A noite em que humilharam Adrián no caminho para casa
Adrián só queria chegar em casa depois da aula. Dois desconhecidos num beco decidiram que aquela noite o transformaria no brinquedo humilhado de todo o bairro.
Adrián só queria chegar em casa depois da aula. Dois desconhecidos num beco decidiram que aquela noite o transformaria no brinquedo humilhado de todo o bairro.
Ninguém me ensinou a nomear o que eu sentia cada vez que fechava a porta do banheiro com a lingerie dela nas mãos e deixava sair a que eu carregava dentro.
Bastava fechar a porta, vestir a renda e acender a luz para deixar de ser Damián. O que ele não sabia era quem o observava do outro lado.
Eu estava há dois anos sem me vestir. Então encontrei a chave do quarto que a dona me pediu para não abrir, e lá dentro havia tudo o que eu precisava.
De dia, era o ajudante perfeito do ateliê; de noite, experimentava renda diante do espelho. Uma foto bastou para revelá-lo.
Sempre fui o garoto bonitinho, magrinho e de olhos verdes. Até cruzar a porta de uma academia e alguém me olhar como ninguém jamais tinha olhado.
Me depilei inteira, coloquei a peruca loira e atravessei a província com a mochila cheia de ilusões. O que eu não levava era o coração blindado, e esse foi meu erro.
Estava há cinco anos em seca e meu marido acabava de me propor um ménage em que ele participaria vestido de mulher. O mais louco: eu já sabia quem convidar.
Fomos encará-lo achando que estávamos no controle. Bastou ele fechar a porta do consultório para minha mulher e eu baixarmos a cabeça e obedecermos a cada palavra.
Não fui buscar prazer. Fui lembrar um desejo enterrado: pele macia, curvas, me sentir desejado. E ela, com um sussurro em francês, me deu permissão.
Pintei os lábios encostada no tronco, certa de que estava sozinha. Então ouvi o estalo de umas folhas e soube que alguém me observava havia um tempo.
Assinei minha renúncia sem olhar para trás. Naquela noite seria a última transa da minha vida como homem, e eu pretendia aproveitá-la antes de começar a ser quem Carla sempre quis.
Diante do espelho, com os lábios pintados e os saltos calçados, não vi ninguém fantasiado: vi a mulher que sempre quis ser quando me entrego.
Cruzei a porta do bar de saltos novos e o coração na garganta. Eu não imaginava que naquela noite alguém do meu passado entraria.
Cheguei à porta dele com uma bolsa escondendo minha outra pele: corset, meias e saltos. Nessa noite deixei de ser Adrián para me entregar inteira como Selene.
Fui à casa dele para que deixasse minha namorada em paz. Saí de lá sabendo que voltaria no domingo seguinte, e no outro, e em todos os que viessem.
A primeira vez que me vi no espelho com o vestido vermelho, soube que Daniela já não se contentaria em sair só quando o povoado dormia.
Bastou um sussurro junto ao meu ouvido para que toda a minha vida de homem correto começasse a desabar sob o clique de saltos que ainda não eram meus.
Fui pedir trabalho como garçom em um clube de beira de estrada. Três semanas depois, servia bebidas de tanga, salto alto e um nome novo: Adriana.
Aceitei o jogo só por uma noite: um vestido, uma peruca e um nome que não era o meu. Jamais imaginei que a garota do espelho me devolveria o olhar como se me esperasse.