Voltei da viagem e meu namorado já sabia de tudo
Quando me olhei no espelho do hotel com o rímel borrado e as marcas no pescoço, soube que nenhuma mentira bastaria quando eu chegasse em casa.
Quando me olhei no espelho do hotel com o rímel borrado e as marcas no pescoço, soube que nenhuma mentira bastaria quando eu chegasse em casa.
As iniciais do amante não estavam escritas por extenso, mas coincidiam com as do homem que, naquele momento, fumava na minha varanda.
Somos idênticas, ela repetia enquanto pintava os lábios dele. E era quase verdade: só um detalhe separava as gêmeas, e era justamente o que Carla nunca havia confessado ao namorado.
Quando levantei os olhos do celular e o vi caminhando em direção ao meu banco, soube que aquela tarde na Zona T não acabaria com uma simples conversa sob as palmeiras.
Quando ela me pediu para passar o protetor solar, minhas mãos já sabiam o que minha boca ainda não ousava dizer.
Ela me vestiu igual a ela: corset preto, meias arrastão e a mesma peruca. Nessa noite íamos trabalhar juntas pela primeira vez, e eu não sabia até onde aquilo chegaria.
Quando minha mãe finalmente decidiu se casar, eu jamais imaginaria que a viagem à ilha com minha futura meia-irmã revelaria o segredo de toda a família.
Subi ao terceiro andar com minhas meias de rede e meus saltos brancos, deixei a porta entreaberta e esperei o som dos meus passos despertar a fome dos homens do corredor.
Há anos eu me vestia às escondidas com as roupas da minha irmã. Na noite em que ele me esperou naquele hotel, parei de fingir e virei quem sempre fui.
Naquela manhã, abri as cortinas com a ideia de espiar as camareiras. Não imaginei que seria uma desconhecida na janela da frente que não tiraria os olhos de mim.
Sussurrei minha fantasia no ouvido dela no meio do vagão lotado. Ela se surpreendeu, depois mordeu meu lábio e eu soube que naquela noite íamos para um hotel.
Eu estava há dias excitada e sem um minuto a sós. Nessa sexta, reservei um quarto, tirei o vibrador da caixa e decidi que a noite era minha.
Ela nunca tinha ficado com alguém quinze anos mais velho. Naquela noite, no quarto do hotel, descobriu que a inteligência também seduz.
A gaveta emperrava por causa de um caderno manuscrito. Dentro estavam as páginas mais íntimas de um desconhecido e de seu amante de oito anos.
Pedi uma piña colada no quiosque e o garçom me trouxe com um sorriso. No segundo dia, entendi que o serviço dele ia muito além do bar.
Entrei no carro com o coração na boca e disse, quase sem pensar, que enfim entendia o que uma mulher sente a caminho de se entregar.
Eu me depilava por inteiro, usava meias e cinta-liga escondido. Nunca imaginei que um congresso da empresa terminaria comigo entregue a outro homem.
Nunca os vi. Só ouvi cada palavra, cada batida da cabeceira na parede, e de repente o prazer deles também virou o meu.
Aos cinquenta e um, depois de muitas mulheres, escrevi para um desconhecido num site gay sem saber que essa mensagem me obrigaria a aceitar o que sempre neguei.
Eu digitava o nome dela de vez em quando para ver se a encontrava. Nunca aparecia. Até aquela madrugada, quando o primeiro resultado foi ela, exata, sem dúvidas.