Quando seu antigo amo bateu à porta de Valeria
Valeria morava com os pais a cinquenta metros da minha casa. Tinha vinte e três anos recém-completos e há alguns meses nós estávamos em algo que nenhum dos dois sabia como chamar. Na maior parte das manhãs, ela ficava sozinha no apartamento, e eu aproveitava para atravessar a rua e ficar até a tarde com a desculpa de que assim fazíamos companhia um ao outro. Não era de todo mentira, mas também não era toda a verdade.
Com o tempo, tínhamos construído nossa própria dinâmica. Ela era direta, sem rodeios, com uma clareza sobre o que queria que nunca deixou de me surpreender. Eu aprendi a acompanhar seu ritmo. Começamos a explorar coisas que nenhum dos dois tinha tentado com outras pessoas, e cada vez íamos um pouco mais longe sem que ninguém tivesse decidido isso em voz alta. Ela me pedia coisas olhando nos meus olhos —"mete até o fundo", "cospe na minha boca", "me agarra pelo pescoço enquanto me fodes"— com a mesma naturalidade com que me pediria um copo d'água.
Me lembro de uma tarde em que ela me chamou do quarto dos pais. Encontrei-a de quatro na cama de casal, as costas arqueadas, completamente nua. Suas coxas pálidas e a curva da coluna contra a luz que entrava pela persiana entreaberta. Ela já estava com a buceta brilhando, os lábios inchados e separados, e uma mão enfiada entre as pernas esfregando o clitóris com dois dedos enquanto me esperava. "Vem me comer aqui, na cama dos meus velhos", me disse sem virar a cabeça. Fiquei no batente alguns segundos antes de entrar. Baixei a calça no corredor. Quando cheguei à cama, já estava duro e ela o agarrou com a mão livre, levou-o à boca e me chupou de joelhos antes de me dar as costas outra vez. Enfiei de uma só vez até as bolas e ela gritou contra o colchão. Fodi-a assim durante meia hora, apertando-lhe a bunda com as duas mãos, dando palmadas que deixaram sua pele vermelha, até gozar dentro dela e o sêmen escorrer por suas coxas sobre os lençóis de casal. Depois brincamos com as manchas que deixamos naqueles lençóis. Era esse tipo de relação: com espaço para humor até nos piores momentos.
O fato é que Valeria também não era simples. Tinha um gênio que fazia difícil acompanhar seu ritmo fora do quarto. Brigávamos por bobagens e nos afastávamos por dias. Nessa semana em particular, estávamos há sete dias sem trocar uma única palavra, e eu passava as manhãs fingindo que adiantava matérias da faculdade enquanto olhava de lado para a janela do quarto dela e me masturbava pensando nela, na sua buceta apertada, em como gemia quando eu puxava seu cabelo.
Na noite anterior, eu a tinha visto passeando com as amigas na calçada em frente. Depois chegaram uns caras. Ela flertou sem disfarçar, com essa facilidade de quem sabe exatamente o efeito que produz nos outros. Eu a observei do meu quarto com uma inveja que eu não queria reconhecer nem para mim mesmo.
***
Na sexta-feira, às dez da manhã, chegou sua mensagem.
—Não sei se você quer saber de mim agora, mas quero te avisar uma coisa: Bruno me escreveu hoje de manhã. Faz meses que não dá sinal e ficou de vir agora para conversar.
Fiquei com o telefone na mão sem saber o que fazer com ele.
Bruno era o ex de Valeria. Era dez anos mais velho que ela. Tinha sido seu primeiro amo —essa foi a palavra exata que ela usou da primeira vez que me falou dele— e eles tinham ficado juntos por cinco anos. Eu o conhecia só pelos relatos que Valeria me fazia em voz baixa, deitados na cama depois de transar, com aquela franqueza que algumas pessoas têm quando já não têm nada a perder. Ela me contou como Bruno a tinha iniciado em tudo aquilo. Como a tinha levado ao limite do que ela acreditava ser tolerável e como, ano após ano, esse limite foi recuando. Contou-me que, na primeira vez, ele a amarrou na cama com suas próprias meias e enfiou o pau no cu dela sem lubrificante, e que ela gozou gritando contra o travesseiro. Contou-me também que algumas dessas lembranças vinham sozinhas nos piores momentos, e que nem sempre era fácil decidir se isso era uma vantagem ou um problema.
Os relatos de Valeria sobre Bruno eram de uma precisão que deixava pouco espaço para a imaginação e espaço demais para a fantasia. Os encontros em lugares semipúblicos que sempre terminavam igual —ela ajoelhada chupando-o num banheiro público ou com a saia levantada contra o capô de um carro num estacionamento—. A maneira como ele a deixava sem fala com um único gesto. Os meses em que proibiu que ela se tocasse sozinha e como Valeria encontrou nessa proibição algo que não soube nomear até muito depois.
—Se o que você quer é curtir isso, pelo menos me conta o que vai acontecer —eu escrevi.
Demorou três minutos para responder. Chegou uma foto.
Ela estava diante do espelho do banheiro, recém-saída do banho. Usava a roupa íntima que tínhamos comprado juntos em novembro: um sutiã de renda preta semitransparente que deixava ver os mamilos eretos e o rosa da pele por baixo, e uma calcinha fio-dental que cobria quase nada, o triângulo mínimo de tecido colado ao monte e afundado entre os lábios da buceta. Tinha o cabelo molhado e a expressão tranquila de quem já tomou uma decisão e não precisa que ninguém a valide.
—Vou te mantendo informado —escreveu.
***
Eu o vi chegar da minha janela.
Bruno era exatamente como eu tinha imaginado a partir das descrições de Valeria: porte atlético, cabeça raspada rente, barba fechada sem aparar. Camiseta escura com manchas de suor nas laterais. Andava com a calma de quem sabe aonde vai e sabe também que o que vai encontrar quando chegar não exige nenhum tipo de preparação.
Valeria abriu a porta antes que ele batesse. Estava com uma saia jeans curta e uma blusa branca de alças. Da minha posição, eu podia ver o contorno da renda preta através do tecido fino. Bruno a olhou de cima a baixo sem dizer nada. Entrou.
A porta se fechou.
Liguei quatro vezes seguidas. Mandei mensagens que ficaram como entregues por mais de uma hora. Fiquei em pé diante da janela olhando para a fachada da casa dela como se isso fosse me revelar alguma coisa. Não revelou nada.
***
O que aconteceu lá dentro Valeria me contou naquela mesma tarde, com uma precisão que só têm aqueles que querem que você imagine direito, que querem que você esteja presente mesmo sem ter estado.
Quando fechou a porta, Bruno não a cumprimentou. Colocou uma mão sob seu maxilar, ergueu seu rosto e a examinou por um momento. Depois enfiou o polegar na boca dela até o fundo e disse, assim, sem mais: "Chupa." Valeria obedeceu, fechando os lábios ao redor do dedo e sugando enquanto o olhava de baixo. Sentiu o cheiro de suor e colônia barata misturados, e algo dentro dela respondeu antes que sua cabeça tivesse tempo de processar o que estava sentindo. Não via Bruno havia quase um ano, mas o corpo tem uma memória mais curta que a mente e mais honesta que as duas. Sentiu a calcinha umedecer só com aquilo, com um polegar na boca.
Bruno se atirou sobre os seios dela sem preliminares. Baixou as alças da blusa, desfez o sutiã com uma mão e prendeu um mamilo entre os dentes enquanto com a outra apertava o outro seio até fazê-la soltar um gemido. Chupou seus peitos um e outro, com a boca aberta e a língua larga, deixando-os molhados de saliva, mordendo os mamilos até deixá-los duros e arroxeados. Valeria me disse que foi exatamente esse momento —o da boca de Bruno aberta sobre ela, a língua áspera contra o mamilo ereto— que vinha imaginando havia meses sem querer admitir. Que, assim que sentiu, soube que se lembraria disso por muito tempo ainda. Que já estava com a buceta encharcada e sentia o fluido escorrer pela parte interna das coxas.
Bruno enfiou a mão por baixo da saia, puxou a calcinha de um tranco que fez o elástico doer contra o quadril, e afundou dois dedos na buceta dela sem aviso. Valeria gemeu e o peso do corpo foi para frente. Ele a segurou pelo pescoço com a outra mão e começou a bombear os dedos com força, curvando-os dentro dela, procurando o ponto que conhecia melhor do que ninguém. Em menos de um minuto, ela estava pingando na mão dele, com a saia arruinada e as coxas trêmulas.
—Você continua igualzinha, puta —ele disse, com a boca colada ao ouvido dela.
—Sim —ela respondeu, sem hesitar.
Ele a empurrou para o sofá.
Bruno sentou na beira e desabotoou o cinto sem pressa, com a mesma calma de antes. Baixou a calça e a cueca até os joelhos. O pau saiu duro, grosso, apontando para o teto, com a veia marcada e a glande vermelha. Colocou uma mão na nuca de Valeria e a guiou para baixo. Ela tentou marcar seu próprio ritmo, começar devagar com a língua ao redor da glande, lamber-lhe as bolas primeiro, mas Bruno não deu espaço. Enroscou os dedos no cabelo dela e apertou até Valeria não ter opção e engolir o pau inteiro de uma vez. Sentiu-o bater no fundo da garganta e vieram as ânsias de vômito.
Ela me disse que naquele momento não pensou em resistir, e sim no contrário: que se deixar levar lhe produziu uma sensação de alívio que não esperava encontrar ali. Os olhos se encheram de água. A baba pendia do queixo em fios grossos que caíam sobre seus peitos. Bruno empurrou a cabeça dela para cima e para baixo com as duas mãos, pegando sua boca como se fosse uma buceta, sem deixá-la respirar entre uma investida e outra. A saia subiu até a cintura. O som que encheu a sala foi seco e constante: o borbulhar da garganta, as ânsias abafadas, o choque das bolas contra o queixo dela.
De vez em quando Bruno tirava o pau e dava umas tapas com ele na bochecha, na língua esticada, e perguntava se ela estava gostando. Ela assentia de boca aberta, esperando que ele enfiasses de novo. "Cospe", ele ordenava, e ela cuspia um jato espesso sobre a glande e o enfiava outra vez na boca até a base, com o nariz esmagado contra o ventre dele e as lágrimas caindo nas bolas.
—Era exatamente como eu lembrava —ela me disse depois—. Não me surpreendeu. Me surpreendeu o fato de não me surpreender.
***
Bruno a ergueu do sofá puxando-a pelo cabelo.
Levou-a assim pelo corredor, fazendo-a andar de quatro com os peitos balançando e a bunda levantada, parando de vez em quando para apoiá-la na parede e enfiar dois dedos na buceta dela por trás para verificar o quanto de fluido tinha. Cada vez que os tirava, passava-os na boca dela para que ela os chupasse limpos. Valeria me contou que, cada vez que ele voltava a movê-la, as pernas lhe falhavam e a cabeça ficava em branco de um jeito que lhe custava descrever: como estar muito desperta e muito longe ao mesmo tempo. Sem dor real, só pressão e calor e uma certeza estranhamente clara de que aquele era exatamente o lugar onde queria estar.
No banheiro, ele se posicionou atrás dela em frente ao espelho. Passou um braço em volta do pescoço dela, sem força suficiente para machucar, só o bastante para mantê-la quieta e presente. Com a outra, ergueu sua saia, baixou a calcinha até os joelhos e começou a esfregar o clitóris com o dedo médio, em círculos lentos, olhando-a no espelho. Valeria me disse que o que sentiu naquele momento não era medo nem vergonha, mas algo parecido com se reconhecer: o espelho devolvia uma imagem sua que fazia tempo que não via e da qual não sabia que sentia falta. Viu a boca inchada, os seios à mostra com as marcas vermelhas das mordidas, o rímel borrado e a mão de Bruno entre suas pernas se movendo devagar até fazê-la gozar pela primeira vez, tremendo inteira contra o corpo dele, com os joelhos cedendo e a buceta escorrendo no chão do banheiro.
—Você não se arrependeu em nenhum momento? —eu perguntei.
—Em nenhum —disse. Sem hesitar.
***
O castigo veio de pé, contra a parede do corredor.
Bruno a colocou com as palmas apoiadas no reboco e começou. A saia enrolada na cintura, as nádegas expostas e ainda úmidas do orgasmo anterior. A primeira palmada soou forte, com a mão aberta, e Valeria deu um pulo. Depois veio a segunda, na mesma nádega, mais forte. Depois a terceira. Valeria me disse que contou as pancadas até a sétima e depois deixou de contar porque já não importava o número, só o calor que se acumulava e a maneira como esse calor se espalhava para dentro, até a buceta, a cada impacto.
Ele levou o seu tempo. Alternava os golpes com pausas longas nas quais simplesmente a deixava ali, quieta, esperando o próximo, enquanto passava a mão aberta pelas nádegas ardidas e às vezes enfiava um dedo no cu dela até a junta e o deixava ali por alguns segundos antes de tirá-lo e continuar batendo. Essas pausas eram as piores, ou as melhores; ela ainda não tinha terminado de decidir, me disse. A incerteza fazia parte do prazer.
Quando terminou com as palmadas, abriu-lhe as pernas com um chute leve no tornozelo, cuspiu na mão e espalhou a saliva pelo pau. Colocou a glande na entrada da buceta, esfregou-a de cima a baixo entre os lábios encharcados, encostou só a ponta e tirou. Encostou de novo e tirou outra vez. Valeria empurrou a bunda para trás, procurando-o, e Bruno deu outra palmada por se mexer sem permissão.
Quando Bruno a penetrou, finalmente, até o fundo de uma só investida, o som que Valeria fez saiu sozinho, sem que ela pudesse controlar. Um gemido longo, quebrado, que chegou até a rua, me disse depois com um sorriso que não era de vergonha. As mãos de Bruno seguravam seus quadris com os dedos cravados na carne e ele a fodia num ritmo que foi subindo de intensidade de maneira gradual. Valeria se apertava contra a parede buscando mais atrito, mais pressão, mais de qualquer coisa que ele estivesse lhe dando. Os dedos dela se agarraram ao reboco até quebrar as unhas. Os choques secos dos corpos —pélvis contra nádegas vermelhas, bolas contra clitóris— encheram o corredor estreito.
Bruno puxou-lhe o cabelo até arquear a coluna e falou no ouvido dela enquanto continuava a comê-la: "De quem é essa buceta?" Ela demorou a responder e ele diminuiu o ritmo até parar de uma vez, com o pau enterrado até as bolas e imóvel. "De quem?", repetiu. "Sua", murmurou ela. "Mais forte." "Sua!" E ele voltou a enfiar, agora mais rápido, mais fundo, até fazê-la gritar contra a parede.
Ele a tirou, virou-a e a colocou de frente para ele sem baixá-la ao chão: ergueu-a pelas coxas, esmagou-a contra a parede com o peso do corpo e a enfiou de novo em pé. Valeria cruzou as pernas na cintura dele e se pendurou no pescoço, mordendo-o, lambendo-o, enquanto ele a subia e a descia no pau como se ela não pesasse nada. Os peitos dela batiam contra o peito dele. Os dedos de Bruno exploraram sua bunda sem pedir licença, enfiando um polegar enquanto continuava a comê-la pela buceta. Valeria me disse que, nesses minutos finais, não estava pensando em nada concreto. Só em não sair do lugar onde estava, em tê-lo cada vez mais dentro, em gozar de novo. E gozou, apertando o pau com a buceta em espasmos que foram subindo dos calcanhares até a nuca, gritando na boca dele.
***
Quando Bruno terminou, a pôs no chão e deu um empurrão suave no ombro dela. Valeria se ajoelhou no chão.
Não porque ele tivesse pedido. Porque era o que ela queria fazer.
Ele enredou uma mão no cabelo dela e Valeria abriu a boca, pôs a língua para fora e o olhou de baixo, com os olhos vidrados e o queixo erguido. Bruno se masturbou diante dela com o pau brilhando de fluido e saliva, apontando para o rosto dela, até começar a gozar com um rosnado longo. O primeiro jato caiu na testa e na franja de Valeria. O segundo, no nariz e sobre a língua esticada. Os seguintes pintaram suas bochechas, a boca aberta, o queixo, o decote. Ela não fechou os olhos. Quando Bruno terminou, com o pau ainda pingando, aproximou a glande dos lábios dela e ela o chupou limpo, engolindo o que restava, sem deixar de olhá-lo.
Ela me disse que naquele momento se sentia inteira de um jeito que lhe custava explicar em palavras: como se algo que vinha há tempo um pouco desalinhado tivesse voltado ao lugar. Quando tudo terminou, ficou no chão por um momento, quieta, com as costas retas e a respiração lenta, com o sêmen adensando-se no rosto, sem sentir urgência nenhuma de se levantar ou de limpar aquilo.
Bruno se vestiu sem pressa. Na porta, parou por um momento e a olhou.
—Da próxima vez que você sumir tanto tempo —disse Valeria—, me avisa antes.
Ele não respondeu. Abriu um sorriso e saiu.
***
Da minha janela eu o vi atravessar a rua.
Passou diante da minha casa sem olhar para cima e dobrou a esquina. Fiquei mais um momento perto da janela, com o telefone na mão e a estranha sensação de ter passado toda a manhã do lado errado da rua. Uma mistura de coisas que não tinham nome fácil e que também não me urgia dar um a elas.
Dois minutos depois, o telefone vibrou.
«Vem. Quero te contar tudo.»
Troquei a camiseta, penteei o cabelo sem muita convicção e atravessei a rua. Valeria abriu a porta descalça, com o cabelo ainda despenteado e a calcinha de renda preta aparecendo pelo decote da blusa que tinha vestido pela metade. Tinha o rosto recém-lavado, mas o pescoço ainda marcado, um chupão roxo na clavícula e os peitos com as marcas vermelhas das mordidas cruzando o decote. A expressão no rosto dela não era culpa nem triunfo. Era a calma tranquila de quem acabou de fazer exatamente o que precisava.
Sentei no sofá.
Ela começou a falar, e eu a ouvi sem interrompê-la uma única vez.