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Relatos Ardientes

Cobrei por sexo durante os meses em que mais doeu

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Tinha terminado o segundo ano da faculdade quando conheci Rocío. Estudávamos na mesma faculdade, embora ela fosse de outra área, e nos cruzávamos na cafeteria quase todos os dias. Durante dois anos, ela foi a coisa mais importante da minha vida. Era daquele tipo de pessoa que ocupa o espaço todo: tinha opinião sobre tudo, ria alto e não pedia permissão para nada.

Na cama, era exatamente igual. Subia em cima sem avisar, enfiava meu pau na boca até o fundo enquanto me olhava de cima, gozava com barulho e sem pedir desculpa por nada. Eu tinha vinte e dois anos e achava que aquilo duraria para sempre.

Não durou.

Quando terminamos, em janeiro, vivi aquilo de um jeito estranho. Continuei indo para as aulas, continuei saindo com os amigos, continuei funcionando. Mas havia algo quebrado por dentro que eu não sabia nomear nem consertar. O ultrassom emocional mostrava tudo em ordem; eu sabia que nada estava.

Três meses depois, eu a vi no bar onde a gente costumava se encontrar. Ela estava com um cara que eu não conhecia, com a mão dele na nuca dela e a cabeça dela inclinada para ele. Ela ria igual antes. Com a mesma risada que eu tinha acreditado ser só minha.

Fiquei paralisado na porta durante segundos que se alongaram demais. Depois entrei, pedi uma cerveja, depois outra, e depois perdi a conta de quantas tinham sido.

***

Não sei exatamente por que acabei naquele bar de ambiente. Era um daqueles lugares escuros e sem pretensão que existem em todo centro urbano, com música que ninguém ouvia de verdade e uma iluminação pensada para não deixar nada claro demais. Eu estava bêbado o suficiente para não me importar para onde ia, então entrei.

Havia um homem no balcão me olhando com insistência. Quarentão, barriga começando a despontar sob a camisa, uma aliança no dedo que ele não fazia questão de esconder. Não era atraente, pelo menos não para mim. Mas ele me olhava, e naquele momento eu precisava que alguém me olhasse daquele jeito.

Ele se aproximou, pagou outra bebida para mim e pôs a mão na minha coxa por cima da calça. Percebeu na hora que eu estava duro, mais por causa do álcool do que por causa dele, e sorriu como se tivesse vencido alguma coisa. Sussurrou no meu ouvido que o apartamento dele ficava a duas quadras. Assenti sem falar.

Acabei no apartamento dele sem saber muito bem como aquilo tinha acontecido.

Assim que fechou a porta, ele me empurrou contra a parede da entrada e enfiou a língua na minha boca com gosto de uísque e tabaco frio. Abriu minha braguilha ali mesmo, tirou meu pau e se ajoelhou sem dizer palavra. Chupou inteiro, com fome, de olhos fechados, enquanto se acariciava por cima da calça. Eu olhava para o teto, para o gesso branco, e pensava em Rocío. No riso de Rocío. Na mão do outro cara na nuca dela.

Depois me levou para o quarto, terminou de me despir e se despiu também. Tinha o peito coberto de pelos grisalhos e um pau grosso e curvado. Me colocou na mão, passou-o pelos meus lábios, pediu que eu o chupasse. Chupei. Chupei porque estava bêbado e porque não sabia o que mais fazer com a boca naquele momento. Ele enfiou até a garganta algumas vezes, me deu ânsia, gozou com um gemido rouco direto na minha língua sem me avisar e me obrigou a engolir o sêmen me segurando pela nuca. Tinha um gosto amargo, denso, que ficou grudado no meu paladar por horas.

Depois me deitou de bruços e abriu meu cu com as mãos. Enfiou dois dedos com saliva, sussurrou para eu relaxar, enfiou devagar, mas sem grandes contemplações. Doeu mais do que eu esperava. Apertei o rosto contra o travesseiro e aguentei. Ele me comeu pelo que me pareceram vinte minutos, respirando na minha nuca, apertando meus quadris contra o colchão. Gozei de novo dentro da camisinha com um rosnado curto. Eu não gozei. Nem tentei.

Quando ele terminou, me vesti em silêncio, desci as escadas e, assim que pus um pé na calçada, vomitei contra a parede.

Não era só o álcool.

Os dias que seguiram foram cinzentos e estranhos. Eu sentia que tinha cruzado algum tipo de fronteira sem ter decidido isso por completo, e que agora vivia num território cujas regras eu não conseguia entender bem. Não me sentia pior nem melhor. Só diferente, como se alguma coisa tivesse se recolocado dentro de mim sem que eu tivesse permitido.

Foi nesse estado que tomei a decisão que mudaria os meses seguintes.

***

Comecei devagar, quase como se fosse um exercício intelectual. Primeiro busquei informação de forma mais ou menos abstrata. Depois abri um perfil em um desses sites onde oferta e demanda se encontram sem precisar de apresentações. A primeira mensagem demorou três dias para chegar, e quando fui responder levei uma hora para escrever duas linhas.

O primeiro cliente era um homem de uns cinquenta anos: educado demais, nervoso, com uma história pronta sobre por que estava ali. Me pagou bem. Chegou ao quarto do hotel cheirando a colônia cara, pediu que eu me despisse devagar, me olhou como se eu fosse algo que ele queria ver há anos. Ajoelhou e me chupou com desajeito e com desejo verdadeiro, com os olhos erguidos buscando aprovação. Depois se pôs de quatro na cama e pediu que eu entrasse. Coloquei camisinha, lubrifiquei bem, enfiei devagar. Ele gozou sobre a colcha com um único golpe da própria mão, gemendo baixinho, quase pedindo desculpa. Ficaram marcas vermelhas nos quadris onde eu o havia apertado com os dedos. Eu terminei fora, sobre as costas dele, sem dizer palavra. O encontro foi breve. Saí para a rua sentindo algo que não era exatamente vergonha, mas também não era outra coisa.

Com o segundo foi parecido. Ele me pediu que eu falasse obscenidades enquanto o penetrava. Eu disse o que ele queria ouvir: que tinha um cu apertado, que eu ia foder até fazer dele meu, que ele aguentasse. Coisas mecânicas, ditas sem acreditar nelas. Ele gozou antes do tempo que tinha pago e foi embora quase correndo.

E com o terceiro.

O que descobri muito rápido é que a realidade desse mundo não se parece tanto com o que a gente imagina de fora. A maioria dos clientes era homem de meia-idade, muitos casados, alguns claramente sem experiência prévia nesse tipo de encontro. Chegavam com expectativas bem definidas e tempo cronometrado. Não queriam conversa. Queriam que eu os chupasse sem camisinha, que eu desse para eles, que eu gozasse na cara deles, que eu os abraçasse nu três minutos depois. Coisas concretas. Quase listas de compra.

Havia homens que chegavam tremendo. Homens que pediam desculpa antes de tirar o casaco. Homens que pagavam e depois não conseguiam me olhar nos olhos na hora de sair. Havia algo triste em tudo aquilo, embora eu tivesse dificuldade em precisar exatamente o quê.

Eu não gostava. Isso precisa ser dito com clareza. Meu pau endurecia por reflexo quando era preciso, eu gozava quando o roteiro pedia, mas não era prazer real. Era trabalho. Às vezes fácil, às vezes incômodo, quase sempre mecânico. Aprendi a separar o corpo da cabeça com uma eficiência que depois levei bastante tempo para desaprender. Eu podia estar dando para alguém enquanto, por dentro, pensava na lista de compras ou na última prova pendente.

Muitos dos que vinham buscavam coisas que não tinham coragem de pedir em outro lugar. Homens que queriam ser passivos e nunca tinham experimentado isso, que me pediam para ir devagar e depois suplicavam para eu enfiar até o fundo. Homens que precisavam que alguém os escutasse por dez minutos antes de tudo começar. Bissexuais que passavam anos guardando a vontade e com uma família em casa que não sabia de nada, que gozavam na minha boca em dois minutos e depois choravam na beira da cama. Aprendi mais sobre o desejo humano nessas semanas do que em qualquer conversa honesta que tive antes.

***

Eu estava nisso havia uns três meses quando recebi uma mensagem diferente.

Não havia nenhum detalhe escabroso nela, nenhum pedido formulado daquela maneira desajeitada com que geralmente se descreve o que se quer. Só dizia que queria ter sua primeira experiência com alguém que soubesse o que estava fazendo. Que tinha vinte e um anos. Que era tímida. Que tinha medo de errar com alguém do próprio círculo.

Eu respondi. Nos encontramos primeiro numa cafeteria, coisa que eu não tinha feito com nenhum cliente. Ela se chamava Andrea, ou pelo menos foi o que me disse, e era exatamente como nas mensagens: cautelosa, reflexiva, com uma inteligência serena por trás dos olhos. Era bonita de um jeito discreto, que não pedia atenção. O tipo de pessoa que passa despercebida sem querer.

— Por que assim? — perguntei em um momento da conversa.

— Porque com alguém conhecido haveria coisas demais em jogo — respondeu. — E eu não quero que minha primeira vez seja um acidente.

Entendi perfeitamente.

***

Fomos para o meu apartamento naquela mesma tarde. Havia aquela luz de fim de tarde que entra na horizontal e tinge tudo com uma cor que não é totalmente real. Ela entrou olhando ao redor sem disfarçar, como se estivesse tentando reconstruir quem eu era a partir dos objetos da sala.

— Você está bem? — perguntei.

— Sim — disse. E depois, após um segundo: — Bastante nervosa.

— Isso é completamente normal.

Não apressei nada. Sentamos no sofá e ficamos conversando um tempo sobre coisas sem importância, até notar os ombros dela relaxando. Há um momento em que o corpo deixa de ficar em guarda; isso é visível se a gente souber procurar. Quando notei isso nela, me inclinei para o lado dela.

O primeiro beijo foi breve, quase uma apresentação. Ela não se afastou. O segundo foi mais longo, com a língua já procurando a minha, e percebi a respiração dela acelerar contra minha bochecha. Pousei a mão na coxa dela, por cima da saia, e fui subindo muito devagar até a cintura. Deixei ali. Ela fechou os olhos.

Levei-a para o quarto com a mesma calma com que tínhamos chegado até ali. Parei várias vezes só para olhá-la, para ler o rosto dela. Nesse tipo de situação, saber parar é tão importante quanto saber continuar. Talvez mais.

— Como você está? — perguntei em voz baixa.

— Bem — disse, e dessa vez disse com mais convicção.

Fui tirando sua roupa devagar, peça por peça, e a cada momento esperava a reação dela antes de continuar. Desabotoei a blusa botão por botão, deslizei-a pelos ombros. Os seios eram pequenos, brancos, com os mamilos já duros sob o sutiã. Desabotoei pelas costas e o tirei com uma lentidão quase cerimonial. Passei a língua ao redor do mamilo direito antes de colocá-lo inteiro na boca. Ela soltou o ar de golpe e se agarrou à minha nuca.

Baixei a saia e as meias dela. Deixei a calcinha por um tempo, acariciando por cima do tecido, sentindo como ia se molhando a cada roçar dos meus dedos. O corpo dela estava tenso, não exatamente de medo, mas daquela expectativa específica que precede o desconhecido. As mãos frias, a respiração um pouco curta.

— Me diga se quiser que eu pare a qualquer momento — falei.

Ela assentiu com a cabeça.

***

Comecei com carícias longas nas costas, beijos no pescoço, nos ombros, na curva dos seios. Mordi de leve a pele sob a orelha e percebi o corpo inteiro dela se arrepiando. Senti a tensão ceder centímetro por centímetro, como quando se aperta uma mão fechada e nota os nós dos dedos começando a relaxar.

Quando desci com a boca pelo ventre dela e olhei de baixo, ela sustentou meu olhar por um instante e depois o levou para o teto.

— Posso? — perguntei, com os dedos no elástico da calcinha.

Demorou um instante. Ela ficou levemente vermelha. Depois disse que sim, bem baixinho.

Baixei a calcinha e tirei pelos pés. Ela tinha o cu raspado quase por completo, com um pouco de pelo escuro na parte de cima, e já estava visivelmente molhada. Abri as pernas dela com as mãos, sem pressa, e passei a língua inteira de baixo para cima em um único movimento longo. Ela fechou as pernas por reflexo contra minhas orelhas e as abriu de novo na hora, se desculpando com uma risada nervosa.

Era a primeira vez dela e dava para perceber no corpo todo: as mãos procurando alguma coisa para se agarrar, os dedos se enroscando no lençol, a respiração que ficou irregular de repente. Dediquei tempo de verdade, sem me apressar, lendo cada reação como se fosse um texto em uma língua que eu estava aprendendo a decifrar naquele momento. Chupei o clitóris com a ponta da língua, em círculos lentos, alternando com lambidas mais largas. Quando percebi que a respiração dela começava a falhar de um jeito específico, enfiei um dedo devagar. Estava estreitinha e quentíssima por dentro. Mexi devagar, curvando-o para cima, enquanto continuava chupando. Depois enfiei o segundo dedo.

— Ai… — sussurrou. — Ai, não para…

Não parei. Acelerei um pouco o ritmo da língua, mantive os dedos se movendo dentro dela, senti o interior inteiro se contraindo ao redor deles. Ela teve um orgasmo longo e profundo que a fez arquear as costas, fechar as coxas contra meu rosto e soltar um gemido agudo que saiu do peito sem que ela pudesse controlar. Deixei-a com os olhos fechados e a expressão completamente solta.

Quando recuperou o fôlego, sorriu sem me olhar. Era um sorriso para si mesma.

Depois pegou minha mão e a levou até a minha, até o pau que já estava duro havia um bom tempo contra minha perna.

— Me ensina — disse.

Guiei os dedos dela com suavidade, sem pressa. Ensinei a agarrá-lo pela base, a mover a mão para cima e para baixo com firmeza, mas sem apertar demais, a passar o polegar pela glande cada vez que subisse. As mãos dela aprenderam rápido, com aquela capacidade que o corpo tem de memorizar o que lhe dá prazer. Ela ficou com uma expressão concentrada, quase de aluna, que me pareceu desarmante.

Depois de um tempo, ela baixou a cabeça e me colocou na boca com uma desajeitação completamente honesta. Os dentes dela encostavam de leve na glande e ela se desculpava com os olhos. Fui dando instruções baixinho, sem pressioná-la, e ela foi aplicando tudo com uma concentração que me pareceu enternecedora.

— Cubra os dentes com os lábios — sussurrei. — Assim. Isso. Agora use a língua por baixo enquanto sobe.

Ela fez. Fez devagar e com cuidado, levantando o olhar para mim em busca de confirmação. Chupou assim por vários minutos, alternando com a mão quando cansava, até eu pousar a mão no rosto dela para parar antes que fosse tarde demais.

— Muito bem — eu disse. — Assim está muito bom.

***

Antes de continuar, parei por um momento inteiro.

— Tem certeza?

— Sim — disse. Sem hesitar dessa vez.

Tirei um preservativo da gaveta e o coloquei diante dela. Expliquei o que eu ia fazer antes de fazer, passo por passo. Usei bastante lubrificante, primeiro com os dedos, espalhando por todo o cu dela e por dentro com duas investidas suaves de dois dedos. Ela respirava forte, com os olhos semicerrados, agarrada aos meus ombros.

Abri as pernas dela com os joelhos, me posicionei entre elas e encostei a glande na entrada do cu. Prestei atenção no rosto dela o tempo todo. Empurrei um centímetro e parei. Mais um centímetro e parei. Houve um instante em que ela prendeu a respiração e fechou os olhos com força, e eu interrompi o movimento até que ela me indicasse com um gesto que eu podia continuar. Quando entrei todo, ela soltou um pequeno gemido que não era nem de dor nem de prazer, mas de algo intermediário, de espanto quase.

— Você está dentro — sussurrou, como se confirmasse para si mesma.

— Estou dentro — confirmei.

Comecei a me mexer muito devagar, com estocadas curtas, deixando-a se acostumar com a sensação. Depois de um tempo ela me envolveu com as coxas e pediu que eu fosse um pouco mais rápido. Atendi, sem exagerar. Agarrei um seio com a mão esquerda e rocei o mamilo com o polegar enquanto continuava a foder com estocadas medidas. Passei a outra mão por baixo da nuca dela e a beijei enquanto me movia dentro dela.

Trocamos de posição uma única vez, quando perguntei se ela queria experimentar por cima. Ela assentiu. Deitei de costas e a ajudei a subir. Ela se sentou devagar sobre meu pau, com as mãos apoiadas no meu peito, e desceu centímetro por centímetro até tê-lo inteiro dentro de novo. Ficou quieta alguns segundos, de olhos fechados, sentindo aquilo. Depois começou a se mover sozinha, com um balanço lento dos quadris que era pura intuição. Agarrei o cu dela com as duas mãos e ajudei a marcar o ritmo. As bochechas ficaram vermelhas, o cabelo caiu para frente, escapou um gemido que ela já não tentou conter.

Quando percebi que as coxas dela começavam a tremer, voltei a deitá-la de costas e terminei de fodê-la assim, com as pernas dela sobre meus ombros, entrando fundo mas sem brusquidão. Passei o polegar no clitóris enquanto me mexia. Ela gozou pela segunda vez, desta com menos volume, mas com uma intensidade que atravessou o corpo inteiro dela. Eu saí, tirei a camisinha e gozei sobre o ventre dela com dois golpes da mão. Ela me viu gozar com uma fascinação silenciosa, como se estivesse memorizando o momento.

Foi gradual, cuidadoso, nada parecido com a maioria dos encontros que eu tinha tido nesses meses.

Quando terminamos, ela ficou em silêncio por muito tempo olhando para o teto, com meu sêmen ainda morno sobre a pele, antes que eu passasse uma toalha úmida para limpá-la. Eu também não disse nada. Às vezes o silêncio é a única resposta que cabe ao que acabou de acontecer.

— Obrigada — disse finalmente. — De verdade.

— De nada.

— Não só pelo que você acha — esclareceu. — Pelo jeito que você fez. Pelo jeito que me tratou.

Não soube o que responder. Então não respondi nada. Mas guardei aquilo.

***

Aquela tarde foi um parêntese dentro de algo que, no geral, não tinha muito o que salvar.

Continuei nisso por mais alguns meses. Mais encontros com homens que chegavam com pressa e iam embora com mais pressa ainda. Quartos de hotel com a temperatura alta demais, lençóis cheirando a cloro barato, caras que gozavam na minha boca e limpavam os lábios com o dorso da mão antes de se vestir sem olhar para trás. Madrugadas em apartamentos com cheiro de tabaco frio. Pedidos que começavam e terminavam sem que ninguém olhasse ninguém muito nos olhos. Aprendi a ler as pessoas em questão de segundos, a saber o que queriam antes de terminarem de pedir. Não sei se isso é uma habilidade ou uma perda.

O que eu sei é que, eventualmente, parei. Não foi uma decisão dramática, não houve um momento concreto que a desencadeasse. Simplesmente chegou um dia em que decidi não responder mais mensagens, e esse dia virou uma semana, e essa semana virou um mês, e depois já não havia volta.

Rocío se casou dois anos depois com o cara do bar. Um conhecido em comum me contou. Não senti nada de especial quando me disseram, o que por si só já foi uma espécie de alívio.

De tudo o que vivi naquele período, o que mais ainda me custa entender é a ordem em que as coisas vieram. O término, o bar de ambiente, o trabalho, Andrea. Cada passo parecia uma consequência quase inevitável do anterior, como peças de dominó caindo numa direção que ninguém tinha planejado.

Não me arrependo de nada, ou não exatamente. Me arrependo de ter feito isso a partir de um lugar tão quebrado, que é uma coisa completamente diferente. Se tivesse sido uma escolha feita de um lugar mais inteiro, talvez fosse outra história.

Mas as decisões tomadas a partir da dor quase nunca são.

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