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Relatos Ardientes

O professor que me ensinou a obedecer

Ilustração do conto erótico: O professor que me ensinou a obedecer

A mesa estava animada quando cheguei. Havia antigos professores, alguns colegas de turma que eu lembrava vagamente das salas de aula, e estava Camila. Eu sentia tanta falta da companhia dela: seu sorriso luminoso, seu olhar atento, aquela calma dela que contagiava. Éramos grandes amigas na faculdade, inclusive dividimos apartamento durante o curso inteiro. Nos abraçamos assim que nos vimos e não hesitamos nem um segundo em sentar juntas. Tínhamos coisa demais pendente para conversar.

—Helena, você me alcança essa garrafa de vinho? —pediu dom Aurelio, um dos nossos velhos catedráticos.

Obedeci sem pensar e ele esboçou um sorriso quase imperceptível. Sério, rígido, continuava imóvel como uma rocha. Ele havia me imposto a faixa da formatura anos atrás e, embora eu reconhecesse a inteligência do meu mestre, seu jeito não convidava a longas conversas. Parecia que era preciso arrancar cada palavra dele a golpes de cinzel.

—É uma pena o que aconteceu com Marcos, mas enfim, também não é o fim do mundo —murmurou Camila ao meu lado.

Assenti e dei um gole generoso na taça, deixando o champanhe arrastar a lembrança fugaz dele. Camila tinha perguntado, e eu resumira sem detalhes que tínhamos terminado. Os olhos escuros dela brilharam: ela sabia que havia mais coisa, mas não insistiu.

—Tenho certeza de que a inauguração deste mestrado vai ser um sucesso —aplaudia dom Ernesto, responsável pelo departamento—. As pesquisas dizem que as vagas vão se esgotar na primeira chamada.

Todos celebraram o prognóstico com um brinde animado.

—Ainda mais contando com ex-alunos tão exemplares como os que temos aqui —acrescentou dona Beatriz, a única professora convidada.

Camila e os demais se mexeram, agradecendo o elogio. Ela pareceu ficar nervosa: brincou com uma mecha do cabelo ondulado enquanto a outra mão apertava o guardanapo até os nós dos dedos ficarem brancos. A tensão se desfez quase de imediato.

Olhei ao redor. Éramos os únicos jovens. Os professores rondavam os cinquenta ou já os haviam passado; o tempo se denunciava nas linhas dos olhos, no brilho já mais fraco, na discrição envelhecida de seus ternos. Entre todos eles, destacava-se o conjunto de dom Aurelio: paletó de veludo cotelê xadrez, aberto, deixando ver uma gravata-borboleta preta presa ao pescoço da camisa branca. Apareciam umas suspensórias quando ele se esticava. Seus olhos cinzentos não haviam perdido o corte, nem a astúcia, e seus lábios pareciam esculpidos numa linha fina que quase não se curvava.

Como se percebesse que eu o observava, ergueu o olhar e o cravou em mim. Desviei o olhar num pulo. Sempre suspeitei que aqueles olhos eram capazes de bisbilhotar o último canto da mente dos seus alunos. Era o professor que mais cola havia pego em provas, o que mais respeito inspirava.

Camila deu um sobressalto ao meu lado. Olhei para ela, mas ela me dedicou um sorriso carinhoso e dissipou minha inquietação. Estava deslumbrante com sua blusa branca e a calça preta de alfaiataria. Corou quando dom Ernesto lembrou como ela conseguia honras máximas quase sem esforço, embora eu soubesse que aquilo era pura dedicação: ela mergulhava nos estudos sem ligar para as horas da madrugada.

—Desculpe —disse eu quando o garfo escorregou dos meus dedos e caiu entre nós duas.

Impequei Camila, que se dispunha a pegá-lo, e me inclinei justamente quando dom Ernesto se levantou e um silêncio firme caiu sobre a sala. Foram apenas dois segundos, mas bastaram para que eu percebesse, sob o tilintar da colher contra o cristal, um zumbido tênue que me arrepiou a nuca.

Me ergui atordoada. Olhei de soslaio para minha amiga, que se remexia no assento e corava ainda mais. Ela fugiu dos meus olhos, pediu desculpas e foi para o banheiro quase correndo. Dom Aurelio arqueou uma sobrancelha com desdém; dom Ernesto minimizou com um gesto. Levantei-me e pedi licença também.

Entrei no banheiro com muito cuidado, empurrando a porta para não fazer nenhum barulho. O coração martelava dentro de mim. De um dos boxes vinham ofegos e sussurros atropelados, como se alguém tentasse tapar a boca.

—Por favor, mais não, você vai me… para, para —suplicava uma voz quebrada e baixíssima.

Fiquei paralisada diante da porta de onde saíam aqueles sons. Engoli em seco, incrédula.

—Não aguento, eu vou… Deus, Aurelio, eu vou…

Apoiei uma mão na borda da pia, estarrecida. Aurelio? Camila e ele estavam…? Naquele instante a trava, com a maçaneta quebrada, cedeu e a porta se abriu sozinha. Na pressa, ela nem tinha percebido que escolhera o box mais afastado, e não o mais seguro. E diante de mim surgiu uma das cenas mais perturbadoras que eu jamais imaginei.

Camila estava sentada sobre a tampa do vaso, com a calça nos tornozelos, a roupa íntima enroscada nas canelas e as duas mãos apertadas contra a virilha. Tinha a cabeça baixa e o cabelo escondia seu rosto.

—Camila? —sussurrei.

Ela ergueu a cabeça de repente, lívida, mas devorada por um rubor profundo nas bochechas e no pescoço. Aquele rubor era o rastro do orgasmo que ela acabara de ter segundos antes.

—Helena! —exclamou, puxando a porta.

Reagi e me virei de costas, tampando o rosto.

—Eu não vi nada, não se preocupa, eu…

—Espera, espera. Porra, não vai embora!

Ela se colocou entre a saída e eu, já vestida, ajeitando o cabelo, com um sorriso nervoso.

—Dom Aurelio e você…? —soltei, direta, chocada por ouvir as minhas próprias palavras.

Ela abaixou a cabeça e deu alguns passos lentos em direção ao espelho. Esfregou um braço, procurando palavras, e aguentou um novo tremor.

—Ele colocou bolinhas chinas em mim… —entendi de repente, vendo por que ela caminhava como se cada passo fosse um suplício.

—A gente tem uma relação meio… estranha, sabe? Mas é secreta. Não conta pra ninguém —sussurrou, fugindo do meu olhar.

—Ele é seu orientador de tese. Ele está te chantageando?

—Não, Helena, ele jamais faria isso. Só gosta que eu me sinta dominada, presa nas mãos dele. E eu… eu gosto. Não me olha assim!

—Mas Camila, ele? Quantos anos ele tem, sessenta?

—Cinquenta e dois, e muito bem vividos, te garanto. E daí? Quem dera tivesse essa experiência toda gente com quem eu me envolvi.

—Ele te obrigou a colocar bolinhas chinas e você quer que eu acredite que fez isso porque quis…

—Você não imagina o quanto eu gostei, o quanto me custou me conter… —ela se estremeceu, olhando-se no espelho—. Fui eu que pedi. Queria sentir esse calor, essa pulsação que te percorre quando o ferrão do prazer te atravessa.

A voz dela estava impregnada de adoração por aquele homem. Eu estremeci: ela não fingia, me dizia a verdade com uma sinceridade crua. Virou-se e pegou minhas mãos.

—Passo muitas horas trancada, mergulhada na pesquisa. Com ele me guiando, me corrigindo, tão perto de mim… Não sei como começou, mas aconteceu. E ele é diferente dos outros. Não é um homem que se curva ao sexo pelo simples fato de meter. Ele é… diferente.

—Você ainda está usando? —perguntei num sussurro. Ela assentiu.

—Até ele me dar permissão para tirar, eu tenho que usar. Fui eu que pedi e ele mandou. Ele faz vibrar quando quer, Helena. Me arrepiam, me excitam…

Recuai, impressionada. O rosto dela se contraiu numa careta de prazer e logo recompôs a expressão.

—Esse homem está te usando, você não pode permitir isso —insisti.

Ela me olhou com os olhos úmidos e me abraçou. Correspondi, lembrando todas as noites juntas, as conversas na cozinha, os cafés roubados do estudo. O turbilhão de alegria que era Camila contrastava de forma terrível com aquela identidade escura e nova. Ela sussurrou no meu ouvido, primeiro com timidez, as coisas que ele fazia com ela. Eu a escutava e ficava cada vez mais abalada a cada palavra.

—Vamos voltar antes de chamar atenção —propus, e ela concordou.

Na volta, não me escapou o longo olhar pensativo que dom Aurelio nos lançou, nem o brilho astuto de seus olhos quando me examinou de cima a baixo. Uma imagem me atingiu e sacudi a cabeça, assustada: eu de quatro, com a roupa íntima nos tornozelos, ouvindo passos firmes se aproximando, vendo projetar-se no chão o contorno de um braço imponente. Que diabos eu tinha acabado de imaginar? Abafei a ideia na taça.

***

O resto da noite foi tenso. Camila voltou a se ausentar e, ao regressar corada, anunciou que iria embora: no dia seguinte acordaria cedo. Dom Aurelio nos olhava a ambas como se estivesse nos avaliando, e toda vez que seus olhos roçavam os meus eu me sentia intimidada, como se tivesse atraído a atenção de algo inconmensurável para mim.

Encarei-o. Aproveitei que ficamos sozinhos à mesa, sentei ao seu lado e despejei tudo. Dei vazão ao nó no estômago, ao desamparo de ver a imagem que eu tinha do meu professor virar cinzas enquanto Camila me sussurrava aquelas coisas. Ele não disse nada. Só ouvia. Ouviu cada xingamento, um mais visceral que o outro. Eu disse que ele era um pervertido, um obsceno, que Camila não significava porra nenhuma para ele contanto que ele saciasse seu vício. Eu disse que ele tinha passado do limite. Ele me deixou falar até eu quase ficar sem voz, com a boca seca e um tremor me percorrendo.

E ele só olhava. Esse olhar ainda me arrepia. Era como se ele memorizasse cada uma das minhas palavras, guardando-as num canto escuro da mente para soltá-las no momento certo. Quando me calei, com o coração disparado, limitou-se a escrever algo num guardanapo e a me entregá-lo: «Se você se sentir preparada para conhecer um homem como eu, venha à minha casa amanhã às 19h30. Venha vestida como está hoje e prepare-se para sentir o que é o prazer, Helena. Porque eu vou te foder, não fazer amor com você».

Ele se levantou e foi embora, me deixando com a palavra na boca e o guardanapo amassado entre os dedos, furiosa, agitada, perturbada.

***

Estacionei o carro e subi até a soleira da casa dele. A cada degrau se travava uma batalha dentro de mim. Eu me repetia que era uma idiota e, ao mesmo tempo, uma voz me empurrava a me entregar às mãos daquele homem para sentir o que eu tinha vislumbrado nos olhos de Camila.

Acho que me joguei aos pés dele porque me sentia despedaçada por causa de Marcos, depois do que houve com Lúcia. Eu me culpava pelo fim, pelo dano que lhe causei. Isso me roía, me fazia acreditar que eu merecia a dor, que merecia que alguém me usasse como bem entendesse. Ao mesmo tempo, eu morria de curiosidade para descobrir o que tinha encantado tanto minha amiga, o que aquele homem tinha para que ela não só aceitasse aquilo, mas pedisse por isso.

Ele me recebeu com a mesma roupa do jantar, exceto o paletó. As mangas estavam arregaçadas e ele me olhou extasiado.

—Entre, Helena, eu a esperava —disse com um sorriso lupino.

—Sua casa é linda —respondi, observando a sala enorme: estantes cheias de volumes e frascos com líquidos e criaturas submersas, uma luz baixa, uma música suave que reforçava o ar solene do lugar.

—Comparada à sua beleza, ela é insignificante —sussurrou, me ajudando a tirar a capa de chuva.

Quando o dorso da mão dele roçou meu pescoço ao retirar a peça, estremeci. Foi como se uma corrente brotasse da pele dele e me atravessasse. Virei-me e quase esbarrei nele. Ele me olhava em silêncio. Não: ele me atravessava com olhos de falcão, me submetia a um julgamento que eu perderia de antemão. Encolhi-me, fugindo do brilho selvagem de seus olhos cinzentos.

—Peço desculpas pelo de ontem —sussurrei num fio de voz.

Ele acariciou minha bochecha, de leve, sentindo meu tremor. Era a carícia cruel da garra de um tigre sobre sua presa rendida.

—Suas desculpas não são necessárias. Mas hoje vou ser franco: preciso da sua confiança, da sua confiança total. O que vou fazer com você não é fazer amor. Não vim para me deitar como um amante terno. Vou te foder. Você aceita?

Secas, contundentes, suas palavras vinham matizadas por um tom sereno, calculado, seguro.

—Vai doer? —foi o único que consegui perguntar, abrasada pelo brilho incendiário dos olhos dele.

—Vai ser uma dor prazerosa. E a qualquer momento, se quiser, pode me mandar parar. Dou-lhe a minha palavra.

—Me fode, amo? —implorei com a voz trêmula, estarrecida, me sentindo tremer como um beija-flor sob a chuva. Meu corpo ardia: as coxas, as palmas suadas, a agitação no ventre.

—Não peço a ninguém que se dirija a mim com esse termo —riu, satisfeito—. Mas gosto da sua iniciativa. Fique só de roupa íntima e vá até ali, de joelhos no tapete, olhando para a porta.

As palavras dele atravessaram minha mente como uma debandada. Ele me concedeu uma trégua, afastou-se e remexeu em algumas gavetas, de costas para mim. Se eu quisesse, poderia pegar essa porta e ir embora. Tirei os sapatos. Você ainda pode fugir, insistia uma vozinha. É só pegar os sapatos e ir, mesmo descalça.

Mas o suéter escorregou dos meus dedos, e depois a camiseta de baixo resistiu um pouco. Ele continuava remexendo nas gavetas: abria uma, fechava outra. Eu sabia que ele me observava, mas não me virei. Desapertei o cinto e a fivela soou contra o chão. O que eu estava fazendo? Eu não conseguia parar, não conseguia ignorar a queimadura que crepitava dentro de mim como uma brasa. Tirei a calça e, quando o sutiã caiu no chão, senti o quanto meus mamilos estavam sensíveis, o quanto precisavam ser acariciados.

O hálito dele roçou a nuca exposta. O calor dele se fundia ao meu. Então ele ajustou algo frio e áspero ao meu pescoço. Fechei os olhos: soube o que era antes mesmo de ele abotoar. Uma coleira de cachorro.

Ele beijou a curva do meu pescoço, acariciou meus ombros, deslizou os dedos pelas costas e pelos flancos. Espreitava meus seios sem conquistá-los ainda. Brincou com minha lingerie, puxando o tecido para que grudasse na pele, para que comprimisse minhas nádegas, e eu gemi. Eu sentia a pulsação do meu sexo, o corpo inteiro se rendendo a ele. Tentei tocar nos braços dele, mas ele desviou do meu contato.

Por trás, ele acariciou meus seios, devagar, se deliciando. Contornou os mamilos com os polegares, percorreu o desenho com as pontas dos indicadores. Era uma destreza que me arrastava para um turbilhão de desejo que eu não sentia havia tempo.

O feitiço se quebrou quando passos se aproximaram da entrada. A campainha tocou e quase senti o sorriso dos lábios dele na minha orelha.

—Fique ajoelhada e calada.

Os olhos dele procuraram os meus uma última vez antes de ir até a porta. Ele não abriu: esperava meu consentimento. Dei-o ao pôr os joelhos no tapete, sentando sobre os calcanhares, com as pernas ligeiramente afastadas e as mãos nas coxas. Baixei o olhar, perturbada, corada, excitada. Ele me sorriu, os olhos faiscando de orgulho por sua antiga aluna exemplar, agora transformada em sua cadela obediente.

Ele abriu e a conversa me invadiu. Eu só via seus mocassins pretos, imóveis. A luz do hall atravessou minhas pálpebras quando ele se virou para pegar a carteira num móvel junto à porta. Entendi que, naquele instante, um estranho me olhava, atônito ao ver uma loira quase nua, com uma coleira no pescoço e de joelhos a menos de um metro. O coração quase saiu pela boca.

—Toma, Daniel, uma boa gorjeta pela sua pontualidade. Eu te disse 19h40 e você cumpriu —dizia dom Aurelio, alegre.

Estremeci. Ele tinha planejado tudo com antecedência.

—Sim… muito obrigado, senhor —respondeu, constrangido, o entregador.

Quando a luz voltou a me alcançar, abri os olhos cega e só distingui uma silhueta recortada na soleira. Ainda assim, percebi o brilho guloso de uns olhos me percorrendo, me desejando. Por fim ele fechou a porta e se voltou para mim.

—Muito bem, Helena —disse, acariciando meu queixo—. Você quer que eu a leve para o meu quarto?

—Sim —murmurei, com a língua pastosa.

Ele me ofereceu a mão para me erguer e depois a levou à minha virilha, apertando a palma contra o tecido.

—Sinto o seu calor —sussurrou perto do meu ouvido—. Ficou tão excitada assim por aquele homem ter te visto?

—Vamos para o quarto —implorei, incapaz de confirmar o que ele já sabia.

Ele abafou uma risadinha e me guiou por um corredor longo e escuro. Deixávamos para trás portas fechadas. Meus pés descalços mal faziam barulho diante de suas pisadas sonoras. A porta do quarto estava entreaberta. Ele a abriu e, antes que eu entrasse, me deteve.

—Nenhuma mulher entra aqui vestida.

Acendeu a luz e senti-o se abaixar atrás de mim, deslizando a última peça pelas minhas pernas. Enquanto isso, olhei o quarto: sóbrio, sem adornos, paredes brancas, uma cama de casal com cabeceira de mogno. E estremeci ao vê-las: brilhantes, frias, imóveis. Algemas presas nos vãos da cabeceira.

Os dedos dele se encaixaram nas minhas nádegas com a firmeza de garras e escorregaram pelas minhas coxas como uma pena. Beijou meus quadris, afastou minhas nádegas, lambeu entre elas. Me remexi quando ouvi o barulho molhado de um dos dedos na boca dele; ele o ensalivou e o deslizou entre as nádegas sem ir além.

—Seu cu não é virgem —sussurrou, divertido.

Confirmei com um leve gesto. Ele apalpou os pelos do púbis, tão perto do meu sexo que senti que ia desfalecer.

—E você vem até mim como mulher, sem a xana lisinha. Seus lábios se abrem diante de mim dispostos a me acolher. Ainda quer continuar?

Ele acariciava meus lábios, roçava de leve o clitóris, sua língua se enroscava entre minhas nádegas antes de alcançar o sexo. Eu delirava, indefesa, oferecida como um sacrifício.

—Faça de mim sua —arquejei quando a língua dele deslizou entre meus lábios.

Ele se ergueu e me ordenou ao ouvido, seco:

—Deite de costas na cama.

Obedeci sem discutir e ele me algemou, devorando-me com o olhar. Abri bem as pernas para me mostrar impudica diante dele. Eu queria beijá-lo, quase implorava por isso com os lábios trêmulos. Ele me pegou pelo queixo e me beijou: um beijo longo, tórrido, apaixonado. Quando se afastou, gemi aflita. Eu me surpreendia comigo mesma, tão carente daquele homem.

Então remexeu numa gaveta e me mostrou uma velha câmera instantânea. Me dedicou um sorriso lascivo, pediu permissão e eu assenti, oferecendo minha nudez. Apagou a luz, ouvi o flash e, depois, um silêncio incômodo. Ele se movia entre as trevas como uma sombra. Abriu outra gaveta e, ao acender a luz, o vi segurando aquilo diante de si: implacável, perturbador.

—Pelos seus olhos, deduzo que a senhora sabe o que é.

Ele o passou pelos meus pés, subindo pelas pernas e coxas. Percorreu meu sexo com aquelas finas tiras de couro, com um cuidado quase terno.

—Um flogger —sussurrei quando as tiras roçaram meus mamilos.

Ele assentiu, satisfeito, e o sacudiu diante dos meus olhos. Um lampejo de medo me cruzou o rosto e ele percebeu.

—Aguente cinco e vai entender.

Cinco. A mão se moveu e as tiras voaram sobre meus seios. Mais do que dor, senti ardor, calor e algo desconhecido. Ele deixou as caudas roçarem minha pele avermelhada antes de bater de novo, com mais força. A sensação era confusa: dor, calor e uma coceira estranha se dissolvendo numa coisa só. A última me fez gemer e depois ronronar de prazer.

Debati-me contra as algemas, mais por vontade de abraçar o pescoço dele e implorar que me fizesse sua do que para fugir. Meus mamilos eram duas bombas que emitiam uma mistura irresistível de prazer e dor. Ele acariciou minha bochecha e esfreguei o rosto contra a palma dele. Então se abocanhou nos meus seios e os beijou, um bálsamo fresco sobre a minha pele em chamas. Gemi, os pés arranhando os lençóis, os pulsos puxando as algemas. Meu sexo latejava pedindo a chegada dele.

Meus olhos escorregaram do sorriso manhoso dele até o volume que se desenhava na calça. Ele suspendeu o flogger sobre minha virilha e fez um gesto com a mão livre. Obedeci, abrindo as coxas, oferecendo tudo a ele.

—Cinco.

O primeiro foi quase uma carícia, uma chicotada controlada que me fez morder o lábio. O segundo veio logo em seguida, acompanhado do sorriso dele: as tiras alcançaram minha fenda, a parte interna das coxas, a borda das nádegas. O terceiro e o quarto vieram juntos, relâmpagos que me prenderam num turbilhão lancinante. O quinto, quando veio, foi mais cortante, mas também mais incendiário, mais prazeroso, e até fez o rosto frio dele se convulsionar.

Supliquei que ele me fodesse, que me penetrasse. Debati-me contra as algemas, os pés se agitando, olhando para ele em desespero. Ele pareceu me ouvir e aproximou o rosto do meu sexo avermelhado. Aspirou forte, lançou o hálito sobre ele e me beijou e lambeu sem pressa, se deleitando com os meus gemidos. Atacava o clitóris inchado e depois brincava com os pelos, passeava a língua dócil entre meus recantos.

—Me fode, por favor, eu não aguento mais —eu exortava quase com lágrimas nos olhos.

Então ele baixou a calça e a roupa íntima. Aproximou-se com uma careta selvagem, agarrou seu membro e passou a glande pelos meus mamilos enquanto a mão do flogger se apoderava do meu sexo.

—Oh, Deus —foi o único que consegui dizer, fechando os olhos.

Ele me fodava, sim, mas não com o membro, e sim com a ponta do flogger, terminada numa bola romba, fria no início e depois quente e vibrante. Ele a introduzia e a retirava ao seu bel-prazer enquanto se sacudia sobre meus seios. Gozei com fúria, me salpicando, e fui arrastada por um orgasmo tão brutal que me deixou inerte sobre a cama. Sentia a semente dele escorrer pela minha pele e isso não me importava: eu me deixava embalar pelo calor.

***

Acordei no dia seguinte coberta, com as mãos sob um travesseiro macio. Abri os olhos sem reconhecer o lugar até que as lembranças se aglomeraram quando o vi de pé, de robe, me olhando. Corei, mas disfarcei com um sorriso, me sentando sem medo de que os lençóis escorregassem.

—Torradas com manteiga, ou com presunto e queijo em fatias —ofereceu, deixando uma bandeja no aparador. O cheiro me abriu o apetite—. Passei creme nos seios e no sexo; a pele fica muito sensível nessas áreas. Use hoje mais uma ou duas vezes e amanhã outra. Pode tomar banho se quiser —acrescentou, recuperando o tom indiferente de sempre, se despindo da ternura de antes.

—Eu podia tomar banho com o senhor, se quiser —ofereci, mostrando uma coxa por baixo dos lençóis.

—Eu adoraria fazer amor com você debaixo do chuveiro, Helena, mas não. Já disse: eu ia te foder, e fiz isso. Não sou um quarentão galanteador nem um galã —lembrou, indiferente ao meu pedido.

—Vou ficar na cidade mais três dias. Posso voltar?

Eu mesma me surpreendi ao dizer isso, ao confessar o desejo de que ele voltasse a me usar. Ele me lançou um olhar intrigado.

—Sinto muito, Helena, mas Camila…

—Ela não vai ser um obstáculo, com certeza. A senhora consegue imaginar nós duas…? —ofereci, corando com um tom sugestivo.

O coração quase saiu pela boca só de me imaginar nos braços de Camila, e esse mesmo estranhamento me perturbava. Até ele deixou a imaginação aparecer no rosto.

—Isso me surpreende. A senhora realmente gostaria, junto com ela…?

—Sim, amo.

A firmeza dessa palavra bastou para que ele não retrucasse e esboçasse um sorriso embriagado.

—A senhora aceitaria até sabendo que não estaremos sozinhos? Virá um conhecido, um antigo colega de faculdade.

—Sim, amo.

Dessa vez minha voz tremeu. Eu tinha acabado de aceitar me entregar a um desconhecido só para conseguir que ele voltasse a fixar sua atenção em mim, só para sentir de novo aquela dor convertida em prazer blasfemo, tão longe do romantismo que eu conhecera até então.

Um dia, pensei, contaria a Marcos como me entreguei às mãos daquele homem, como ele me possuiu a seu bel-prazer pela simples promessa de me satisfazer do seu jeito, diante dos olhos da minha amiga e do deleite de um estranho.

Ainda hoje a lembrança de dom Aurelio me perturba e me sacode, como se eu acordasse de um sonho. Ainda hoje a dor me aperta no aniversário da sua morte, e ainda me lembro de como, cinco anos depois, Camila e eu nos abraçamos chorando pela perda de um mentor que fingia nos usar quando, à sua maneira, nos amava.

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