Aos quarenta, o vizinho não parava de me olhar
Faz anos que nenhum homem me olha como ele olhou da varanda ao lado, e naquela tarde descobri que eu também não queria deixar de ser olhada.
Faz anos que nenhum homem me olha como ele olhou da varanda ao lado, e naquela tarde descobri que eu também não queria deixar de ser olhada.
A Sonia me esperava na porta do restaurante com um vestido tão curto que, a cada respiração, contava um segredo. E eu tinha ido disposta a contar o meu.
Há anos ela escrevia orgasmos para desconhecidos sem rosto. Numa madrugada, pela primeira vez, alguém do outro lado da tela quis saber seu nome de verdade.
Ele chegou sem avisar, com aquele sorriso de quem sempre consegue o que quer, e em uma única semana virou de cabeça para baixo a vida da minha mãe, a minha e a do bairro inteiro.
A porta estava só encostada e lá dentro alguém repetia que sim, que sim. Eu não devia ter olhado, mas fiquei cravado no corredor, prendendo a respiração.
Tinha vinte e dois anos e um trabalho final que valia a disciplina inteira. O que não estava em plano nenhum era a oferta que aquele senhor me faria no caminho para casa.
Há anos eu queria ir a uma praia de nudismo, mas nenhuma das minhas parceiras quis me acompanhar. Naquela manhã decidi ir sozinho, sem imaginar como terminaria.
Desci para tomar um café com a do quinto e voltei de boca aberta: ela me contou, em detalhes, o que fez com o homem casado do oitavo andar.
Ela desabrochou o top do biquíni com a naturalidade de quem já decidiu tudo. «Você me convidou a me sentir livre», disse. E eu mal conseguia respirar.
Quando tranquei a porta, ele se virou e me cobrou o beijo que eu tinha dado em outro homem. Não soube se era raiva ou desejo o que ardia nos olhos dele.
Voltei para buscar o remédio pedido pelo meu avô e, no meio da escada, uma janela entreaberta me mostrou o que jamais imaginei ver da minha mãe.
Todos a odiavam antes de ela voltar ao bairro. Eu só desenhava suas tatuagens do meu lado do muro, até ela decidir me cobrar por ser sua musa.
Eu a via há semanas no semáforo, com aquele short jeans e aquele sorriso cansado. Naquela tarde criei coragem para falar com ela, sem imaginar até onde chegaríamos.
Da janela, ele a observava há semanas; na noite em que pulou a cerca, entendeu que seria ela quem decidiria tudo o que aconteceria entre os dois.
Saí de casa com um vestido normal, mas por baixo eu usava algo que só ele veria. Eu sabia o que ele ia me pedir, e já tinha decidido dizer sim.
A sala estava quase vazia quando a mão dele pousou no apoio de braço. Eu tinha quarenta e dois anos e achava que sabia tudo sobre o desejo. Nessa noite aprendi que não.
Quando me descobriu com a respiração acelerada e o olhar perdido entre as pernas dela, Marisa não se escandalizou: sorriu, se aproximou do meu ouvido e disse que aquilo não ia ficar assim.
Prometi a Marcos que cuidaria da mãe dele enquanto ele estivesse fora. O que eu não contei foi o que aconteceu na tarde em que ela se ofereceu para cozinhar na minha casa.
Quando ele desceu da van com aquele sorriso, eu soube que o aquecedor quebrado seria a melhor desculpa que o destino me deu em anos.
Desci ao banheiro à meia-noite e a porta entreaberta me revelou algo que jamais imaginei: minha mãe, que eu achava estar dormindo, não estava sozinha no chuveiro.