Debaixo dos saltos da gladiadora loira
O amanhecer se infiltra pelas janelas do Grande Salão com essa luz pálida que não aquece nada. Depois de uma noite inteira de gritos contidos e correntes, o ar conserva o cheiro de suor ácido, de iodo concentrado e da fumaça fria das tochas. Não há um grama de bondade nessa claridade: parece a lâmpada de um inquisidor.
No canto mais sombrio, preso ao infame Pilar das bestas, Damián pende inerte de um arnês de couro grosso. A pele, antes morena, exibe um tom cetrino. Sua respiração é um assobio áspero que arranha a garganta ressecada depois da purga química que a curandeira real lhe aplicou depois da meia-noite. Entre suas coxas, a fria jaula de aço do aparelho de castidade brilha com a luz da aurora; o longo cateter estriado, alojado no mais fundo de sua uretra lacerada, é uma âncora de dor crônica que não o deixa esquecer a quem pertence sua rola. Porque sua rola já não é sua: é um pedaço de carne enjaulado, inchado em vão contra as grades de aço, condenado a tentar endurecer sem jamais conseguir. Cada ereção abortada morre esmagada contra o metal, e o cateter o morde por dentro para lembrá-lo de que até o prazer mais elementar lhe foi confiscado pela coroa.
A poucos metros, sobre um sofá de veludo verde-garrafa, a guarda Lira cochila. O cansaço a venceu, mas sua mão direita permanece pousada sobre o punho da adaga regulamentar, um reflexo treinado ao longo de anos de serviço.
O silêncio sepulcral se rompe com o estalo metálico das trancas. As portas principais se abrem de par em par.
A rainha Isolda entra e a atmosfera do salão se adensa, como se o próprio ar se inclinasse para lhe dar espaço. Ela decidiu receber a manhã envolta num vestido de veludo púrpura tão escuro que parece beber a luz, bordado com fio de ouro e centenas de pequenas pérolas. O decote é quadrado e rígido, ovalado com sutileza sobre cada um de seus seios, realçando sua figura sem que ela perca um grama de autoridade régia. Sob a trama pesada adivinham-se peitos fartos, brancos, coroados por mamilos grandes que até um cervo detectaria do outro lado da floresta; e mais abaixo, a certeza de uma xana real, depilada e perfumada, à espera de ser servida quando a monarca quiser.
O que define a monarca está em seus pés. Sob o ouro e o veludo, Isolda não calça chapins de seda nem plataformas de rainha, mas sandálias baixas de couro, quase planas, de desenho rústico. As correias, entrelaçadas em cores terra e mostarda, evidenciam uso intenso. As unhas espreitam entre as tiras, pintadas de um vermelho agressivo, em harmonia com o vestido. A rainha prefere calçados confortáveis, e para consegui-los doma o couro à força de passos e peso, molda-o até que a sandália se renda ao formato exato de seu pé. Assim como doma o reino. Assim como doma os homens.
À sua direita, um passo atrás, entra uma visão que rompe a escuridão gótica da soberana. Uma loira de beleza quase divina, capaz de irradiar um fulgor dourado e mortífero. Aurelia. Longa cabeleira da cor do trigo, presa com disciplina marcial num rabo de cavalo alto que balança ao ritmo de cada passo. Corpo de atleta, fibroso, enfiado numa couraça de couro claro cravejada de rebites prateados, cortada ao corpo como um corselete tático cujo amplo decote deixa parte do ventre à mostra. Os seios altos e firmes da gladiadora empurram contra o couro endurecido, e a couraça é construída de tal modo que os dela ficam emoldurados como duas frutas proibidas prestes a romper o arnês.
Ela calça sandálias de gladiadora que sobem pelas panturrilhas até a metade da coxa bronzeada, amarradas com correias de couro preto. Em contraste com o desenho plano da rainha, as suas se erguem sobre um salto maciço de cinco centímetros, calculado para bater contra a pedra com autoridade castrense sem perder agilidade. Os pés, espiando entre as tiras, ostentam uma perfeição quase pintada: arcos altos, dedos proporcionais, pedicure impecável. Como insígnia de seu cargo, segura na mão esquerda um longo chicote trançado de couro preto, cuidadosamente enrolado.
Os passos da rainha, somados ao clac, clac rítmico dos saltos de Aurelia, arrancam Lira de seu torpor. A guarda pisca atordoada e, ao descobrir sua soberana plantada à sua frente, empalidece. Erguer-se num salto, alisa o uniforme amarrotado e se inclina apressadamente, as faces inflando num rubor culpado.
Isolda se planta a alguns passos do sofá. Não grita. Sua decepção fria é infinitamente mais temível do que qualquer fúria desatada.
— O descuido, Lira, é o primeiro degrau rumo à traição — sussurra, com uma voz que desliza como seda sobre lâminas —. Enquanto buscas abrigo no sono dos justos, teus deveres apodrecem ao relento. Achas mesmo que um castelo se guarda com as pálpebras fechadas?
Lira aperta a garganta, os olhos cravados nas sandálias gastas da monarca.
— Perdoai-me, minha excelsa senhora. O cansaço da purga, eu…
— Silêncio — corta Isolda com um gesto mínimo da mão de unhas vermelhas —. Quero tomar café da manhã aqui, sob esta luz, com minhas posses à vista. Desce às cozinhas e sobe as bandejas de prata: uvas cristalizadas do sul, figos maduros, queijo fresco, pão quente e o melhor vinho das adegas. Se te demoras, dormirás a próxima noite pendurada num arnês, junto com nossa mascote, com um consolador de madeira bem encaixado no cu para aprenderes como é ser um móvel.
Lira, mortificada e aliviada por não ter sido enviada às masmorras junto de Mira, executa outra reverência e abandona a sala quase correndo.
Isolda dirige o olhar ao extremo do salão, onde o corpo inerte de Damián continua suspenso no pilar. Um sorriso enviesado, sem um grama de calor humano, se forma em seus lábios pintados.
— Aurelia, minha vida — murmura, adoçando a voz ao apontar para a loira —. Parece que nossa pobre besta de carga adormeceu em seu berço de correias. Acorda-o. Tira-o desse cabide.
— À vossa ordem, minha rainha.
A gladiadora caminha até o Pilar das bestas. O contraste beira o grotesco: a perfeição dourada e radiante da guerreira ao lado da carne machucada, suja, arroxeada e encharcada de suor frio do cativo. Com movimentos cirúrgicos, desprende o contrapeso do aparelho, afrouxa uma volta da coleira e abre as fivelas que sustentam o escravo pelas axilas.
Sem o apoio do arnês, e com a corrente do pescoço ainda ajustada, Damián despenca para frente. Sem força para conter nada, as lajes recebem o impacto com um baque surdo que ecoa na sala.
O impacto o desperta de vez. Os ombros rangem, mas o pior está entre suas pernas: ao cair, o cadeado do dispositivo de castidade bate no chão e contra sua própria pelve. O cateter estriado, encaixado em sua uretra ainda tratada com iodo, é empurrado violentamente para dentro. Um relâmpago de fogo atravessa-lhe as entranhas, arrancando um grito abafado, parecido com o lamento de um animal moribundo. Sua rola enjaulada tenta se contrair por puro reflexo de dor, e as estrias de aço lhe arranham a uretra inchada como se passassem uma lima por dentro. Ele sente o iodo misturado com sua própria umidade brotar pela ponta do cateter e pingar sobre as lajotas, uma lágrima âmbar que não vem dos olhos.
Fica estendido sobre as lajotas, encolhido, tremendo sem controle. A boca tão seca que a língua parece um pedaço de lixa. A desidratação, alimentada pelo trauma e pela febre, o consome por dentro.
— Está sedento — constata Isolda com a frieza de um médico —. A febre exige líquido ou seus rins vão falhar e a diversão acabará cedo demais. Aurelia, hidrate-o. Mas faça isso segundo nossos costumes.
Aurelia esboça um sorriso deslumbrante: dentes brancos que contrastam com a crueldade assentada em seu olhar. Aproxima-se da pequena fonte de pedra lavrada e pega um pesado cálice de prata. Mergulha-o e o enche até a borda com água cristalina e gelada.
Volta sobre os passos até se colocar diante do rosto do escravo, as sandálias a centímetros de sua boca aberta.
— Água, besta — diz com voz melódica —. Bebe.
Damián, impelido por uma sede enlouquecedora, tenta erguer a cabeça em direção ao cálice. Mas Aurelia, com um movimento fluido e deliberado, inclina a taça. A água não cai sobre a boca do escravo, mas sobre o peito do pé nu e perfeito de seu próprio pé direito.
O líquido gelado se derrama numa cascata brilhante. Choca-se contra a pele impecável, escorre pelas correias de couro preto, acaricia os dedos divinos e pinga até as lajes.
Damián entende de imediato. A humilhação é absoluta, calculada ao milímetro, mas a sede é um tirano mais forte que a dignidade. Com um gemido vergonhoso, lança a boca rachada para frente.
Começa a lamber e chupar freneticamente o peito do pé de Aurelia. A língua ressecada abre caminho entre as correias de couro, cola-se ao arco alto do pé, vasculha cada gota presa entre os dedos. Saboreia o contraste entre a pureza da água, o atrito firme do couro curtido, o calor da carne alheia e o rastro salgado do suor da gladiadora, que marchou desde a madrugada. Esse suor tem gosto de mineral, de fêmea em domínio, de poder. Passa a língua pelas tiras cruzadas, suga o líquido preso nas dobras e, quando a água acaba, busca mais pele: chupa o dedão do pé com a desesperação de um leitão faminto, enfia a língua entre os dedos, lambe a sola.
— Isso, cachorro — cantilena Aurelia, arrastando a ponta do dedão sobre o lábio inferior partido do cativo —. Chupa meus pés. Mete o dedo inteiro na boca, até a garganta. Essa tua língua serve melhor pra isso do que pra falar, não é?
Damián acena, obediente, e abre a boca. Aurelia empurra três dedos do pé até o palato. O escravo fecha os lábios em torno deles e suga com devoção, a língua serpentando entre as falanges, procurando qualquer fresta onde roubar mais uma gota. A saliva lhe escorre pelo queixo, mistura-se à água residual e cai sobre as lajes.
— Olha como ele baba — comenta a gladiadora sem deixar de sorrir —. Domestiquei esse focinho numa única noite, minha rainha. Já lambe como uma cadela no cio.
— Mostra o outro pé — ordena Isolda do trono, de pernas cruzadas —. Que aprenda a servir sem ciúmes.
Aurelia retira o pé direito da boca do escravo com um estalo úmido e coloca o esquerdo diante de seus lábios. Damián não espera ordem: se atira sobre ele como um cachorro sedento sobre a tigela, chupa o calcanhar, morde de leve a carne macia do arco, lambe as tiras pretas. Apesar de degradante, essa escassa quantidade de água e suor é maná caído do céu: o frio que apazigua o fogo da garganta arranca-lhe lágrimas de gratidão. Ele se transforma num cão sedento, ignorando a fisgada na uretra só para conseguir mais uma gota.
Aurelia o observa de cima, imóvel, desfrutando do poder absoluto que exerce sobre um homem reduzido a um réptil sedento. Nota uma umidade morna em sua própria xana, apertada sob o couro do tapa-sexo militar. Ver um macho choramingar aos seus pés, lamber-lhe os dedos com lágrimas de agradecimento, sempre lhe molha a calcinha. Toma nota mental: hoje terá de cuidar disso.
***
Quando o cálice se esvazia e o pé de Aurelia fica quase seco sob a língua devota do cativo, as portas se abrem de novo. Lira entra empurrando um pesado carrinho carregado de bandejas de prata reluzentes. O aroma de pão recém-assado, figos doces e vinho especiado arranca um ronco do estômago vazio de Damián.
— Excelente — murmura Isolda —. Tirem as algemas da criatura, Aurelia, e coloquem-no na posição. Meu trono é confortável, mas um café da manhã informal exige um suporte adequado para minha convidada.
Aurelia tira uma chave do cinto e, com desdém, abre as algemas que prendem as mãos do escravo atrás das costas. Ao ser libertado, os ombros de Damián rangem com uma dor paralisante e o sangue volta a circular pelos dedos entorpecidos.
— De quatro, junto da mesinha baixa — ordena Aurelia, fazendo o couro do chicote estalar levemente. O som basta.
Damián, gemendo, arrasta-se desajeitadamente. Apoia as palmas e os joelhos esfolados sobre as lajotas frias e se posiciona paralelo à mesa de carvalho onde Lira está arrumando o café da manhã. Mantém a cabeça baixa, com a coleira pesando no pescoço e a jaula de aço pendendo entre as coxas.
Isolda se senta majestosamente em seu trono, alisa o veludo púrpura e cruza as pernas, deixando uma de suas sandálias à mostra, descansando com arrogância no ar.
Aurelia, com aquela graça felina que contrasta com a armadura, aproxima-se do escravo. Sem dizer palavra, vira-lhe as costas e se senta com delicadeza sobre a coluna do cativo.
O impacto inicial arranca-lhe um arquejo sufocado. As vértebras cedem levemente sob a carga. Aurelia não é uma mulher pesada, mas o couro endurecido, os rebites de prata, as armas e a concentração do peso sobre a lombar impõem uma opressão sufocante. A gladiadora acomoda as pernas, apoia as solas no chão e distribui o peso com a precisão de quem se ajeita num banquinho. Damián, nesse instante, deixa de ser um corpo: torna-se um tamborete humano perfeitamente estável.
Não é a dor que rasga a carne, não é o fogo do ferro em brasa. É uma tortura sustentada. É a humilhação de ser convertido, em sentido literal e figurado, em um objeto inanimado, uma peça de mobiliário feita de carne, osso e silêncio.
Isolda e Aurelia conversam animadamente, suas vozes ecoando nas abóbadas do castelo. Falam da temperatura do vinho, dos impostos das províncias do oeste, das novas armaduras da guarda real. Cortam queijos, descascam frutas, tocam as taças em brindes esporádicos. As risadas claras flutuam no ar como sininhos de cristal.
E sob Aurelia, sustentando todo aquele peso, Damián tem de permanecer absolutamente imóvel. O estômago lhe ronca. O suor frio lhe orvalha a testa. Os braços e as coxas tremem pela tensão isométrica constante. Se os cotovelos cederem um milímetro, se as costas arquearem para aliviar a pressão sobre as vértebras, o corpo de Aurelia se desestabiliza.
Quando isso acontece, a guerreira não o bate. Simplesmente ajusta a postura. Move-se, cruza as pernas, transfere o peso de uma nádega para a outra para recuperar o conforto.
E esse é o verdadeiro inferno.
Cada vez que Aurelia se reposiciona sobre suas costas, a pele e os músculos do escravo se esticam e se contraem. Esse movimento se transmite à pelve, e a gravidade faz o pesado cadeado oscilar milimetricamente. Basta para que o longo cateter estriado deslize uma fração dentro dele. As estrias de aço roçam o tecido inflamado, em carne viva e banhado em iodo. Uma fisgada de dor aguda e enjoativa o atravessa da base do ventre até a garganta. A rola enjaulada tenta espasmar em vão, e cada espasmo empurra o cateter contra a carne esfolada por dentro.
Damián morde os lábios até quase fazê-los sangrar para não gritar. Um gemido arruinaria o café da manhã plácido de sua monarca, e ele sabe que o castigo seria voltar ao Pilar das bestas ou, pior ainda, mandar Lira recolocar o peso de chumbo.
Já não sou um homem, pensa entre névoas de dor. Sou um tamborete.
Seu castigo agora é a coisificação absoluta. Durante essa hora interminável, deixou de ser um escravo, deixou até de ser um alvo ativo de tortura. É um apoio para os pés. Roubaram-lhe tanta humanidade que suas donas nem lhe prestam atenção direta: usam-no porque é mais cômodo do que mandar buscar uma cadeira. Tem as mãos livres contra a pedra, mas essa liberdade é uma farsa: qualquer tentativa de aliviar o peso acaba se traduzindo em atrito uretral. As estrias do cateter são as verdadeiras grades de sua prisão.
No meio do café da manhã, Aurelia se move com particular deliberação. Damián sente a guerreira se inclinar para trás, apoiar as mãos na lombar do escravo e se reposicionar até encaixar a fenda de suas nádegas justamente entre as escápulas do cativo. Sob o tapa-sexo de couro, a gladiadora começa a balançar os quadris com um ritmo mínimo, quase imperceptível, esfregando-se contra o osso da escápula. A couraça lhe comprime os seios; os mamilos, endurecidos, empurram contra o couro.
— Minha rainha — ronrona Aurelia sem parar de se mover —, esse tamborete acabou se mostrando mais versátil do que o previsto. A curvatura de suas vértebras me serve perfeitamente para… me divertir.
Isolda arqueia uma sobrancelha divertida por cima da borda de sua taça de vinho.
— Aproveite, querida. Para isso o compramos. Se quiser, tira esse incômodo de couro e o monta com a xota à mostra. Que sinta bem o cheiro de uma mulher de verdade, já que nunca mais vai provar outra.
Aurelia sorri, satisfeita. Com uma mão, solta as quatro fivelas laterais do tapa-sexo militar e o afasta. A xana loira, depilada salvo por uma estreita faixa dourada, fica à mostra, já brilhante de umidade. Ela volta a se sentar sobre as costas de Damián, desta vez com a carne nua apoiada diretamente contra a coluna dele. O calor e a umidade são imediatos: o escravo sente os lábios abertos da gladiadora deslizarem contra suas vértebras, deixando um rastro pegajoso.
— Cavalga, besta — murmura Aurelia contra a nuca do cativo —. Mexe as costas como eu mando. Bem devagar. Me ondula sob o cu enquanto eu tomo café da manhã.
Damián, apavorado, começa a balançar a pelve num movimento mínimo. Cada vai-e-vem agita a jaula entre as pernas e lhe crava o cateter com uma dor nova, mas cada vai-e-vem também faz a xana de Aurelia se esfregar contra a protuberância do osso. A guerreira resfolega de prazer, apoia uma mão no cabo do chicote por reflexo e com a outra leva um figo maduro aos lábios. Morde a fruta e o suco doce escorre pelo queixo até pingar em gotas escuras sobre a pele do escravo.
— Mais rápido — ordena —. Como se você estivesse me fodendo, mas com as costas. É o único que te resta, criatura.
Damián obedece, gemendo por dentro. O atrito úmido da xana de Aurelia sobre sua coluna é uma tortura psicológica adicional: ele sente essa fêmea dourada aquecer por cima dele, sente o cheiro de fêmea excitada encher-lhe as narinas, sente sua própria rola enjaulada tentar responder e morrer estrangulada contra o metal. Brotam-lhe lágrimas silenciosas. Preso, humilhado, usado como consolador humano por uma mulher que nem se dá ao trabalho de olhar-lhe o rosto enquanto goza em suas costas.
— Isolda, minha rainha — arqueja Aurelia depois de alguns minutos, com a voz um tom mais rouca —, permitis?
— Vá em frente, minha capitã. Goza sobre meu móvel. Batiza-o com sucos reais, para que aprenda a que cheira o prazer que nunca mais vai voltar a dar.
Aurelia para de fingir. Esmaga a xana contra a escápula do cativo, se agarra à corrente da coleira com a mão livre e começa a se mover com vontade, já sem pudor. Os seios enfiados na couraça sobem e descem com a respiração acelerada. O clitóris inchado arrasa contra o osso duro do escravo. Um minuto inteiro de fricção brutal, e o orgasmo a sacode: um espasmo longo, silencioso, mas denso, que a faz apertar as coxas contra os flancos de Damián como quem monta um cavalo indomável. Um jato quente de sucos escorre pelas costas do cativo, desliza pela lombar e alcança a base do cu.
— Muito bem — arqueja Aurelia —. Muito bem, móveis novos. Mereces um descanso.
Ela lhe dá uma palmada displicente na nuca e relaxa, deixando a xana molhada apoiada contra a coluna dele, como se o escravo fosse uma toalha úmida que serve para se secar. Damián treme sob ela, a boca aberta, a garganta engasgada de saliva e humilhação. A rainha Isolda, sem parar de comer, sorri com aquela satisfação fria de quem vê funcionar bem um de seus brinquedos novos.
— Aurelia — diz depois de um gole de vinho —, quando terminares de se enxugar, quero que a besta lamba minhas sandálias. Estão sujas do jardim.
— Com muito gosto, minha rainha.
Mais um minuto e Aurelia finalmente se levanta. A xana lhe brilha, satisfeita. Sem qualquer cerimônia, ela se afasta com o tapa-sexo na mão e se recoloca junto de Isolda para se servir de outra taça, deixando o escravo agachado com as costas besuntadas.
Isolda estende uma perna. A sandália baixinha de correias em tons de terra fica balançando à altura do rosto do escravo. A sola está escurecida pela lama seca do jardim, e as tiras cheiram a couro curtido e a pé de rainha.
— Começa pela sola, mascote. E não deixe nem uma fiapo.
Damián se arrasta para a frente e estica a língua. Começa pelo salto: a língua tropeça em crostas de terra e areia. Ele fecha os olhos e continua lambendo. Cospe para o lado os torrões, volta. Lambe a planta desgastada do couro, sabor de pó antigo e suor real. Percorre a ponta, cada tira mostarda e terra, chupa o vão entre o polegar e o indicador do pé da rainha, detém-se com reverência sobre cada unha pintada de vermelho agressivo. Isolda, sem olhá-lo, gira ligeiramente o tornozelo para oferecer uma nova área, e Damián reage como um animal adestrado, sempre colado à pele da monarca.
— É aplicada, a coisa — comenta a rainha —. Aprende rápido. Outra taça, Aurelia.
Isolda mastiga lentamente um grão de uva cristalizada. Seus olhos se fixam na composição visual à sua frente. Como monarca obcecada pela estética do poder, a cena a fascina. De um lado, a perfeição radiante de Aurelia: os cabelos dourados captando a luz, a pele impecável, sua beleza intocável, ainda avermelhada pelo orgasmo. Do outro, servindo de assento e agora de pano, a anatomia destroçada do cativo: um amontoado de músculos trêmulos, pescoço preso por ferro negro, genitais encerrados numa jaula de aço polido, as costas vidradas dos sucos de outra mulher e a língua ocupada limpando a lama de uma sandália real. A divindade descansando sobre a miséria. Para Isolda, essa é a verdadeira imagem do poder de sua coroa.
***
O café da manhã se prolonga por uma hora agonizante. Quando enfim Isolda limpa os lábios com um guardanapo de linho, Lira se apressa em retirar as bandejas.
Aurelia se levanta das costas do escravo. Ao desaparecer o peso, a coluna de Damián range e um alívio doloroso o invade, seguido por um gemido surdo quando a jaula de castidade se assenta de novo pela gravidade. Ele se deixa cair de lado, exausto, com as costas pegajosas e a boca com gosto de couro e terra.
Isolda se ergue do trono. O vestido púrpura se arrasta com um sussurro opulento. Ela olha para Damián com uma mistura de tédio e cálculo.
— Leva nossa mascote para passear pelos corredores internos, Aurelia — decreta —. Faz com que ele se mexa um pouco. Músculos atrofiados não me servem para os jogos desta noite. Faz com que exercite, mas lembra-lhe o lugar dele.
A gladiadora vira a cabeça para o escravo. Um sorriso deslumbrante, frio como gelo, ilumina seu rosto de anjo. Contempla Damián não como um homem, mas como um cão de presa que toca levar para fazer suas necessidades.
Com um passo gracioso, aproxima-se do cativo e recolhe a pesada corrente de aço que pende da coleira de martingale. Enrola alguns elos na mão enluvada e puxa para cima com força seca e autoritária.
Os dentes da coleira mordem o pescoço do escravo. Damián é obrigado a se erguer rapidamente, mas antes que tente ficar de pé, um puxão descendente deixa claro o seu papel.
— De quatro, besta — ordena a loira com voz de cristal —. Os cães da rainha não andam sobre duas pernas. E se você se levantar, enfio o chicote no seu cu até sair pela boca. Entendido, mascote?
Damián acena com o queixo contra o peito, incapaz de articular palavra.
E assim começa o macabro passeio.
Aurelia inicia a marcha rumo às enormes portas de duas folhas que conectam o Grande Salão ao labirinto de corredores internos. Seu passo é elegante, seguro, rítmico. O clac, clac, clac dos saltos se torna o metrônomo do sofrimento de Damián.
O escravo engatinha atrás dela, arrastando joelhos e palmas que começam a se esfolar contra os mosaicos frios.
A biomecânica do engatinhar é uma tortura feita sob medida. Cada vez que adianta um joelho, os quadris basculam. Esse movimento pélvico agita o aparelho de castidade: o cateter estriado roça sem descanso contra o tecido banhado em iodo. O fogo, que havia adormecido, reacende com o atrito. Uma ardência aguda o acompanha a cada metro. A rola, enjaulada, estremece em espasmos abortados, inchando contra as grades e morrendo esmagada, uma e outra vez, num ciclo obsceno de excitação castigada.
Mas a tortura é uma arma de dois gumes. A rainha tinha razão: seus músculos, empanturrados de ácido lático depois da noite no arnês, precisam de movimento. O engatinhar, embora doloroso, lhe estira os isquiotibiais e bombeia sangue para as panturrilhas entorpecidas. Uma clemência profundamente condicionada. Sobrevive, mas o preço é altíssimo.
Se ele se atrasa por um único segundo, se a dor na uretra o faz hesitar, a corrente se tensiona na hora. A inércia do corpo de Aurelia puxa a coleira e os dentes metálicos se cravam na traqueia dele, ameaçando esmagar-lhe a laringe. Ele é forçado a acelerar o engatinhar, ofegando e tropeçando para manter a folga da corrente e conseguir respirar.
— Vamos, fodível — lança Aurelia por cima do ombro, sem parar de andar —. Mexe esse cu enjaulado. Mostra a todo o castelo como se passeia um macho a quem capamos a vontade.
Cada puxão, cada palavra, cada clac do salto contra a pedra, é uma nova camada de doma.
E então vem a destruição psicológica.
Os corredores não estão vazios. À medida que Aurelia o passeia, cruzam com o pessoal de serviço. Criadas com cestos de roupa, guardas de armadura, copeiros e escravos de menor hierarquia se encostam às paredes para dar passagem à gladiadora loira.
Todos baixam o olhar diante dela em sinal de respeito, mas os olhos inevitavelmente deslizam para a criatura que engatinha atrás da guerreira. Veem Damián, completamente nu, coberto de hematomas, com os joelhos ensanguentados, uma coleira de espinhos no pescoço e os genitais enjaulados no aço brilhante da castidade. Veem a baba pendendo de sua boca, as costas besuntadas do sêmen de xana da própria Aurelia e a submissão absoluta cravada nos olhos derrotados. Alguma criada jovem abafa um risinho nervoso; uma veterana se benze. Um guarda, com a rola já empinada sob a cota de malha, desvia o olhar com esforço.
Eles o passeiam não como prisioneiro de guerra, nem como homem castigado, mas como um animal exótico e quebrado, arrastando-se como um cão fiel e torturado atrás de uma deusa loira e inalcançável, cujos saltos imaculados marcam implacavelmente o ritmo de sua condenação sob a sombra eterna da coroa da rainha Isolda.