Escrevi para meu vizinho num momento de mágoa
Apertei enviar e deixei o celular virado para baixo. Não esperava resposta naquela mesma noite. Quando ele respondeu, eu soube que não havia mais volta.
Apertei enviar e deixei o celular virado para baixo. Não esperava resposta naquela mesma noite. Quando ele respondeu, eu soube que não havia mais volta.
No primário, ela me quis mais do que eu era capaz de retribuir. Vinte anos depois, a voz dela ao telefone soou igual, e minhas mãos tremeram.
Era a primeira vez que eu a via pessoalmente. Eu ia contar sobre a piscina e o salva-vidas, mas a mão dela na minha coxa mudou a conversa antes que eu terminasse a frase.
Eu vinha redigindo o anúncio mentalmente havia meses; levei doze minutos para escrevê-lo, e meia hora depois já tinha sete respostas. A dele foi a quinta.
Por baixo daquela roupa larga e discreta havia uma fêmea com o desejo intacto. Eu só precisava esperar que ela parasse de fingir diante do marido.
Subi na árvore atrás do internato para confirmar o que já sabia. Não imaginei que vê-la com ele no balcão despertaria algo entre a raiva e o desejo que nunca tinha sentido.
Tranquei a porta e apaguei as luzes da sala de estudo. Tudo o que eu queria naquela tarde era consolá-la; tudo o que ela queria era esquecer o namorado.
Entrou com o uniforme branco e o sorriso de sempre. O que nenhum dos dois viu chegando foi a outra mulher sentada no sofá, a três metros do jogo.
Faltava uma hora para o jantar, as crianças viam desenhos na sala e eu atravessei o jardim procurando minha mulher. A porta da lavanderia estava entreaberta.
Eu o conhecia desde o ensino médio como o mais macho da sala. Ontem ele me viu transformada em outra e, no dia seguinte, sua mensagem não deixava dúvidas.
Quando subi no carro naquela manhã e vi que ela estava sozinha ao volante, soube que o fim de semana não teria nada de inocente.
Desci descalça para pegar um copo d'água, convencida de que estava sozinha. Vi a luz acesa no escritório e soube que aquela manhã não terminaria como começou.
Quando ela sussurrou que estava molhada e pediu desculpas, entendi que a fantasia tinha saído do nosso controle. E o desconhecido ainda nem tinha feito o pior.
Quando me olhei no espelho do hotel com o rímel borrado e as marcas no pescoço, soube que nenhuma mentira bastaria quando eu chegasse em casa.
Passei meses deixando-a dançar sozinha, esperando que algum insistisse o suficiente. Nessa noite, um homem mais alto que eu conseguiu.
As iniciais do amante não estavam escritas por extenso, mas coincidiam com as do homem que, naquele momento, fumava na minha varanda.
A saia vinha rasgada, os lábios inchados e ela cheirava a um homem que não era eu. O pior não foi vê-la assim: foi o que ela mandou eu fazer depois.
Eu estava há semanas deitada na minha rede, me besuntando de óleo e fechando os olhos, até que uma tarde senti que alguém me observava através dos ciprestes.
Fui ao clube para uma noite tranquila. Acabei atravessando a porta do quarto com a mulher de outro homem e a promessa de que ele esperaria do lado de fora.
Entrei com a chave que ele deixou no vaso. O que eu não esperava era encontrá-la me esperando, de braços cruzados e a mandíbula travada.