Madame Solange me transformou sem que eu percebesse
Toda noite, antes de dormir, Carla me sussurrava «boa noite, princesa». Levei meses para entender que essa palavra não era uma brincadeira, mas uma ordem.
Toda noite, antes de dormir, Carla me sussurrava «boa noite, princesa». Levei meses para entender que essa palavra não era uma brincadeira, mas uma ordem.
Coloquei a saia por baixo da calça, entrei no carro e deixei que ele escolhesse meu nome. Naquela noite, parei de fingir o que não era.
Era uma brincadeira: colocar em mim a gargantilha rosa em troca de uma pizza. Mas apertei o botão e deixei de ser eu. Outra pessoa passou a mover meu corpo por dentro.
Ela podia embaçar uma cidade inteira com seu desejo, mas naquela noite foi Renata quem fechou o cadeado, guardou a chave no bolso e sorriu como uma carcereira apaixonada.
Estava há um mês e meio enjaulada por ordem de Bruna. Naquela manhã, quando a chave enfim girou, nem o bairro inteiro conseguiu conter o que se desencadeou.
Ele bebeu o líquido violeta só uma vez, por vingança. Mas o novo corpo aprendeu naquela noite algo que sua mente de homem jamais poderia esquecer.
Ela deixou os baús sobre a cama e me mandou provar cada peça. Naquela noite, entendi que a viagem não era um destino, mas a prova de quanto eu lhe pertencia.
Eu cobrava caro e escolhia com quem. O convite para o iate parecia mais um trabalho, até que na praia apareceu o único homem que me tratou diferente.
Avancei ao lado da minha patrocinadora, não atrás dela como os outros casos. Eu era o mais bem avaliado, e naquela noite todas queriam me comprar.
Nunca tinha descido mais de três degraus vestido de Lía. Naquela tarde, com a renda branca roçando minhas coxas, decidi que chegaria até a rua.
Eu me barbeava, colocava a peruca e os saltos, e falava com a câmera como se alguém fosse aparecer de verdade. Numa noite, alguém apareceu.
Na primeira noite sob o poste, com o frio cortando meu rosto, entendi que minha androginia podia ser uma arma. Só precisava aguentar até ter o corpo que sempre quis.
Atravessei o campus vazio com o jaleco sobre a pele nua e o coração disparado. Adrián me esperava lá dentro, e nós dois sabíamos que naquela noite não dormiríamos.
No dia seguinte, Marta me olhou por cima do café com um sorriso que não tinha nada de inocente. Ela tinha usado meu laptop. Sabia de tudo, e eu não tinha onde me esconder.
Quando o velho me disse «venha passar quinze dias e não pergunte nada», eu deveria ter recusado. Em vez disso, peguei a bolsa e subi na caminhonete sem olhar para trás.
Subi esses degraus com o coração a mil, sem imaginar que sairia do apartamento convertido em outra pessoa e com um nome de mulher nos lábios.
Havia semanas que duas sombras a seguiam de longe. Naquela noite, em vez de apertar o passo, ela se virou e os esperou.
Estava havia meses com a chave da minha jaula pendurada no pescoço dela, me lembrando quem mandava. Naquele depósito, ela aprendeu que o poder muda de mãos mais rápido do que ninguém imagina.
O vestido manchado ainda pendia na porta como um troféu, e ela já não temia nenhum espelho nem nenhum olhar.
Tranquei o vestiário, abri a maleta e deixei de ser Tomás. Nessa noite, no clube, eu não imaginava que meu próprio chefe ia abrir a porta.