidade generosa nos dedos da mão direita, tanto que escorria pelo meu pulso, e levei a mão para trás. O primeiro contato do gel frio com o cu foi um choque elétrico que me fez cerrar os dentes. Espalhei o lubrificante em círculos ao redor do ânus, encharcando bem, molhando também as coxas e as nádegas.
O primeiro dedo entrou aos poucos. Muito aos poucos.
Houve um momento de resistência que quase me fez parar, mas alguma coisa em mim sabia que era tensão muscular, não um sinal para parar, e eu continuei fazendo pressão com suavidade até sentir o esfíncter se abrir e me deixar passar. O dedo afundou até a junta com um único empurrão. Soltei o ar que estava prendendo num gemido longo.
— Ah, porra — falei baixo, para mim, para Lucía, para o espelho —. Porra, porra…
O que veio depois não tinha palavras exatas. Não era exatamente prazer, não no começo. Era uma sensação densa, interna, como se uma parte do meu corpo que sempre existira sem que eu soubesse de repente acordasse e dissesse: estou aqui, me fode.
Tirei o dedo e o introduzi de novo. Devagar. O lubrificante fazia tudo deslizar com facilidade, e o dedo já entrava com um som úmido que me deixava ainda mais excitada. Fiquei assim por um momento, aprendendo aquele ritmo, entendendo essa nova linguagem que o meu pau de reposição falava — porque agora era isso, o meu pau, embora o mundo insistisse em chamá-lo de cu.
Depois enfiou dois dedos.
Isso doeu, sim. Uma ardência aguda quando o esfíncter teve que se esticar. Parei, com os dois dedos enfiados até o fundo, esperei, deixei o músculo se acostumar ao novo volume. Sentia as paredes do reto apertando minhas juntas, engolindo-as com espasmos pequenos, involuntários.
Quando a dor assentou e se transformou em algo mais ambíguo — entre pressão e prazer, entre querer parar e querer mais — comecei a movê-los. Abri os dedos para os lados, como uma tesoura, com cuidado. Me dilatei com paciência, sem pressa, ouvindo o que meu corpo me dizia. Com a outra mão, levei dois dedos à boca e os chupei, imaginando que era um pau, ensaiando o gesto com a língua ao redor. A baba escorria no canto da boca.
Empurrei os dedos mais fundo e curvei as pontas para cima. Toquei em algo. Um volume, uma área mais macia, e, ao roçá-la, o pau preso na tanga deu um tranco tão forte que eu quase gozei ali mesmo. Toquei de novo. A mesma descarga. Comecei a massagear aquele ponto com os dois dedos, em círculos, gemendo cada vez mais alto contra a colcha da minha mãe.
— Isso… aí… aí, porra…
Eu me via no espelho. Via Lucía no espelho, de quatro, com renda azul e o fio da tanga para o lado, os olhos semicerrados, os lábios entreabertos, dois dedos até o punho enfiados no cu.
É isso que você é. É isso que você sempre foi. Uma puta que adora levar.
***
Quando senti que dois dedos já não bastavam — que eu queria mais grossura, mais profundidade, mais preenchimento — procurei outra coisa no quarto. Na escrivaninha da minha mãe havia uma caneta permanente, grossa, com espessura parecida à de três dedos juntos, mas com um comprimento muito maior. Um cilindro liso, preto, perfeito.
Eu a peguei. Sentei na beirada da cama com as pernas abertas e fiquei olhando por um segundo. Meu primeiro pau.
A primeira coisa que fiz foi levá-la à boca. Não tinha planejado: fiz isso por instinto, como se uma parte de mim soubesse exatamente o que vinha em seguida. Passei a língua por todo o comprimento, com a língua achatada, cobrindo-a devagar de saliva. Repeti o que eu tinha visto de relance em algum vídeo: passei a língua na ponta como se houvesse uma glande ali, fiz círculos, beijei. Enfiei na boca o quanto consegui, até a garganta reagir e eu ter de segurar o reflexo de vômito, com lágrimas nos olhos. Tirei com um fio de baba pendurado entre os lábios e o plástico.
— Boa garota — sussurrei, sem saber para quem estava falando —. Boa garota, Lucía.
Voltei a lambê-la por inteiro e depois a cobri de lubrificante até pingar. Virei-me, apoiei o peito na cama, o cu bem levantado, o rosto voltado para o espelho. Afastei o fio da tanga de novo e coloquei a ponta da caneta contra a entrada.
O primeiro centímetro foi o mais difícil. Mais largo que dois dedos. Tive de parar duas vezes e respirar com calma, com os ombros caídos, sem apertar, sentindo o plástico me abrindo por dentro com uma lentidão desesperadora. Mas, quando passou o esfíncter e o objeto ficou dentro, a sensação foi completamente diferente de tudo o que veio antes: mais profunda, mais cheia, mais real. Algo se acomodou dentro de mim com uma precisão que eu não esperava.
Empurrei mais fundo. E mais. Até sobrar só a tampa entre meus dedos e o resto ter desaparecido dentro de mim. Meu ventre pesava de um jeito novo, pleno, como se finalmente eu tivesse dentro de mim algo que faltava desde sempre.
Comecei a movê-la.
Primeiro devagar. Tirar dois centímetros, empurrar três. Depois com mais ritmo, tirar pela metade, enfiar inteira, tirar, enfiar, tirar, enfiar. Minha cabeça caiu para a frente e eu a apoiei no antebraço, deixando o cu bem empinado, com a tanga para um lado e o babydoll levantado até a cintura. No espelho, eu via o babydoll ondular a cada movimento, o tecido translúcido tremulando sobre minhas costas, a curva das minhas nádegas se contraindo a cada investida, a caneta entrando e saindo brilhando de lubrificante.
Comecei a gemer em voz alta, sem nem decidir isso, com o rosto virado para o travesseiro da minha mãe.
— Isso… assim… mais forte… me fode… me fode mais forte…
Era eu falando comigo mesma e, ao mesmo tempo, falando com um pau imaginário que não era o da caneta. Eu estava imaginando alguém por cima. Um homem grande, com as mãos nos meus quadris, me fodendo sem piedade, me chamando de puta, me chamando de Lucía, me chamando de vagabunda.
— Eu sou sua — eu gemi contra o travesseiro —. Eu sou sua, eu sou uma puta, me dá mais…
Acelerei. O plástico entrava e saía com um som obsceno de líquido, o lubrificante já estava secando nas coxas e o ânus pulsava em volta da caneta, apertando-a como se tivesse vida própria. Com a outra mão, abaixei e puxei o pau para fora do elástico da tanga. Estava duríssimo, molhado, vermelho. Agarrei-o com o punho e comecei a punhetá-lo no ritmo da caneta: quando ela entrava no cu, a mão subia até a ponta; quando saía, a mão descia até a base.
Tudo convergiu para um ponto. A pressão interna contra a próstata e o punho em volta do pau se multiplicaram uma à outra, se retroalimentaram, se elevaram juntas. Senti o orgasmo subir do fundo do ventre como uma onda surda, densa, incontornável.
— Ai… ai… ai, porra, vou gozar, vou gozar, vou gozar…
Empurrei a caneta até o fundo, deixei-a inteira dentro, e com a mão livre me masturbei com tanta força que meu braço queimava. Gozei com um solavanco que me dobrou ao meio. O gozo saiu disparado em cinco, seis jatos grossos que mancharam o babydoll azul, a colcha da minha mãe, o travesseiro e até o espelho com uma gota longa que escorreu devagar. Enquanto o último jorro caía, o cu se contraía em espasmos ao redor da caneta, ordenhando-a, engolindo-a ainda mais fundo a cada pulsação.
Desabei sobre a cama, ofegante, com o rosto esmagado contra a colcha e a caneta ainda enfiada até o fundo.
Foi a melhor gozada da minha vida até aquele momento. Não havia comparação possível com nada do que eu tinha sentido antes. Era como se os dois fios que até então tinham estado separados finalmente se conectassem e a corrente encontrasse seu caminho completo, do cu ao pau, do pau ao cu, num circuito fechado que me deixou tremendo.
***
Fiquei deitada — sim, deitada, no feminino, porque naquele momento Lucía era quem estava ali — por vários minutos. O corpo inteiro pulsava. Bem devagar, com cuidado, retirei a caneta. Ela saiu com um pequeno som úmido e o cu levou um segundo para se fechar por completo, ainda aberto pelo hábito recente. Eu me sentia diferente: não dolorida, mas presente, viva de um jeito que antes eu não sabia que podia existir. Como um quarto que tinha ficado fechado por anos e no qual, enfim, alguém tinha entrado, acendido a luz e começado a foder a parede.
Quando me sentei, me olhei mais uma vez no espelho antes de tirar a lingerie, com o gozo secando sobre o babydoll e os lábios ainda avermelhados.
Agora eu sei quem você é.
Limpei a colcha com papel higiênico do banheiro, esfreguei a mancha do espelho, enxaguei o babydoll à mão na pia com água fria e sabão até ficar como novo e o estendi por um tempo sobre o aquecedor morno para secar. Guardei tudo na gaveta exatamente como tinha encontrado. O babydoll dobrado com cuidado, as tangas enroladas, o frasco de lubrificante no fundo — um pouco mais vazio do que antes, espero que ela não tivesse reparado —, escondido entre as meias. A caneta eu lavei com sabão, sequei e deixei de novo na escrivaninha, no mesmo ângulo, como se nada tivesse acontecido. Voltei para o meu quarto e vesti a minha roupa de sempre: a calça, a camiseta, os tênis.
Mas alguma coisa não voltou para o lugar.
Lucía já não ia desaparecer. Ela tinha estado ali a vida inteira, esperando em alguma gaveta fechada até que alguém tivesse coragem de abri-la. E naquela tarde de outubro, com o cu ainda pulsando e o coração a mil, eu finalmente abri.
O que veio depois é outra história. Muitas outras histórias, na verdade: os primeiros artigos lidos escondido, as primeiras palavras que finalmente nomeavam o que eu sentia, as primeiras conversas com pessoas que entendiam sem que você precisasse explicar nada, os primeiros paus de verdade. Mas tudo começou ali: naquele espelho, naquela renda azul, naquele nome que eu mesma escolhi sem que ninguém me dissesse.
Lucía. Esse era o meu nome. Sempre tinha sido.

