O jogo que começou com uma foto e terminou em um trio
Para começar, devo esclarecer que não foi uma pergunta inocente.
—Você já pensou em me ver com vários homens ao mesmo tempo?
O melhor daquele momento foi a cara que Marcos fez: a de alguém que acha que ouviu errado, mas que sabe, em algum canto do cérebro, que não foi assim. Estávamos na cama, numa sexta-feira à noite, vendo um filme que nenhum dos dois já acompanhava com atenção. Ele estava com o telefone apoiado no peito. Eu tinha os pés cruzados sobre as pernas dele e já fazia exatamente vinte e dois minutos que eu calculava quando e como lançar aquela pergunta.
—Como? —disse ele.
Não era uma pergunta. Era tempo ganho para se recompor.
Marcos tem uma coisa que mencionou uma única vez, quase de passagem, durante uma conversa que tinha começado sendo completamente diferente. Tem certa fixação pela ideia de me ver manchada. Não em um ponto específico; o que o atrai é a imagem como um todo, a quantidade, a simultaneidade de várias pessoas ao mesmo tempo. Arquivei isso naquela pasta mental onde guardo os detalhes que importam, mesmo quando ninguém os diz em voz alta com tanta frequência.
—Estava pensando em voz alta — eu disse, com a calma de quem passou semanas preparando algo—. Esquece se preferir.
—Não — respondeu de imediato—. Não esqueço. É que você me pegou de surpresa.
—Eu sei — respondi.
Levantei da cama com a desculpa de buscar o notebook, que eu tinha deixado estrategicamente entre a mesinha de cabeceira e o sofá-cama. Aproveitei o movimento para ativar discretamente o que eu estava usando havia quase quarenta minutos: um vibrador controlado por controle remoto que Marcos me dera meses antes. Senti ele ligar, apoiei uma mão na beirada da cama para não perder o equilíbrio e voltei para o lado dele com o notebook no colo.
—Vem aqui — eu disse.
Abri o cliente de e-mail.
—Você se lembra do calendário beneficente que organizamos na empresa no fim do ano passado?
Marcos desviou o olhar da tela para mim.
—O das fotos. Claro.
Como esquecer? Tínhamos montado um calendário solidário em que uma dúzia de funcionários posava com bem pouca roupa para arrecadar fundos para uma associação local. O resultado tinha ficado elegante, quase artístico: a fotógrafa, Daniela, sabia exatamente como usar letras de cartolina, flores e objetos de cena para que nada ficasse explícito e, ao mesmo tempo, tudo ficasse sugestivo. Foram vendidas mais de oitocentas cópias em menos de duas semanas. Eu aparecia no mês de dezembro, o mais disputado de todos.
—Pois é — comecei, e percebi de relance que Marcos tinha deixado o telefone virado para baixo na cama sem nem notar—. Eu fui a última a passar pelo estúdio. Fechei o calendário. E, enquanto Daniela recolhia o equipamento, tive uma ideia.
—Que tipo de ideia?
—Daniela tem muito bom humor. E é extremamente discreta. Então eu propus a ela.
—Propôs o quê?
—Fazer umas fotos um pouco diferentes.
Abri uma pasta da área de trabalho chamada «Jogo do alvo» e dentro havia uma imagem em altíssima resolução: eu, de frente e de costas, completamente nua.
Marcos não disse nada por vários segundos.
—Daniela fez um trabalho incrível com a iluminação — expliquei—. Depois de imprimir a foto, acrescentei grades no Photoshop, no estilo de um alvo de tiro, com valores numéricos atribuídos a diferentes áreas do corpo.
A versão de frente mostrava duzentos pontos sobre a boca, cinquenta sobre o peito direito, cem sobre o púbis. A de costas tinha sua própria distribuição de pontuações, com os valores mais altos na região lombar baixa.
—O texto de acompanhamento eu escrevi em inglês — continuei—, porque enviei tudo de uma conta de e-mail nova, criada especificamente para isso. Tenho acesso ao diretório de funcionários internacionais da empresa. Selecionei os destinatários manualmente.
—Quantos destinatários?
—Os suficientes para o jogo ser interessante.
—E a mensagem?
—Algo do tipo: “Aqui está algo especial. Tome seu tempo, escolha seu alvo e dispare. O vencedor receberá um prêmio extraordinário.”
Marcos demorou para responder.
—Você vem armando isso há semanas — disse por fim.
—Queria ler as respostas com você.
Na verdade, eu vinha esperando há semanas o momento exato de contar. A pergunta do começo tinha sido a isca; isso era o resto da armadilha.
O vibrador pulsou duas vezes seguidas. Apoiei uma mão no peito dele para manter o equilíbrio.
—Tira a cueca — eu disse—. Vamos ler juntos.
***
Os e-mails eram de todo tipo.
Algumas mensagens eram secas: uma escolha direta, sem rodeios, quase técnica. Outras eram longas e quase justificativas, como se o remetente sentisse necessidade de argumentar sua decisão com certo grau de precisão. Houve quem tivesse levado o jogo com uma seriedade que me pareceu inesperadamente encantadora. Houve quem respondesse com uma única linha e um percentual de confiança declarado.
Líamos em voz alta, revezando. Marcos puxava os e-mails da pasta e eu comentava: aquele colega do departamento jurídico sempre me parecera bastante reservado, o responsável pela filial de Buenos Aires tinha demorado quase três semanas para responder, o encarregado de logística tinha enviado dois e-mails diferentes, mudando de escolha entre o primeiro e o segundo.
Cada vez que eu mencionava alguém que Marcos conhecia nem que fosse só de vista, de alguma convenção anual ou de algum jantar da empresa, notava que ele ficava ligeiramente tenso. Não de desconforto. De algo completamente diferente.
—Este — disse ele, apontando um e-mail na tela— esteve na convenção de março.
—Sim. Me cumprimentou no café da manhã do segundo dia.
—E escolheu...?
—Lê.
Ele leu. Não comentou nada, mas a mão dele encontrou a minha sob os lençóis.
O vibrador aumentou de intensidade naquele momento. Tive de morder o travesseiro por um segundo e respirar devagar antes de conseguir continuar.
—Você está bem? — perguntou Marcos, sabendo perfeitamente qual era a resposta.
—Continua.
Passamos por dezenas de respostas. A distribuição das escolhas acabou sendo mais uniforme do que eu esperava, o que me pareceu um sinal de que a foto tinha cumprido sua função. Já perto do fim da pasta, as mensagens começaram a rarear. Quando chegamos à última, Marcos fechou o notebook com cuidado e me olhou.
—Quem ganhou?
—Três pessoas escolheram exatamente a mesma coisa, com o maior nível de confiança declarado. Então decidi que as três ganhavam.
—E o prêmio?
Ergui um pouco o tronco sobre o travesseiro.
—Aí é que está o interessante. A Daniela vem me perguntando há semanas quando vamos organizar isso. Ela diz que o evento merece documentação fotográfica adequada.
Marcos levou um momento para processar completamente o que tinha acabado de ouvir.
—A Daniela vai estar presente?
—A Daniela vai fazer parte do evento.
Não foi preciso acrescentar mais nada. Vi ele entender tudo: os três vencedores, a fotógrafa, eu e aquela fantasia que ele tinha mencionado uma única vez como se não tivesse peso real e que, na verdade, estava instalada havia anos em algum canto da cabeça dele.
—Você não falava sério quando eu te perguntei — disse ele. Não era uma acusação. Era uma pergunta.
—Também não estava falando de brincadeira — respondi.
***
O que aconteceu naquela noite entre nós dois não precisa de muita descrição. Marcos desligou o notebook e o deixou no chão. Eu desativei o vibrador, que já não fazia falta. Falamos pouco. O filme continuava esperando em algum lugar da memória da televisão, parado num frame que nenhum dos dois lembraria no dia seguinte.
O que vale ser contado é o que aconteceu três semanas depois.
Os três vencedores receberam um segundo e-mail do mesmo endereço. As instruções eram precisas: um endereço, um horário, um único requisito de comportamento. As três respostas chegaram em menos de quarenta minutos. Cada uma continha uma única palavra.
Daniela apareceu pontualmente, com a câmera no ombro e aquela expressão de concentração que eu já conhecia do estúdio: a de alguém prestes a trabalhar em algo que considera genuinamente interessante. Marcos abriu a porta e ela entrou como se conhecesse o apartamento, o que de fato conhecia, embora nunca nesse tipo de circunstância.
Eu tinha colocado um vestido que Marcos escolhera semanas antes, sem saber ainda para que ocasião o estava escolhendo. Quando ele a viu se colocar de pé na sala, com Daniela ajustando o enquadramento de um lado e os três convidados chegando com dez minutos de diferença entre cada um, entendi que essa combinação de expectativa e estranhamento era exatamente o que tornava tudo tão intenso.
O primeiro a chegar era alguém que eu conhecia das reuniões de coordenação. Tínhamos nos cumprimentado dezenas de vezes de maneira completamente profissional, trocando e-mails sobre projetos e prazos de entrega. Quando me viu naquele vestido, naquela sala, com Daniela ao fundo e Marcos de pé junto à janela, demorou um segundo para recompor a expressão.
—Bem-vindo — eu disse.
Daniela levantou a câmera.
—Quando vocês quiserem — disse ela.
***
O que se seguiu durou quase três horas.
Daniela se movia pelo espaço com aquela habilidade de documentar sem interferir, de estar presente sem interromper o ritmo do que acontecia. Marcos não se afastou em nenhum momento; era exatamente o papel que eu tinha atribuído implicitamente a ele e que ele tinha aceitado sem que ninguém precisasse dizer isso em voz alta.
Há momentos daquela tarde de que ainda me lembro com uma clareza quase incômoda. A textura do sofá sob meus joelhos. O peso de três pares de mãos em lugares diferentes ao mesmo tempo. A voz de Daniela dando uma instrução técnica de iluminação enquanto eu tinha a boca ocupada e só podia ouvi-la. A cara de Marcos quando tudo acabou: aquela mistura de exaustão e algo que não tem nome exato em idioma nenhum, mas que eu reconheci de imediato.
O segundo convidado chegou dez minutos depois do primeiro. Era alguém que eu conhecia só de nome, de um departamento com o qual eu quase nunca tinha contato direto. A resposta dele ao e-mail tinha sido a mais longa de todas, quase três parágrafos justificando a escolha com uma lógica que, naquele momento, me parecera divertida e que agora, enquanto Daniela ajustava o enquadramento, tinha um significado completamente diferente.
O terceiro chegou no minuto exato. Entrou sem dizer nada, olhou para mim por um segundo e depois olhou para Marcos, que estava encostado na parede do fundo, de braços cruzados. Foi Marcos quem assentiu primeiro.
Depois disso, a ordem dos fatos ficou menos linear. O tempo passou a funcionar de outro jeito.
Daniela quase não falou durante as três horas. Só de vez em quando soltava uma instrução técnica, um ajuste de posição, um pedido para alguém se mover ligeiramente para a esquerda. Sua voz era completamente profissional, exatamente igual à do estúdio do calendário. Isso era o mais estranho e o mais excitante ao mesmo tempo: que tudo continuasse com aquele tom de trabalho bem-feito.
Marcos se aproximou em um determinado momento. Não me disse nada; apenas apoiou uma mão nas minhas costas por alguns segundos e a retirou. Foi o suficiente.
Depois, quando os três convidados foram embora e Daniela guardou a câmera na bolsa, ficamos sozinhos na sala. O apartamento cheirava diferente. Tudo tinha aquela qualidade levemente alterada das coisas depois de um acontecimento que não pode ser desfeito.
Marcos trouxe uma manta do quarto e se sentou ao meu lado no sofá.
—Como você está? — perguntou.
—Bem — eu disse. E era totalmente verdade.
Daniela nos enviou as fotografias três dias depois. São muito boas. Têm aquela qualidade das imagens que contam alguma coisa sem explicar tudo, que deixam espaço suficiente para a imaginação de quem olha.
Guardei tudo numa pasta nova na área de trabalho.
Ainda não contei a Marcos como a pasta se chama.