A noite chuvosa em que confessamos tudo
Já fazia quase um mês desde aquela tarde na praia, quando tudo veio à tona. Um mês de silêncios calculados, de olhares rápidos que se desviavam antes de dizer demais, de risadas forçadas sobre qualquer assunto que não fosse aquele. Sofia e Diego continuavam com a vida de sempre — o trabalho, as compras do fim de semana, a série que tinham começado juntos — como se nada tivesse mudado entre eles. Mas alguma coisa tinha mudado, e os dois sabiam disso.
Sofia notava isso especialmente pelas manhãs, quando a lembrança voltava sem que ela a chamasse. Uma imagem solta, uma frase que ele tinha dito naquela tarde à beira-mar, e de repente ela sentia algo difícil de nomear. Não era exatamente ciúme. Também não era culpa, embora às vezes parecesse. Era mais aquela sensação de ter aberto uma porta cuja existência você nem imaginava e não conseguir parar de olhar através dela.
Diego, por sua vez, também não tinha saído ileso. Havia dias em que se lembrava dela na praia, contando aquilo com aquela voz que não pedia desculpas por nada, e sentia algo que não se encaixava bem em nenhuma categoria conhecida. Não era raiva. Era mais incômodo do que isso. Era querer saber mais.
Numa sexta-feira, no meio do outono, a chuva chegou sem aviso. Diego ligou quando Sofia levava apenas dez minutos em casa, ainda de casaco.
— Tô chegando — disse —. Trouxe pão de verdade. Prepara um chocolate quente.
Sofia tirou a roupa de trabalho, vestiu um suéter de lã largo que tinha começado sendo dele e preparou o chocolate. Acendeu a luminária da sala, procurou a série na tela, arrumou as almofadas no lugar de sempre. Quando Diego abriu a porta, vinha com o casaco encharcado e o cabelo colado na testa. Foi direto se trocar sem dizer grande coisa.
Se acomodaram no sofá como sempre: ele à esquerda, ela com as pernas em cima das dele, as canecas fumegantes sobre a mesa de centro. A chuva batia suave na janela da sala, desenhando filetes que distorciam as luzes da cidade. Assistiram a um episódio inteiro sem dizer nada que importasse.
Quando os créditos começaram a subir, Sofia foi buscar mais chocolate. Na cozinha, de pé junto ao fogão, ouviu a chuva e tomou uma decisão.
Voltou para a sala, deixou as canecas na mesa, sentou-se.
— Aquilo da praia te incomodou? — perguntou, sem rodeios.
Diego olhou para ela. Demorou um segundo para responder.
— Não.
— Faz um mês que a gente não toca no assunto.
— Eu sei.
— Não te parece estranho?
Ele deixou a caneca sobre a mesa e se virou para ela. A chuva continuava caindo do outro lado do vidro.
— Acho que nós dois precisávamos de tempo pra digerir aquilo. — Fez uma pausa —. Você se arrepende do que contou?
— Não — respondeu Sofia, e era verdade —. Mas não sei o que fazer com o que você me contou. Às vezes eu penso nisso e não sei se sinto ciúme ou algo completamente diferente.
— Diferente como?
Sofia deu um gole longo no chocolate antes de responder.
— Excitação — disse, num tom mais baixo.
Diego não tirou os olhos dela. Um sorriso pequeno cruzou seu rosto.
— Foi exatamente isso que eu senti com o seu.
Sofia assentiu devagar, como se aquela confirmação tirasse de cima dela um peso que nem sabia que carregava. O quarto pareceu menor de repente. Mais íntimo.
— Então o que a gente faz? — perguntou.
Diego estendeu a mão e segurou a dela.
— Te proponho outra confissão — disse —. Dessa vez eu começo. Você escolhe o tema.
Sofia pensou por vários segundos. A chuva continuava caindo. O chocolate esfriava devagar nas canecas.
— Me conta seu encontro sexual mais louco — disse por fim —. O que você nunca contaria a mais ninguém.
Diego fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, tinha uma expressão diferente: mais séria, mais íntima.
— Tá bom — disse —. Escuta.
***
— Eu tinha vinte e dois anos e trabalhava à tarde no depósito de uma distribuidora. Tinha uma supervisora, a Marcela. Quarenta e tantos, casada, com aquele jeito de se mover pelas instalações que dava a entender que controlava tudo e sabia de tudo. Ela me ignorava completamente desde o primeiro dia, e não sei por quê, mas aquilo me parecia um desafio.
Diego girava a caneca entre as mãos. O vapor subia, se dissipava.
— Numa noite, houve uma pane no sistema de estoque e ficamos os dois sozinhos na sala de controle, esperando o técnico. Já fazia quase duas horas que estávamos em silêncio. Eu fingia que checava alguma coisa no computador. Ela andava de um lado para o outro, digitando no celular. Então parou bem na minha frente e perguntou, sem rodeio nenhum: “Há quanto tempo você tá me olhando?”
Sofia não disse nada. Escutava sem se mexer, com os dedos imóveis em volta da caneca.
— Eu disse que não sabia do que ela estava falando. Ela sorriu e falou: “Claro que sabe. E tudo bem. Comigo acontece algo parecido.” — Diego fez uma pausa —. Ela me beijou ali mesmo, contra a estante metálica. Um beijo que foi beijo por uns cinco segundos, e depois virou outra coisa completamente diferente.
— Nessa sala?
— Nessa sala. Com as câmeras de segurança gravando tudo. Eu demorei um pouco pra sacar, e quando saquei, ela disse, sem perder a pose: “Não se preocupa. Eu apago no fim do turno.” Ela dizia isso enquanto já tinha tirado meu cinto e eu estava com as mãos na cintura dela sem saber direito como tinham chegado ali.
A voz de Diego ficou mais baixa, mais rouca.
— A gente se encostou na mesa de controle e ela abriu meu zíper com uma calma do caralho que me deixou doido. Baixou minha calça o suficiente pra sacar meu pau e o segurou com uma mão firme, pesada, como se já soubesse exatamente o tamanho que ele tinha e o quanto podia me apertar sem pedir licença. Eu tava duro como um animal, com as costas contra o metal frio e ela olhando na minha cara como se estivesse avaliando uma mercadoria. “Assim que eu gosto”, disse, e se ajoelhou na minha frente sem deixar de me encarar.
Diego engoliu em seco, mas continuou.
— Ela me chupou ali mesmo, na sala, com o zumbido dos monitores e a luz branca em cima do cabelo dela. Não foi um boquete delicado nem nada disso. Ela engolia o máximo que cabia, puxando saliva e devolvendo a cabeça do meu pau molhada, deixando os lábios brilhando com a minha própria porra de excitação. Me agarrava pelas laterais do quadril pra me puxar mais perto, pra enfiar mais fundo na boca, e toda vez que eu fazia menção de me mexer, ela levantava dois dedos e me parava na hora. “Fica quieto”, dizia. “Deixa comigo.” E, porra, eu deixei.
Sofia respirou fundo, devagar, sem desviar o olhar.
— O que mais me deixou sem palavras foi que ela não perdeu o controle em nenhum momento. Enquanto eu estava completamente fora de mim, ela continuava sendo a supervisora. Me dava ordens. “Mais devagar.” “Aí.” “Espera.” Com aquela voz de quem está acostumada a ser obedecida. Fez eu meter primeiro na boca, depois se ergueu, levantou a saia até a cintura e colocou a mão na minha nuca para me obrigar a baixar o rosto até a boceta dela encharcada. Cheirava a perfume caro e a suor limpo. Tinha a calcinha afastada e o clitóris inchado, brilhando, tremendo entre os lábios. Eu lambi como um desesperado, abrindo a boceta dela com a língua enquanto ela gemia baixinho, quase só um fio de ar, mas sem deixar de me olhar como se ainda tivesse tudo sob controle.
Diego apertou a caneca nas mãos. A chuva continuava batendo no vidro.
— Depois ela me fez ficar de pé, me empurrou de novo contra a estante e sentou no meu pau sem rodeio, seca como uma ordem. Foi me encaixando devagar, palmo a palmo, até me deixar enterrado nela, quente, apertada, tremendo em volta de mim. Eu perdi a cabeça. Agarrei os seios dela por baixo do suéter, apertei com força, sentindo o sutiã e os mamilos duros, e ela soltou uma risada curta, suja. “Isso”, disse. “Assim.” Aí começou a se mexer em cima de mim, subindo e descendo com aquela bunda pesada quicando contra minhas coxas, até a mesa vibrar com cada golpe do quadril.
— E você aguentou tudo isso? — perguntou Sofia, quase num sussurro.
— Mal. Ela me deixou tão fundo dentro dela que eu sentia cada centímetro roçando as paredes, cada contração, cada vez que apertava meu corpo com as mãos pra me fazer entrar mais. Ela não pedia licença pra nada. Me olhava no rosto sempre que gozava um pouco, como se conferisse se eu ainda estava vivo, e me dizia pra não ousar gozar ainda. Mas é claro que gozei. Ela gozou primeiro, apertando em volta do meu pau com uma força que quase me arrancou um grito, e quando senti ela tremer em cima de mim, eu me desfiz dentro dela também, enchendo-a de porra enquanto mordia o ombro dela pra não fazer barulho.
A voz de Diego ficou mais baixa, mais áspera.
— O pior, ou o melhor, foi depois. Ela saiu de cima de mim, ajeitou a saia, foi ao banheiro e voltou um minuto depois como se nada tivesse acontecido. Se olhou no espelho, alisou o cabelo, limpou a boca com um lenço e voltou pra mesa. Eu fiquei ali, com o pau ainda pulsando e as calças meio arregaçadas, vendo ela continuar trabalhando como se nada tivesse acontecido. Quando foi embora, me disse: “Bom trabalho.” Num tom completamente profissional. E saiu.
Diego soltou o ar devagar.
— Fiquei sozinho naquela sala sem saber exatamente o que tinha acontecido. Nunca mais tocamos no assunto. Continuei trabalhando lá por mais quatro meses. Ela me ignorava exatamente como antes. Nem uma olhada a mais, nada. Como se aquilo nunca tivesse acontecido.
O silêncio que se seguiu era espesso. Sofia tinha a caneca entre as mãos, mas não bebia.
— E isso te excitou? — perguntou —. O fato de ela te ignorar depois.
— Mais do que eu gostaria de admitir.
— Por quê?
Diego pensou antes de responder. Lá fora, a chuva seguia caindo sobre os telhados.
— Acho que porque ela não esperava nada de mim. Não foi uma conquista, não teve nenhum jogo preliminar. Era só o que era, sem mais. — Fez uma pausa —. Tem alguma coisa nisso que eu não sei explicar direito.
Sofia assentiu bem devagar, olhando para ele. Sim, ela entendia. Entendia perfeitamente.
***
Sofia deixou a caneca sobre a mesa. Olhou para as próprias mãos por um instante. Lá fora, a chuva continuava caindo sobre a cidade escura.
— O casamento do primo do Ignacio — disse —. Há três anos, em agosto.
Diego escutou sem se mexer.
— Foi um daqueles casamentos intermináveis. Muito calor, muita gente, o Ignacio já tinha bebido bem mais do que devia. Voltávamos de carro às três da manhã, pela rodovia, quase sem trânsito. Ele precisava parar urgentemente.
Sofia falou mais devagar, procurando as palavras exatas.
— A gente parou no acostamento. No escuro. Só passava um caminhão de vez em quando, com os faróis iluminando a gente por um segundo e depois de novo a escuridão. Eu também desci. Me abaixei ao lado do carro, erguendo o vestido de seda até a cintura, sentindo o frio do asfalto e o som da garoa na grama.
Fez uma pausa.
— Quando eu me levantei, o Ignacio estava atrás de mim. Me envolveu com os braços. E então percebi que ainda estavam caindo algumas gotas sobre o meu pulso.
Ela tocou o pulso, um gesto lento, quase inconsciente.
— Não pensei. Fiz sem mais: levei o pulso à boca. O gosto era salgado, estranho, e eu não deveria ter gostado. Mas gostei. E a cara que ele fez quando me viu fazendo aquilo.
Diego não tirava os olhos dela.
— O que ele fez?
— Me olhou por vários segundos, como se de repente tivesse aparecido na frente dele alguém completamente diferente. — Sofia apertou os lábios —. E disse: “Ajoelha.” Sem mais contexto, sem perguntar nada. Só isso. E eu obedeci. Ali mesmo, no acostamento da rodovia, com o asfalto frio sob os joelhos e os faróis dos caminhões nos iluminando por um segundo a cada vez, como flashes intermitentes.
Eu não tinha imaginado que poderia sentir algo assim no acostamento de uma estrada.
— Fiz com a boca. Ele tinha as mãos no meu cabelo e, toda vez que passava um caminhão, a gente era iluminado por um instante. O risco de sermos vistos era a coisa mais excitante que eu tinha sentido em muito tempo. Não a situação em si. O risco.
— E depois? — perguntou Diego, com a voz mais baixa que antes.
— Depois ele abriu a porta de trás do carro. Me ajudou a entrar, me colocou de quatro sobre o banco de couro e me fodeu com uma urgência sem nome. Sem preliminares, sem carícias antes. Só ele atrás de mim, a estrada lá fora, e eu agarrada ao encosto de cabeça tentando não gritar cada vez que passava um veículo. Ele me enchia inteira, batendo na minha boceta a cada investida, e eu mordia o lábio até sentir sangue pra não fazer barulho. Sentia as mãos dele me segurando as coxas, me abrindo mais, e o banco do carro rangia a cada impulso. Quando ele mudou o ângulo e levantou minha bunda um pouco mais, acertou exatamente naquele ponto que me fazia perder o juízo.
Sofia ergueu o olhar.
— Chegamos em casa com o vestido destruído. Despenteada, cheirando a noite e a sexo. Nenhum dos dois falou durante o resto do caminho. Só o rádio ao fundo. Eu olhava pela janela com as pernas ainda tremendo e pensava: nunca vou contar isso pra ninguém.
***
O silêncio que ficou depois era diferente do anterior. Mais carregado, mais denso. A chuva tinha amainado um pouco, mas o som das gotas contra o vidro continuava enchendo a sala.
Diego se inclinou para a frente, os cotovelos nos joelhos, olhando fixamente para ela.
— Vocês nunca repetiram?
— O acostamento, não. Mas alguma coisa mudou naquela noite entre a gente. — Sofia fez uma pausa —. Durou mais um tempo. Mas, enquanto durou, foi diferente. Como se eu tivesse encontrado uma versão de mim mesma que não sabia que existia. Ou que tinha decidido ignorar.
Diego assentiu devagar. Entendia perfeitamente do que ela estava falando.
— O que eu te contei sobre a Marcela — disse Sofia —. Você sente vergonha?
— Agora, aqui com você, não. — Ele a olhou —. E o seu?
— Também não.
Nenhum dos dois disse nada por alguns segundos. As canecas já estavam frias sobre a mesa havia um tempo. A série continuava pausada na tela, esperando.
— Sabe o que mais me chama atenção nessas confissões? — disse Diego.
— O quê?
— Que elas não nos afastam. Fazem exatamente o contrário.
Sofia o encarou por um longo momento. Lá fora, a chuva continuava caindo, mais suave agora, quase um murmúrio.
— E você o que faz — perguntou ela — com o que eu acabei de te contar?
Diego demorou a responder. Quando respondeu, a voz era baixa, quase um sussurro.
— Tento não fazer o mais óbvio.
— Que seria?
Ele ergueu a mão devagar. Os dedos roçaram o pulso de Sofia, exatamente no ponto em que ela tinha se tocado ao lembrar daquela noite na rodovia. A pressão era mínima. Quase nada. Mas ela sentiu o contato como se fosse algo muito maior.
— Isso — disse ele, em voz baixa.
Sofia não retirou a mão. Os dois permaneceram assim, imóveis, naquele silêncio carregado de tudo o que ainda não tinham dito. A chuva caía lá fora. A série esperava na tela. As canecas de chocolate, já frias, continuavam sobre a mesa.
Nenhum dos dois tinha pressa de quebrar o momento.