A mulher trans que me ensinou quem mandava
Subi as escadas atrás dela com os olhos fixos na saia, sem imaginar que naquela noite não seria eu quem tomaria as decisões.
Subi as escadas atrás dela com os olhos fixos na saia, sem imaginar que naquela noite não seria eu quem tomaria as decisões.
Cheguei à praça esperando um café cordial com a mulher que me ensinou a ler poemas aos dezessete. O que aconteceu depois não estava em livro nenhum.
Ela tinha vinte e um anos e era filha da companheira da minha melhor amiga. Eu ensinava equações; ela me ensinava a não perguntar onde tinha passado as noites em que sumia.
Eu estava com meu vestido favorito no dia em que esses dois homens entenderam, sem que eu dissesse uma palavra, exatamente o que eu estava disposta a lhes dar.
Quando ela me disse que a mãe foi uma idiota por ter me deixado, eu ainda achava que era um elogio inofensivo. Cinco minutos depois eu a estava beijando.
Naquele domingo de outubro descemos da missa encharcadas pela chuva. Entramos na cozinha dela para nos secar. E ali, contra a parede, eu a beijei como tinha passado a vida inteira querendo beijá-la.
Naquela tarde na praia, eu só queria me desligar. Quando a loira de biquíni se aproximou para pedir fogo, soube que meus planos de solidão tinham acabado de mudar.
Seu Salvador estava no prédio havia um mês quando eu o descobri escondendo o celular. Não vi o que ele olhava, mas pelo jeito que ele gaguejava, imaginei na hora.
Entrei naquele quarto me achando a dona da situação. Saí de lá sabendo exatamente a quem devia o silêncio.
Quando os vizinhos foram embora, ela continuava ali, imóvel entre o capim alto, com um buquê de violetas apertado contra o peito e os olhos fixos em Marisol.
Desci para buscar água às duas da madrugada e a luz azul da TV me parou em seco. Meu filho estava no sofá, e eu não consegui desviar o olhar.
Entrei na cabine achando que seria só mais uma tarde de rotina. Saí sendo outra mulher, com o gosto de um beijo que não deveria ter acontecido.
Quando os vi saindo juntos do elevador, soube que aquela tarde seria muito diferente de todas as que eu já tinha vivido com ele.
Eu vinha lhe dando chocolates e rosas havia meses sem saber o que esperar. Naquele fim de tarde, no táxi de volta do trabalho, ela se aproximou do meu ouvido e tudo mudou.
Um robe azul, um livro e um descuido. Bastou um segundo olhando pela janela da frente para minha manhã mudar para sempre.
Quando Bruno levantou os olhos do monitor e viu o chefe olhando para a mãe, soube que tinha duas opções: fazer um escândalo ou ficar calado.
Quando os outros foram ao bar e ficamos sozinhos à beira da piscina, minha tia me perguntou algo que mudaria para sempre a forma como eu a olharia.
Ela passava cinco anos colocando um ingrediente íntimo nos meus pratos, e eu o provei todos os dias sem saber. Até que naquela tarde ela ousou confessar.
Desci do barco-museu com a cabeça girando. Naquela mesma noite, diante do Pacífico, uma mulher que eu mal conhecia me beijou como nenhum homem jamais tinha me beijado.
Saí para espairecer numa tarde de sábado. Quando levantei os olhos do café, ela já estava sentada diante de mim, sorrindo como se me conhecesse a vida inteira.