O que combinaram naqueles mensagens de voz
Sofia demorou três semanas para decidir gravar os áudios. Não era que não soubesse o que queria — sabia com uma precisão que a assustava, sabia até sentir a xota ficar molhada toda vez que pensava nisso —, mas dizer em voz alta, ainda que em mensagens que podiam ser apagadas, transformava a fantasia em algo real e negociável.
Na terça-feira à noite, com uma taça de vinho pela metade sobre a mesinha e Julián dormindo no quarto ao lado, gravou o primeiro. Depois o segundo. Depois o terceiro. Quatro minutos e quarenta segundos no total, divididos em três mensagens separadas, caso no meio de uma delas lhe faltasse coragem. Enquanto gravava a última, tinha uma mão dentro da calcinha, os dedos escorregando entre os lábios inchados, e se obrigou a tirá-los antes de gozar para não dizer qualquer safadeza que a denunciasse.
Enviou antes de poder ouvir. Era a única maneira de fazer aquilo.
Nesses áudios, Sofia explicava o que precisava: um fim de semana inteiro, quarenta e oito horas sem interrupções, sob o controle de dois Amos. Sem negociação durante esse tempo. Sem exceções. As condições de entrada eram simples: apresentar-se na casa na sexta-feira às sete da noite, nua, com o namorado dispensado para o fim de semana sem dar explicações. Disse com todas as letras: que a usassem, que a fodam como quisessem, que a tratassem como uma puta nos dois dias inteiros.
A resposta de Ernesto chegou doze minutos depois: um áudio de vinte e dois segundos. «Aceito. As condições agora são suas. Depois que cruzar a porta, são nossas. Você vai vir com a xota raspada e vai vir com fome.»
Mateo demorou mais. No dia seguinte, num texto sucinto: «Estamos de acordo. Nós dois. Traga a bunda preparada, vamos precisar dela.»
Os dois. Nenhum dos três tinha falado disso entre si até aquele momento. Nenhum sabia que os outros compartilhavam esse lado. Sofia também não havia percebido, ou talvez tivesse percebido e escolhido não pensar muito a respeito. Tanto faz: já tinha sido enviado.
Na sexta-feira de manhã, ela acordou com Julián preparando café na cozinha e passou três horas se perguntando se iria. Às duas da tarde fez a mala. Às quatro pegou o trem. Às seis e meia chegou à serra e estacionou o táxi em frente à casa de pedra cinza que conhecia desde sempre. Estava com a xota raspada rente desde a noite anterior, a calcinha encharcada desde a plataforma.
Entrou. Não disse nada. Subiu direto para o quarto.
***
Ernesto e Mateo estavam na casa desde o meio-dia. Tinham chegado separadamente, com meia hora de diferença, e levado mais um tanto para quebrar o silêncio entre eles. Não era exatamente desconforto: era a consciência de que o que os três vinham guardando havia anos estava prestes a deixar de ser só deles.
—Você falou com ela entre terça e hoje? — perguntou Mateo.
—Não. E você?
—Também não.
Ernesto preparou café. Mateo olhava o celular sem motivo real. Falaram dos preparativos, dos limites que Sofia tinha mencionado nos áudios e que nenhum dos dois pretendia cruzar, do que esperavam do fim de semana. Era uma conversa estranha pela praticidade, pela objetividade, que não teriam conseguido ter uma semana antes. Falaram de quem a comeria primeiro, de como iam se revezar, dos buracos que pretendiam abrir nela ao longo das quarenta e oito horas.
Falaram também de castigos. Do que fariam se ela não cumprisse alguma das condições de entrada. Era a primeira vez que os dois reconheciam em voz alta que vinham praticando esse tipo de dinâmica havia anos, cada um com suas próprias histórias, sem suspeitar que o outro compartilhava da mesma coisa. Ernesto comentou, sem erguer os olhos do café, que tinha prontas um par de pinças com peso e um plug do tamanho certo para começar a abrir o cu de uma iniciante.
Às sete menos cinco, Ernesto olhou o relógio da cozinha.
Às sete e dois minutos, a sala continuava exatamente igual.
Às sete e nove, Mateo deixou o celular de bruços sobre a mesa.
—Ela não desceu — disse.
—Tô vendo — respondeu Ernesto.
—Esperamos?
Ernesto se levantou da cadeira sem responder e foi em direção às escadas. Mateo o seguiu, já com o volume do pau marcando por baixo do jeans.
***
Subiram sem anunciar-se. A porta do quarto estava entreaberta. Ouvia-se movimento lá dentro.
Entraram.
Sofia estava de pé em frente ao espelho de corpo inteiro, terminando de enrolar uma mecha de cabelo. Vestia uma blusa de algodão azul-clara, os jeans com que havia chegado e sandálias de tiras. O celular descansava sobre a cama em silêncio: Julián ainda não tinha recebido nenhuma mensagem.
—Espera — disse ela sem se virar, olhando-os pelo espelho —. Acho que me precipitei com tudo isso. Foi o vinho de terça, sério. Julián vem me buscar daqui a pouco e não faz sentido que...
Ernesto não lhe deu tempo de terminar. Cruzou o quarto em quatro passos, pegou o cabelo dela pela nuca com a mão direita e puxou para trás com uma pressão firme e deliberada, o bastante para inclinar-lhe a cabeça sem causar dor de verdade. Com a outra mão, rasgou a blusa pelo ombro num puxão seco. Não era violência cega: era decisão.
A blusa cedeu até a cintura. Sofia não usava sutiã. Os seios ficaram expostos de uma vez, grandes e pesados, os mamilos já duros como pedra, balançando com a brusquidão do movimento. O batom que ela segurava na mão caiu no chão acarpetado.
—Para! O que você tá fazendo? Você tá louco!
—Nem Ernesto nem nada — disse ele, com a boca colada ao ouvido dela, em voz baixíssima —. Neste fim de semana você tem dois Amos. Nada mais e nada menos. E a sua xota é nossa desde faz quarenta segundos. Manda a mensagem para Julián. Agora.
Beliscou um mamilo com dois dedos ao dizer isso, sem avisar, e apertou até ela soltar um gemido involuntário.
Houve uma pausa.
—Você já tem três castigos acumulados. Por não ter aparecido na hora combinada. Por não ter cancelado com esse zé-ninguém antes de chegar. E por tentar voltar atrás quando nós dois estamos olhando sua boceta. Você vai pagar um por um, com o pau dos dois dentro e com marcas que vão durar até segunda-feira.
Sofia encontrou o próprio reflexo no espelho. Seus olhos. Os de Ernesto, atrás, ainda com a mão em seu cabelo e os dedos torcendo o mamilo dela. Os de Mateo, no batente da porta, com os braços cruzados, o olhar fixo no vão dos seios dela e a expressão de quem espera que uma situação se resolva da única maneira possível.
Não tem saída. Você montou isso exatamente assim. Você queria isso. Você queria que te comessem como uma vagabunda até domingo à noite.
Procurou o celular sobre a cama com a mão livre. Escreveu a mensagem para Julián com os dedos surpreendentemente calmos. Enviou. Colocou o celular de bruços.
—Tira o resto — disse Mateo. Era a primeira vez que falava desde que tinham entrado —. Rápido. E abre as pernas quando estiver nua, que eu quero ver se você obedeceu ao negócio da raspagem.
Sofia obedeceu com uma lentidão calculada, que já era a única forma de resistência que lhe restava. Desabotoou o jeans e o desceu pelos quadris. A calcinha, preta e encharcada até o tecido externo, ficou grudada nos lábios da boceta e arrastou um fio brilhante até o meio da coxa quando ela a tirou. As sandálias saíram aos pontapés. Ela se ergueu, abriu as pernas um palmo e os encarou.
Diante dos dois homens havia uma mulher de vinte e oito anos, alta, de quadris largos e pele bronzeada de fim de verão. Os seios caíam pesados sobre o tronco, os mamilos ainda vermelhos do beliscão. A boceta raspada reluzia molhada, os grandes lábios entreabrindo-se sobre os menores, inchados e já separados antes que alguém lhes tocasse. Uma tatuagem de linhas finas e geométricas rodeava o tornozelo esquerdo. O cabelo loiro lhe chegava aos ombros.
Mateo deu a volta nela devagar, sem tocar, tomando nota em silêncio. Quando passou por trás, separou-lhe as nádegas com as duas mãos e ficou alguns segundos olhando o cu dela. Soltou um assovio baixo, aprovador. Depois olhou para o pai.
—A boceta dela já escorre só de nos ver. E o cu tá apertado, mas virgem, dá pra ver de longe. — Fez uma pausa —. E a lista dos áudios?
—Longa — disse Ernesto —. Então a gente precisa trabalhar. Precisamos de coisas: ferragem, farmácia, ervanário, loja de animais. Corda, pinças, um par de plugs progressivos, lubrificante bom, um chicote. Te mando os detalhes no celular. Acrescente o que achar.
Mateo pegou as chaves do carro sem fazer mais perguntas. As chaves tiniram na mão dele. Antes de sair, virou-se para Sofia da porta.
—Não sai do lugar — disse, sem ênfase nenhuma, como quem lembra o óbvio —. E nem pense em gozar sem permissão, puta. Consigo sentir daqui.
O barulho do motor se afastando pela estrada de cascalho deixou o quarto muito quieto.
***
—Senta aí — disse Ernesto, apontando a cadeira de madeira ao lado da escrivaninha —. Pernas abertas. Mãos atrás do encosto. E escancara bem a boceta contra o assento, que eu quero que deixe marca.
Sofia fez isso. Ao apoiar a boceta nua na madeira fria, teve de morder o lábio para não gemer. Ernesto tirou da bolsa que havia preparado antes quatro tiras de couro trançado com fivela. Passou-as com cuidado ao redor dos tornozelos e das pernas traseiras da cadeira, depois pelos pulsos e pelo encosto. Os nós eram firmes, calculados ao milímetro: não cortavam a circulação, mas não deixavam margem para manobra.
Com os braços imobilizados para trás, a postura de Sofia mudava por completo. As costas se arqueavam ligeiramente para frente. Os seios ficavam em primeiro plano, oferecidos, com os mamilos apontando para o teto. As pernas, abertas e fixadas às pernas da cadeira, não deixavam espaço para recato: a boceta raspada ficava escancarada, os lábios separados, o clitóris aparecendo inchado e reluzente sob a luz da luminária.
Ernesto arrastou outra cadeira e se sentou diante dela. Não havia pressa em nenhum de seus gestos. Ele olhava a boceta aberta como quem estuda um mapa.
—Sabe o que é a primeira coisa que tem que medir numa escrava nova? — perguntou.
Sofia não respondeu. Não era insolência: ela realmente não sabia qual resposta se esperava dela naquele momento.
—A resistência. E a obediência. As duas coisas ao mesmo tempo, que é mais difícil do que cada uma separadamente. E, de quebra, vamos medir se sua boceta tem tanta fome quanto você disse nos áudios ou se era só a tacinha de vinho.
Levantou-se e ficou atrás dela. Pegou os dois mamilos entre o indicador e o polegar, um em cada mão, com uma suavidade que se tornava mais ameaçadora do que qualquer brutalidade.
—Presta atenção nas instruções — disse, falando no ouvido dela por trás —. Vou fazer isso durante um minuto exato. Não quero que você grite. Não quero que você se mexa mais do que a cadeira permitir. Não quero reclamação de nenhum tipo. Quando chegar ao limite — e você vai chegar —, você me olha, sorri e diz, com voz tranquila: «Isso foi bom, meu Amo. Obrigada.» Nada mais. Nada menos.
Fez uma breve pausa.
—Se não aguentar o minuto, recomeçamos. Com dois minutos no mínimo da próxima vez. E a seguinte com pinças, porque eu já as trouxe na bolsa. Você decide quanto tempo seus mamilos vão continuar úteis neste fim de semana.
Colocou o celular sobre a escrivaninha com o cronômetro na tela e apertou o início.
Os primeiros vinte segundos foram um aquecimento. Ernesto girava os mamilos com movimentos lentos e irregulares, sem ritmo fixo, apertava e soltava em ciclos que o corpo de Sofia não conseguia prever. Ela respirava pelo nariz, os dentes cerrados, o olhar fixo num ponto neutro da parede. Sentia a boceta se abrir mais a cada giro, o clitóris pulsando contra o ar frio do quarto.
Eu aguento isso. Aguento. Não goza. Não goza ainda, vadia.
Aos trinta e cinco segundos, a pressão mudou. Ele já não girava: puxava com uma mão para cima enquanto a outra tensionava em sentido contrário, esticando os seios para lados opostos até a pele ficar branca ao redor do beliscão. A dor passou de incômodo administrável para algo que exigia atenção urgente. Sofia fechou os olhos. Um gemido grave escapou da garganta antes que pudesse conter, um gemido que soava muito mais a foder do que a sofrer.
Ela sentiu o calor entre as pernas ao mesmo tempo que a ardência no peito. Um jato de lubrificação escorreu pela parte interna da coxa. O corpo dela respondia de um jeito que não tinha nada a ver com desconforto. Era mais antigo do que isso, mais honesto do que qualquer coisa que pudesse ter dito em voz alta. A boceta se contraía sozinha, procurando algo que a preenchesse, um pau, dois paus, o que fosse.
50, 49, 48. Ernesto acrescentou um puxão lateral brusco, como se testasse a resistência do material. Sofia apertou os lábios até perderem a cor. Uma gota de suor caía entre os seios.
40, 39. A mandíbula doía de tão tensa. Ela respirou duas vezes pelo nariz de forma deliberada. Ajudou, mas não muito. Embaixo, o assento de madeira já estava escorregadio de tão molhada que ela ficara.
25, 24, 23. Ernesto girava os dois mamilos ao mesmo tempo em direções opostas, com uma crueldade técnica que denunciava anos de prática. A umidade entre as pernas de Sofia se concentrava de um jeito impossível de ignorar. Sentiu o primeiro espasmo na boceta, pequeno, um aviso de que estava a poucos puxões de gozar amarrada àquela cadeira sem que ninguém tivesse tocado no clitóris.
Não goza, não goza, não goza. O outro proibiu você de gozar. Se você gozar agora, tá fodida até domingo.
10, 9, 8.
Eu não vou quebrar. Não aqui. Não agora. Aguenta, puta. Aguenta.
5, 4, 3.
—Isso foi bom, meu Amo. Obrigada.
A voz saiu com mais calma do que ela tinha direito. O sorriso custou mais, mas também saiu, com os olhos vidrados e os lábios trêmulos.
Ernesto soltou. Deu-lhe um momento para respirar. Depois contornou a cadeira devagar, agachou-se diante dela e olhou sua boceta escancarada a um palmo de distância, os lábios inchados, o clitóris tão tenso que parecia prestes a explodir. Então olhou para o assento.
Havia uma poça brilhante na madeira escura, grande o bastante para que um fio escorresse da borda da cadeira até o carpete. O corpo de Sofia não tinha qualquer ambiguidade sobre o que sentia.
—Bom — disse ele. Numa palavra só havia algo que não era exatamente aprovação, mas se parecia muito com isso. Passou dois dedos pelo sulco da boceta, devagar, recolhendo lubrificação, e os levou à boca sem tirar os olhos dela —. Você tem gosto de puta faminta. Eu disse. Tá com a boceta uivando e ainda nem começamos.
Sofia ergueu os olhos para ele. Havia algo novo no olhar dela, algo que Ernesto levou um instante para identificar. Não era alívio nem orgulho, exatamente. Era o reconhecimento de que fantasia e realidade tinham acabado de deixar de ser coisas distintas, e de que a boceta dela passara vinte e oito anos esperando exatamente por isso.
É isso que você queria. Exatamente isso. Ser tratada assim. Ser aberta. Ser usada pelos dois até não se lembrar nem do próprio nome.
Não por acaso os três tinham guardado essa fantasia durante anos, separadamente, sem saber que os outros a compartilhavam.
O som do carro de Mateo chegou pela estrada de cascalho. As rodas sobre as pedras, o motor desligando, a porta batendo com um estrondo seco. Ele voltava com as sacolas. Com as cordas, as pinças, os plugs, o lubrificante, o chicote. Com tudo o que entraria no corpo dela nas próximas quarenta e oito horas.
Sofia ouviu os passos dele cruzarem o corredor e pararem no umbral. Sentada na cadeira, amarrada e nua, com a boceta escorrendo sobre a madeira e os mamilos ainda vermelhos, não se mexeu. Esperou.
O fim de semana tinha acabado de começar de verdade.
