Ela voltou à minha porta para que eu a quebrasse outra vez
O táxi parou em frente ao portal com um ronronar abafado. Valência nos recebeu com o calor seco e branco da tarde, bem diferente da chuva cinzenta que tínhamos deixado no norte. Enquanto o motorista tirava as malas, observei a fachada do prédio. Eu já não a via como o apartamento de Marta. Eu a via como meu quartel-general, meu território.
Marta desceu do carro ajeitando os óculos de sol, escondendo o cansaço da viagem e a excitação residual que ainda fazia suas mãos vibrarem. Pagou ao taxista — porque assim eram nossos papéis: eu decidia, ela resolvia — e pegou a mala. Esperei na calçada até ela estar ao meu lado, pronta para me seguir.
— Você está com as chaves à mão?
— Aqui, Ama.
Ela me entregou. O metal estava quente. Eu gostava desse detalhe: eu abria a porta, eu permitia o acesso. Subimos em silêncio. O espelho do elevador devolveu a imagem de duas mulheres impecáveis, cúmplices de algo que ninguém naquele prédio podia imaginar.
Ao abrir a porta da cobertura, o ar viciado do apartamento me recebeu como uma saudação. Marta fez menção de arrastar a mala para o quarto.
— Quero tomar banho.
— Deixa isso aí.
Minha voz foi uma única palavra, e a mala caiu seca sobre o parquet.
— Ainda não vai tomar banho. Primeiro você cumprimenta a casa. E a mim.
Eu a empurrei contra a parede do hall. Não houve preliminares românticas. Meus dedos desabotoaram sua blusa botão por botão enquanto ela respirava com a cabeça jogada para trás, expondo o pescoço. Em menos de um minuto, eu a deixei nua sobre a própria roupa de viagem, enquanto eu continuava vestida, blindada.
— Ajoelhe-se.
Marta afundou de joelhos na madeira e eu enredei os dedos em seu cabelo. Eu queria marcar território. Queria que a primeira sensação ao voltar para casa fosse meu sabor enchendo sua boca, apagando o cheiro do avião, o rastro daquela garota do norte, qualquer coisa que não fosse minha.
Quando terminei, eu a ergui do chão. Seus lábios estavam vermelhos, os olhos brilhantes e o rosto de quem acabara de comungar.
— Agora sim. A casa já sabe que voltamos.
***
Os dias seguintes deslizaram com uma suavidade narcótica. A rotina, longe de apagar a chama que tínhamos acendido no norte, a concentrou. Já não era necessário verbalizar as ordens. Marta acordava antes de mim, preparava meu café exatamente como eu gostava — preto, forte, sem açúcar — e o deixava na minha mesinha de cabeceira. Esperava sentada na beira da cama eu abrir os olhos e lhe dar a permissão tácita para começar o dia.
Naquela terça-feira, eu a observei se vestir diante do espelho de corpo inteiro. Ela se preparava para ir ao colégio, onde dava aulas de literatura.
— Essa blusa, não — disse eu da cama, xícara fumegante na mão.
Marta parou no meio de abotoar a camisa azul, sem questionar, esperando a correção.
— A branca. A ajustada. A que puxa um pouco no busto.
— Essa me aperta. Me deixa o dia todo consciente dos meus mamilos.
— É por isso.
Enquanto ela se trocava, aproximei-me para ajeitar o colarinho com a frieza de uma proprietária que confere seu ativo mais valioso antes de levá-lo ao mercado.
— E hoje, nada de roupa íntima.
Marta arregalou os olhos.
— Tenho cinco horas de aula. E escadas.
— Pois ande com cuidado. Quero que você passe o dia inteiro sentindo o atrito da costura. É o seu lembrete secreto.
Ela engoliu em seco, mas assentiu. A excitação lhe subiu às bochechas. Beijou minha mão — um gesto que começara a fazer espontaneamente — e pegou a pasta. Vi-a sair caminhando com aquela rigidez forçada de quem tenta esconder que está nua por baixo da roupa formal.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou ao apartamento.
***
E então começaram os problemas. Eu tinha trabalho: relatórios, e-mails, gestão de contas. Coisas que exigiam meu cérebro frio e analítico. Mas, pela primeira vez em muito tempo, minha concentração estava frágil.
Eu tentava ler uma cláusula contratual na tela, mas as letras dançavam e se rearranjavam para formar imagens de três dias atrás. Um assento de avião cinza. Uma mão trêmula agarrada a uma mochila de lona. Uns olhos enevoados atrás de óculos tortos.
— Merda — murmurei, esfregando as têmporas.
Não era culpa. Culpa é uma emoção inútil, própria de gente que não aceita seus desejos. O que eu sentia era fome. Adrenalina residual que o orgasmo de Marta não tinha dissipado.
Levantei-me e caminhei pelo corredor. No norte, tínhamos caçado uma desconhecida em pleno voo: uma estudante de Erasmus chamada Carla. Nós a tínhamos quebrado entre nós duas enquanto os passageiros dormiam ao nosso redor. Depois a deixamos largada na área de bagagens, com sua mala vermelha e os olhos vazios.
Lembrei-me da pele dela. Era diferente da de Marta. Marta era firme, treinada, uma mulher que sabia receber dor e prazer. Carla era mole, sem calos na alma. Quando a toquei naquele assento, não senti só o corpo dela: senti o pânico, a vergonha, a completa falta de defesa. Quebrar alguém que não sabe que pode ser quebrado era o vício definitivo.
Eu virei viciada em caça fácil.
Fui até a cozinha e me servi de um copo d’água. Eram onze da manhã. Faltavam horas para Marta voltar. Voltei ao escritório, decidida a me forçar a trabalhar.
Eu não sabia que o universo, em sua ironia infinita, estava prestes a responder ao meu chamado.
***
A campainha tocou às doze e quinze. No silêncio sepulcral do apartamento, soou como uma detonação.
Levantei com um suspiro de irritação, alisando a blusa de seda preta. Marta tinha chaves. Eu não esperava encomendas. Ninguém tinha permissão para interromper minhas horas de trabalho sem aviso prévio. Caminhei até o interfone e apertei o botão da câmera do hall.
Fiquei gelada.
Não era o carteiro. Lá embaixo, encolhida contra a moldura de ferro, olhando para a câmera com olhos de animal atropelado, estava ela.
Carla.
Ela usava a mesma mochila surrada do avião, pendurada em um só ombro como se pesasse uma tonelada. Um moletom com capuz grande demais, tentando se esconder dentro dele. Mordia o lábio compulsivamente, olhando para a câmera, depois para o chão, depois para a rua. Senti uma descarga fria percorrer minha coluna. A presa tinha seguido o rastro de sangue até a caverna da loba.
Apertei o interfone.
— Sim?
— E-eu sou... sou eu. Carla. A do voo.
Sua voz era um fio sobre o ruído do trânsito.
— Eu sei quem você é.
Deixei o silêncio se esticar, pesando sobre ela. Eu podia imaginar o coração dela lá embaixo, exposto em plena via pública.
— Ad... Adriana... por favor. Eu preciso... posso subir? Só um momento.
— Pra quê?
— Não consigo explicar daqui. Por favor.
Houve um soluço abafado no fim da frase. Não era teatro. Sorri — um sorriso lento que ninguém via — e apertei o botão de abertura.
Esperei no hall. Ouvi o zumbido do elevador, os passos vacilantes, e abri a porta antes que ela batesse. Carla ficou ali com o punho erguido no meio do caminho, paralisada. Tinha olheiras arroxeadas, a pele cerosa, o cabelo preso numa rabo baixo e engordurado. Mas o mais impactante eram seus olhos: vermelhos, inchados, me olhando com uma mistura de terror absoluto e necessidade devoradora.
— Como você encontrou minha casa?
— A... a etiqueta da sua mala. Na esteira de bagagens. Vi o endereço. Fiquei com aquilo gravado.
Dei um passo. Forcei-a a recuar quase até a porta do elevador.
— Você memorizou meu endereço e veio aqui sem ser convidada.
— Eu não consigo dormir, Adriana. Fecho os olhos e sinto suas mãos. Eu me sinto... quebrada. E você é a única que sabe por quê.
Ela levantou o olhar. A súplica estava nua. Ela não tinha vindo nos denunciar. Não tinha vindo pedir explicações. Tinha vindo atrás de mais. Tinha vindo porque abrimos na cabeça dela uma porta que ela não sabia como fechar.
— E o que você quer que eu faça, Carla? Que eu peça desculpas? Que eu diga que foi um pesadelo?
Ela negou freneticamente, as lágrimas rolando pelas bochechas sujas.
— Eu quero entrar. Por favor. Faça o barulho da minha cabeça parar. Faça o que quiser, mas não me deixe do lado de fora.
Eu a encarei, saboreando o momento.
— Entrar nesta casa tem um preço. E você já não tem nada a oferecer, a não ser sua obediência absoluta. Está disposta a pagar com isso?
— Sim... com qualquer coisa. Só me deixe entrar.
Afastei-me da soleira.
— Entre. E tranque a porta. Você não vai sair daqui até eu mandar.
Ela cruzou o limiar tremendo, como quem entra numa catedral ou num matadouro, sabendo que sua vida anterior terminava naquele exato segundo. O ferrolho girou duas vezes sob seus dedos. Clique, clique.
***
— Deixa a mochila aí. Não chegue mais perto. Você cheira a medo e suor velho.
Ela obedeceu na hora. A bolsa de lona caiu com um baque surdo. Soou a livros didáticos, a roupa suja e a uma vida de estudante que já não lhe servia para nada.
— Tira os tênis. Você pensa em pisar no meu chão com essa sujeira?
Ela se abaixou desajeitada e tirou os sapatos. As meias esportivas tinham a sola escurecida pelo uso.
— Meias sujas. Patético — disse eu. — Caminhe pelo corredor até a sala. Não toque nas paredes. Não encoste nos móveis. Se eu vir uma única marca sua na minha pintura branca, vou fazer você limpá-la com a língua.
Ela avançou de cabeça baixa, encolhendo os ombros para ocupar o menor espaço possível. Na sala, sob a luminária de design, ordenei que tirasse tudo. Moletom. Jeans surrado. Sutiã esportivo sem elasticidade. Meias. Calcinha cinza de algodão. Cada peça caiu no chão formando um monte de tecido barato que crescia como um tumor aos pés dela.
Levantei-me da poltrona e dei a volta nela devagar, meus saltos marcando um compasso sobre o parquet.
— Olhe para você. Está só pele e osso. As costelas estão aparecendo.
Passei a ponta do indicador sobre uma delas. Sua pele arrepiou-se na hora.
— Não é fome de comida. É fome disso. Você foi se consumindo esperando que alguém viesse terminar o serviço.
Continuei girando ao redor do corpo dela. Os mamilos estavam duros por causa do ar-condicionado, mas o peito subia e descia num ritmo de pânico. Baixei o olhar até o púbis: sem depilar, escuro, descuidado, em contraste com a suavidade tratada de Marta.
— Você é medíocre, Carla. Não tem as curvas de Marta. Não tem a elegância dela. Você é comum. Vulgar. Então me diga: que valor você tem para mim?
Ela procurou a resposta no vazio da própria cabeça.
— Eu sou uma tela em branco... e você pode pintar o que quiser por cima.
Sorri. Patética, mas correta. Agarrei seu queixo com força e a obriguei a erguer o rosto.
— Exato. Você é carne. Matéria-prima barata. Você não está aqui para ser admirada, está aqui para ser usada. É um móvel que respira, um objeto que sente dor.
***
— No chão. De quatro.
Ela hesitou por uma fração de segundo. Depois os joelhos bateram no tapete persa e ela apoiou as mãos à minha frente, oferecendo a curva das costas ossudas.
— Engatinhe até mim.
Vi-a avançar. Era uma visão patética e excitante ao mesmo tempo: uma universitária reduzida a um animal doméstico arrastando-se pela minha sala, os seios pendendo, as nádegas se movendo com uma cadência desajeitada. Ela se colocou transversalmente diante da minha poltrona, transformando o corpo em barreira, obstáculo, utilidade.
Levantei o pé direito. Eu usava scarpins pretos, de salto fino e sola dura. Sem nenhuma delicadeza, deixei a sola cair entre suas escápulas.
Ela soltou um arquejo, mas não se afastou. Subi o outro pé e o cruzei sobre seus rins. Todo o peso das minhas pernas descansou sobre ela. Os braços tremiam pelo esforço de sustentar a posição.
— Eu estava procurando uma posição confortável para ler. O apoio para os pés de couro é rígido demais. Você, por outro lado, é quente. É macia.
Bebi um gole de vinho tinto, recostada, enquanto movia os pés sobre as costas dela como se estivesse limpando a sola nela. A sensação era afrodisíaca. Tê-la lá embaixo, literalmente sob meus pés, anulada como pessoa e transformada em extensão do meu conforto.
— Diga. “Eu sou seu móvel, Ama”.
— Eu sou seu móvel, Ama.
— Mais alto. Quero que a casa ouça.
— Eu sou seu móvel, Ama!
— Shhh. Móveis são silenciosos.
***
Terminei a taça e tirei os pés das costas dela. As articulações estalaram quando ela se levantou. As marcas vermelhas dos meus saltos ficaram gravadas em sua pele pálida como um mapa da minha passagem pela vida dela.
Aproximei-me de uma estante baixa e abri uma gaveta discreta. De dentro, tirei uma chicotilha de montaria: couro trançado, curta, flexível, com uma língua larga na ponta, feita para fazer mais barulho do que dano profundo... se usada com suavidade. Eu não tinha intenção de ser suave.
Ao me virar, as pupilas de Carla dilataram até engolir a íris. Ela sabia perfeitamente para que eu a havia tirado.
— Você rastreou meu endereço. Invadiu minha privacidade. Ficou rondando minha porta como uma predadora barata.
Cariciei sua bochecha com a ponta fria da chicotilha.
— Nesta casa, falta de respeito se paga com dor. Incline-se. Apoie o peito no braço do sofá. Empine a bunda. Ofereça-se.
Carla se dobrou pela cintura sobre o couro branco. Suas nádegas pálidas e macias ficaram expostas e erguidas, vulneráveis. Uma tela perfeita.
Levantei o braço. Não houve contagem regressiva.
— Zás!
O primeiro golpe caiu na parte alta da coxa direita, exatamente onde se une à nádega. Carla soltou um grito agudo que morreu contra a almofada. Seu corpo se sacudiu violentamente.
— Um. Isso é por me seguir.
— Zás!
— Dois. Por procurar meu endereço na etiqueta da mala.
— Zás!
— Três. Por aparecer aqui sem ser convidada.
Encontrei o ritmo. Golpe, soluço, pausa. O cômodo se encheu do som da disciplina. Carla deixou de gritar palavras: só emitia gemidos guturais contra o couro, misturados a uma respiração entrecortada. Suas nádegas, antes brancas, passaram do rosa ao vermelho vivo, cortadas por faixas mais escuras onde a chicotilha havia mordido com mais crueldade.
— Esse fogo é o que vai te limpar. Aguente. Me prove que você vale a pena.
Dei uma sequência rápida de três golpes seguidos. Zás-zás-zás. Carla desabou sobre o sofá, chorando abertamente, com as lágrimas encharcando o couro caro. Suas pernas tremiam como gelatina.
Parei. Passei a mão esquerda, fria, sobre suas nádegas ardendo. O contraste a fez estremecer inteira.
— Pronto. Agora você está com minha marca. Toda vez que a água do banho arder, você vai se lembrar de que sua bunda é minha.
Ela virou o rosto para mim. Tinha os olhos inchados, o cabelo colado na testa, mas em seu olhar não havia ódio. Havia uma gratidão torta.
— Obrigada, Ama — sussurrou, com a voz quebrada.
***
Olhei o relógio de parede. Faltava menos de meia hora para Marta enfiar a chave na fechadura.
— Seque as lágrimas. Não quero que Marta a veja chorando como uma menina. Quero que ela a veja como o que você é agora: um presente.
Tirei do aparador um rolo de corda de juta e um lenço de seda preta. A combinação de texturas — o áspero e o suave — sempre me pareceu deliciosa.
— No centro do tapete. De joelhos. Mas desta vez não se curve. Quero que você se exiba.
Carla se ajoelhou exatamente no eixo visual que ligava o corredor de entrada à sala. Os joelhos afastados, as costas eretas, os seios pequenos expostos e o triângulo escuro do púbis à mostra. Coloquei-me atrás dela e cruzei seus punhos nas costas. Enrolei a corda áspera com nós funcionais, brutais. Sem estética japonesa. Sem paciência para arte.
— Aperta... aperta muito.
— Não me diga o que fazer.
Puxei o último nó com força. Carla gemeu baixinho, arqueando as costas, o que projetou os seios para a frente.
Ergui o lenço de seda.
— Abra a boca.
— Você vai me amordaçar?
— As oferendas não falam, Carla. Não quero que você cumprimente Marta. Quero que você seja um objeto mudo que ela encontre na sala. A surpresa será visual, não auditiva.
Ela fechou os olhos e abriu a boca. Enfiei a seda dobrada entre os dentes dela e amarrei o nó atrás da nuca, prendendo alguns fios de cabelo. Apertei o suficiente para esticar os cantos de sua boca numa espécie de sorriso forçado e estranhamente estético.
Afastei-me alguns passos para admirar minha obra. A luz da tarde entrava em faixas douradas pelas frestas da persiana, criando um claro-escuro dramático sobre sua pele pálida e marcada. Ela já não parecia a estudante da mochila grande. Parecia uma estátua pagã, uma vítima propiciatória esperando a faca... ou a carícia.
Ajoelhei-me diante dela e a olhei nos olhos, abertos pela pressão da mordaça.
— Escute bem. Daqui a alguns minutos a porta vai se abrir. Marta vai entrar. Não a olhe nos olhos, a menos que ela mande. Deixe que ela a descubra. Deixe que ela decida o que fazer com você. Se você se mexer, se tentar falar por trás da mordaça, se estragar minha apresentação, eu juro que você vai dormir nua no patamar da escada.
Ela assentiu levemente, com terror e devoção misturados no olhar vidrado. Tinha entendido seu papel. Já não era protagonista da própria história: era adereço na nossa.
***
Sirvi uma segunda taça — um Rioja gran reserva que eu tinha aberto para a ocasião — e me apoiei na moldura da cozinha. Dali eu tinha uma vista panorâmica perfeita da sala. Carla, ajoelhada no centro do tapete persa, amarrada e amordaçada, já não parecia uma pessoa. Tinha perdido aquela qualidade vibrante e incômoda da individualidade. Agora era uma composição de carne pálida, corda áspera e silêncio forçado.
Bebi devagar, percorrendo suas costas com o olhar.
— Marta passou o dia inteiro fingindo ser uma professora respeitável. Vai chegar cansada, com vontade de descarregar a tensão. E você, Carla, é o para-raios perfeito.
Vi a pele arrepiada percorrer seus braços. A antecipação era outra forma de tortura.
— Eu sou fria. Eu quebro você com precisão. Mas Marta é passional. Marta tem fome. E, quando ela vir que eu a deixei amarrada e indefesa para ela, não vai ter piedade.
Carla fechou os olhos com força. Duas lágrimas escaparam pelas bordas e rolaram sobre a seda preta da mordaça. Ela estava apavorada, mas também vi suas ancas se moverem imperceptivelmente contra os calcanhares. Seu corpo, traidor e básico, reagia à promessa de ser usada.
De repente, o zumbido do elevador quebrou a bolha. O mecanismo parou no nosso andar. As portas metálicas se abriram e se fecharam. Passos de salto no patamar. O tilintar inconfundível do chaveiro procurando a chave certa.
Carla se retesou como um arco, erguendo-se um pouco mais, oferecendo o peito e a mordaça à porta.
Eu não me mexi da moldura. Taça na mão, esperando.
A chave girou na fechadura. Clique, clique. A porta começou a se abrir, deixando entrar uma lufada de ar do corredor e o som da vida normal.
O cenário estava pronto. A peça ia começar.