A guarda loira o passeou como a um cachorro
A luz cinzenta do amanhecer esgueirou-se pelas altas janelas do Grande Salão como dedos de inquisidor, sem calor, sem misericórdia. O ar cheirava a cinza fria, a suor velho e ao ardor seco do desinfetante com que a Curandeira o havia tratado horas antes. Não era o cheiro de um castelo adormecido. Era o cheiro de um castelo que nunca deixava ninguém descansar por completo.
Rodrigo pendia do Pilar Negro, suspenso em seu arreio de couro grosso. Sua pele, antes morena, tinha agora a textura acinzentada de quem passa horas demais sem sangue nem movimento. Respirava com dificuldade. Cada arfada era um chiado seco que lhe subia pela garganta ressecada. O cinturão de aço que lhe prendia a virilha brilhava fracamente com a primeira luz, e o cateter metálico inserido dentro da sua rola era uma presença constante, um fogo surdo que nunca se apagava. Sob o metal, seus ovos inchados pendiam arroxeados, presos por um anel estreito que os separava do resto e os mantinha à vista, exibidos como uma fruta madura prestes a estourar.
No sofá de veludo escuro do canto, a guarda Cira dormia com a boca entreaberta e a mão ainda apoiada na empunhadura da adaga. O cansaço da noite a havia vencido.
As trancas rilharam.
As portas do Grande Salão se abriram de par em par e a rainha Leonora entrou como entra o inverno: sem pressa, sem necessidade de se anunciar, mudando a temperatura da sala só com a sua presença. Usava um vestido de veludo grená, os bordados dourados refulgindo sobre o peito, as pérolas costuradas à mão captando a luz das tochas que ainda tremeluziam nos corredores. Era uma roupa feita para esmagar. Nada nela era casual.
Mas seus pés contavam outra história.
Por baixo de toda aquela magnificência, Leonora calçava sandálias rasas de couro cor ocre, abertas nos dedos, gastas até o material ter aprendido a forma exata da sola de seus pés. As unhas apareciam pintadas de um vermelho brilhante que combinava com o vestido. Era uma escolha estranha para uma rainha. Não era para Leonora. Ela domava as sandálias como domava o reino: com paciência e peso, até o couro ceder e se render por completo.
Um passo atrás dela entrou Valeria.
Era impossível não olhá-la. Era o tipo de beleza que incomoda, que obriga a piscar duas vezes. A cabeleira loira presa num rabo alto balançava com precisão matemática ao ritmo de seus passos. Sua armadura de couro endurecido era justa, tática, com rebites de prata nos ombros e um decote trabalhado que deixava ver a curva superior de uns peitos altos e firmes, comprimidos pelo corpete até formar duas meias-luas de pele bronzeada. Suas sandálias de gladiadora subiam até a metade da coxa, tiras de couro escuro cruzando-se sobre uma pele bronzeada e impecável. As plataformas davam cinco centímetros de altura e ecoavam na pedra com a cadência de um metrônomo militar.
Na mão esquerda, cuidadosamente enrolado, pendia um chicote negro de couro trançado.
O barulho despertou Cira. A guarda abriu os olhos de uma vez, levou um segundo para entender onde estava e, nesse segundo, Leonora já a estava olhando.
— A negligência — disse a rainha, com uma voz tão suave que era mais ameaçadora que um grito — é o primeiro passo para a traição. Acredita que meus salões são vigiados de olhos fechados?
Cira se pôs de pé num salto, alisando o uniforme amarrotado, incapaz de sustentar o olhar para além das sandálias gastas de sua soberana.
— Perdoai-me, minha rainha. A noite foi longa, a purga do escravo…
— Silêncio.
Leonora ergueu uma mão. Bastou.
— Quero tomar café da manhã aqui. Uvas do sul, figos maduros, queijo fresco e pão quente. O vinho de reserva das adegas de Arén. Se demorar mais do que o necessário, da próxima vez que dormir o fará pendurada junto com a nossa mascote, com um consolador de ferro enfiado no cu até o punho. Fui clara?
Cira empalideceu, fez uma reverência profunda e saiu quase correndo do salão, as botas ressoando com urgência pelo corredor de pedra.
***
Leonora voltou-se para o fundo da sala. Rodrigo pendia imóvel, as pálpebras fechadas, a respiração quebrada.
— Está sedado pelo esgotamento — murmurou a rainha, com a frieza clínica de quem avalia uma ferramenta —. Acorde-o, Valeria. A febre precisa de líquidos ou os rins falham e a diversão acaba cedo demais. Hidrate-o. Mas faça isso segundo os nossos costumes.
Valeria assentiu com um sorriso leve, quase amável, que não chegava aos olhos. Caminhou até o Pilar Negro com passos lentos e seguros. O contraste era brutal: a perfeição luminosa da loira diante da carne machucada, arroxeada e coberta de sal seco de Rodrigo. Com movimentos precisos, retirou o peso que pendia do cinturão de castidade, afrouxou o colar um dedo e desprendeu as correias do arreio uma a uma.
Sem apoio, Rodrigo caiu.
O impacto contra as lajes foi seco e definitivo. Primeiro os joelhos, depois o ombro. A pancada sacudiu o dispositivo de castidade contra a própria pelve e transmitiu a vibração ao cateter metálico inserido na sua rola. Um clarão de dor aguda atravessou-o da virilha à garganta. O som que saiu dele foi um grito animal, arranhado, quase irreconhecível.
Ficou encolhido no chão, tremendo. Seus músculos não lembravam como funcionar. A boca era um deserto.
Valeria foi até a fonte de pedra lavrada que enfeitava um dos lados do salão. Pegou um cálice de prata com incrustações de granada, mergulhou-o na água cristalina e o encheu até a borda. Depois voltou e parou exatamente diante do rosto de Rodrigo, que jazia colado ao chão.
Suas sandálias de gladiadora detiveram-se a centímetros da boca do escravo.
— Água, fera — disse, com voz de cristal —. Beba.
Rodrigo tentou erguer a cabeça em direção ao cálice. Valeria o inclinou. Não em direção à boca rachada do escravo, mas sobre o próprio pé direito. A água gelada caiu em cascata brilhante sobre o peito do pé nu, escorreu entre as tiras de couro escuro da sandália, acariciou seus dedos impecáveis e pingou devagar até a pedra fria.
Rodrigo entendeu na hora.
A sede era mais forte que a dignidade. Sempre era. Com um gemido que misturava instinto e humilhação, lançou a boca para a frente e começou a lamber o peito do pé de Valeria. Pôs toda a língua para fora, plana, sedenta, e a arrastou pela pele bronzeada como um cachorro raspando uma tigela vazia. Pegou as gotas que escorriam pela pele, sorveu a água presa entre as tiras de couro, chupou cada vestígio de umidade com a desesperação de quem está horas sem beber. Enfiou a língua entre os dedos perfeitos da guerreira, um por um, lambendo as dobras, mordiscando com os lábios abertos, engolindo a água com sons molhados e obscenos que ressoavam no silêncio do salão. Sorveu o arco do pé, o calcanhar, até o tornozelo, seguindo cada tira de couro molhada para cima, chupando o couro como se tivesse leite.
O frio da água contra o fogo da sua garganta foi um alívio tão violento que lhe arrancou lágrimas. Transformou-se no que queriam que fosse: um cachorro sedento, lambendo os pés de sua ama, agradecido pelas migalhas que se infiltravam entre os dedos de uma mulher que nem sequer o olhava. E sob a gaiola de aço, contra a própria vontade, contra toda lógica, sua rola tentou endurecer. O metal não deixava. A carne inchava contra o interior da caixa, apertando-se contra as barras, e o cateter cravado dentro da uretra transformou essa ereção impossível numa fisgada branca de agonia que o fez gemer com a boca ainda colada ao pé de Valeria.
Ela percebeu. Baixou o olhar, viu o tremor entre suas coxas, a carne vermelha aparecendo pelas frestas da gaiola, e riu bem baixinho.
— Olha isso — murmurou, sem erguer a voz —. A fera fica de pau duro lambendo meus pés. Que previsível.
Inclinou o pé e apoiou a sola da sandália nos lábios de Rodrigo, empurrando para baixo até ele ficar com o rosto esmagado contra o chão e a boca aberta sob o couro. Deixou cair ali as últimas gotas do cálice. Rodrigo as bebeu com a língua presa sob a sandália, engolindo poeira, suor e água em partes iguais, agradecendo com choramingos abafados.
Valeria não se moveu mais. Observou-o de cima com a mesma expressão distante que teria olhando a chuva cair.
***
As portas do salão se abriram de novo. Cira entrou empurrando um carrinho de madeira carregado com bandejas de prata reluzentes. O aroma do pão recém-assado, dos figos doces e do vinho temperado encheu o ar de súbito. O estômago de Rodrigo roncou com uma convulsão involuntária.
— Muito bem — murmurou Leonora, dirigindo-se ao centro da sala —. Tire-lhe as algemas, Valeria. Não quero que os metais arranhem o mobiliário. E o coloque em posição. O trono é confortável, mas um café da manhã informal exige um suporte mais prático para minha convidada.
Valeria tirou uma chave pequena do cinto e abriu as algemas com uma torção desdenhosa. Quando os ombros de Rodrigo foram libertos, os ossos estalaram com um estalo doloroso. O sangue voltou aos seus dedos dormentes como água fervendo correndo por um cano gelado.
— De quatro — ordenou Valeria —. Junto da mesa baixa.
Não usou o chicote. O som do couro roçando sua coxa foi suficiente.
Rodrigo se arrastou sobre as palmas das mãos e os joelhos já em carne viva até se colocar paralelo à mesa de carvalho onde Cira arrumava o café da manhã. Manteve a cabeça baixa, o colar pesando no pescoço, a gaiola de aço pendendo entre as coxas perigosamente perto do chão.
Leonora sentou-se no trono com a majestade lenta de quem sabe que o mundo esperará. Cruzou as pernas. Uma de suas sandálias ocres ficou suspensa no ar, balançando com arrogância. Sob a saia do vestido, entre pregas de veludo grená, adivinhava-se uma coxa nua e firme, e mais acima uma sombra que nenhum dos presentes ousava encarar duas vezes.
Valeria se aproximou de Rodrigo sem dizer palavra. Virou-se de costas e sentou sobre suas costas com a leve graça de quem ocupa um banquinho conhecido.
O impacto inicial foi um suspiro abafado. O peso da armadura, dos rebites de prata, das armas, tudo concentrado sobre suas vértebras lombares. Valeria não era uma mulher pesada, mas o couro endurecido multiplicava a pressão de maneiras que a carne reconhecia sem precisar que o cérebro processasse. Ajustou as pernas, apoiou as solas de suas sandálias de gladiadora no chão de pedra e distribuiu o peso até que Rodrigo se tornasse um banco perfeitamente estável.
Não era a dor do ferro em brasa. Não era o fogo do desinfetante. Era outra coisa e, em certo sentido, pior. Era a coisificação total. A transformação de um corpo em objeto sem que ninguém o nomeasse, sem que ninguém sequer o olhasse.
Leonora e Valeria começaram a conversar.
Falavam da qualidade do vinho, dos impostos das províncias do leste, das novas armaduras que havia encomendado para a guarda do palácio. Cortaram figos, passaram queijo no pão quente e ergueram suas taças de prata em brindes esporádicos. As vozes delas flutuavam no ar do salão como algo completamente alheio ao ser humano que sustentava o peso delas por baixo.
E Rodrigo precisava permanecer absolutamente imóvel.
Seus braços tremiam pelo esforço isométrico constante. O suor frio lhe pontilhava a testa. O estômago rugia diante do aroma do pão que não era para ele. Toda vez que os cotovelos cediam um milímetro, as costas se arqueavam. E toda vez que as costas se arqueavam, Valeria se acomodava. Mudava o peso de um quadril para o outro, cruzava as pernas, ajustava a postura com total naturalidade.
No meio do café da manhã, Leonora se inclinou sobre a mesa e disse algo a Valeria em voz baixa, com um sorriso breve e perverso. A guerreira assentiu. Levantou-se por um instante, só para voltar a se sentar de outro jeito. Desta vez girou o corpo, ergueu a saia de couro da armadura até a cintura e sentou-se montada sobre a parte baixa das costas de Rodrigo, com as pernas abertas e as botas altas plantadas de cada lado de suas costelas. O cu nu de Valeria, depilado e quente, ficou apoiado sem filtro contra as vértebras lombares do escravo.
Rodrigo sentiu a umidade de súbito. Um calor úmido, viscoso, marcando a pele das suas costas como um selo. Os pequenos lábios da guerreira se abriram contra sua coluna e, a cada pequeno movimento que ela fazia para cortar um figo ou levar a taça à boca, o cu escorregava para frente e para trás sobre sua pele suada, deixando um rastro pegajoso. Valeria estava molhada. Não por ele. Pelo poder em si. Pela certeza de que podia usar um homem como banco e se esfregar sobre ele enquanto tomava o café da manhã, e ninguém diria uma palavra.
— Como a fera sua — murmurou ela, mordiscando um figo —. Mistura com o meu suor. Dá quase nojo.
Leonora riu com uma risada grave, de garganta.
— Deixa se acostumar. É a única coisa que vai provar do teu cu na vida inteira, Valeria. O suficiente para saber que existe e que não é para ele.
Rodrigo fechou os olhos. A humilhação era pior que o peso. O cu de Valeria estava a centímetros de sua pele, encharcado, e ele preso numa gaiola de aço com um cateter cravado na rola, incapaz até de fantasiar com um toque. Cada vez que ela se movia, um fio morno escorria pela lateral e pingava no chão. A guerreira estava gozando um pouco, pequenas ondas de prazer sem nome, toda vez que o peso da bunda dela esmagava as nádegas do escravo contra a pedra fria. E ele tinha que continuar sendo móvel. Firme. Silencioso. Um banco de suor sob um cu alheio que jamais o consideraria um homem.
Esse era o verdadeiro inferno.
Cada movimento de Valeria sobre suas costas se transmitia em ondas até sua pelve. A gravidade fazia oscilar o cadeado e a base do dispositivo de castidade. Esse balanço mínimo, invisível para quem olhasse de fora, bastava para que o cateter metálico deslizasse uma fração dentro da uretra já inflamada. As estrias de aço contra o tecido em carne viva produziam uma fisgada elétrica que subia da virilha à garganta. Os ovos, apertados pelo anel, balançavam com cada tremor, inchados e sensíveis, roçando o frio do aço sempre que ele se movia.
Rodrigo mordia o lado de dentro das bochechas para não fazer barulho.
Um gemido, uma queixa, arruinaria o café da manhã de sua senhora. E sabia com certeza que o castigo por isso seria voltar ao Pilar Negro, ou pior ainda, que Cira trouxesse de novo o peso de chumbo que ele havia carregado pendurado na noite anterior. Então ficou quieto. Absorvendo o peso. Aguentando o fogo. Sentindo o cu alheio escorregar por suas costas. Sendo o móvel que lhe pediam que fosse.
Leonora mastigou lentamente um bago de uva cristalizada, tomou um gole de vinho escuro e pousou os olhos na composição que tinha à frente. Como monarca obcecada pela estética do poder, a cena a fascinava.
A perfeição radiante de Valeria: seu cabelo dourado captando a luz da manhã, a postura ereta sobre a armadura de prata, os peitos meio derramados para fora do corpete movendo-se apenas com cada respiração, a beleza quase insuportável da sua figura montando um homem quebrado como se fosse um potro doméstico. E por baixo, servindo de assento a tanta magnificência, o corpo destruído de Rodrigo: a pele manchada de hematomas, o pescoço preso pelo ferro negro, os músculos tremendo com o esforço silencioso de se manter firme, a rola encerrada na gaiola de aço polido e os ovos arroxeados pendendo entre as coxas. A divindade descansando sobre a miséria sem sequer registrá-la. Para Leonora, essa era a imagem do poder em sua forma mais pura. Não os gritos nem o sangue. Isto: a beleza molhando as costas da derrota absoluta de alguém que já não merecia nem ser olhado.
A rainha também se acomodou no trono. Afastou as pernas um pouco mais do que devia, deixando a saia do vestido se abrir até a metade da coxa, e deslizou a mão livre por baixo do veludo. Ninguém fez qualquer comentário. Cira, postada junto à porta, manteve os olhos cravados no chão. Valeria continuou cortando queijo como se nada fosse. Mas o ar do salão se encheu de um ritmo úmido quase inaudível, o estalar discreto de dedos régios trabalhando o próprio cu enquanto contemplavam a mascote humana debaixo da sua convidada.
Leonora gozou sem mudar a expressão. Apenas um pequeno suspiro, um tremor nas pálpebras, e a mão voltou a aparecer sobre o braço do trono, úmida e brilhante. Levou-a aos lábios e chupou lentamente um dos próprios dedos, com os olhos fixos em Rodrigo.
— Bom banco — disse, para ninguém em particular —. Os melhores gemidos são os que não se deixam sair.
***
O café da manhã durou uma hora de agonia.
Quando Leonora limpou os lábios manchados de carmesim com o guardanapo de linho e assentiu em silêncio, Cira se apressou a retirar as bandejas. Valeria se ergueu das costas de Rodrigo com a mesma graça com que se sentara. Quando o peso desapareceu, a coluna do escravo estalou com um crepitar audível em todo o salão. Um alívio doloroso percorreu suas costas inteiras, seguido de imediato pela tração familiar da gaiola de castidade ao se assentar de novo pela gravidade. Ele se deixou cair com os braços estendidos sobre a pedra, incapaz de sustentar qualquer outra postura. Nas costas dele ficou, brilhando sob a luz cinzenta, a mancha úmida e perfeitamente delineada do cu de Valeria, secando lentamente ao ar.
A guerreira baixou o olhar, viu a marca e sorriu.
— Minha assinatura — disse, para si mesma —. Que fique grudada.
Antes de se retirar, agachou-se, agarrou Rodrigo pelos cabelos e ergueu sua cabeça. Com a outra mão, encaixou o cu ainda brilhante na palma e passou dois dedos pelos próprios lábios molhados. Depois os aproximou da boca do escravo.
— Abre.
Rodrigo abriu a boca sem pensar. Valeria enfiou os dois dedos encharcados até o fundo, pressionando-lhe a língua contra o céu da boca. O gosto o atingiu de uma vez: salgado, ácido, denso, o gosto quente do cu de uma mulher que não lhe pertencia e jamais lhe pertenceria.
— Chupa — ordenou ela, sem doçura —. Você vai saber o que nunca vai ter.
Rodrigo fechou os lábios em torno dos dedos de Valeria e chupou com a desesperação de um condenado. Lambeu-os por cima e por baixo, sorveu o líquido pegajoso, engoliu saliva e gozo misturados. Sua rola, dentro da gaiola, tentou inchar pela enésima vez, e o cateter devolveu a tentativa com uma descarga branca que o fez chorar sem som, sem parar de chupar.
Valeria retirou os dedos com um estalo, limpou-os no cabelo embaraçado do escravo e se levantou.
Leonora ergueu-se do trono. O veludo grená arrastou sobre as lajes com um sussurro opulento.
— Leve-o para passear pelos corredores internos, Valeria — decretou a rainha, ajustando o decote quadrado do vestido —. Que os músculos se mexam um pouco. Hoje à noite eu os quero em condições. E lembre-o de qual é o lugar dele.
Valeria voltou-se para Rodrigo. Um sorriso deslumbrante, branco e perfeito, desenhou-se devagar em seu rosto. Não era um sorriso para ele. Era um sorriso para si mesma, para o prazer privado do que estava prestes a fazer.
Recolheu a corrente de aço que pendia do colar de Rodrigo. Enrolou dois elos na mão enluvada e puxou para cima com um movimento seco e autoritário.
Os dentes do colar pressionaram a garganta. Rodrigo tentou se pôr de pé. Um puxão para baixo de Valeria o deteve no meio do caminho.
— De quatro, fera — disse, com voz tranquila —. Os cães da rainha não andam sobre duas pernas.
E começou o passeio.
Valeria avançou em direção às portas duplas que ligavam o Grande Salão ao labirinto de corredores do palácio. Seu passo era seguro, cadenciado, marcando o ritmo com o clac, clac preciso de seus saltos na pedra. O som se repetia sem piedade, metrônomo de uma condenação sem fim à vista. Rodrigo engatinhava atrás, as palmas e os joelhos raspando nos mosaicos frios, arfando para não ficar para trás, com o cu nu erguido e a gaiola balançando entre as pernas à vista de todo mundo que quisesse olhar.
A mecânica de engatinhar era uma tortura desenhada com exatidão para o seu estado. Cada vez que avançava um joelho, a pelve basculava. Esse movimento contínuo sacudia o dispositivo de castidade. O cateter estriado roçava sem parar contra o tecido inflamado, já banhado em ácido na noite anterior. Uma queimadura surda e constante que o acompanhava em cada metro, em cada ladrilho frio que passava sob suas mãos. Os ovos, pendendo pesados entre as coxas, batiam ritmicamente contra a face interna da caixa de aço. Cada pequeno impacto era uma sacudida surda que subia pelo baixo ventre.
Se se atrasasse um único segundo, se a dor o fizesse encurtar o passo, a corrente se tensionava de imediato. A inércia do corpo de Valeria puxava o colar e cravava os dentes de metal em sua traqueia, cortando o ar. Ele era obrigado a acelerar, ignorando o fogo na virilha, arfando de boca aberta para manter a folga da corrente e conseguir respirar.
Os corredores não estavam vazios.
Criadas com cestos de roupa, guardas de patrulha em armadura, copeiros e escravos de patente inferior se encostavam às paredes ao verem Valeria se aproximar. Baixavam o olhar em sinal de respeito. Mas os olhos deles deslizavam inevitavelmente para a criatura que engatinhava atrás dela.
Viam Rodrigo nu, coberto de hematomas, com os joelhos em carne viva, o colar de pontas na garganta e a gaiola de aço exibida entre as coxas, os ovos arroxeados balançando à vista, o cu escancarado ao ar. Viam a baba pendurada na boca pelo esforço de respirar, a submissão gravada em cada linha do corpo derrotado, a mancha do cu de Valeria ainda brilhante na parte baixa das costas como um selo de posse. Uma das criadas mais jovens levou a mão à boca, abafando uma risada; outra, mais veterana, cuspiu no chão justamente quando Rodrigo passou ao seu lado, e o escravo teve de arrastar a mão sobre o cuspe morno para não quebrar o ritmo. Um guarda apertou descaradamente a própria rola por cima do couro da calça ao ver a cena. Ninguém dizia nada. Todos olhavam.
Não era passeado como um prisioneiro de guerra. Não era exibido como um homem castigado. Era conduzido exatamente como o que lhe haviam ensinado a ser: uma mascote quebrada e dócil arrastando-se atrás de uma mulher que não lhe dedicava mais atenção que a necessária para não perder o ritmo dos próprios saltos.
E, em algum ponto entre a dor e o esgotamento, entre a queimadura do metal e o frio da pedra, entre o gosto ainda grudado no paladar do cu de Valeria e a mancha secando em suas costas, Rodrigo entendeu que era exatamente isso que a rainha Leonora queria que ele compreendesse. Não que a odiava. Não que a temia. Que, simplesmente, para ela e para todos os que habitavam aquele castelo, ele já não era uma pessoa que merecesse ser olhada diretamente. Era um objeto útil que se guardava no Pilar Negro quando não fazia falta e se tirava quando convinha, do mesmo modo que se tira um banco de um armário ou se passeia com um animal quando a rainha quer que ele tome ar.
O clac, clac, clac dos saltos de Valeria seguiu marcando o tempo pelos corredores de pedra. Indiferente. Perfeito. Implacável.
