O que o ilhéu fez comigo depois do naufrágio
Quando saí do banho depilado e tonto de rum, vi-o sentado na cama com uma coleira rosa e uma peruca. Entendi que aquela ilha não era refúgio: era uma armadilha.
Quando saí do banho depilado e tonto de rum, vi-o sentado na cama com uma coleira rosa e uma peruca. Entendi que aquela ilha não era refúgio: era uma armadilha.
Até aquela noite, eu tinha sido completamente hetero. Bastou um filme mal escolhido, um travesseiro improvisado e a respiração de um desconhecido na minha nuca.
Lembro de cada nome, cada quarto e cada beijo. Mas ela me olha como se eu tivesse inventado todas as pessoas com quem passei a noite.
Ela abriu a porta quase nua, com aquele sorriso que já não era o de uma cliente educada, e eu entendi desde o primeiro minuto que aquele chamado não terminaria na junta do ralo.
Lucía nunca quis saber de homem. Camila era uma bomba que enlouquecia os hóspedes. Eu só tinha uma pergunta que não conseguia guardar.
Às onze eram só dois casais rindo em volta de uma garrafa; às três da manhã já éramos quatro corpos que não sabiam a quem pertenciam.
Voltávamos da praia para o camping quando uma garota pediu carona no meio do caminho. Eu não sabia que naquela noite descobriria outra coisa.
Fechei a porta do hotel, olhei para as mãos trêmulas dele e soube que aquele desconhecido estava tão assustado quanto eu. E nenhum dos dois pensava em ir embora.
Naquela tarde, eu não buscava amor nem explicações; buscava dois corpos diferentes no mesmo quarto de motel e a certeza de que ninguém jamais saberia o que aconteceu ali.
Quando o vi entrar no dark room atrás de mim, soube que a noite não terminaria na minha cama. Ele tinha o corpo que só se vê em revista.
Pensei que a chuva me deixaria sem nada. A vinte metros vi o rapaz moreno ao lado do banco, ensopado, e entendi que a noite só estava começando.
Passei anos imaginando isso vendo vídeos às escondidas. Numa tarde, uma mensagem em uma página de encontros, e um desconhecido entrou no meu carro pronto para mudar tudo.
Eles eram jovens, abertos e queriam algo diferente. O que não sabiam é que naquela noite no hotel eu também descobriria uma parte de mim que vinha escondendo havia anos.
Ela ergueu a taça do canto como se brindasse comigo. Ele se aproximou e me disse ao ouvido que queriam me levar ao apartamento em Pichincha. Eu não sabia o que viria depois.
Subi os quatro andares com o coração disparado. Queria um brinquedo, mas saí com algo mais: o olhar da garota atrás dos óculos gravado para aquela noite.
Minha mulher saiu com as «amigas» e eu fui para a casa de Mauricio. Uma câmera, dois casais e a pergunta de qual dos dois seria a melhor puta naquela noite.
Uma noite, depois de cervejas demais, eu disse sim. O que veio depois me obrigou a repensar tudo o que eu achava saber sobre mim.
Subi para o segundo andar do ônibus achando que dormiria as sete horas seguidas. Trinta minutos depois, um rosto surgiu entre os assentos e me perguntou para onde eu ia.
Andrés sabia exatamente o que fazia com as mãos. Cheguei com dor nas costas e saí com algo sem nome, em que ainda penso quando adormeço.
Eu já fazia tempo que queria fazer isso: escolher um homem em um lugar público e levá-lo para a cama. Naquela tarde no café, enfim tomei coragem.