A terceira vez me vesti como a mulher que sou
Diante do espelho, com os lábios pintados e os saltos calçados, não vi ninguém fantasiado: vi a mulher que sempre quis ser quando me deixo levar.
Diante do espelho, com os lábios pintados e os saltos calçados, não vi ninguém fantasiado: vi a mulher que sempre quis ser quando me deixo levar.
Cruzei a porta do bar de saltos novos e o coração na garganta. Eu não imaginava que naquela noite alguém do meu passado entraria.
Cheguei à porta dele com uma bolsa que escondia minha outra pele: corset, meias e salto. Naquela noite deixei de ser Adrián para me entregar inteira como Selene.
Vesti o vestido vinho que ele tinha escolhido, respirei fundo e entendi que aquela noite seria o verdadeiro presente: me sentir, enfim, a mulher que sempre fui.
A primeira vez que me vi no espelho com o vestido vermelho, soube que Daniela já não se contentaria em sair só quando o povoado dormia.
Todas as noites ela se tocava às escondidas e chorava de culpa. Naquela madrugada, caminhou rumo às dunas sem saber que o deserto guardava um templo e, dentro dele, uma figura que mudaria tudo.
Três noites de mensagens com um desconhecido e, quando ele me perguntou se eu estava sozinha, decidi contar a verdade sobre mim antes de dar meu endereço.
Quando a assistente do diretor me entregou a sacola com a lingerie, soube que não havia volta: aquela noite pertencia a todos os homens daquela sala.
Eu o mantive longe com um sorriso e um “ainda não”. Naquela noite, quando a mão dele encontrou a minha, soube que eu não queria mais esperar.
Coloquei os scarpins vermelhos, o baby doll e a peruca, fiz um pedido qualquer e sentei para esperar um desconhecido tocar minha porta sob a chuva.
Nunca tinha estado com alguém assim. Quando ele abriu a porta e tive que erguer o olhar para encará-lo, soube que aquela noite deixaria de me pertencer.
Bastou um sussurro junto ao meu ouvido para que toda a minha vida de homem correto começasse a desmoronar sob o clique de uns saltos que ainda não eram meus.
Pedi trabalho de garçom num clube à beira da estrada. Três semanas depois, servia copas de tanga, salto alto e um nome novo: Adriana.
Aceitei o jogo só por uma noite: um vestido, uma peruca e um nome que não era o meu. Jamais imaginei que a garota do espelho me devolveria o olhar como se me esperasse.
Me arrumei como uma deusa para passar a noite diante da câmera. Quando a campainha tocou, não era o entregador: era ele, real e com o fim de semana inteiro pela frente.
Tinha vinte e sete anos, uma namorada e uma vida regrada. Então aquele vizinho o olhou no ônibus como se soubesse algo que Tobías ainda não ousava nomear.
Quando abri a porta, esperava encontrá-la sozinha no sofá, como sempre. Não contava com a segunda silhueta que me fitava da penumbra da sala.
Desliguei o motor no canto mais escuro do posto, retoquei os lábios no retrovisor e soube que naquela noite eu não iria embora sozinha.
O scanner emitiu um bipe vermelho e, naquele instante, soube que jamais voltaria a ser o homem que tinha entrado naquela sala pela manhã.
Paguei uma fortuna para encontrar a esposa perfeita. O app me mandou um único perfil: Daniela. O que descobri no hotel não estava em nenhuma foto.