Aceitei suas regras em troca de um teto
A manhã tinha cheiro de café recém-passado e de pão doce escapando de uma barraca em frente à fachada de pedra da velha paróquia. Foi ali que ele a viu: sentada nos degraus, com o olhar perdido, uma mochila surrada aos pés e uma magreza que falava de noites ao relento e refeições puladas. Não era uma beleza convencional, mas havia algo na intensidade dos seus olhos escuros e no cabelo preto caindo desalinhado sobre os ombros.
Ele se aproximou com uma calma desarmante.
— Parece que um café da manhã quente te cairia bem — disse, sem rodeios. Sua voz era grave, mas gentil.
Ela ergueu o olhar, desconfiada. A fome venceu. Concordou com um aceno.
Compraram dois tamales e café. Enquanto comiam, ele não fez muitas perguntas; apenas a observava com curiosidade. Contou que morava sozinho, que sua casa era grande e silenciosa.
— Uma garota como você não devia estar aí fora — disse ao terminar —. É perigoso. Deixa eu te levar para um lugar seguro.
A oferta soou como salvação. Renata hesitou apenas um segundo antes de aceitar. Caminharam até uma caminhonete estacionada a meia quadra, escura e robusta, com interior de couro que parecia recém-saído da concessionária.
Ela subiu no banco do carona e fechou a porta pesada com um baque surdo que a fez se sentir isolada do mundo, enclausurada naquele espaço íntimo e desconhecido. O silêncio foi rompido pelo som de um zíper. Olhou para ele e, com uma naturalidade que a deixou sem fôlego, viu que ele tinha desabotoado a calça e libertado o membro, já semiereto, repousando sobre a coxa.
Não era um gesto violento. Era uma certeza. Ele a encarou diretamente nos olhos e, com meio sorriso, perguntou:
— Gostou?
O calor subiu-lhe às bochechas, um rubor profundo que queimou sua pele pálida. Sentiu-se encurralada, mas não assustada. O homem não era feio; pelo contrário, o rosto anguloso e os olhos cor de avelã a observavam com uma intensidade intimidadora e, ao mesmo tempo, estranhamente excitante. Não havia malícia no olhar dele, só uma proposta crua.
— Vou te dar dinheiro — continuou, a voz num sussurro persuasivo —. Vou cuidar de você. Não vai lhe faltar nada.
A promessa pairou densa no ar do carro. O medo do frio e da fome lutava contra uma sensação nova, um formigamento que nascia no baixo ventre. Era a mistura da sua vulnerabilidade com o poder bruto da situação. Ele não apressou a resposta: recostou-se no banco e esperou.
Renata sentiu a respiração ficar superficial. O cheiro de couro, do perfume dele e da própria pele se misturava num aroma que a atordoava. O formigamento se transformou numa pulsação úmida entre as pernas. O dinheiro era apenas a desculpa, o verniz racional para uma decisão que o corpo dela já tinha tomado.
Ela se inclinou devagar sobre o console central. O espaço era estreito e a obrigava a se aproximar. Com a mão trêmula, afastou uma mecha do rosto dele e, com uma delicadeza que surpreendeu os dois, envolveu o membro com os dedos. Estava quente e firme, pulsando contra sua palma. Ele soltou um som gutural de aprovação.
Fechou os olhos e, movida por um impulso que não quis conter, baixou a cabeça. O primeiro contato dos lábios foi suave, quase tímido. Depois a língua se atreveu a traçar um círculo lento ao redor da ponta, provando o gosto salgado da pele. Uma das mãos dele pousou na nuca dela, os dedos se enredando no cabelo, não para forçá-la, mas para guiá-la, para selar o pacto.
Começou a se mover para cima e para baixo, os lábios fechados em torno da carne dele, criando uma sucção úmida e rítmica. Cada vez o tomava um pouco mais fundo, aprendendo sua forma. O próprio formigamento tinha virado uma umidade ardente, e sentia os seios se tencionando contra o tecido da blusa. Já não pensava no dinheiro nem na segurança: só na textura dele, no som da respiração acelerada, no poder de fazê-lo gemer.
— Se toca, Renata — ordenou ele, a voz um rosnado carregado de autoridade —. Me mostra como você se esquenta comigo na boca.
A ordem a derrubou e a reconstruiu ao mesmo tempo. Com uma liberdade recém-descoberta, deslizou a mão sob a calça esfarrapada. Não usava calcinha. Os dedos afundaram entre as coxas, já escorregadias. O contato foi elétrico. Ela se acariciava no mesmo ritmo em que a boca subia e descia sobre ele.
O homem a observava, fascinado. O contraste entre o rosto inocente, corado, e a atitude obscena da boca devorando-o enquanto se masturbava era a imagem mais erótica que ele já tinha visto. Apressou o ritmo, empurrando os quadris para cima.
— Isso, assim… olha pra mim enquanto faz.
Renata ergueu os olhos, vidrados de prazer e submissão, e encontrou os dele, escuros como a noite. A caminhonete parecia se mover no compasso dos dois, um universo privado onde só existiam os seus ofegos e o rangido do couro. Sentiu o orgasmo se construir, uma onda de calor empurrada pelos próprios dedos e pela rola que a preenchia.
Com um grito abafado, ele arqueou as costas e se esvaziou na boca dela, quente e abundante. Ela engoliu por instinto enquanto o próprio clímax a sacudia em espasmos incontroláveis, um tremor que a percorreu da cabeça aos pés e a deixou sem fôlego, com a cabeça apoiada na coxa dele. Ele acariciava o cabelo dela com uma ternura que contrastava com a crueza do ato.
Quando enfim se recompôs, os lábios estavam inchados e os olhos com um brilho novo, mistura de exaustão e conquista. Ele sorriu, lento e satisfeito.
— Bem-vinda para casa — disse, enquanto abotoava a calça e dava partida no motor.
***
O sol da tarde se filtrava pelas janelas da casa, iluminando partículas de poeira que flutuavam como espíritos inquietos. O lugar era um santuário de silêncio e ordem, o exato oposto do caos do qual ela acabara de escapar. Ele se movia pelo espaço com uma calma que transmitia segurança. Mostrou a cozinha e apontou para a geladeira.
— Aqui tem de tudo. Trata como se fosse seu.
A confiança que ele oferecia era quase tão avassaladora quanto o luxo ao redor. Ela se afundou num sofá de couro tão macio que parecia engoli-la e, pela primeira vez em meses, sentiu que podia soltar o ar por inteiro. Ele a observava do outro lado da sala, com o olhar de quem acabara de adquirir uma peça preciosa e singular.
O telefone vibrou e quebrou o silêncio. Ele atendeu com tom de negócios, a voz de repente mais cortante.
— Sim, eu sei. Já estou indo. — Desligou e se aproximou —. Tenho que sair com urgência, mas quero que você fique. Tudo bem?
Renata só conseguiu assentir, os olhos muito abertos.
— Ótimo. A casa é sua. O banheiro principal fica no fim do corredor, tem toalhas limpas. Tome banho, descanse. Sinta-se em casa.
Foi até um armário e tirou algumas roupas dele: uma camiseta branca de algodão, macia pelo uso, e uma calça de moletom cinza já gasta.
— É o que tenho que pode servir por enquanto. Vai ficar grande em você, mas é confortável. Amanhã eu te levo pra comprar roupas. Você precisa de coisas suas.
A ideia de ser vestida por ele lhe provocou uma mistura de vergonha e um arrepio excitante. Ele foi embora e a casa voltou a mergulhar no silêncio.
***
Renata caminhou até o banheiro. Era enorme; o box de vidro parecia um cômodo por si só. Deixou a roupa suja cair num monte, como a pele de uma cobra. Seu reflexo no espelho devolveu uma garota abatida, com olheiras profundas. Mas, ao abrir a água quente e senti-la percorrer a pele, algo nela começou a se transformar.
Lavou o cabelo com o xampu dele, um aroma de sândalo que a envolveu e a fez se sentir possuída. Ensaboou o corpo repetidas vezes, não só para limpá-lo, mas para redescobri-lo. Sob o jato de água, ela não era a garota da rua. Era ela mesma, a mulher que havia escolhido o abismo em vez da gaiola dourada de uma família que a sufocava.
Quando saiu, procurou a roupa que ele havia deixado. A camiseta caía até a metade da perna e a calça, sem cordão, se mantinha por milagre sobre os quadris largos. O tecido escondia completamente sua figura, tornando-a andrógina e sem curvas, um segredo guardado sob peças folgadas.
Passou a tarde em um torpor doce, encolhida no sofá, cheirando a ele e a limpeza, sentindo sua verdadeira identidade ressurgir das cinzas.
***
Ele chegou ao anoitecer. O aroma de carne na chapa o recebeu desde a porta. Renata havia encontrado os bifes na geladeira e, por intuição, os temperara e cozinhara. A luz da cozinha a banhava e, por um instante, ele só viu a mesma garota da manhã, mais limpa, mais serena.
— Está com um cheiro incrível — disse, largando as chaves sobre a mesa —. Você está… diferente.
Ela sorriu de verdade, um sorriso que não havia mostrado antes.
— Obrigada. Eu me sinto diferente.
Jantaram em um silêncio confortável. Ele a desejava: a lembrança fresca da caminhonete martelava na sua virilha. Mas a imagem que tinha dela ainda era a da garota frágil que havia resgatado. Não imaginava o que se escondia sob aquelas roupas enormes.
Terminada a refeição, ele se levantou com uma cortesia que não escondia o fogo nos olhos.
— Vou te mostrar seu quarto. O do fim do corredor, é o mais silencioso.
Caminharam pelo corredor de madeira escura. Ele abriu a porta e revelou um quarto acolhedor, com uma cama grande coberta por um edredom de veludo grená.
— Espero que você fique confortável aqui — disse, a voz num ronronar.
— Está perfeito. Obrigada. Boa noite — sussurrou ela, e deixou a porta se fechar com um clique suave.
***
Ele não se moveu por um longo segundo, escutando. Depois, um sorriso lento se desenhou em seus lábios. Foi até o escritório, um santuário dominado por uma mesa imensa sobre a qual se erguiam três monitores curvos de brilho azulado. Afundou na cadeira. Os dedos voaram pelo teclado e, com alguns cliques, uma grade de nove miniaturas apareceu na tela central: as câmeras de segurança da casa, todas em preto e branco, todas silenciosas. Exceto uma.
Clicou na do canto. A imagem se expandiu: o quarto de Renata. Ele a viu se preparar para dormir, beber água da mesinha de cabeceira, engolir o que parecia ser um comprimido e se deitar sem desfazer a cama. Um nó de curiosidade ardente cresceu em seu estômago. Abriu o arquivo de gravações do dia e voltou a linha do tempo.
Encontrou-a no banheiro. O vapor da água embaçava levemente a lente da câmera oculta. Viu a porta do box se abrir e ela sair, envolta numa nuvem de calor, o cabelo pingando sobre os ombros. E então ele parou de respirar.
Sob a roupa andrógina e sem forma escondia-se um corpo feito para o pecado. Um par de seios esplêndidos, brancos, redondos, com mamilos eriçados que pareciam implorar para ser beijados. Uma cintura fina que acentuava quadris largos e uma bunda alta e firme, formando uma curva perfeita com as coxas. Não era uma garota qualquer da rua. Era uma deusa que vinha se escondendo dos simples mortais.
— Renata… — escapou de seus lábios num suspiro rouco.
Uma onda de calor brutal percorreu seu corpo e se concentrou na virilha. A mão deslizou até a calça, a palma pressionando a ereção que lutava para se libertar. Desabotoou o zíper com um sussurro metálico e enfiou os dedos sob o tecido, encontrando-o duro, quente, pulsante. Um gemido baixo lhe escapou.
Mas ele se conteve. Retirou a mão e ajeitou a calça, a respiração ainda acelerada. Não assim, pensou. Não de um jeito tão grosseiro, se masturbando diante de uma tela enquanto ela estava a poucos passos dali. Levantou-se deixando os monitores ligados, um altar dedicado à sua nova deusa, e foi tomar banho para apagar o fogo. A água fervendo não o apagou: atiçou ainda mais.
***
Já de madrugada, com a casa mergulhada num silêncio sepulcral, ouviu um som. A televisão do quarto de Renata ainda estava ligada, o murmúrio de algum infomercial. A curiosidade venceu a prudência. Levantou-se, descalço, sem fazer ruído, e moveu-se como uma sombra até a porta entreaberta.
Espiou. A luz piscante da tela projetava sombras dançantes nas paredes. Renata dormia sobre a cama, a roupa folgada como único cobertor. Pareceu-lhe profundamente erótico vê-la assim, entregue, entre a inocência e o desafio. Deu um passo, depois outro. Podia sentir o calor do corpo dela, cheirar o aroma limpo misturado ao da própria roupa. A ereção pesou ainda mais ao mirar aquela boca rosada, entreaberta pelo sono.
Subiu na cama com cuidado, sem fazer o menor ruído, e se ajoelhou ao lado dela. Aproximou o membro já duro do rosto dela, passando-o devagar pela bochecha, pela comissura daqueles lábios. O atrito da pele quente e lisa era quase insuportável de tão prazeroso. O movimento foi despertando-a aos poucos, entre brumas.
— Você não pode dormir — resmungou ela, a voz rouca, e virou-se para a janela, buscando a escuridão —. Tomei um remédio. Quero dormir.
Ele engoliu em seco. O desejo era mais forte que qualquer pudor. Deslizou para trás dela, se acomodando, esfregando-se nas costas dela e na calça folgada. A pele dela era um incêndio mesmo através do tecido. Introduziu o braço sob a camiseta branca, sentindo primeiro o calor das costas e depois avançando para a frente. Começou a acariciar os seios, tão pesados que enchiam sua mão. Deles só escapavam resmungos de meio sono, misturados a um prazer que ela não queria admitir.
— Tenta dormir… eu quero dormir — protestou, mas a voz ia ficando cada vez mais fraca.
Ele não deu ouvidos. Desceu a mão pela curva daquela bunda redonda e firme, uma redondeza que jamais imaginaria numa garota de rua. Puxou a calça sem cordão, que cedeu facilmente até a metade das pernas, e colou os quadris nela, a rola se acomodando entre as nádegas. Ela resmungou, uma negativa que soava mais como jogo do que como rejeição.
A respiração dos dois se tornou entrecortada. Renata ficou quieta, expectante, sentindo o desejo subir apesar de tudo. Ele ofegava contra a orelha dela, um som rouco que a eletrizava. Já não pedia que ela dormisse. Só esperava, o corpo entregue, e o que começou como uma invasão já parecia uma queda livre.
Ele puxou a camiseta velha por cima da cabeça dela e a calça ficou enroscada nos tornozelos, algemas inúteis. Ali estava ela, completamente nua, uma obra de suor e sombras. Ele afastou o cabelo do pescoço dela e começou a lamber, a mordiscar o lóbulo.
— Renata, você está divina — sussurrou.
Se ajeitaram de lado, ela com as pernas recolhidas. Mas ele não se apressou: quis brincar. Pegou o membro e começou a passá-lo devagar entre as dobras do sexo dela, de cima a baixo, sem entrar, deleitando-se no contato com uma lentidão que a enlouquecia. A umidade dela, cada vez mais abundante, ia lubrificando-o e deixava um rastro pegajoso sobre a carne dele.
Renata arqueava o corpo minimamente, buscando mais pressão, mais fricção, qualquer coisa que aliviasse a tensão crescente. Virou o rosto até encontrar a boca dele e se beijaram enquanto os seios subiam e desciam a cada suspiro, os mamilos duros implorando para serem apertados. Ele percebeu a delicadeza do sexo dela, os pelos finos e bem-cuidados do monte de Vênus, próprios de uma garota de casa que se cuida. O contraste entre essa delicadeza e a selvageria da situação era o maior afrodisíaco.
Não aguentou mais o jogo. Vê-la rendida, tremendo à beira do precipício que ele mesmo havia criado, acendeu uma urgência primária. Encaixou o corpo no vão perfeito do dela e, com um único movimento, já estava dentro.
Os dedos dele retorciam os mamilos endurecidos, arrancando gemidos longos e graves. A rola, úmida e escorregadia, entrava e saía sem encontrar resistência, só uma recepção voraz, até que a virilha dele se apertava contra aquelas nádegas firmes, enterrado até o fundo. Saía quase por completo, deixava a ponta brincar na entrada e voltava a afundar num impulso longo e contínuo. O choque seco do corpo dele contra o dela se misturava aos ofegos dos dois.
— Assim? — sussurrou contra o ouvido dela, a voz quebrada pelo esforço —. Assim, Renata?
Ela só conseguiu responder com um gesto desajeitado da cabeça. Procurou a mão que a torturava no peito e a apertou com força, cravando as unhas.
Ele acelerou, um martelar carnal que a estremecia por inteira. A cama rangia e batia na parede com um ritmo insistente. O suor dos dois os deixava escorregadios. Ele levantou a perna dela sobre a sua e a nova posição lhe permitiu ir ainda mais fundo; cada golpe agora tocava um ponto que a fazia ver estrelas.
— Isso! Aí! Não para! — gritou ela, as palavras partidas e suplicantes.
Foram o combustível de que ele precisava. Perdeu-se no calor, na umidade, no sexo dela se contraindo ao redor dele, nos gemidos cada vez mais altos. O mundo se reduziu àquele ponto de união, àquele vai-e-vem feroz, à certeza de que estava desfazendo-a e refazendo-a à sua imagem naquela mesma cama.





