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Relatos Ardientes

A neve me prendeu por três dias com um estranho

O silêncio da alta montanha é uma pressão física que zune dentro dos ouvidos. Desliguei o motor e o aquecedor do carro começou a perder a batalha contra os doze graus abaixo de zero lá fora. Através do para-brisa, a silhueta do refúgio de pedra parecia uma presa lascada cravada na encosta. Não era o hotel charmoso que Daniel me prometera para «reconstruir» nosso casamento depois de doze anos de silêncios compartilhados em um apartamento no Eixample.

Daniel não estava. Uma ligação de última hora de Frankfurt o havia retido, e eu, num acesso de orgulho e de tédio, decidi subir sozinha em direção ao cume, desafiando a tempestade que os noticiários anunciavam com uma insistência quase apocalíptica.

Saí do carro e o vento me atingiu com a força de uma porta batendo. A neve, transformada em agulhas de gelo, cortava a visibilidade. Arrastei minha mala até a varanda, amaldiçoando cada decisão que me levara até ali.

Ao empurrar a porta, fui recebida por um golpe de calor seco e cheiro de resina queimada. Mateo estava ali, de pé diante de um mapa aberto sobre uma mesa de madeira tosca. Não era o zelador simpático que eu esperava. Tinha o olhar de quem viu invernos demais e lhe resta pouca paciência para os turistas que brincam de aventura.

—Boa tarde. Sou Carla, tenho uma reserva no nome do meu marido, Daniel. Desculpe chegar em plena tempestade, mas gostaria de fazer o check-in antes que piore —disse, estendendo-lhe uma mão enluvada com uma cortesia glacial.

—A estrada acabou de ser fechada —respondeu sem cumprimentar, com uma voz que parecia sair das entranhas da rocha—. Você vai ficar aqui por um bom tempo, e eu não tenho televisão nem serviço de quarto. Só estamos você, eu e a neve enterrando seu carro. Minha mulher está no vilarejo lá embaixo, presa pelo acúmulo de neve. Seu marido deve estar bebendo vinho caro num aeroporto.

Tirei os óculos escuros e deixei à mostra uns olhos carregados de um cansaço que não se cura dormindo. Mateo usava uma aliança de prata, gasta e fosca, no dedo anelar. Eu também usava a minha: um diamante que Daniel me dera numa de suas viagens, uma joia que pesava mais que chumbo.

—Eu só preciso de um quarto —insisti, tentando recuperar o tom de autoridade que usava com meus funcionários na agência.

Ele me olhou com uma crueza que me despiu muito antes de a primeira peça cair. Não havia cortesia nos seus olhos, só a avaliação de um homem que reconhece uma mulher perdida.

—Não sei que tipo de homem deixa a própria mulher subir sozinha a uma montanha com alerta vermelho —acrescentou—, mas sei que tipo de mulher sobe porque prefere morrer de frio a passar mais uma noite fingindo que está tudo bem.

O silêncio voltou a se instalar, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira. O mundo lá fora havia desaparecido. Só restava aquele espaço mínimo, saturado pela presença de dois estranhos unidos pelo acaso e pela evidência dos seus próprios naufrágios.

Sentei-me num banco de madeira. Mateo serviu um pouco de ensopado numa tigela de barro e a pôs diante de mim sem dizer palavra, junto de um pedaço de pão denso e escuro.

—Come. Você precisa de calorias para gerar calor —ordenou, sentando-se em frente—. Amanhã a neve vai chegar ao primeiro andar. Não haverá como sair daqui em, no mínimo, três dias.

Olhei para a tigela. No meu mundo, os jantares eram pratos minimalistas em restaurantes estrelados, onde se falava de investimentos enquanto se beliscava uma salada. Ali, o cheiro do ensopado era forte, animal.

—E você? —perguntei, olhando sua aliança—. Sua mulher também acredita em retiros de desconexão?

—Minha mulher nasceu neste vale —respondeu, fixando os olhos na chama da vela que separava nossos rostos—. Ela sabe que a montanha não é um cenário para se encontrar a si mesmo, e sim um lugar onde é muito fácil se perder. Desceu ao vilarejo para buscar suprimentos antes que a frente fechasse a passagem. É a primeira vez em anos que o refúgio fica isolado com alguém dentro.

Provei a primeira garfada, quente e carregada de especiarias que me queimaram a língua. Ergui o olhar e encontrei os olhos dele. Não havia a cortesia vazia de Daniel, nem aquela maneira dele de olhar de lado enquanto atendia o telefone. Mateo me olhava de frente, procurando as fissuras na minha compostura.

—Você usa um anel de dois quilates e tem cara de quem acabou de sair de um enterro —disse com uma brutalidade calma—. A quem você veio enterrar aqui em cima, Carla? Ao Daniel ou à mulher que você era antes de carregar esse peso no dedo?

Deixei a colher sobre a mesa. A pergunta foi um golpe direto no plexo solar. O vento lá fora se intensificou, fazendo os vidros vibrarem como se alguma coisa pesada quisesse entrar. Naquele instante, a cabana deixou de ser um refúgio para se tornar um confessionário de madeira e pedra.

—Daniel acha que o isolamento purifica —disse, e minha própria voz soou estranha, despida do tom controlado das minhas reuniões—. Ele me mandou para cá porque já não suporta me olhar nos olhos e ver o reflexo dos próprios fracassos. Eu conheço as fugas dele, as ligações em horários impróprios, a necessidade que ele tem de se sentir jovem em camas que não são a nossa.

Mateo acabou de beber um copo de tinto sem desviar os olhos de mim. A luz das velas projetava sua sombra contra a parede, ampliando sua figura até fazê-la parecer parte dos alicerces do refúgio.

—O isolamento não purifica —sentenciou—. Arranca as camadas que sobram até só ficar o que é real. E você tem camadas demais. Aceitou vir porque estar sozinha numa montanha doía menos do que estar sozinha ao lado dele.

Ele se levantou. Uma leve mancada na perna esquerda, herança de algum acidente antigo no gelo, lhe dava um ar de predador ferido, mas letal. Aproximou-se da lareira e remexeu os troncos.

—Você reclama do frio, mas tem medo do fogo, porque o fogo queima —acrescentou—. E você não é feita de cicatrizes, só de enfeites.

Levantei-me com uma faísca de raiva. A petulância daquele homem me era insuportável, justamente porque roçava a verdade com a precisão de um bisturi.

—E o que você sabe sobre cicatrizes, Mateo? Você vive aqui isolado, bancando o ermitão sábio, enquanto sua mulher fica no vilarejo. Talvez o seu silêncio não seja sabedoria, mas covardia. Talvez você prefira estar sozinho porque aqui ninguém exige que você seja nada além de um homem que corta lenha e acende o fogo.

Ele se levantou devagar. A luz das velas banhava-lhe o rosto, marcando as rugas e a dureza de uma mandíbula talhada em granito.

—Minha mulher e eu já faz anos que não nos olhamos como se tivéssemos algo novo a dizer um ao outro. Ela é a paisagem, Carla. É constante, é segura, mas já não tira meu sono. Estou aqui porque este refúgio é o único lugar onde não preciso fingir que ainda sinto a fome de vinte anos atrás.

—Somos dois estranhos dentro de uma caixa de madeira, cercados por uma tempestade que não vai nos deixar sair. Você odeia a sua vida de vidro e eu estou farta da minha vida de pedra. O resto da noite é só uma questão de quanto frio estamos dispostos a suportar antes de admitir que precisamos um do outro para não desaparecer.

—Você diz que sua mulher é a paisagem. É a coisa mais cruel que já ouvi —repliquei—. Você a transformou em algo que está ali, como uma montanha ou uma árvore, algo que você já não vê porque sempre esteve lá. Eu, pelo menos, ainda tenho a decência de odiar Daniel pelo que ele me faz sentir. Você está tão morto por dentro quanto a neve lá fora. Só que ainda respira.

Ele aguentou o golpe sem piscar. A chama da vela vacilou entre nós.

—Talvez você tenha razão —admitiu com uma voz que vibrou na madeira do chão—. Mas você ainda espera que alguém venha te resgatar dessa assepsia em que vive. Você procura uma fissura, algo que quebre o vidro. Foi por isso que subiu sozinha com alerta vermelho. Você não buscava solidão, Carla. Buscava o impacto. Queria ver se, por baixo dessa roupa de grife, ainda resta algo capaz de sangrar.

Senti o ar da sala ficar mais denso. A palavra «sangrar» mexeu com algo primitivo no meu ventre.

—Daniel nunca me fez sangrar —sussurrei, e a confissão soou como rendição—. Ele nem sequer me fez gritar. Às vezes fecho os olhos enquanto ele me toca e só penso na lista de compras ou na reunião de segunda-feira.

Avancei até ficar a um palmo do peito dele. O cheiro dele —uma mistura de resina, suor antigo e frio— me atingiu com mais força do que qualquer perfume caro.

—Me diga, Mateo... Você também é civilizado? Ou você também virou parte da paisagem, frio e inerte?

Ele não se moveu, mas sua respiração ficou pesada, uma presença rítmica que preenchia o espaço entre nós. Os olhos dele percorreram meu rosto, detendo-se nos meus lábios, já sem vestígio de batom.

—A civilização fica na cota mil —disse, e sua voz foi um roçar de lixa na madeira—. Aqui em cima, a cortesia não te alimenta nem te livra do frio. Você quer que alguém te trate como a matéria que você é. Quer que rasguem o roteiro, quer ser a que se agarra à mesa para não cair quando o mundo começa a girar.

Senti uma pulsação violenta entre as coxas. Mateo devia rondar os cinquenta e oito, mas o corpo robusto, forjado na sobrevivência e não na academia, impunha-se sem necessidade de exibicionismo.

—Me prove que você não é só paisagem —sussurrei, desafiadora—. Me prove que ainda existe fogo sob toda essa pedra.

Não recuei. Pensei nas minhas outras fugas, naqueles corpos jovens e atléticos que eu buscava em hotéis de design para sentir alguma coisa: encontros higiênicos que nunca atravessavam o verniz do meu tédio. Mateo era outra coisa.

—Então não finja —sussurrei.

***

Ele rompeu a inércia com uma brusquidão que me deixou sem fôlego. A mão dele se fechou no meu cabelo, não com crueldade, mas com uma posse precisa, obrigando-me a oferecer o pescoço. O beijo foi uma invasão de língua e dentes que tinha gosto de urgência e de madeira. Gemei, sentindo o contraste da minha pele cuidada contra a aspereza da lã dele e da mandíbula.

Ele me ergueu sem esforço e me sentou sobre a mesa de pinho. Senti a dureza da madeira sob as coxas enquanto ele, sem pressa, desabotoava o cinto gasto. Afastou minha roupa íntima com um puxão seco e se colocou entre minhas pernas abertas. Agarrei as bordas da mesa, com as unhas cravadas nos veios da madeira, enquanto ele se enterrava em mim.

A entrada foi total, um golpe de prazer que me esticou até um limite que eu desconhecia. Soltei um grito que se perdeu no estrondo do vento contra os vidros. Ele me invadia com uma autoridade que nenhum dos meus amantes jamais teve, golpeando meu centro como se quisesse reivindicá-lo.

Começou a me foder com um ritmo pesado, animal. Não havia sofisticação; só o peso do corpo firme dele, o roçar dos pelos grisalhos do peito contra meus mamilos e aquela dureza que me abria a cada investida. Fechei os olhos e me abandonei, sentindo a estrutura do meu mundo de vidro se estilhaçar.

—Não para —implorei, com a voz quebrada pelo primeiro orgasmo, que me sacudiu como um relâmpago.

Ele me virou sobre a mesa, obrigando-me a apoiar as mãos na superfície fria enquanto ele permanecia de pé atrás de mim. A diferença de idade desaparecia na funcionalidade do ato. Por trás, a profundidade foi ainda maior. Senti o roçar áspero das coxas dele contra as minhas, um atrito que disparava minha sensibilidade, e gemi de um jeito que jamais me permitira.

Encadeei um segundo clímax, uma sequência de espasmos que me deixou sem ar, antes de ele me obrigar a me ajoelhar no tapete de pele diante da lareira. Sob a luz das chamas, eu o peguei com as duas mãos e o levei à boca, entregando o pouco que restava da empresária altiva que havia cruzado a porta horas antes.

Ele me deitou de costas no chão, cercada pelo calor do fogo, e ergueu minhas pernas até os ombros, me expondo por completo. Olhei para ele de baixo: a silhueta robusta de um homem que não pedia perdão pela própria força.

—Era isso que você veio buscar na montanha, Carla —disse, com uma voz que era quase um rosnado—. Algo que você não pudesse controlar.

Ele se enterrou em mim mais uma vez com uma violência final, uma investida que me ergueu do chão. Senti um terceiro orgasmo, o mais longo da minha vida, uma descarga que me deixou vazia e trêmula, enquanto ele, com um rugido contido, se esvaziava dentro de mim. Recebi aquilo contraindo os músculos ao redor dele, recusando-me a deixá-lo partir.

Ficamos assim, unidos por carne e suor, enquanto o fogo se consumia e a neve terminava de soterrar o refúgio. Com o coração martelando contra as costelas, compreendi que o rasgo não era físico, mas vital: nada voltaria a ser igual.

***

O degelo chegou no quarto dia, não como uma trégua, mas como uma rendição da paisagem. Desci da cota dois mil com o corpo marcado por um cansaço sagrado e o cheiro de Mateo incrustado nos poros. Aqueles setenta e duas horas não tinham sido um passatempo, mas uma purga: cada investida, um cinzel retirando as camadas de impostura que Daniel ajudara a erguer.

O silêncio da minha casa era uma camada de verniz sobre uma estrutura podre. Daniel esperava na sala, com a televisão ligada sem volume, cercado por aquele luxo asséptico que nós dois havíamos construído. Quando atravessei o limiar, ele nem sequer se levantou.

—Foi um susto terrível, Carla. Eu estava prestes a contratar um resgate privado —disse, com aquela preocupação de fábrica que ele guardava para as crises.

Soltei a bagagem. O couro contra o mármore soou como um tiro.

—Não precisava, Daniel. Fui muito bem resgatada. Acabou: a viagem, a sociedade e essa simulação de convivência.

Ele pousou a taça sobre a mesa de design; o cristal tilintou com um som ridículo.

—Não diga bobagens. Você está cansada. A agência atravessa um momento crítico e não podemos nos dar ao luxo de uma cena agora.

—Nossa agência é como nós: uma fachada brilhante para esconder que não nos resta nada —aproximei-me, invadindo o círculo de luz da luminária—. Passei três dias com um homem que conhece o peso da realidade. Enquanto você se escondia em Frankfurt com sua «assistente» —a mesma que vem há meses te mandando mensagens que você apaga antes de entrar em casa—, eu descobri que sou uma mulher faminta e que você não tem nem o fogo nem a força para me saciar.

Daniel empalideceu, mas recuperou o tom de desprezo que usava nos conselhos administrativos.

—Está me jogando Marta na cara? Você? Não me faça rir, Carla. Acha que eu não sei do estagiário do verão passado? Ou do instrutor da academia? Já faz anos que trocamos fluidos alheios. É o preço do nosso sucesso. Um transo de emergência numa cabana com um montanhista não te dá superioridade moral.

—Não estou buscando moral, Daniel. Estou buscando verdade. Minhas traições eram fugas, assim como as suas. Mas passei três dias habitada por um homem de verdade, e até meus amantes jovens eram rascunhos perto dele.

Postei-me diante dele, obrigando-o a ver as marcas que a roupa ainda escondia.

—Ele me fez gritar até perder a voz enquanto a neve nos enterrava. Me fez sentir que meu corpo é um território vivo, não uma moeda de troca na nossa farsa.

—É o meu negócio também! —explodiu por fim, levantando-se—. Você não pode liquidar doze anos de expansão por um orgasmo na neve.

—Fica com a agência, Daniel. Com os contratos e com suas amantes de grife. Eu fico com a fome que ele despertou. Amanhã meu advogado te enviará os papéis para dissolver a sociedade. Não quero a casa, nem os móveis, nem nada que cheire à sua assepsia estéril.

Caminhei em direção ao quarto e parei por um instante antes de fechar a porta.

—Vou tomar banho, Daniel. Mas não para tirar o rastro dele. O cheiro dele é a única coisa real que eu tive em anos. Vou tomar banho para terminar de me lavar de você, das suas mentiras e da mulher pequena em que me tornei ao seu lado.

A porta soou como um veredicto. Daniel ficou sozinho na sala impecável, cercado de vidro e aço, sentindo-se pela primeira vez como o que era: um homem derrotado pela lembrança de um desconhecido que, dentro de uma caixa de madeira sob a tempestade, lhe arrancara até a última gota de orgulho.

Semanas depois, deixei que a água quase fervendo batesse nos meus ombros no meu apartamento novo, um espaço pequeno e despojado de mármore. Não usei esponja: eu evitava qualquer fricção que pudesse apagar a lembrança da minha própria pele despertando. Fechava os olhos e o vapor do banheiro se transformava na neblina da alta montanha, e eu voltava a sentir o peso de Mateo e essa plenitude que não entendia de infidelidades educadas.

Eu desci do cume, mas uma parte de mim ficaria para sempre naquela caixa de madeira e pedra, em chamas enquanto o resto do mundo seguia congelado na própria farsa.

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