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Relatos Ardientes

A traição que ela pagou a cada visita à prisão

O sucesso tinha sido uma droga de efeito rápido e ressaca brutal. Com o capital que o fundo Hoshino canalizou por meio do impecável Adrián Villalba, o projeto imobiliário de Diego Salazar decolou como um foguete. Durante oito meses, os números subiram verdes e eufóricos, os investidores vieram como moscas para o mel, e o nome do Grupo Salazar ecoava nos círculos financeiros com uma aura de invencibilidade.

Diego, inchado de ambição e cego pelos elogios, começou a apostar cada vez mais alto. Villalba, do seu posto de assessor nas sombras, observava com um sorriso frio. Não dava avisos. Apenas abria portas e facilitava “oportunidades” que esticavam a corda um pouco mais.

O desmoronamento foi tão repentino quanto uma queda por um vão de escada. Uma aposta fracassada, uma dívida oculta que veio à tona, um relatório devastador de uma agência de classificação. Em questão de dias, a confiança evaporou. As ações do Grupo Salazar valiam menos de um por cento do pico. As manchetes foram implacáveis: “A ambição que devorou Salazar”.

Diego carregou toda a culpa. O cérebro, o rosto visível, o bode expiatório perfeito. Foi preso em sua própria sala, diante de seus funcionários estarrecidos. A casa da família foi vasculhada, e alguns agentes deslizaram as mãos pelos móveis que Mariana havia escolhido com tanto cuidado.

Ela, graças a uma separação de bens astuta que o próprio Villalba lhe sugerira meses antes, ficou fora do alcance da lei. Não era culpada de nada. Mas era a esposa do homem mais odiado por milhares de pequenos investidores arruinados. O escárnio público, os jornalistas na sua porta, os olhares na rua, tudo era insuportável. Com o pouco que conseguiu resgatar e um carro emprestado, fugiu.

Refugiou-se na única coisa que ainda sentia alheia ao pesadelo: uma cabana de madeira, pequena e rústica, dos pais já falecidos, escondida numa dobra da montanha, a uma hora da capital. Ali o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo vento entre os pinheiros e pelo ranger da madeira velha. Passou dois dias em estado de anestesia, olhando o fogo da lareira sem vê-lo.

No terceiro dia, ao entardecer, o telefone descartável que ela acreditava abandonado no fundo de uma bolsa vibrou sobre a mesa de pinho. Uma pulsação fantasma. Com mãos que demoraram a obedecer, ela o pegou. A tela mostrava um número criptografado e uma mensagem assinada AV.

O rigor da lei também alcança as visitas conjugais. Amanhã, às quatorze horas. Vestido preto, decote moderado, saia até o joelho. Meias finas, salto baixo. Sem joias, sem bolsa. Pergunte pela sargento Carmona e obedeça ao que ela indicar. Qualquer desvio, e as fotografias da suíte do hotel Aragón chegarão à promotoria e à imprensa como “prova do caráter moral do acusado”. Sua cooperação é a única moeda que tem para comprar silêncio… e talvez um pouco de misericórdia para Diego.

Mariana largou o telefone sobre a mesa. Não houve raiva nem choro, apenas um vazio mais fundo. A queda de Diego não era o fim. Era um novo cenário, ainda mais cruel. E ela, como sempre, o instrumento.

***

Seguiu as instruções à risca. Vestido preto de lã, com um decote em V que mal revelava a clavícula. Meias opacas, quase de governanta. O cabelo preso num coque severo. No espelho da cabana, viu-se como a viúva de um criminoso, uma figura de luto e penitência.

O Presídio de Monteverde era uma fortaleza de concreto cinza cercada por arame farpado. Na guarita, um guarda entediado a olhou com desconfiança.

—Nome? —perguntou.

—Mariana Salazar. Vim ver meu marido. —Engoliu em seco—. Preciso perguntar pela sargento Carmona.

A mudança no guarda foi instantânea. O tédio desapareceu, substituído por uma curiosidade expectante. Ele pegou um telefone interno e murmurou algumas palavras. Minutos depois saiu uma mulher corpulenta, de rosto duro e olhos pequenos que a percorreram de cima a baixo sem disfarce, demorando um segundo a mais nos seus peitos e na curva dos quadris sob a lã preta.

—Senhora Salazar. Me acompanhe.

Não houve cumprimento. Ela a conduziu por um corredor mal iluminado, sem desviar para as salas de visita gerais, até uma porta sem identificação que abriu com uma chave. Era uma sala pequena, branca e fria, mais parecida com um consultório do que com qualquer outra coisa. Uma maca coberta de papel descartável no centro. Uma lâmpada cirúrgica pendurada no teto.

—O procedimento para visitas de alta segurança é estrito —disse Carmona, com voz plana e burocrática—. Precisamos verificar se a senhora não está introduzindo objetos proibidos. Vai se despir por completo. A roupa, nessa bandeja.

Mariana sentiu o pânico subir pela garganta.

—Nua? Mas eu só…

—São as regras. Ou a senhora cumpre, ou a visita é cancelada. E seu marido fica sem vê-la… e sem a pequena melhora que sua cooperação pode conseguir para ele.

A mensagem era clara: Villalba já falara com ela. Com movimentos desajeitados, Mariana começou a se despir. Os sapatos, o casaco. O zíper do vestido soou estridente no silêncio. A peça caiu aos seus pés. Depois as meias, deslizando pelas coxas com um sussurro que lhe arrepiou a pele. Por último, a calcinha de renda preta, que desceu por suas pernas com dedos trêmulos. Ficou de pé no centro da sala fria, sob a luz branca e crua, e a pele se eriçou por inteiro. Os mamilos endureceram contra o ar gelado, dois pontos rosados e tensos que ela não tinha como esconder, e os pelos púbicos, cuidadosamente aparados, brilhavam escuros entre as coxas.

Carmona não disfarçou o olhar. Seus olhos pequenos desceram do pescoço até os peitos eretos, demoraram-se no triângulo púbico, subiram de novo. Um sorriso quase insinuado, satisfeito, curvou-lhe os lábios.

—Suba na maca. Posição ginecológica.

As palavras foram um golpe baixo. Com o rosto ardendo, ela subiu no papel frio e colocou os pés nos estribos metálicos, abrindo as pernas de par em par. A humilhação era tão aguda que por um instante lhe turvou a vista. Ela sabia perfeitamente o que Carmona estava vendo dali: seu cu aberto e exposto sob a lâmpada cirúrgica, cada dobra iluminada como numa mesa de dissecação.

Carmona calçou luvas de látex com um estalo que soou como um disparo. As mãos, fortes e impessoais, começaram a inspeção. O cabelo, atrás das orelhas, dentro da boca, obrigando-a a pôr a língua para fora. Depois apalpou seus peitos com as duas mãos, pesando-os, levantando-os um de cada vez, apertando os mamilos entre o indicador e o polegar sob o pretexto de “verificar” se não havia nada escondido. Mariana conteve a respiração olhando para o teto, tentando sair do próprio corpo. E, no entanto, o frio do látex e os nervos a traíram: os mamilos endureceram ainda mais sob aqueles dedos enluvados, apontando para a lâmpada, como se sua carne respondesse a uma ordem que ela não dera. Carmona os beliscou mais uma vez, com lentidão premeditada, antes de descer.

A guarda desceu ao púbis. Separou os lábios externos com dois dedos, minuciosa, invasiva, e com a outra mão introduziu o indicador enluvado no cu de Mariana, remexendo por dentro com giros lentos que buscavam paredes e cantos. Mariana mordeu o papel descartável para não gritar, de dor e de uma vergonha que lhe queimava as entranhas. Sentiu o dedo afundar até a junta, sair encharcado em sua umidade involuntária, entrar de novo. A mão livre de Carmona lhe abriu mais as coxas, empurrando o joelho para fora para ter melhor acesso, e um segundo dedo se somou ao primeiro. O cu de Mariana se apertou ao redor daqueles dedos alheios com um espasmo que a envergonhou mais do que qualquer outra coisa.

—Relaxe —murmurou Carmona com uma calma clínica que era pior do que um insulto—. Vai ser pior se contrair.

Os dedos continuaram a remexer pelo que a Mariana pareceu uma eternidade, curvando-se contra o ponto duro e esponjoso atrás do osso púbico, pressionando-o com uma insistência que não tinha nada de médica. Uma pulsação escura, involuntária, começou a latejar entre suas pernas. Fechou os olhos com força, enojada do próprio corpo, e uma lágrima quente lhe escorreu pela têmpora até o cabelo.

O exame continuou por trás, igualmente brutal e desnecessário. Carmona a fez virar, pôr-se de joelhos na maca com a cabeça baixa e o rabo levantado. Separou-lhe as nádegas com as duas mãos, expondo o ânus à luz crua, e enfiou um dedo enluvado ali também, besuntado com um gel frio que Mariana nem sequer vira tirar. A ardência foi instantânea. Sentiu o dedo abrir caminho por dentro, girar, sair, voltar a entrar mais fundo. Enterrou o rosto no papel amassado para abafar um gemido que era pura humilhação, mas que soaria, para qualquer ouvido mal-intencionado, exatamente como outra coisa.

Quando parecia ter terminado, Carmona abriu a porta sem deixá-la se vestir.

—Podem entrar.

Entraram dois guardas jovens, com o morbo mal disfarçado no rosto. Ficaram ao lado da sargento, olhando para Mariana, ainda nua, de joelhos, com o traseiro erguido e as coxas abertas sobre a maca. Ela tentou fechar as pernas, cobrir-se com uma mão, mas Carmona estalou a língua.

—Fica quieta. Ainda não terminamos.

—Inspeção concluída, negativo —disse Carmona, como se estivesse dando um relatório—. Só verificação visual final, por protocolo.

Era uma mentira descarada. Não existia tal protocolo. Os homens percorreram seu corpo com os olhos, demorando-se no cu avermelhado e ainda brilhante pelo apalpamento, no ânus tenso, nos peitos pesados pendendo sob o torso arqueado. Trocaram gestos cúmplices. Um pigarreou e Mariana ouviu, com nitidez espantosa, o ruído inconfundível de um zíper descendo um pouco, disfarçado pelo barulho do papel da maca. O outro sorriu de leve, passou a língua pelos lábios. Os segundos se alongaram numa eternidade de exposição obscena. Mariana fechou os olhos com força, mas sentia aqueles olhares como mãos sujas sobre a pele, percorrendo-lhe os peitos, o rabo aberto, o cu inchado.

—Mostre bem para eles —disse Carmona com voz aveludada, e pôs uma mão forte na parte baixa das costas dela, empurrando-a para que arqueasse mais as nádegas—. É rotina. Quanto antes acabarmos, antes vai ver seu marido.

A palavra “acabarmos” ecoou em seus ouvidos como uma obscenidade deliberada. Sentiu um dedo, desta vez sem luva, deslizar pela linha do seu cu, num roçar fugaz que podia ter sido um acidente ou não. Um arrepio a percorreu inteira. Um dos guardas soltou uma risada baixa, um rosnado mais do que uma risada, e Mariana soube que ele estava se tocando por cima da calça. Podia quase sentir o cheiro no ar fechado da sala: a excitação azeda de três estranhos diante da sua nudez.

—Muito bem. Pode se vestir —disse Carmona por fim, com desdém, afastando a mão—. Tem vinte minutos.

Mariana desceu da maca com as pernas tremendo, as coxas pegajosas pelo gel e pela sua própria umidade traidora. Vestiu-se com mãos desajeitadas sob três pares de olhos que não se desviaram nem por cortesia, e sentiu cada olhar como mais um dedo entrando onde não devia.

***

Levaram-na para uma sala dividida por um vidro grosso e riscado, com telefones de cada lado. Do outro lado apareceu Diego, escoltado. Mariana mal o reconheceu. Ele havia emagrecido de forma alarmante; o terno lhe sobrava nos ombros. Olheiras profundas, barba descuidada. Mas o mais devastador eram os olhos: antes cheios de ambição, agora refletiam apenas medo animal e derrota absoluta.

Ao vê-la, ele se deixou cair na cadeira e puxou o telefone com mãos trêmulas.

—Mariana… você está bem?

Ela assentiu, incapaz de falar, a garganta presa por um nó de emoções contraditórias. Sob a saia, ainda sentia a ardência do ânus forçado e a umidade pegajosa entre as coxas, e lhe pareceu obsceno olhá-lo no rosto com aquilo em cima.

—Desculpa… eu estraguei tudo… —Diego começou a soluçar, encolhido—. Eu estou morrendo aqui. São animais. Eles me têm…

Mariana o observou chorar, aquele homem quebrado que tinha sido seu cúmplice e seu algoz, reduzido agora a um condenado apavorado. E soube que Villalba havia alcançado sua obra-prima: não apenas destruíra a fortuna e o casamento, mas o espírito de Diego. Enquanto isso, ela carregava na carne a marca fresca de outra humilhação, desenhada pelo mesmo arquiteto da ruína. Os vinte minutos passaram quase em silêncio, quebrados apenas pelos soluços, até que um guarda lhe tocou o ombro.

***

O despertar no dia seguinte foi lento. Primeiro o canto agressivo dos pássaros, depois os raios oblíquos do sol atravessando a janela panorâmica. O vale se estendia verde e enevoado sob um céu lavado. A beleza era tão indiferente que lhe causou uma dor aguda no peito.

Aqueceu água na velha cafeteira esmaltada da avó e tomou um longo banho, esfregando a pele com sabonete de pinho como se pudesse arrancar a lembrança das luvas, dos dedos intrusos remexendo no seu cu e no seu rabo, dos olhares e da respiração pesada dos guardas. Não buscava limpeza. Buscava um exorcismo. Passou a esponja repetidas vezes entre as pernas, esfregando os lábios do seu cu, o ânus ainda sensível, como se a pele pudesse esquecer na fricção. Permaneceu debaixo do jato até a água amornar e os dedos enrugarem.

Só então olhou o telefone. Uma mensagem longa de AV, meticulosa como um relatório oficial.

A visita ficou registrada como cumprida. A cooperação, anotada. Diego foi transferido para um módulo de segurança média; sua nova condição de “fornecedor útil” lhe garantirá certos confortos. Próximo encontro em três semanas, regime livre. Vestimenta: jeans escuros, blusa clara de algodão, decote discreto, tênis baixos. Sem joias, sem bolsa. E, Mariana, desta vez sem sutiã nem calcinha. É uma instrução de segurança inegociável. Levará um maço de cigarros. Em voz baixa, transmitirá isto: o pacote está no posto de gasolina da rota 9, armário 8, código 1994. Para emergências. Ele saberá o que significa. Não faça perguntas. A câmera do canto nordeste estará desativada durante a visita. Um presente pela sua docilidade.

“Desde quando Diego fuma?”, pensou, ingênua. O dedo já escrevia a pergunta quando o telefone vibrou. Era AV. Atendeu sem dizer nada.

—Bom dia, Mariana. Vamos esclarecer sua dúvida: Diego não fuma. Mas, nesse ambiente, cigarros são moeda, favores, proteção. O que a senhora levar não será para ele, será dele. Capital inicial. Entenda a dinâmica.

Fechou os olhos. Claro. Não era o tabaco. Era o poder, a hierarquia carcerária que Villalba manipulava do lado de fora. Diego, o ex-magnata, transformado em mula de contrabando para ganhar o favor dos detentos.

—A questão da roupa íntima é puramente logística —continuou a voz, serena, educada—. O regime livre permite menos barreiras físicas. A ausência de certas peças acelera os controles. Prepare-se para ser um conduto útil. Adeus, Mariana.

A ligação caiu. Ela sabia que não era logística. Era outra forma de despojo, um lembrete de quem controlava até a camada mais íntima da sua apresentação ao mundo. A imagem de si mesma entrando no presídio sem calcinha sob o jeans embrulhou-lhe o estômago e, no entanto, em algum canto escuro do seu corpo cansado, uma pulsação surda respondeu.

***

O dia da segunda visita amanheceu nublado. Ela vestiu o jeans escuro diretamente sobre a pele nua, sem calcinha, e o tecido áspero se ajustou às nádegas e ao púbis com uma intimidade que lhe incendiou as faces. A blusa branca, com o botão de cima aberto. Sem sutiã, o tecido fino se moldou às suas curvas de um jeito que a fez se sentir nua mesmo vestida: os mamilos marcavam duas pontas claras sob o algodão sempre que roçava o braço ou mudava a temperatura do ar. No espelho, viu uma mulher mais magra, com sombras sob os olhos, mas com uma determinação fria e partida no olhar. Já não era a viúva de luto. Era outra coisa: uma mensageira, um instrumento afinado para uma função específica.

A inspeção na porta de suprimentos foi superficial: um detector de metais, um scanner cujo operador deteve o olhar um segundo a mais em seu torso, fixando-se nas duas pontas endurecidas que sobressaíam sob a blusa. Um registro rápido dos bolsos, em que as mãos do guarda roçaram devagar demais a cintura e a parte interna das coxas, apalpando por cima do jeans a linha do púbis nu sob o tecido. Nada comparado a Carmona. Mas essa mesma leveza era obscena, a humilhação transformada em rotina, burocratizada. Sentiu, ao passar pelo arco detector, como o tecido áspero do jeans roçava diretamente seu cu nu a cada passo, e a umidade morna que começava a aparecer sem permissão lá embaixo.

A sala de regime livre era ampla, barulhenta, cheirando a desinfetante barato. Mesas de fórmica, guardas postados nos cantos. Levaram-na a uma mesa isolada, junto a uma coluna. Dali, Mariana via a câmera do canto nordeste: a lente estava escura, inativa. O presente de Villalba.

Diego chegou com algemas que lhe permitiam apenas um passo curto e arrastado. Mas, desta vez, não havia vidro. Ele havia recuperado algum peso, um peso mole e doentio. Uma cicatriz nova cruzava sua sobrancelha. Os olhos já não tinham o terror absoluto da primeira vez, mas uma cautela resignada e um lampejo de ansiedade ao vê-la.

Ele se deixou cair na cadeira à frente dela. O olhar dele percorreu a blusa e Mariana soube que ele notou a ausência do sutiã: os olhos se fixaram, por um instante longo demais, nas duas pontas endurecidas que marcavam o tecido. Um espasmo de dor cruzou o rosto dele. Também, mais abaixo, um breve desvio para os quadris dela, como se adivinhasse o resto.

—Mariana —murmurou, a voz rouca pelo desuso.

—Oi, Diego. —Estendeu a mão por cima da mesa e tocou a dele, algemada e fria—. Trouxe o que você pediu. —Deslizou o maço de cigarros.

Ele o puxou para si com as mãos juntas, como um animal que guarda uma presa.

—Obrigado. Aqui isso serve muito.

Mariana se inclinou para a frente e baixou a voz até um sussurro que se perdia no murmúrio da sala. O decote se abriu um pouco com o movimento; um dos peitos ficou à vista quase até o mamilo, e ela notou como o olhar de um detento da mesa vizinha se desviou para ela e ficou preso ali, faminto, enquanto o homem mexia a mão por baixo da mesa. Tudo fazia parte do teatro.

—Escuta —sussurrou—. O pacote está no posto da rota 9, armário 8, código 1994. Para emergências.

Os olhos de Diego se arregalaram. Um clarão de esperança, ou de medo, ou de ambos.

—Tem certeza? —murmurou.

—É a informação que me deram. —Ela não podia dizer mais.

Ele assentiu várias vezes, engolindo em seco.

—Mil novecentos e noventa e quatro. Nosso aniversário. —E, pela primeira vez, uma lágrima solitária, não de desespero, mas de uma dor nostálgica, correu por sua face—. Meu Deus, Mariana… me desculpa…

—Agora não —ela o interrompeu, com uma suavidade que a surpreendeu—. Não aqui. —O olhar dela se desviou, sem querer, para a câmera apagada, o presente envenenado que lhes permitia aquele mínimo de conspiração—. Como você está?

Uma risada breve e amarga escapou dele.

—Estou vivo. Aqui dentro isso conta como “bem”. —O olhar dele se tornou intenso, buscando o dela—. E você? O que fizeram com você para te deixarem vir assim, para você me trazer essa mensagem?

Mariana negou com um movimento quase imperceptível. Sob a mesa, cruzou e descruzou as coxas, sentindo a umidade pegajosa entre elas, a costura do jeans apertando o clitóris. Perguntou-se se Diego, olhando para ela com aquela intensidade culpada, sentiria o cheiro do que ela mesma sentia: seu cu nu sob o tecido, alterado por horas de nervosismo e de apalpamentos recentes.

—Não importa. Só siga as regras, Diego. Sobreviva.

A conversa derivou para trivialidades forçadas, palavras ocas sobre o clima e a cabana. Mas, sob a superfície, no roçar esporádico de suas mãos e nos olhares que se sustentavam um segundo a mais, havia um novo entendimento. Ambos eram peões movidos pela mesma mão. Diego sabia disso, e a compaixão em seus olhos se misturava com uma culpa atroz e um medo renovado por ela. Os olhos dele, porém, continuavam descendo de vez em quando ao decote dela, como se não conseguissem evitar, e Mariana sentiu no estômago o peso obsceno de saber que o próprio marido, humilhado e agradecido, também a desejava naquele instante como mais um dos que a olhavam.

Um guarda bateu na mesa com a tonfa.

—Tempo.

Diego se levantou com dificuldade. As mãos dele buscaram as dela num aperto desesperado.

—Se cuida. E Mariana… não confie em ninguém.

Ela assentiu e retirou a mão. Viu-o se afastar arrastando as algemas, o maço já escondido em alguma dobra do uniforme. O detento da mesa vizinha lançou a ela um último olhar lascivo e passou a língua pelos lábios sem disfarce, sem parar de mexer a mão debaixo da mesa.

***

Ao sair, o ar frio da montanha bateu em seu rosto. Não sentiu alívio, apenas um vazio mais fundo e complexo. Ela cumprira. Fora útil. Entregara a mensagem e o “capital”, e permitira que outros olhos se regalassem com seu corpo, preparado segundo as especificações de Villalba: sem calcinha, sem sutiã, a carne mal coberta por duas camadas de tecido pensadas para prometer e não esconder.

Antes de ligar o motor, olhou-se no retrovisor. A mulher que lhe devolvia o olhar já não era a que fugira da cidade em desgraça. Era alguém mais duro, mais frio, perigosamente adaptável. Villalba tecia sua rede em torno dos dois, transformando cada gesto de sobrevivência em um ato de cumplicidade, cada visita em mais um passo fundo na lama.

O rigor da lei era uma prisão de concreto e procedimentos. O de Adrián Villalba era uma prisão sem muros, onde a própria liberdade era a cela mais sofisticada. E Mariana, enquanto dirigia de volta para a cabana, sabia que a próxima instrução chegaria em breve. E que, entendesse ou não as razões, obedeceria de novo. Por Diego. Por um silêncio comprado. Pelos pedaços partidos de uma vida que já não lhe pertencia.

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