Interrompeu o casamento pelos dois homens que amava
Quando o oficiante perguntou se alguém tinha algo a dizer, o noivo ergueu a mão. Não para aceitar, mas para confessar o que vinha calando havia meses.
Quando o oficiante perguntou se alguém tinha algo a dizer, o noivo ergueu a mão. Não para aceitar, mas para confessar o que vinha calando havia meses.
Tenho trinta e quatro anos e nunca duvidei do que era. Até que essa semente começou a crescer dentro de mim, silenciosa e persistente, e eu já não pude ignorá-la.
Eu conhecia os horários dele, o barulho das botas, o momento exato em que tirava a camisa por causa do calor. O que eu não sabia era até onde essa obsessão ia me levar.
Elas ficaram ao lado do capacho, ainda mornas pelos pés descalços dela. Bastou minha filha se distrair um instante para eu cometer a loucura.
Sou uma patrícia acostumada a comprar tudo o que desejo. Naquela tarde, descobri que há homens a quem não se dá ordens: obedece-se.
Desci ao banheiro com uma urgência simples e a encontrei lá, ensaboada e sorrindo, já sabendo a ordem que eu estava prestes a dar.
Cada vez que a irmã dela se virava, ela tirava as sandálias e deixava os pés à mostra, sabendo o que fazia comigo e curtindo cada segundo da minha tortura.
Eu disse que gostava dos pés dela e ela riu. Não imaginava que, naquela tarde, enquanto cuidava das sobrinhas, eu estaria de joelhos diante da cama dela com os tênis nas mãos.
Aprendi a contar as horas até ela dormir. Só então, na escuridão do beliche, as sandálias eram minhas e ninguém podia ver o que eu fazia com elas.
Cheguei à casa dela por causa de um trabalho da escola e a encontrei de havaianas. A partir daí, nunca mais consegui olhar nos olhos dela sem pensar nos pés.
Era meia-noite em ponto quando atravessei o pátio descalço. As havaianas rosas dela ainda estavam ali, mornas, com a marca de cada dedo esperando por mim na escuridão.
Assim que a reunião relaxa e ninguém está olhando, eu me esgueiro até o banheiro. Sei exatamente o que vou encontrar no cesto e sei perfeitamente o que vou fazer com isso.
Não precisei ler o nome dele para saber que aquelas calças verdes que ele descrevia com tanto detalhe eram as minhas. E soube, naquele instante, que eu o faria implorar.
Desceu as escadas daquele consultório sabendo que não sairia a mesma mulher: três pares de mãos a esperavam para lembrá-la do que ela realmente era.
Nunca tinha pago por algo assim. Marcamos numa terça de manhã, ela me entregou a sacola às pressas e eu não conseguia parar de pensar no que me esperava em casa.
Ela levantou a saia, me olhou fixo e disse para eu não ter vergonha, que todo mundo fazia. Ali eu soube que aquela noite não se pareceria com nenhuma outra.
Ele sabia que ia perder antes de começar. Mas se render de cara não lhe dava nada: o prazer estava em resistir, em obrigar o outro a arrancar a vitória a dentadas sob a lua cheia.
Trabalho entre mortos há anos e achei que já tinha visto de tudo. Até que aquele homem, deitado na minha mesa de aço, se moveu quando enterrei o bisturi em seu peito.
Desde criança, os balões me aterrorizavam e me excitavam ao mesmo tempo. Naquele aniversário, trancado no banheiro, descobri até onde essa contradição podia me levar.
Li o nome na etiqueta do cadáver e meu coração deu um salto: era ela, a mesma que me humilhara durante seis anos. E agora estava imóvel, à minha mercê.