A noite em que um maduro no ônibus me enlouqueceu
Sempre soube que gostava de provocar. Não de maneira calculada nem cruel, mas daquele tipo de provocação instintiva que surge sozinha quando a gente percebe que alguém está olhando demais. Nessa noite no ônibus de volta para casa, esse meu instinto me levou muito mais longe do que eu jamais tinha imaginado.
Eu tinha vinte anos e tinha passado o dia inteiro em Bucaramanga resolvendo um trâmite que não podia esperar. Peguei o último expresso disponível, um daqueles ônibus noturnos que saem às oito e chegam três horas depois. Eu estava vestida para o calor da tarde: um top ajustado cor caramelo, uma jaqueta aberta por cima e um short de tecido escuro que marcava bem minhas curvas. Sou morena, baixinha, com curvas generosas que sempre chamaram a atenção de mais de um. Sei disso há muito tempo e, honestamente, nunca me incomodou.
Me acomodei no assento junto à janela, deixei minha bolsa sobre o colo e pensei que teria o dobro de espaço só para mim. Naquela semana o ônibus ia pouco cheio, e quase todos os que tinham entrado já estavam com fones de ouvido ou olhando para o celular sem erguer a vista. Então o vi se aproximar pelo corredor.
Era um homem de uns cinquenta e cinco anos. Bem-vestido para uma terça-feira: camisa de linho bege com as mangas dobradas até o cotovelo, calça escura perfeitamente passada, mocassins de couro marrom. Carregava uma bolsinha de mão que guardou no compartimento de cima com aquela tranquilidade de quem viaja sempre e sabe exatamente qual lugar ocupa no mundo. Quando se acomodou no assento ao meu lado, me veio um perfume seco, cítrico, com algo amadeirado que eu não soube identificar, mas que me pareceu caro.
— Boa noite — disse sem me olhar, prendendo o cinto de segurança.
— Boa — respondi, e me virei para a janela.
O ônibus arrancou.
Os primeiros vinte minutos transcorreram em silêncio. Ele revisava algo no celular com a mesma concentração de alguém que lê um contrato, e eu observava a cidade ficando para trás, substituída pela escuridão verde e uniforme da estrada. Mas em algum momento, sem que eu pudesse dizer exatamente quando, notei que ele me olhava. Não aqueles olhares furtivos que se desviam de imediato quando são flagrados. Mas o outro: o que se sustenta um segundo a mais antes de voltar, com calma, para o celular.
Não sei o que passou pela minha cabeça naquele instante. Talvez o cansaço de um dia longo demais. Talvez o tédio de três horas de estrada pela frente. Talvez simplesmente aquele impulso antigo de ver até onde vai um olhar quando a gente decide alimentá-lo.
Me espreguicei com preguiça, levantando os braços acima da cabeça e soltando um bocejo silencioso. Ao fazer isso, o top subiu alguns centímetros. Reacomodei-o devagar, levando o tempo necessário, sem olhá-lo. Depois puxei-o para baixo como se quisesse me cobrir, mas fiz com que, ao puxar, o decote se abrisse um pouco mais do que devia.
Ouvi ele engolir em seco.
Mordi o canto do lábio para não sorrir.
Aos quarenta minutos o ônibus fez uma parada num posto de gasolina no meio do caminho. Ele desceu sem dizer nada. Pensei que fosse ao banheiro. Quando voltou, trouxe dois sucos gelados em garrafa e me ofereceu um sem perguntar.
— Caso esteja com sede — disse.
— Obrigada — aceitei, olhando-o agora de frente.
Vi-o de perto pela primeira vez. Tinha as têmporas grisalhas, a testa larga, a mandíbula quadrada. Os olhos castanho-escuros que não piscavam mais do que o necessário. Não era bonito no sentido convencional da palavra, mas tinha algo que os homens mais jovens raramente têm: aquela presença tranquila de alguém que sabe o que quer e não precisa se apressar para conseguir.
— Vai longe? — perguntou, abrindo seu próprio suco.
— Até o outro lado. E você?
— Desço antes. Em San Pelayo.
Eu disse que que coincidência, que eu tinha passado por lá quando criança, ao visitar minha família. Ele sorriu pela primeira vez. Trocamos nomes — ele era Esteban, engenheiro, viajava por aquela rota duas vezes por mês a trabalho — e falamos de coisas pequenas durante vários minutos. Mas, enquanto conversávamos, a perna dele foi se aproximando da minha devagar, centímetro por centímetro, com a mesma paciência com que ele tinha esperado eu olhá-lo, até que nossas coxas ficaram em contato através dos tecidos.
Não me mexi.
Ele também não.
***
Foi então que apagaram as luzes do ônibus. Só ficaram as pequenas lâmpadas alaranjadas do corredor, suficientes para ver sombras, mas não detalhes. A maioria dos passageiros já dormia ou mantinha os olhos fechados. Aquele silêncio cúmplice que só existe em trajetos noturnos, quando o mundo lá fora desaparece e ficam apenas o ronco grave do motor e a escuridão deslizando pelas janelas.
Esteban tirou da bolsa uma coberta fininha, daquelas que a gente leva para ônibus com ar-condicionado no máximo. Estendeu-a sobre nós dois sem perguntar, com a naturalidade de quem já havia tomado uma decisão.
— O ar está forte — disse em voz baixíssima.
— Está — respondi, igualmente baixo.
Debaixo da coberta, a mão dele buscou a minha. Não como um amasso apressado. Com calma. Os dedos dele encontraram os meus e se fecharam por um momento sobre eles, sondando, esperando um sinal. Eu não o rejeitei. Meu coração tinha começado a bater de um jeito que não tinha nada a ver com medo.
A mão dele então se deslocou para minha coxa. Devagar. Sem pressa. Começou a me acariciar a parte interna da coxa, perto da barra do short, traçando círculos lentos com as pontas dos dedos sobre minha pele. Eu me tensei. Não de desconforto, mas daquela tensão que aparece quando o corpo reconhece algo antes de a cabeça decidir.
Me inclineI em direção a ele com a desculpa de ajeitar a coberta e, nesse movimento, passei o peito roçando no ombro dele. Ele virou levemente o rosto e os lábios ficaram a centímetros do meu pescoço.
— Você é perigosa — murmurou.
— Não faço a menor ideia do que você está falando — respondi.
Mas deslizei a mão por baixo da coberta e a apoiei sobre a coxa dele.
Senti que ele se enrijeceu. Depois notei, contra a palma da minha mão, a pressão inconfundível de uma ereção se apertando contra o tecido da calça. Meu coração deu um salto.
Toquei-o por cima do tecido, devagar, e ouvi ele conter a respiração em um fio.
***
Não sei quem tomou a iniciativa em seguida. Acho que os dois ao mesmo tempo. A mão dele encontrou a barra do meu short e os dedos deslizaram por baixo, buscando o elástico da calcinha. Os meus encontraram o zíper da calça dele.
— Aqui não — murmurei, lançando um olhar para o corredor.
— Os outros estão dormindo — respondeu, também muito baixo.
E estavam mesmo. O homem do assento da frente roncava suavemente. Uma senhora três fileiras atrás tinha a cabeça apoiada na janela. Ninguém prestava atenção em nada que não fosse o próprio silêncio.
Os dedos dele empurraram o tecido para o lado e me tocaram diretamente. Ele me abriu com a delicadeza firme de quem sabe exatamente onde pôr a mão. Não foi um roçar tímido: foi pressão, calor, dedos afundando na minha umidade até me fazer soltar o ar de repente. Eu já estava encharcada, e ele percebeu de imediato, como se sentisse isso sob os dedos antes mesmo de ver.
— Você está fodidamente com fome — sussurrou, e a sujeira daquela frase me sacudiu por inteiro.
Eu abri a calça dele com cuidado, o suficiente para tirar o que procurava. Era grosso, quente entre meus dedos, firme de um jeito que não deixava dúvida. Baixei a cintura só o bastante e enfiei a mão dentro, envolvendo-o devagar, sentindo a pele lisa, a veia pulsando sob a palma, o prepúcio úmido na ponta. Comecei a acariciá-lo no mesmo ritmo lento com que ele me entrava e saía com os dedos, e por um tempo que perdi completamente a noção, ficamos assim: os dedos dele enterrados no meu cu, minha mão engolindo a verga dele, os dois olhando para a frente como se estivéssemos vendo a paisagem noturna.
Mordi o lábio tantas vezes que ele ficou em carne viva.
Ele introduziu um segundo dedo e arqueei as costas apenas alguns centímetros. Ele me abriu mais, empurrando naquela área macia que me fez estremecer dos pés à cabeça. Eu apertei a mão em torno da rola dele com mais força, deslizando da base até a cabeça, sentindo cada pulsação, cada batida de sangue contra minha palma. Ele procurou meu rosto com a mão livre e cobriu minha boca com a palma, suave, mas firme, justamente quando um gemido pequeno e traidor tentou escapar pela minha garganta.
— Shh — disse, e beijou minha têmpora.
A mão dele continuava dentro de mim, se movendo com uma paciência cruel. Ele esfregava meu clitóris com o polegar enquanto os dedos me abriam por dentro, e eu já estava tão molhada que o atrito fazia um som baixinho, obsceno, preso entre a coberta e o assento. O ônibus sacolejou num buraco e isso fez o ângulo mudar; ele aproveitou para enfiar os dedos ainda mais, retos, até me fazer tensionar os quadris na borda do assento. A respiração dele ficou mais pesada, mais quebrada. Eu me apertava contra a mão dele e contra a minha, sentindo a rola pulsar no meu punho cada vez que eu apertava a cabeça ou passava o polegar por baixo da glande.
Senti o orgasmo se aproximar como uma onda vinda de longe. Me virei para ele e enterrei o rosto no pescoço dele para abafar o som quando veio. Foi breve e violento. Meu corpo inteiro sacudiu, minhas pernas tremeram, e tive que cravar os dedos no antebraço dele para não fazer barulho. Ele continuou movendo a mão até espremer o último espasmo, sem me deixar escapar por completo, e depois a retirou devagar, como se desse tempo ao meu corpo de lembrar do que acabara de acontecer.
— Assim, gata — murmurou —. Que porra de fogo você tem.
***
Quando me recuperei, me deslizei mais para baixo no assento e, me mantendo sob a coberta, baixei a cabeça até o colo dele. Ele prendeu a respiração de repente. Eu o segurei com a mão e passei a língua devagar pela ponta, só uma vez, só para ver como reagia. A cabeça da verga dele estava úmida, dura, e o sabor salgado, forte, me encheu a boca. Senti-o se agarrar ao apoio do braço com os nós dos dedos brancos.
Continuei acariciando-o com a mão enquanto lhe dava pequenos beijos, sem pressa, sem barulho. Desci um pouco mais e o coloquei entre os lábios, engolindo-o até onde consegui sem perder o controle do movimento. O ônibus ronronava na escuridão. Uma curva acentuada nos balançou e aproveitei o vai-e-vem para levá-lo um pouco mais fundo. A rola dele preencheu minha boca com uma pressão deliciosa; o prepúcio deslizou úmido contra minha língua e o gosto dele me fez fechar os olhos por um instante. Os dedos dele encontraram minha nuca e se fecharam suaves sobre ela, sem empurrar, sem me guiar, como se ele mal contivesse a vontade de agarrar minha cabeça e foder minha boca.
Subi e desci de novo devagar, chupando a cabeça, passando a língua por baixo, contornando-o com a mão para que cada movimento ficasse mais apertado, mais quente. Ele respirava como um animal sem ar. Notei como as coxas dele se enrijeciam, como a rola ficava ainda mais dura dentro da minha boca a cada vez que eu a umedecia com saliva. Quando senti que ele estava chegando ao limite, soube que estava prestes a gozar pela forma como o abdômen se endureceu e a mão na minha nuca apertou um pouco mais.
Ele gozou mordendo o próprio lábio, com os olhos fechados e a mandíbula travada, sem emitir um único som. Senti o jato quente enchendo minha boca, espesso, salgado, abundante, e engoli devagar, sem me afastar até arrancar dele o último tremor. Quando terminei, limpei a ponta com a língua mais uma vez, só pelo prazer, e fiquei um segundo observando como ele ainda respirava em soluços.
Me limpei com um lenço do bolso dele, que ele tirou e me ofereceu sem que eu pedisse. Reacomodei o short. Voltei a me ajeitar no assento como se nada do que tinha acontecido antes tivesse acontecido.
Ficamos em silêncio por vários minutos.
— Você é incrível — disse ele por fim, com a voz ainda um pouco rouca.
Não respondi. Só sorri para a janela.
***
Quarenta minutos depois o ônibus reduziu a velocidade ao entrar em San Pelayo. Esteban arrumou a roupa com calma, guardou a coberta, pegou a bolsa no compartimento de cima. Antes de se levantar, procurou minha mão uma última vez sob a coberta e a apertou por um segundo.
— Me dá seu número? — perguntou.
Eu dei. Não sei bem por quê, mas dei.
Acompanhei-o com os olhos pela janela enquanto ele atravessava a plataforma iluminada da rodoviária. Uma mulher da idade dele o esperava perto da saída: bem penteada, com um casaco claro e uma bolsa grande no ombro. Ele lhe deu um beijo no rosto e colocou a mão nas costas dela enquanto caminhavam juntos até o estacionamento, devagar, sem pressa.
Fiquei olhando até sumirem entre os outros viajantes.
O ônibus arrancou de novo.
***
Naquela semana ele me ligou quatro vezes de um número que eu não reconheci até salvar. Não atendi nenhuma. Não soube explicar para mim mesma que o que tinha acontecido naquele ônibus tinha me agradado justamente porque não tinha nome, porque existia só nessa bolha escura e em movimento que era um assento junto à janela numa estrada sem luz.
Às vezes ainda penso nisso. Nos dedos dele, na calma dele, em como cobriu minha boca para eu não fazer barulho. E penso também na mulher da plataforma, em como ele pôs a mão nas costas dela como se as últimas três horas nunca tivessem acontecido.
Às vezes fantasio em encontrá-lo de novo. Com o ônibus fazendo uma parada longa, com um motel perto da estrada e, dessa vez, a gente podendo terminar o que começou sem coberta no meio, sem passageiros dormindo ao redor, sem o relógio da viagem marcando o tempo que restava.
Mas também sei que parte do que tornou aquilo tão bom foi justamente isso: não ter terminado. Ter ficado ali, suspenso na escuridão de uma estrada, completo à sua maneira incompleta.
