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Relatos Ardientes

A condenação que transformou meu padrasto em mulher

Minha primeira lembrança nítida de Heriberto é das mãos dele sobre os ombros da minha mãe, apertando um pouco mais forte do que qualquer um apertaria por carinho. Eu tinha idade suficiente para entender que aquilo não era ternura, mas não coragem para dizer isso em voz alta. Minha mãe se chamava Dolores, e fazia jus ao nome todos os dias em que viveu sob o mesmo teto que aquele homem.

Quando ela adoeceu do coração, fui eu quem a acompanhou às consultas, quem aprendeu a ler os laudos médicos e a contar os comprimidos. Heriberto, por sua vez, desaparecia por semanas em endereços que ninguém conhecia. Dizia que eram viagens de trabalho. Nunca deixou um endereço, nunca deixou um número.

A operação que deveria salvá-la acabou levando-a embora. Avisaram a mim, na república de estudantes onde eu cursava meus estudos, porque eu era a parente mais próxima e porque, simplesmente, não havia mais ninguém para ligar. Assinei os papéis. Decidi a cremação. E, quando o juizado pediu para localizar o marido para notificar o falecimento, não houve jeito: estava ausente, em paradeiro desconhecido, como tantas outras vezes.

Enterrei minha mãe sozinha. Ou foi o que eu achei naquela época.

***

Heriberto reapareceu três semanas depois, assim que soube que o dinheiro da herança tinha ficado em meu nome. Apareceu na república com um terno que lhe caía apertado e um sorriso que me embrulhou o estômago.

— Vim te levar pra casa — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo—. Uma filha deve cuidar do pai. Foi pra isso que paguei seus estudos.

Era mentira. Ele nunca pagou nada. Mas disse aquilo diante da direção do centro com tanta segurança que ninguém questionou. Eu também não soube reagir. Juntei minhas coisas e o segui até o apartamento que durante anos tinha sido a prisão da minha mãe, e que logo seria a minha.

Levei exatamente duas noites para descobrir para que ele me queria de verdade.

***

Ele não precisava que eu cozinhasse nem que eu limpasse a casa. O que Heriberto queria era um corpo de que pudesse dispor e, melhor ainda, um corpo de que pudesse tirar proveito. Da primeira vez, entrou no meu quarto de madrugada sem bater, fedendo a conhaque barato. Eu dormia com uma camiseta longa e calcinha. Ele percebeu no segundo seguinte, arrancou o lençol de uma vez e tapou minha boca com uma mão que cheirava a tabaco.

— Quietinha, porra. Se gritar eu te arrebento a cara.

Ele arrancou minha calcinha num puxão. Senti o tecido rasgar minha lateral do quadril. Com a outra mão soltou o cinto, baixou as calças e abriu minhas pernas apoiando o joelho na minha coxa. Eu ainda não chorava, estava paralisada demais para chorar. Vi a rola dura dele pela primeira vez, grossa e cheia de veias, com o prepúcio meio recolhido, e entendi num segundo o que ia acontecer.

— Olha bem — rosnou —. A partir de hoje isso é o que te toca.

Ele cuspiu na mão, passou no glande e enfiou de uma vez, sem preparo, sem carinho, sem nada. Minha buceta estava seca e queimou por dentro como se tivessem me enfiado um ferro em brasa. Gritei contra a palma dele. Ele nem sequer parou: começou a me comer num ritmo brutal, empurrando com o quadril, apoiado com todo o peso sobre meu peito para que eu não conseguisse me mexer. Cada investida me subia pela espinha como um golpe seco. Eu ouvia a respiração ofegante dele no meu ouvido, o barulho obsceno da rola entrando e saindo, o ranger das molas do colchão. Ele apertava um seio com a mão livre, torcendo meu mamilo entre os dedos como se quisesse arrancá-lo.

— Buceta apertada de menina — ofegava —. Era isso que faltava nessa casa.

Durou pouco, por sorte. Senti ele tremer, dar mais três estocadas profundas e ficar cravado dentro de mim. Percebi o gozo quente me enchendo por dentro, jorro atrás de jorro, enquanto ele gemia com a boca colada no meu pescoço. Quando tirou a rola, escorrendo sêmen e sangue porque tinha me rasgado por dentro, limpou-se na minha camiseta e jogou-a na minha cara.

— Amanhã você lava — disse, e saiu do quarto fechando o cinto como se nada tivesse acontecido.

Fiquei horas imóvel, com as pernas abertas e a umidade esfriando entre as coxas, sem conseguir nem mesmo fechá-las. Aquilo não tinha sido desejo. Tinha sido dominação pura, uma maneira de me lembrar toda noite quem mandava naquela casa.

Com o passar dos dias entendi que aquilo tinha método. Heriberto recebia visitas. Homens com dinheiro que chegavam depois do jantar, que deixavam um envelope sobre a cômoda do hall e passavam para o meu quarto como quem entra numa loja. Ele cobrava. Eu obedecia. Tinha me tornado uma mercadoria dentro da minha própria casa, e o homem que deveria me proteger era o mesmo que colocava preço em mim.

O primeiro foi um sujeito gordo, de meia-idade, com aliança no dedo e hálito de uísque. Entrou no quarto já sem gravata, me olhando como se olha uma vitrine. Heriberto o tinha instruído no corredor: ele podia fazer o que quisesse, menos marcar o rosto. O sujeito cumpriu à risca. Me obrigou a me ajoelhar nua entre as pernas dele, segurou meu cabelo com as duas mãos e enfiou a rola na minha boca até a garganta. Não me deixava respirar. Me fazia engolir inteira cada centímetro daquela vara grossa, e quando eu tinha ânsia, sorria e empurrava com mais força.

— Chupa, puta, chupa direito — ofegava —. Seu pai cobrou uma fortuna por essa boquinha.

Ele me fodia a garganta por minutos que pareciam eternos, com as lágrimas e o catarro escorrendo pelo meu queixo, a saliva pingando nos meus seios. Depois me jogava de bruços na cama, abria meu cu com os polegares e me olhava como se olha um prato antes de comer. Naquela primeira vez ele me penetrou pela buceta, me segurando pela nuca contra o colchão, me comendo de quatro enquanto me dava palmadas na bunda que deixavam minha pele vermelha. Me chamava de puta, vadia, filha da puta, enquanto gozava dentro de mim com um gemido gutural.

Foi embora assobiando. Heriberto entrou atrás, contou as notas na minha frente e sorriu.

— Muito bem. Esse volta com certeza.

Os que vieram depois foram piores. Alguns chegavam em dois, em três. Me faziam chupar cada um por sua vez, um na boca e outro na buceta, enquanto o terceiro esperava com a rola na mão vendo o espetáculo. Me viravam como se eu fosse um boneco, abriam minhas pernas até meus quadris estalarem, enfiavam duas rolas ao mesmo tempo, uma na buceta e outra no cu, e gozavam no meu rosto, nos meus seios, no meu cabelo. Me obrigavam a engolir o gozo e a dizer obrigada. Um me bateu com o cinto na bunda com tanta força que eu dormi uma semana de bruços. Outro gozou dentro da minha buceta e depois me obrigou a lamber a rola cheia do sêmen dele e dos meus fluidos até deixá-la limpa.

Aprendi a aguentar em silêncio, a olhar para o teto e contar as fissuras até acabar. Aprendi a tomar banho com água quase fervendo, esfregando a pele com bucha até sangrar, porque nem assim eu conseguia me sentir limpa por dentro. Aprendi a cuspir o sêmen na pia sem embrulhar o estômago. Aprendi, sobretudo, a esperar. Porque dentro de mim, por baixo do medo, começava a crescer outra coisa: uma raiva fria, paciente, que não tinha pressa.

E Heriberto, aquele filho da puta, não se contentava em vender o que tinha na frente. Quando os clientes iam embora, muitas noites ele entrava para estrear a cama recém-esfriada. Me comia com o gozo alheio ainda dentro, enterrando minha cara no travesseiro enquanto me estocava por trás e sussurrava no meu ouvido o quanto eu tinha trabalhado bem aquela noite. Gozava dentro de mim mais uma vez, por cima da porra dos outros, e dormia ao meu lado como se aquela cama fosse dos dois.

***

O dia em que tudo explodiu foi uma terça-feira qualquer. Heriberto entrou na cozinha enquanto eu lavava a louça dos convidados da noite anterior e me agarrou pelo pescoço por trás.

— Hoje à noite vem gente importante — disse no meu ouvido —. Quero você especialmente complacente.

Fechei a torneira. Virei devagar e olhei para ele pela primeira vez sem baixar os olhos.

— Não — disse.

A palavra saiu mais firme do que eu mesma esperava. Ele piscou, como se não tivesse ouvido direito.

— Como é que é?

— Eu disse não. Estou farta de você me tratar como uma prostituta ao seu serviço. Sou uma mulher e sou eu quem decide com quem vai pra cama. E não é com você, nem com nenhum desses porcos que você paga para me foder.

— Mas olha a menina mimada — cuspiu, e a voz dele virou um rosnado —. Vai agora mesmo pra cama e fica nua. Essa buceta me pertence.

— Nada meu te pertence — respondi —. Eu vou pra delegacia. Vou te denunciar por estupro e por cafetinagem, e você vai pegar todos os anos que merece.

Por um instante achei que ele fosse me bater. Levantou a mão. Mas alguma coisa no meu olhar, aquela raiva que vinha cozinhando em fogo baixo durante meses, o deteve. Ele baixou o braço. E nesse gesto, pela primeira vez, vi medo nos olhos dele.

Soltei o pano de prato, peguei minha bolsa e saí batendo a porta com força, o som ecoando por toda a escada. Não olhei para trás.

***

Na manhã seguinte, dois agentes foram até aquele apartamento. Eu soube porque me contaram depois: que Heriberto abriu a porta de roupão, que tentou sorrir, que gaguejou quando lhe leram as acusações. Cafetinagem. Agressão sexual continuada. Estupro reiterado. A lista era longa, e cada linha pesava como uma lápide.

Ele passou os meses anteriores ao julgamento em prisão preventiva. Eu depus três vezes, contei cada noite, cada envelope, cada nome de que me lembrava. Cada rola, cada gozo, cada humilhação. No começo minhas mãos tremiam. No fim eu falava com uma calma que assustava até os advogados. Eu não buscava vingança, dizia para mim mesma. Buscava justiça. Embora, se eu for sincera, a linha entre as duas coisas já começasse a se apagar dentro de mim.

No dia da sentença, o sol entrava em abundância pelas janelas do fórum. Ele foi considerado culpado de todas as acusações. E então o juiz leu uma condenação que nenhum dos presentes esperava.

***

O que vem a seguir parece saído de um sonho, e talvez seja. Talvez eu tenha sonhado isso tantas vezes, naquelas noites contando fissuras no teto, que acabei confundindo desejo com lembrança. Mas foi assim que vivi, e é assim que conto.

A sentença não se limitava a encarcerá-lo. O tribunal decretou que Heriberto seria submetido a uma intervenção que o transformaria por completo: seria internado num centro médico onde teria o sexo reassinado, de homem para mulher. O homem que durante meses se sentira dono da minha buceta iria perder a rola, iria acordar sendo aquilo que tanto desprezou e mercantilizou.

Vi-o sair da sala algemado, pálido, com a mandíbula frouxa. Pela primeira vez na vida não tive medo dele. Pela primeira vez, foi ele quem não ousou me olhar.

***

Contaram-me os detalhes ao longo dos meses seguintes, como quem recebe notícias de um país distante. O antes chamado Heriberto passou pela sala de cirurgia. Cortaram a rola com a qual tinha me fodido tantas noites e construíram uma buceta nova entre as pernas dele. Colocaram peitos, arredondaram os quadris, suavizaram a pele com tratamentos hormonais que inchavam os mamilos e apagavam a barba. Quando se olhou no espelho pela primeira vez, já não reconheceu a pessoa que lhe devolvia o olhar. Deram a ele um nome de mulher nos papéis. Ensinaram-no a andar diferente, a falar diferente, a habitar um corpo que ele mesmo, na vida anterior, teria colocado à venda.

Depois veio a prisão comum. E ali, segundo soube, compreendeu na própria carne cada coisa que me fizera. Na primeira noite no módulo, três presas a encurralaram nos chuveiros, abriram as pernas dela contra os azulejos frios e enfiaram os dedos, depois o cabo de uma escova, depois a língua. Go-zaram rindo sobre a buceta nova enquanto ela chorava de frente para a parede. Os funcionários olharam para o outro lado. Deram a ela os trabalhos mais duros e humilhantes do módulo. Aprendeu o que era não conseguir trancar uma porta com chave. Aprendeu o que era outras pessoas disporem do seu corpo sem perguntar, abrirem sua calcinha de um puxão, penetrarem os cantos em troca de um cigarro. Aprendeu o que era contar fissuras no teto enquanto alguém empurrava seu rosto contra o colchão. Cada noite que ele tinha imposto sobre mim voltava agora multiplicada sobre a própria pele dela.

Não me alerei tanto quanto tinha imaginado. Eu esperava sentir uma vitória elétrica, uma euforia. Em vez disso, senti algo mais sereno e mais frio: a sensação de que o universo, uma vez na vida, tinha decidido equilibrar a balança. Ele tinha transformado a feminilidade da minha mãe e a minha em mercadoria. Agora a dele seria a moeda com que pagaria sua dívida.

***

Quando se cumpriu a primeira parte da condenação, ela foi transferida para o povoado mais remoto que aparecia no mapa, um daqueles lugares de ruas poeirentas onde o ônibus passa uma vez por dia. Ali, dizia a sentença, viveria o restante da pena exercendo o ofício que ele me impôs. A que foi Heriberto se converteu na puta do povoado, disponível para quem batesse à sua porta, às vezes quase só em troca de um prato de comida quente.

Imaginei muitas vezes aquela cena. A que um dia foi meu padrasto, maquiada sem capricho, com uma camisola barata por cima dos peitos novos, esperando junto à janela que algum peão bêbado subisse a escada. Abria a porta, suportava o bafo de vinho, deixava as mãos apalparem os seios contra a parede do hall. Depois a deitava num catre rangente, abria as pernas dela e enfiava a rola naquela buceta de laboratório que ainda não sabia sentir prazer, só peso. Um atrás do outro. Peões, caminhoneiros, viúvos velhos, rapazes que vinham em grupo para experimentar pela primeira vez. Cada um gozava dentro dela, ou no rosto dela, ou entre os seios dela, e deixava algumas moedas sobre a mesinha antes de sair assobiando. Ela se levantava, se limpava com uma toalha sempre suja, e esperava o próximo sentindo em cada encontro exatamente o que eu tinha sentido: o peso de um corpo alheio, a indiferença, a contagem das horas. A diferença era que ele tinha escolhido aquele caminho no dia em que decidiu me vender. Eu nunca escolhi nada.

***

Da minha parte da história há pouco mais a contar, e por sorte é a parte luminosa. Recuperei o dinheiro, aluguei um apartamento pequeno com uma janela voltada para o leste e, pela primeira vez em anos, dormi com a porta sem trancar, só porque podia.

Demorei para deixar um homem se aproximar. Ele se chamava Tomás, era carpinteiro, e tinha a rara virtude de jamais se apressar. A primeira vez que me tocou, perguntou antes. A segunda, também. A primeira vez que transamos, ele me despiu devagar, beijou meus seios com uma calma que me fez chorar em silêncio, e lambeu minha buceta durante o que me pareceu uma eternidade, olhando para mim de vez em quando para ter certeza de que eu ainda queria. Quando finalmente enfiou a rola dentro de mim, fez isso com uma suavidade que eu tinha esquecido que existia. Ele me comia devagar, mexendo-se quase nada, deixando-me sentir cada centímetro. Gozei pela primeira vez em anos com uma rola dentro, apertando-o com as pernas, mordendo o ombro dele. Ele gozou depois, me avisando antes, perguntando se podia fazer dentro. Eu disse que sim, chorando de puro alívio.

Aprendi com ele que desejo e respeito não eram coisas opostas, que um corpo podia se entregar sem que ninguém o arrancasse à força. Aprendi a transar rindo, a pedir o que eu queria, a dizer não quando não estava a fim e a ter esse não respeitado na hora. Aprendi, sobretudo, a desejar de novo sem que o medo me apertasse a garganta.

Nos casamos numa manhã de primavera, sem gente demais, com as janelas abertas. Tivemos dois filhos, um menino e uma menina, e hoje eles crescem numa casa onde ninguém aperta os ombros de ninguém mais forte do que o carinho permite.

Às vezes, quando os ponho para dormir, penso na minha mãe. Em tudo o que ela aguentou para que eu comesse, para que eu estudasse, para que eu tivesse a chance que ela nunca teve. E penso também, sem remorso, naquela mulher perdida num povoado remoto que um dia foi o homem que arruinou a nossa vida. Já não a odeio. O ódio se gastou faz tempo. Só resta a certeza tranquila de que cada um terminou habitando, exatamente, o corpo e o destino que mereceu.

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