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Relatos Ardientes

Quando ele trancava a porta, eu era Valentina

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Estou há três anos na Montoya & Partners, uma consultoria de design de interiores com três andares de escritórios abertos e plantas demais em cada mesa. Durante dois desses três anos, fui o segredo mais bem guardado de Adrián Montoya, o sócio fundador. Adrián tem quarenta e dois anos, uma esposa chamada Luciana, dois filhos no colégio francês e um Audi cinza no estacionamento da diretoria. Também tem uma chave duplicada que me entregou sem cerimônia nenhuma na segunda terça-feira de janeiro do ano passado.

A gente usa nas terças-feiras.

Fora daquele escritório, eu sou Nicolás: o analista de projetos pontual, com os relatórios sempre prontos antes do prazo e o café preto sempre na mesma xícara. Mas quando Adrián tranca a porta por dentro e fecha as cortinas de vidro jateado que dão para o corredor, eu me torno Valentina. E Valentina e Nicolás compartilham o mesmo corpo, mas não exatamente a mesma vida.

Começou de um jeito pouco heroico, como começam a maioria das coisas que depois acabam sendo importantes. O jantar de fim de ano da empresa, vinho branco demais, eu no banheiro do restaurante desenhando o contorno dos olhos com o lápis preto que sempre carrego na bolsa interna. Adrián entrou, me viu, não saiu correndo. Aquilo já foi uma novidade.

—Eu não sabia — disse, encostando-se à pia ao lado.

—Ninguém sabe — respondi.

Ele ficou me olhando no espelho por um tempo difícil de medir. Depois perguntou se podia me ver melhor, se podia chegar mais perto. Só isso, só olhar. E eu, por algum motivo que ainda não consigo explicar direito, disse que sim.

Não aconteceu nada naquela noite. Mas Adrián é o tipo de homem que, quando quer alguma coisa, não deixa passar. Na semana seguinte ele me mandou uma mensagem para o número pessoal que tinha pedido no jantar: «Terça, depois das sete. Se quiser.»

Eu quis.

***

Nessa semana, a terça chegou com a pontualidade das coisas esperadas.

Fiquei no prédio quando todo mundo saiu. O último a ir embora foi Ezequiel, do departamento de renders, que passou pela minha mesa às seis e cinquenta e dez para perguntar se eu ia ficar muito mais. Eu disse que precisava terminar um orçamento. Ele foi sem fazer mais perguntas.

Entrei no banheiro do escritório de Adrián, o que só ele usa, tranquei por dentro e abri a bolsa grande de couro marrom que levo sempre às terças.

A peruca primeiro: preta, longa, lisa, como se tivessem passado ferro. Ajustei-a devagar, conferindo no espelho se a risca no meio ficava onde devia. Depois o corset vermelho, que aperta minha cintura e reorganiza o que dois anos de hormônios foram construindo no próprio ritmo. As meias arrastão com costura atrás. A calcinha tanga de renda preta que desaparece entre as nádegas. A minissaia de couro que não cobre nem a metade da coxa. Os saltos altos com os quais caminho melhor do que qualquer um esperaria de alguém que me vê de dia no trabalho.

Olhei-me no espelho por um instante.

Valentina. Lá estava ela.

Saí do banheiro justamente quando ouvi a chave na fechadura. Adrián entrou, fechou, passou o trinco, correu as cortinas. Virou-se e me percorreu de cima a baixo por três segundos longos sem dizer nada.

—Quatro dias — disse, por fim.

—Contando desde quinta?

—Desde quarta à noite, quando fui para a cama pensando nisso.

Ele tirou o paletó e o pendurou no encosto. Desamarrou a gravata com aquela calma dele que não é indiferença, mas concentração. Depois atravessou o escritório devagar e parou na minha frente.

Com Adrián não há beijos tímidos. Há uma mão na nuca que inclina a cabeça exatamente no ângulo que ele quer, e então a boca dele vem à minha com uma urgência tranquila, se é que isso é possível. Como se soubesse exatamente o que vem pela frente e não tivesse pressa nenhuma em encurtar o caminho. Ele mordeu meu lábio inferior, chupou-o e o soltou de novo. A língua dele entrou na minha boca com a autoridade de quem sabe que lá dentro ninguém vai lhe discutir nada.

Ele me conduziu até a mesa sem romper o beijo. Apoiei as mãos na beirada para me firmar. Senti quando ele ergueu a minissaia com cuidado e as palmas percorreram minhas ancas, a renda da tanga, as meias. Enfiou os dedos por baixo do tecido da tanga e apertou minha bunda com as duas mãos, abrindo-a um pouco, pesando-me, como quem reconhece uma posse. Parou ali, deixando que eu também parasse.

—Em cada reunião desta semana — sussurrou —. Em cada reunião eu me distraía pensando nisso. Nessa bunda. Na tua boca.

Eu também. Toda vez que passava em frente à porta deste escritório.

Ele me virou. Pôs a mão na minha nuca e me empurrou de leve, mas com firmeza, para baixo, até eu ficar de joelhos no carpete cinza do escritório. Lá de baixo, com a peruca caindo sobre meus ombros e os saltos dobrados sob o corpo, desabotoei o cinto dele. A fivela bateu no carpete quando a soltei. AbaixeI o zíper da calça social e libertei a pica já dura, grossa, com aquela veia no dorso que fica marcada quando ele passa dias pensando nisso.

Segurei-a com a mão e passei a língua da base até a glande. Adrián soltou o ar pelo nariz. Contornei a ponta com os lábios e comecei a chupá-la devagar, entrando aos poucos, deixando que ele enchesse minha boca centímetro por centímetro. Levei uma mão por baixo da minissaia e me apertei por cima da renda da tanga, sentindo o quanto eu também já estava duro.

—Assim — disse ele, e enredou os dedos na minha peruca sem puxar ainda —. Olha pra mim.

Ergui os olhos sem tirar a pica dele da boca. Chupei a ponta, lambi por baixo, pressionei a língua bem no freio. Chupei os testículos um por um enquanto continuava me masturbando com a mão, devagar, fechando o punho na base. Depois a enfiEi inteira de novo, empurrando até a garganta protestar e meus olhos se encherem de lágrimas pretas do rímel borrado.

—Puta — disse baixinho, e era uma palavra terna na boca dele, um elogio.

—Teu — respondi quando tirei a boca por um segundo para respirar, com a voz tomada, e a levei de volta logo em seguida.

Senti na língua aquele gosto salgado do líquido pré-seminal quando ele começou a subir. Tirei antes que ele gozasse. Ainda não. Adrián me levantou puxando pelas axilas e me estampou contra a mesa de bruços com a firmeza tranquila de sempre.

O que veio depois foi lento, como sempre no começo. Adrián não pula nada. Ergueu minha minissaia por inteiro até a cintura, baixou minha tanga até a metade da coxa e ficou olhando minha bunda aberta por um segundo, respirando. Depois ouvi o clique do lubrificante. Os dedos dele trabalharam devagar, primeiro um, depois dois, depois três, sem pressa, me dando tempo para cada transição. Esse é o único luxo real que ele me concede: o tempo. Todo o resto ele conduz.

Os dedos entravam e saíam num ritmo cuidadoso, curvando-se por dentro, procurando o ponto que ele já conhece. Quando o encontrou, gemi contra a madeira da mesa e me faltou o ar.

—Aí — ofeguei.

—Eu sei.

Me dobrei de vez sobre a mesa. Senti o hálito dele nas minhas costas enquanto as mãos continuavam trabalhando, abrindo, preparando. O corset rangeu de leve quando me inclinei ainda mais para a frente e apoiei os antebraços na superfície fria da mesa. Com a mão livre ele estava me masturbando por baixo, com o punho fechado sobre minha pica também dura, seguindo o ritmo dos dedos que tinha dentro do meu cu.

—Tá bom? — perguntou.

—Enfia logo — respondi.

Há um instante antes de tudo começar de verdade que sempre me paralisa por um segundo. Não é exatamente medo. É algo mais parecido com altura: o corpo registra a distância antes da cabeça. Senti a ponta da pica dele apoiada contra minha entrada, empurrando só um pouco, tateando a borda.

Adrián empurrou para a frente e o mundo se reduziu ao imediato.

Entrou de uma vez, até o fundo, arrancando-me um gemido longo que me saiu do estômago. O ardor inicial se abriu em dois e, do outro lado, já estava aquela abertura profunda que não tem nome exato, mas que eu reconheço toda vez. Ele ficou imóvel por um segundo, inteiro dentro de mim, deixando-me sentir a grossura toda. Depois começou a se mover.

Começou devagar, medindo. As mãos nas minhas ancas com firmeza, mas sem violência. Tirava quase toda a pica e a empurrava de novo até a base, com aquele ritmo fundo que me fazia ficar na ponta dos pés dentro dos saltos. A mesa rangeu levemente com o primeiro ritmo, regular e constante. Os papéis da bandeja de assinaturas se moveram alguns centímetros.

—Assim — murmurei.

—Quanto?

—Tudo. Me arrebenta.

Ele foi ganhando velocidade aos poucos. As ancas dele batiam nas minhas com um som surdo e persistente, carne contra carne, o estalo úmido do lubrificante entre nós. Eu mantinha os braços estendidos, agarrada à beira da mesa, com a peruca caindo sobre meu rosto toda vez que eu abaixava a cabeça. O ar-condicionado zumbia ao fundo e, lá fora, dez andares abaixo, a cidade fazia o que sempre faz.

Ele me deu uma palmada seca com a mão aberta. Depois outra na mesma área, marcando minha pele com a marca vermelha da mão dele.

—De quem você tá dando?

—De você.

—De quem?

—De você, Adrián. Só de você. Tudo teu.

Ele se inclinou sobre minhas costas sem parar de se mover. Afastou minha peruca da nuca com uma mão. A boca dele roçou a pele bem abaixo da orelha. Com a outra mão me alcançou por baixo do ventre e agarrou minha pica molhada, masturbando-me no mesmo ritmo com que me comia.

—Ninguém mais me tira isso — sussurrou, com a voz já baixa e rouca —. Ninguém. Nenhuma me aperta como você.

Isso eu sei. E é exatamente isso que nos traz aqui toda semana.

Ele me virou sem aviso. A pica dele saiu com um estalo úmido e protestei por um segundo com o vazio. Ele me levantou, varreu a mesa com um braço — o porta-lápis caiu no chão, uma dúzia de pastas —, e me sentou na borda de frente, com as pernas rodeando a cintura dele. Entrou outra vez com um empurrão limpo que me arrancou outro gemido. Nessa posição, com as mãos apoiadas nos ombros dele, olhei em seu rosto. Adrián empurrou de novo e continuou se movendo com aquele ritmo que já conheço de cor, mas que ainda assim nunca fica previsível.

Ele abriu o corset por cima com um puxão. Os peitos pequenos que os hormônios me deram ficaram expostos e ele se abaixou para chupá-los, mordendo de leve os mamilos, deixando-os brilhantes de saliva. Passou a língua pelo meu pescoço, pela clavícula, e voltou à boca, fodendo minha boca com a língua ao mesmo tempo que me fodía com a pica, sem mudar o ritmo, enterrando-se inteiro a cada vez.

Ele mantinha os olhos fixos nos meus. Adrián sempre me olha quando chegamos a esse ponto. É a única parte que me custa sustentar, não o físico, mas esse olhar dele que não tem nada a ver com Valentina nem com Nicolás nem com o jogo que representamos dentro dessas paredes. Ele só olha para mim, seja lá o que houver por baixo de tudo isso.

—Quanto você aguenta? — perguntou, com a pica me acertando fundo, a mão fechada outra vez em torno da minha.

—Mais que você — respondi, entre dois suspiros ofegantes.

Ele riu quase imperceptivelmente e apertou o ritmo. Me masturbou mais rápido, com o punho molhado do meu próprio pré-gozo, sem parar de me comer. Mudou o ângulo um centímetro e me acertou bem no ponto onde antes estavam os dedos.

O orgasmo veio quando eu já o tinha perto, mas ainda esperava um pouco mais: profundo, se expandindo de dentro para fora em ondas longas, fazendo minhas pernas tremerem em volta da cintura dele. Senti meu cu se apertar em espasmos ao redor da pica dele e ele rosnou ao sentir. Gozei na mão dele, entre nossos ventres, jatos grossos e quentes que mancharam a camisa que ele ainda não tinha terminado de tirar. GemI contra o pescoço dele, abafado, mas inevitável.

—Assim — rosnou ele, e acelerou —. Assim, me aperta mais.

Cravei as unhas nos ombros dele por cima do tecido. Alguns segundos depois veio o dele. Senti lá dentro, o pulso longo e morno, jato após jato, as ancas dele ficando mais bruscas e curtas até pararem de vez, enterradas até o fundo. Ele me encheu por completo, e quando finalmente tirou a pica pingando, senti o sêmen morno escorrer pela parte interna da coxa, sujando a meia arrastão.

Ele ficou imóvel com a testa apoiada no meu ombro, recuperando o fôlego. Eu também, agarrado às costas dele, sentindo-o sair devagar.

Nenhum de nós falou por um tempo.

***

Depois eu me arrumei no banheiro enquanto ele abotoava a camisa sentado na cadeira grande de couro. Quando saí, ele tinha um copo de água mineral na mão e a gravata ainda desamarrada.

—Semana que vem tenho um cliente na terça à noite — disse.

—Quarta funciona?

—Quarta — confirmou.

Guardei minhas coisas na bolsa. Adrián me observava da cadeira com aquela expressão de depois que é a única que ele não controla totalmente. Há algo nela que não combina com o homem das reuniões, o que fala nas apresentações com aquela voz firme de quem nunca hesita. Aqui, agora, ele parece descansado. Como se algo que vinha apertado há dias tivesse se soltado de repente.

—Como está a Luciana? — perguntei.

Não faço isso para feri-lo. Faço porque preciso que um dos dois nomeie o que existe fora dessas paredes, mesmo que seja uma vez por semana.

Adrián sustentou meu olhar por um segundo antes de responder.

—Bem. Ela está esperando um bebê. Quatro meses.

Olhei para ele. Ele não desviou os olhos.

—Eu sei — acrescentou, antes que eu dissesse qualquer coisa.

PendurEi a bolsa no ombro.

—Quarta — repeti.

—Quarta.

Saí do escritório sendo Nicolás de novo: camisa de linho azul, calça de alfaiataria cinza, tênis brancos. No elevador, cruzei com o vigilante do turno da noite, que ergueu os olhos do celular só o suficiente para me cumprimentar com um aceno de cabeça.

Lá fora fazia aquele calor de cidade que gruda no asfalto horas depois de o sol ir embora. Caminhei até o ponto de ônibus com as mãos nos bolsos, sentindo ainda a umidade morna da corrida dele entre as nádegas, escorrendo devagar dentro da cueca masculina que eu tinha voltado a vestir.

Quatro meses.

Pensei nisso durante todo o caminho de volta para casa. Não com raiva. Com essa mistura de clareza e tristeza que aparece quando a gente vê as coisas como elas são e já não existe jeito de continuar olhando de um ângulo mais confortável.

Adrián tem uma vida inteira do outro lado daquela porta trancada. Uma esposa, um bebê que não existia há quatro meses, dois filhos no colégio francês, o sobrenome na placa da empresa. Eu tenho uma bolsa com uma peruca preta e as tardes de terça-feira, ou as quartas quando as terças não podem ser.

E, ainda assim, na quarta eu ia estar lá.

Porque o que acontecia naquele escritório era a única situação em que eu me sentia completamente inteiro sem precisar explicar nada, sem nuances nem perguntas nem o cansaço de construir o contexto do zero com alguém que ainda não me conhece. Com Adrián, eu não era Nicolás-que-às-vezes, nem Valentina-mas-na-verdade. Eu era as duas coisas ao mesmo tempo, sem que isso exigisse qualquer tipo de justificativa.

Isso não é fácil de encontrar.

O ônibus chegou. Subi, procurei um assento junto à janela e encostei a testa no vidro frio. A cidade passava lá fora como sempre, sem prestar atenção em ninguém.

Quarta-feira.

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