Meu vizinho me pediu para ser ela naquela noite
Quando bateram à porta naquela tarde, eu soube que ele tinha visto tudo: a peruca, o vestido, a mulher que eu escondia. E em seus olhos não havia zombaria, mas fome.
Quando bateram à porta naquela tarde, eu soube que ele tinha visto tudo: a peruca, o vestido, a mulher que eu escondia. E em seus olhos não havia zombaria, mas fome.
Aceitei o convite porque me senti especial. Acordei nua, com uma coleira no pescoço e uma mulher que já havia decidido no que iria me transformar.
Eu sabia exatamente o que provocava ao cruzar as pernas diante da mesa dele. O que ele não sabia era a surpresa escondida sob minha saia.
Naquela noite, eu queria o segurança que me despira com o olhar a tarde inteira, sem que ele soubesse o que eu escondia.
Diante do espelho, ajustando a cinta e a peruca loira, permito-me o luxo mais perigoso de todos: imaginar alguém que fique depois.
Escrevi para ele: “porta entreaberta, se você tiver coragem” e apaguei quase todas as luzes. Quando ele subiu a escada, soube que não havia mais volta.
Não dormi a noite inteira. Ao amanhecer, ela me vestiria, me maquiaria e me levaria ao lugar onde decidiriam que tipo de homem eu continuaria sendo... se é que continuaria sendo um.
Cheguei ao templo meio morta, convencida de que meu corpo era uma maldição. Naquela mesma noite, o sacerdote sussurrou que eu era, na verdade, uma escolhida.
Quando o DJ disse meu nome e o clube inteiro cantou, não imaginei que a melhor parte do meu aniversário começaria muito depois, longe da pista.
Eu mapeava uma selva onde ninguém falava meu idioma e, ainda assim, foi ali, entre corpos pintados de argila, que deixei de me sentir um fantasma.
Passei meses me transformando diante do espelho. Nessa noite, na cama de um desconhecido, descobri até onde minha nova pele podia me levar.
Diante do espelho daquele salão, abriu-se uma caixa com roupas que não eram suas, e cada peça que vestia apagava um pouco mais o homem que havia entrado.
Na maior parte do tempo sou o homem que nasci. Mas algumas noites eu coloco a peruca, me olho no espelho e deixo Sabrina sair para buscar o que realmente quer.
O corpete se ajustava ao corpo como uma segunda pele e o cetim apertava seus punhos. Diante do espelho, Adrián deixava de fingir e enfim era quem desejava ser.
Entrei na terceira fileira com um café frio e meu ceticismo dobrado no caderno. Não sabia que cada frase dela iria reescrever quem eu era, até o último botão.
Sob a tocha, reviso meus esboços e sinto o corpo arder por ela. O contrato acaba e eu já sei: não vou sair desta selva sem Yuma ao meu lado.
Me vesti pra estrear, entrei no carro com as outras duas meninas e cruzei metade da província sem saber que naquela noite aprenderia a suportar o desprezo de cabeça erguida.
Quando o espelho me devolveu um rosto que não era o meu, entendi que naquela casa eu já não mandava em nada. Só obedecia e desejava agradá-la.
Nessa noite eu não era o anfitrião, mas o adorno. Minha esposa escolheu meu vestido, me calçou os saltos e mandou eu sorrir enquanto as chefes dela me avaliavam.
Quando ela abriu a porta com aquela lingerie preta e aquele sorriso frio, entendi que naquela noite não haveria conversa: só ordens, e eu estava disposto a obedecer cada uma.