Quando ficamos os quatro sozinhos em casa
Eram amigos desde a universidade, dois casais que se viam quase todos os fins de semana. Jantares, vinho, alguma partida de cartas que terminava em confidências. E, havia meses, um jogo que sempre ficava pela metade: uma carícia que durava um segundo a mais, uma brincadeira com duplo sentido, uma mão que demorava onde não devia e depois se retirava como se nada tivesse acontecido. Nunca tinham ido até o fim. Naquela noite, porém, havia algo no ar diferente desde o primeiro brinde.
Eles tinham apagado as luzes grandes e deixado só os abajures mais baixos. Ninguém disse isso em voz alta, mas os quatro sabiam que aquela seria a noite em que deixariam de fingir.
Andrés saiu do banheiro enrolado numa toalha, com o cabelo ainda pingando sobre os ombros e a pele morna da água quente. Fazia apenas dez minutos que estava fora da sala, mas, ao cruzar a soleira, parou em seco.
Hugo estava estendido no tapete, sem fôlego, com Sofía e Renata acomodadas de cada lado do corpo. Elas beijavam o pescoço e o peito dele enquanto uma das duas corria a mão pela rola, sem pressa, apertando de cima a baixo com uma segurança que o fazia arquear-se sobre o tapete. A glande brilhava úmida sob a luz baixa, dura e exposta, enquanto os dedos de Sofía massageavam a base e Renata lambia o mamilo com a boca aberta, engolindo cada suspiro que arrancavam dele.
Renata foi a primeira a erguer o olhar. Sorriu com aquela malícia tranquila que Andrés já conhecia das outras vezes, das vezes em que o jogo ficava pela metade e todos fingiam que nada havia acontecido.
— Bem na hora, amor — disse ela.
Sofía passou a língua pelos lábios. Os olhos dela estavam vidrados, a respiração alta.
— Vem — murmurou —. Desta vez vamos jogar os quatro de verdade. Sem uma única regra.
Andrés deixou a toalha cair sem dizer nada. Não foi preciso. Seu corpo respondeu sozinho ao ver a cena, com a rola endurecendo na hora, e ele deu um passo à frente, mas Sofía o deteve com a palma aberta contra o peito.
— Não tão rápido — advertiu —. Primeiro vocês olham pra gente.
As duas mulheres se ergueram e se ajoelharam diante dos homens, que agora estavam de pé, lado a lado. Sofía abriu a boca e engoliu a rola de Andrés de uma vez, fundo, até senti-la bater na garganta; não ficou parada, e sim começou a chupar com fome, alternando língua e sucção, enquanto uma mão lhe acariciava os ovos e a outra lhe arranhava a coxa. Renata fez o mesmo com Hugo, lambendo a ponta antes de abocanhá-lo por inteiro, babando sobre a base, entrando e saindo com a cabeça em movimentos curtos e sujos. Depois trocaram, devagar, deixando as línguas se cruzarem no meio, e os dois homens ficaram quietos, com as coxas tensas, se deixando fazer enquanto as bocas delas os deixavam trêmulos.
O ritmo era comandado por elas. Toda vez que sentiam um dos dois perto demais, paravam e riam baixinho, e recomeçavam do início, apertando com os lábios, chupando mais fundo, roçando os dentes só o suficiente para enlouquecê-los.
***
— No chão, os dois — ordenou Renata, com a voz rouca.
Hugo e Andrés obedeceram sem discutir e se deitaram de costas, lado a lado, sobre o tapete da sala. Sofía se acomodou sobre o rosto de Andrés, apoiando todo o peso, enterrando o cu na boca dele com um gemido sufocado, movendo-se em círculos lentos enquanto ele a lambia por baixo, segurando-lhe os quadris para não perder o ritmo.
— Não para — pediu ela, com os dedos enredados no cabelo úmido dele.
Renata fez o mesmo sobre Hugo. Durante um tempo, o único som da sala foi o das duas mulheres respirando entrecortado, as mãos apoiadas nas paredes para se sustentar, os quadris balançando com uma urgência cada vez mais suja. Elas montavam nos rostos dos dois sem pudor, esfregando o clitóris nas bocas abertas, até o ar se encher de gemidos partidos e do gosto salgado da excitação. Ao mesmo tempo, cada uma se inclinou para a frente e cuidou com a boca do homem do outro lado: Sofía de Hugo, Renata de Andrés, numa cadeia que os unia os quatro num mesmo círculo fechado.
Os homens não viam nada além da curva de umas coxas sobre o rosto, mas sentiam tudo. O quarto inteiro tinha se reduzido a calor, saliva e peso, a unhas cravadas na pele e a bocas devorando sem piedade.
***
Sofía e Renata se olharam por cima dos dois corpos estendidos. Não foi preciso dizer nada; bastou aquele olhar para entender que o jogo acabara de mudar de nível.
— Agora queremos ver vocês — disse Renata, e a frase ficou flutuando no ar um instante a mais.
Elas empurraram Hugo e Andrés até deixá-los de joelhos, frente a frente. Os dois ficaram se olhando. Eram amigos havia anos, tinham dividido cervejas, jogos, viagens com as parceiras. Nunca tinham cruzado aquela linha. Renata apoiou uma mão na nuca de Andrés e o guiou, devagar, sem forçar, dando tempo para ele parar se quisesse.
Andrés não parou.
O que veio depois apagou de uma vez os anos de risos contidos e olhares de soslaio. Hugo aceitou com a mesma entrega. As duas mulheres ficaram ajoelhadas aos lados, observando, com as mãos entre as próprias pernas, orientando de vez em quando com uma palavra solta. As bocas dos dois homens se encontraram primeiro com desajeito e depois com fome, língua contra língua, saliva se misturando num beijo brutal que se tornava mais obsceno a cada segundo.
— Mais devagar — dizia uma.
— Isso, assim mesmo — dizia a outra.
Sofía se posicionou atrás de Andrés e enfiou dois dedos nele, primeiro com cuidado, depois com mais decisão, abrindo-o enquanto ele continuava concentrado em Hugo. Renata repetiu o gesto com o próprio companheiro, metendo os dedos molhados, esticando-o até arrancar um rosnado que lhe vibrou no peito. Os dois homens se estremeceram, surpresos com o prazer que vinha de todos os lados ao mesmo tempo, incapazes já de distinguir de onde vinha cada coisa. Os dedos entravam e saíam num ritmo sujo, buscando aquele ponto interno que os fazia travar a mandíbula e empurrar sem pensar.
***
O jogo continuou subindo de intensidade. As mulheres os acomodaram de lado, frente a frente, numa posição que os enroscava por completo, cada um entregue ao outro e vigiado de perto por elas. Sofía e Renata, ajoelhadas dos dois lados, se acariciavam enquanto os olhavam, roçando os seios, enfiando os dedos entre as pernas, ficando encharcadas sem esconder nada.
— Até o fim — ordenou Sofía, quase sem voz—. Não se retraiam agora.
Hugo abria os olhos de vez em quando para conferir que aquilo estava realmente acontecendo, que não era uma daquelas fantasias contadas pela metade e depois nunca repetidas em voz alta. Era real. O tapete estava quente sob eles, as duas mulheres respiravam por cima, e já não havia como voltar atrás. Cada investida de língua, cada pressão de mão, cada roçar de pele fazia a temperatura da sala subir como se alguém tivesse acendido um fogo invisível.
***
Depois foi a vez delas, e pediram sem rodeios.
Sofía se deitou de costas no centro da sala e abriu as pernas o máximo que pôde. Estava com a pele em brasa, o peito subindo e descendo rápido, a buceta brilhante de saliva e desejo.
— Os dois ao mesmo tempo — disse, olhando primeiro para um e depois para o outro —. Andrés na frente. Hugo, por trás. Quero sentir vocês juntos.
Andrés entrou primeiro. Ela jogou a cabeça para trás e soltou um som longo, gutural, quando a rola abriu seu corpo e encheu sua vagina de uma vez. Hugo levou o seu tempo, o suficiente para Sofía empurrar em direção a ele pedindo mais sem palavras, só com o corpo, até oferecer o cu aberto e tenso. Quando os dois estavam dentro, ela ficou um segundo imóvel, como medindo o que estava sentindo, e depois começou a se mover entre os dois, afundando-se, recebendo, engolindo cada investida com um gemido cada vez mais partido.
Os dois homens encontraram um ritmo: primeiro alternando, um e depois o outro, e mais tarde ao mesmo tempo, até Sofía deixar de controlar qualquer coisa. Agarrou-se aos braços de Andrés, mordeu o ombro de Hugo e, quando o orgasmo a atravessou, foi com o corpo inteiro, as pernas se fechando por instinto, tremendo entre os dois enquanto a respiração se quebrava em pequenos espasmos.
— Agora eu — disse Renata de um lado, ela que tinha ficado olhando tudo sem se tocar, esperando sua vez.
Ela ocupou o mesmo lugar assim que Sofía rolou para um lado, exausta e satisfeita. Renata queria exatamente a mesma coisa, e disse isso claramente. Os homens mudaram de posição sem que ninguém precisasse indicar; já se moviam como se fizessem aquilo a vida inteira. Eles a tomaram com menos delicadeza, porque ela pediu assim, com as mãos se cravando nos quadris deles e a voz exigindo mais, mais forte, mais fundo, sem pausa. A rola de um entrava enquanto o outro a segurava pelos seios ou pela boca, e Renata se arqueava sobre o tapete, ofegando com um sorriso feroz.
Renata gozou duas vezes seguidas, a segunda quase sem transição da primeira, o corpo arqueado, as unhas marcando as costas de Andrés e um gemido áspero que ficou tremendo na garganta.
***
A partir daí a ordem se perdeu por completo.
Os quatro rolaram pelo tapete, os corpos suados e pegajosos se buscando sem plano. Não havia turnos nem posições combinadas, apenas mãos, bocas e pele trocando de parceiro a cada minuto. Sofía atendia um enquanto Renata beijava sua nuca; Hugo acabava enroscado com Andrés enquanto uma delas os conduzia com a voz; as duas mulheres se beijavam no meio da confusão, com os olhos fechados, esfregando a buceta uma na outra e sujando as pernas de umidade.
Em algum momento ninguém mais sabia de quem era qual mão. A sala cheirava a sexo e vinho derramado, as luzes continuavam acesas, e a nenhum deles ocorreu apagá-las. Aquilo precisava ser visto por inteiro. Cada respiração soava úmida, cada roçar deixava um rastro grudento, e os quadris não paravam de se buscar como se o cansaço não existisse.
***
Quando os dois homens chegaram ao limite, as mulheres voltaram a assumir o controle. Colocaram-nos de joelhos, juntos, e se ajoelharam à frente.
— Aqui — pediu Renata, erguendo o queixo—. Os dois, em cima de nós.
Sofía e Renata se acariciavam entre si enquanto esperavam, olhando para eles de baixo, com a boca úmida e as pernas abertas. Hugo e Andrés terminaram quase ao mesmo tempo, cada um com um rosnado surdo, e elas receberam tudo entre risadas e suspiros, sem se afastar, com o rosto erguido e os lábios entreabertos para engolir a última sacudida. Depois se beijaram, ainda ofegantes, compartilhando o sabor da noite, roçando a pele uma na outra, entrelaçando quadris e coxas como se quisessem continuar se aquecendo para alguma coisa a mais.
Os quatro se deixaram cair num mesmo amontoado, suados, sem forças. Ninguém falava. Só se ouviam as respirações pesadas e, de vez em quando, uma risada frouxa de puro cansaço.
Sofía acariciou a face de Hugo com a ponta dos dedos. Renata apoiou a testa no ombro de Andrés e fechou os olhos. Nenhum dos dois tinha vontade nem motivo para se mexer.
Naquela noite tinham cruzado todas as linhas que vinham rondando havia anos sem coragem de atravessar. Não restava pudor, não restava vergonha, não restava pergunta sem resposta. Só quatro corpos que já não lembravam onde um começava e o outro terminava, e a certeza tranquila de que, depois daquilo, nada voltaria a ser exatamente igual entre eles.
E, ainda assim, nenhum deles se arrependeu.