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Relatos Ardientes

A criatura do farol me reivindicou como seu

A noite cheirava a salmoura e a peixe morto. Tobías ajustou as luvas, cuspiu na água negra do cais e continuou carregando caixas. O turno da noite era uma miséria, mas pagavam o dobro, e isso era a única coisa que lhe importava. Ou era o que ele repetia para si mesmo enquanto o frio lhe entrava nos ossos e o silêncio do porto lhe lembrava o quão sozinho estava.

Dois anos desde que sua mãe foi embora. Dois anos falando mais com as gaivotas do que com qualquer pessoa.

O estrondo o arrancou dos pensamentos. Algo pesado caíra entre as pilhas de caixas, no fundo do armazém. Pesado demais para um rato.

Empunhou a barra de ferro que sempre carregava consigo — o cais não era um lugar seguro de madrugada — e avançou em direção à escuridão. O som agora era um rasgar úmido, como algo dilacerando carne crua. E então a viu.

Uma silhueta agachada, ofegante. Braços longos cobertos de penas escuras que brilhavam sob a luz da lua. Pernas escamosas terminadas em garras curvas que se agarravam a um peixe como se fosse um troféu.

—Ei! — gritou Tobías antes de pensar.

A criatura virou a cabeça num movimento brusco. Seu rosto era quase humano, mas mal montado: a boca larga demais, os dentes afiados cheios de restos de carne, e os olhos amarelos com pupilas negras como fendas.

Erizou as penas do pescoço e bufou, como um animal acuado.

—Calma —Tobías ergueu as mãos, mas não largou a barra—. Vai embora e pronto. Não vou fazer nada com você.

A criatura piscou. Depois, com um movimento antinatural, inclinou a cabeça e farejou o ar.

—Você cheira… —sua voz era um assobio rouco— ...a medo.

Não teve tempo de reagir. Ela saltou com uma batida brutal das asas, um golpe seco contra seu peito, e depois só houve escuridão.

***

O vento gelado o acordou. Tobías abriu os olhos e o mundo era um redemoinho de sombras e clarões lunares.

Estava no ar. Seus pés pendiam sobre o vazio, o porto reduzido a um mosaico de luzes distantes. A criatura o carregava como uma águia carrega a presa, as asas abertas em uma envergadura monstruosa que tapava as estrelas.

E a dor. Uma garra se enterrava em seu peitoral, não o bastante para matá-lo, mas o suficiente para que cada bater de asas o fizesse sentir a lâmina roçando sua carne. A outra, mais abaixo, pressionava seu ventre, quente, como se pudesse abri-lo sem pressa.

—Solta-me! —gritou, chutando o vazio. Ela só apertou mais forte.

A criatura inclinou o rosto para ele, os lábios quase colados em seu ouvido.

—Se eu te soltar, você cai. E morre.

O pânico subiu pela garganta dele. Então ela riu, um som que não era humano nem animal, mas outra coisa.

—Seu coração está batendo mais rápido agora —observou, e era verdade; Tobías sentia a pancada frenética contra a garra que o perfurava—. É medo… ou você gosta de ser machucado?

O vento, o cheiro do próprio sangue, a pressão daquelas garras que podiam esventrá-lo em um segundo. E, ainda assim, um rubor doentio queimou-lhe as bochechas.

***

A descida foi brutal. As garras se cravaram mais fundo quando aterrissaram na caverna, as asas se recolhendo com um estalo úmido. O chão estava frio, coberto de ossos secos e escamas apodrecidas. O ar cheirava a sal e a vísceras.

Tobías tremia. Não conseguia controlar. O terror corria por seus nervos como uma descarga.

A criatura se inclinou sobre ele. As narinas se dilataram, as pupilas se contraíram.

—Você cheira a pânico —sibilou, e com um único movimento as garras lhe rasgaram a roupa, arrancando-a como papel molhado—. Os humanos sempre se quebram fácil demais.

Tobías gritou, mas o som morreu na garganta quando a língua da criatura o tocou.

Era longa demais, áspera demais, como a de um gato, mas coberta de pequenas espinhas. Começou pela coxa, com movimentos lentos, quase rituais.

—Você não serve se fede a terror —murmurou—. Vou te deixar limpo.

A língua subiu, arranhando-lhe o ventre, depois mais abaixo. Não havia gentileza nisso. Lamia como se quisesse arrancar-lhe a pele suja, cada passada mais firme, mais invasiva. As espinhas deixavam marcas rosadas, quase arranhões.

—P-pare! —gritou, mas sua voz saiu quebrada, sem força.

Ela o ignorou. Em vez disso, apertou-lhe as coxas com as garras para abri-lo mais e enfiou a língua ainda mais fundo, explorando-o com uma curiosidade perversa.

Tobías gemeu. Uma mistura de vergonha e algo mais que não queria nomear. A criatura riu, vibrando contra sua pele.

—Agora —sussurrou, retirando a língua devagar— você está pronto.

***

—Vael —disse, como se se apresentar fosse um capricho.

As garras o arrastaram sobre o leito de ossos e penas, seu corpo nu exposto ao ar da caverna. Tobías se debateu, mas cada movimento só fazia as unhas afiadas se enterrarem mais, desenhando linhas vermelhas sobre sua pele.

—Quieto —ronronou ela, a voz um zumbido entre os dentes—. Ou vou te machucar mais do que o necessário.

A língua de Vael voltou a deslizar sobre ele. Desta vez não era limpeza. Era exploração.

Começou pelos pés, lambendo entre os dedos com uma lentidão obscena, saboreando o suor. Depois subiu, raspando-lhe as panturrilhas, as coxas, detendo-se na virilha tempo suficiente para fazê-lo tremer.

—Você cheira diferente agora —murmurou, inspirando fundo—. Menos humano. Mais meu.

Tobías engoliu em seco quando a língua áspera se enroscou em seu pulso, subiu pelo braço e parou na axila. Segurou um gemido quando as espinhas roçaram sua pele sensível, deixando-a avermelhada e formigando.

—O-q-que você quer? —conseguiu dizer, embora já soubesse.

Vael riu, um som como o estalar de insetos sob uma pedra.

—O que monstros sempre querem —respondeu, aproximando a boca de seu pescoço—. Calor. Pele. Gemidos.

E então o mordeu. Não para matar nem para ferir. Para marcar.

Tobías gritou, mas a dor se misturou com algo que o envergonhou ainda mais do que a humilhação: seu corpo respondeu. Vael sentiu o cheiro, as narinas vibrando de prazer.

—Sim… —sussurrou, deslizando uma garra por seu peito, depois mais abaixo—. Agora mesmo você sabe delicioso.

***

Um estalo gutural saiu de sua garganta, seguido de algo úmido. Antes que Tobías reagisse, um jato de líquido viscoso e frio cobriu seu sexo ereto, uma substância translúcida que brilhava sob a luz fraca.

—Porra! —Tobías se estremeceu. O contraste entre o frio do fluido e o calor de sua própria excitação o fez arquear-se. Vael o observou com olhos de predadora satisfeita.

—Assim você vai durar mais —ronronou, deslizando uma garra por seu abdômen enquanto se acomodava sobre ele—. E assim vai doer menos.

Não houve mais avisos. Ela se deixou cair.

Tobías gritou. Era estreito demais, fundo demais, tudo demais. O corpo de Vael não fora feito para humanos; seu interior era uma combinação de músculos que apertavam e texturas estranhas, como se algo além de carne estivesse o espremendo.

—Respira —ordenou, cravando as garras em seus quadris para imobilizá-lo—. Ou você vai se quebrar.

Tobías arfou, tentando se adaptar, mas cada movimento dela o levava mais perto da fronteira entre a dor e o êxtase.

—Não… não consigo —conseguiu dizer. E ainda assim seu corpo o traiu, empurrando para cima por puro instinto.

Vael soltou um uivo que reverberou nas paredes da caverna, as asas se abrindo em um espasmo.

—Assim! —rugiu, afundando com mais força.

E então começou o verdadeiro tormento. Os movimentos eram rápidos demais, fortes demais, um ritmo animal que Tobías não conseguia acompanhar. Cada investida o sacudia contra o chão do ninho, os ossos rangendo sob suas costas.

Quando a boca dele se abriu em um grito desesperado, ela atacou. A língua se enfiou entre seus lábios com velocidade serpentina, invadindo-o antes que pudesse fechá-los. Não era um beijo. Era uma intrusão que ia além do carnal.

As espinhas ásperas lhe arranharam o palato, fazendo-o arquear-se. Um grito abafado vibrou em sua garganta, mas ela não parou. Empurrou mais fundo, até roçar o fundo, desencadeando ânsia.

—Gostou? —sussurrou Vael, afastando-se apenas o suficiente para falar—. Sua boca sabe a medo, mas seu corpo pede mais de mim.

E era verdade. Apesar da dor, da humilhação, da monstruosidade de tudo aquilo, Tobías estava duro como pedra. Vael sabia disso e o usava.

Com um movimento brusco, saiu de sua boca, um fio grosso de saliva ainda conectando os dois.

—Agora —ordenou, inclinando-se para lamber-lhe a orelha— grite. Quero ouvir como você soa quando eu te quebro.

E aumentou o ritmo. O mundo se reduziu a carne, suor e sons animais. Tobías já não podia pensar, já não podia resistir; seu corpo não era mais dele, era dela, um brinquedo que só existia para satisfazê-la.

Quando o último espasmo o atravessou, quando ele derramou tudo dentro daquele abraço monstruoso, Vael desabou sobre ele com um rosnado satisfeito.

As garras se fecharam em torno de seu rosto, não para machucá-lo, mas para limpá-lo. A língua áspera percorreu-lhe as maçãs do rosto, recolhendo lágrimas, saliva e suor, como se cada gota fosse um tributo.

—Bom humano —murmurou, com um sorriso de dentes demais—. Muito bom humano.

Tobías arfou, exausto, mas seu corpo ainda pulsava com os ecos do prazer forçado. Ela não o soltou. Acomodou-se sobre ele, como um animal descansando sobre a presa, e continuou lambendo-o, lenta, possessiva.

—Você não vai embora —sussurrou, não como ameaça, mas como fato—. Nunca.

***

Os primeiros dias foram um pesadelo de dor e humilhação. Vael não era paciente nem gentil. Era uma mestra brutal, e suas lições eram dadas com dentes e garras.

Se Tobías resistia a comer, ela o mordia até fazê-lo sangrar, obrigando-o a abrir a boca para receber o que lhe oferecia: peixe meio digerido e algo mais que lhe deixava a garganta ardendo e amortecida. Se tentava fugir, as asas o arrastavam de volta e as garras o castigavam. Se gemia alto demais, ela o abafava com a língua até deixá-lo em suspiros subjugados.

Mas, com o tempo, Tobías aprendeu. Aprendeu a se ajoelhar quando ela chegava. Aprendeu a abrir a boca antes que ela cuspisse sua comida. Aprendeu a ficar imóvel quando suas garras o percorriam, mesmo quando o medo lhe nublava a visão.

E Vael estava contente.

***

Seis meses depois, Tobías apareceu na vila como um espectro. Magro, abatido, com a pele marcada por cicatrizes novas. As sombras sob os olhos denunciavam noites sem descanso. A roupa pendia do corpo como um trapo velho.

—Tobías! Onde diabos você se meteu? —gritou o dono da peixaria, aproximando-se de braços abertos.

Ele recuou por instinto, como se o toque o queimasse.

—Eu fui embora. Uma viagem. Um acidente. Nada importante —murmurou, evitando os olhares. Sua voz soava rouca, como se tivesse esquecido como falar com humanos.

—A gente te deu por morto! A polícia vasculhou o cais inteiro!

—Eu sei. Foi por isso que vim.

Tirou do bolso uma sacola amassada com suas economias, o bastante para quitar as dívidas que sua mãe deixara. Não voltara por nostalgia. Voltara porque Vael permitira. Só por algumas horas. Só para encerrar capítulos.

—Vou embora outra vez —disse, com uma firmeza que não admitia perguntas—. Desta vez, para sempre.

Deixou a vila naquela mesma noite, sem despedidas dramáticas.

***

A neblina se fechou atrás dele enquanto ele deixava a vila pela última vez. Os passos pesavam, não por cansaço, mas por aquela sensação na nuca, como se algo o observasse das sombras.

Não precisou esperar muito. Um estalo de galhos. Um bater de asas roçando o mato. E então Vael surgiu de entre as árvores.

Os olhos brilhavam com uma raiva fria, as pupilas reduzidas a finas fendas. Os músculos das asas estavam tensos, as garras meio enterradas na terra, como se lutasse para não atacá-lo ali mesmo.

—Você se atrasou —sibilou, o veneno cortando o ar.

Tobías não fugiu. Não implorou. Em vez disso, ergueu a mão e a acariciou no lugar que já conhecia: bem sob a mandíbula, onde a pele era mais macia, onde seus ronrons eram mais profundos.

Vael fechou os olhos por um instante, o rosnado em sua garganta vacilando entre a raiva e o prazer. Mas não perdoou tão facilmente. Com um movimento brusco, ergueu-o do chão, as garras afundando em suas costelas com uma familiaridade brutal. O vento açoitou seu rosto enquanto subiam, a vila desaparecendo abaixo deles como um mau sonho.

Não houve palavras durante o voo. Apenas o som de sua respiração, ainda agitada pela fúria.

A caverna cheirava a musgo e a sangue velho. Vael o jogou sobre o leito de penas, sem cerimônia. Tobías não tentou se levantar. Sabia o que vinha.

—Você está sujo —ela cuspiu, arrastando a língua por seu pescoço com um gesto possessivo—. Cheira a eles. A humanos.

Cada passada era mais forte, mais abrasiva, como se quisesse arrancar-lhe a pele a lambidas. As espinhas deixaram marcas rosadas no peito, no estômago, entre as pernas, onde se demorou mais tempo.

Tobías reprimiu um gemido. Não era dor. Não era prazer. Era algo mais profundo.

—Nunca mais volte lá —ordenou Vael, mordendo-lhe o ombro com força suficiente para deixar um novo hematoma—. Ou da próxima vez eu não vou te limpar. Vou te comer.

A ameaça pairou no ar, mas ele já não tremia. Porque, no fundo, já não queria ir embora. E Vael sabia disso.

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