O que meu gêmeo viu naquela madrugada
Às três da madrugada Andrés bateu à nossa porta. O que aconteceu depois na beliche de baixo foi visto pelo meu gêmeo da de cima.
Às três da madrugada Andrés bateu à nossa porta. O que aconteceu depois na beliche de baixo foi visto pelo meu gêmeo da de cima.
As iniciais do amante não estavam escritas por extenso, mas coincidiam com as do homem que, naquele momento, fumava na minha varanda.
Antes eu sonhava com homens. Agora sonho só com ela: a desconhecida que me toca debaixo da mesa e entra na minha cama toda noite, mesmo com minha parceira dormindo ao lado.
Somos idênticas, ela repetia enquanto pintava os lábios dele. E era quase verdade: só um detalhe separava as gêmeas, e era justamente o que Carla nunca havia confessado ao namorado.
Aceitei o encontro por puro tesão: ser o objeto que meu chefe empresta aos amigos. Mas o que o sócio queria de mim naquela noite eu jamais teria imaginado.
Desci as escadas com o vestido que mamãe usou nas últimas férias. Quando meu pai ergueu os olhos, soube que algo nele tinha se quebrado para sempre.
O elevador parou no oitavo e ele subiu. Eu levava os últimos pesos no bolso e a certeza de que naquela manhã algo ia acontecer entre nós.
Servi o café das quatro como sempre. Só que dessa vez eu tinha acrescentado algo que não constava em agenda nenhuma.
Atravessei a doca, faminta e com um ódio fino pela humanidade, e então a vi cair no asfalto de um soco. Era minha chefe.
Entrei com a chave que ele deixou no vaso. O que eu não esperava era encontrá-la me esperando, de braços cruzados e a mandíbula travada.
Quando a sala esvaziou, ele ficou diante da minha mesa com uma desculpa tola sobre um exercício que já sabia resolver. E eu parei de fingir.
Sob as luzes da morgue, suas mãos não tremiam. Mas, ao fechar os olhos, ela voltava a senti-la contra os azulejos do vestiário, suada, mordendo seu pescoço.
Camila fechou a persiana sem parar de me olhar e, quando entrei na cama, já não conseguia pensar em outra coisa além do que ela tinha dito sobre minha mãe.
A sala estava quase vazia e o filme era só uma desculpa: o que importava era a mão dela subindo pela minha coxa no escuro da última fileira.
Crescemos dormindo em quartos vizinhos, até que uma noite um som do outro lado da parede me fez entender que eu já não a via como irmã.
Só queria descansar um pouco na maca. Não imaginei que terminaria com a mão dentro da roupa, mordendo o lábio para ninguém no corredor me ouvir.
Naquela manhã ela acreditava estar sozinha. Tranquei o escritório, pedi que não me passassem ligações e abri o aplicativo justo quando ela entrou no quarto.
Cheguei quarenta minutos adiantada, desliguei o motor no estacionamento subterrâneo e então o cheiro daquela madrugada voltou a mim como uma corrente.
Quando Sofia abriu aquela caixa do armário, eu soube que a noite não terminaria como as outras. Mesmo assim, não me mexi.
Eu a avisei que, se não gostasse, a deixaria na próxima esquina. Ela sorriu, reclinou meu banco e me pediu que fechasse os olhos por um segundo.