A namorada do meu irmão tinha outros planos para mim
Sofia tinha dezoito anos quando entendeu que há pessoas que ocupam o espaço de uma casa com uma presença que vai muito além das visitas. Valeria estava havia cinco anos com Rodrigo, seu irmão mais velho, e nesse tempo tinha aprendido exatamente como funcionava cada eletrodoméstico da cozinha, onde a mãe de Sofia guardava as chaves reserva e qual era a única poltrona em que você não podia cochilar sem acabar com o pescoço torto.
Era cunhada sem ainda ser, embora na família já ninguém fizesse a distinção. Saíam juntas nos fins de semana, dividiam o banheiro sem bater, e quando os pais de Sofia trabalhavam e Rodrigo também, Valeria ficava na casa como se fosse dela: limpando, cozinhando e preenchendo os espaços vazios com essa facilidade que algumas pessoas têm de pertencer a qualquer lugar onde estejam. Sofia gostava dela de um jeito que nunca soube muito bem classificar. Não era exatamente admiração nem inveja, mas algo mais parecido com uma fascinação que ela preferia não examinar demais.
Nessa sexta-feira Sofia acordou tarde, perto das onze da manhã. Do andar de baixo vinha o cheiro de café fresco e o silêncio que fica quando o trabalho doméstico já terminou. Desceu de pijama e encontrou Valeria na ilha da cozinha, lendo algo no telefone com o cabelo preso e a expressão de quem já está acordada havia horas.
— Boa tarde — disse Valeria sem levantar os olhos.
— Desculpa — respondeu Sofia, esfregando os olhos. — Todo mundo saiu?
— Há três horas. Quer tomar café da manhã?
Sofia assentiu e se sentou no banco mais próximo. Enquanto Valeria esquentava leite e torrava pão, Sofia a observou de lado: ela usava shorts de ficar em casa e uma regata que subia quando esticava o braço para alcançar alguma coisa na prateleira. Tinha as costas perfeitamente retas, uma postura dessas que algumas pessoas adquirem sem perceber e que é impossível fingir. Sofia desviou o olhar antes que Valeria se virasse.
Tomaram café sem pressa. Valeria propôs que ela se arrumasse e a acompanhasse ao shopping; tinha umas coisas para comprar e, além disso, Sofia também podia aproveitar. Pareceume uma boa ideia. Tomou banho, escolheu uma blusa e um jeans, e às doze e meia já estavam no carro, com o rádio ligado e o sol de outubro entrando pelo para-brisa. Era uma daquelas manhãs de outono que parecem verão até o vento roubar a ilusão.
Passaram mais de duas horas percorrendo lojas. Experimentaram roupas que não compraram, comeram na praça de alimentação e terminaram com mais sacolas do que tinham planejado. Era o tipo de tarde que Sofia gostava sem conseguir explicar exatamente por quê: simplesmente estar ali, indo de vitrine em vitrine com alguém que não a fazia se sentir pequena, que perguntava sua opinião sobre as coisas e ouvia a resposta. Valeria tinha esse dom. Fazia isso com todo mundo.
Voltaram para casa perto das quatro. Sofia deixou as sacolas na poltrona e se largou ao lado. Valeria fez o mesmo na outra ponta e, por alguns minutos, as duas revisaram as compras em silêncio, tirando peças, dobrando-as, colocando tudo de volta. A tarde tinha esfriado um pouco e a luz que entrava pela janela da sala já tinha aquele tom dourado e horizontal das últimas horas de sol.
Foi então que Valeria se levantou, deu alguns passos até o centro da sala e, sem nenhum preâmbulo, tirou a blusa. Sofia parou o que estava fazendo. Valeria procurou em uma das sacolas e tirou um top de renda preta que tinha comprado naquela tarde, um daqueles que deixam a barriga à mostra e se ajustam com um pequeno nó lateral. Vestiu-o e se virou para Sofia.
— Ficou como em mim?
— Bem — respondeu Sofia, tentando soar natural.
— Só bem?
— Ficou muito bonito.
Valeria o tirou sem mais. Tirou de outra sacola um sutiã de renda vermelha, de tecido tão fino que não deixava nada para a imaginação, e o vestiu, olhando-se rapidamente no espelho sobre a lareira. Virou-se.
— E este?
Sofia percebeu que o calor que sentia no rosto não tinha nada a ver com a temperatura do ambiente. O sutiã marcava os mamilos de Valeria através da renda, dois pontos duros e perfeitamente desenhados sob o tecido vermelho, e Valeria sabia disso, porque a olhava com um pequeno sorriso que não tinha nada de inocente.
— Está lindo — disse Sofia, olhando para as próprias sacolas.
— Você acha que o Rodrigo vai gostar?
— Não sei.
— Acho que sim. Com essas coisas ele fica duro na hora. — Fez uma pausa. — Você não vai experimentar o que comprou?
Sofia disse que depois, que preferia fazer isso no quarto. Valeria respondeu que não fosse boba, que estavam entre mulheres. Sofia cedeu, mais por não querer transformar em problema algo que não deveria ser do que por convicção. Levantou-se, deu as costas para Valeria e tirou a blusa. Pegou um sutiã da sacola e o vestiu, mas, ao tentar fechar, percebeu que o fecho ficava apertado demais nas costelas.
— Acho que peguei o tamanho pequeno — disse.
— Deixa ver.
Valeria se aproximou. Sem pedir permissão, começou a ajustar as alças, depois passou os dedos pelo fecho das costas e o abriu. Refez o fecho um centímetro mais abaixo. Sofia sentiu o toque dos dedos na pele, a pressão leve e precisa de cada movimento. Não disse nada.
— Era isso — disse Valeria. — Você tinha fechado alto demais.
As mãos dela deslizaram para a frente. Começaram a acomodar as taças do sutiã com movimentos lentos e, em algum ponto que Sofia não soube identificar com precisão, deixaram de estar ajustando o tecido e passaram a apertar com uma pressão que não podia ser confundida com outra coisa. Os polegares de Valeria passaram por cima da renda exatamente onde estavam os mamilos de Sofia e pararam ali, desenhando pequenos círculos, até que Sofia sentiu endurecerem sob o tecido sem conseguir evitar.
— Pronto, obrigada — disse Sofia, dando um passo para a frente.
— Sofia.
A voz de Valeria foi baixa. Não era exatamente uma pergunta nem uma ordem. Era outra coisa. Sofia se virou devagar e encontrou o olhar de Valeria a menos de um metro de distância: uma expressão que talvez já tivesse visto antes e decidido não registrar, ou que registrara e guardara em algum lugar onde não precisasse fazer perguntas a ninguém.
Sofia pegou suas coisas da poltrona. Valeria as tirou de suas mãos com calma e as deixou no chão. Sofia tentou dizer alguma coisa, mas Valeria já a segurava pelos ombros e a pressionava devagar contra a parede, sem violência, com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo e não tem a menor intenção de parar.
— Valeria, para — disse Sofia.
Valeria não respondeu. Inclinou-se e a beijou.
Sofia apertou os lábios. Sentia a língua de Valeria procurando o espaço entre eles, empurrando, e algo nela, algo que passava meses sem nome nem forma definida, começou a responder antes que a cabeça pudesse impedir. Abriu a boca por apenas um segundo e foi suficiente: a língua de Valeria entrou e se enroscou na dela, quente e úmida, com gosto de café e de outra coisa. Separaram-se. Valeria a olhava sem desviar os olhos, com os lábios brilhando, respirando pela boca. Sofia estava com as costas contra a parede e a respiração um pouco mais rápida do que deveria.
A mão de Valeria desceu pela lateral do corpo dela, contornou a cintura e pousou na parte interna da coxa, e dali começou a pressionar para cima com a palma aberta, devagar, em círculos, subindo pela costura do jeans até que a palma apertou justo contra o xoxota de Sofia por cima do tecido. Sofia fechou os olhos. As pernas tremeram levemente.
— Para — sussurrou.
— Você não quer que eu pare — disse Valeria, bem perto do ouvido dela. — Você está molhada. Dá pra notar até por cima do jeans.
Sofia tentou juntar as pernas, mas Valeria pressionou um pouco mais o braço sobre seus ombros, sem machucá-la, e a encarou diretamente. Sofia não moveu mais as pernas. O calor que sentia entre elas já não era algo que pudesse atribuir ao nervosismo. Os dedos de Valeria começaram a se mover num vaivém curto e firme sobre o tecido, exatamente onde tinham de se mover, e Sofia percebeu com uma clareza quase insultante que Valeria sabia onde cada coisa estava porque fazia aquilo muitas vezes, muitas mais vezes do que ela teria imaginado.
Os sons da rua chegavam abafados pela janela. Sofia notou como o corpo respondia a cada pressão com uma traição que já não podia negar e deixou escapar um som que não reconheceu como seu, curto e fundo. Valeria se inclinou e a beijou de novo, e dessa vez Sofia não apertou os lábios do mesmo jeito que antes. Abriu-os. A língua de Valeria entrou sem resistência e Sofia a procurou com a sua, mordeu o lábio inferior de Valeria sem perceber, e sentiu a outra mão subir e arrancar o sutiã que tinham acabado de ajeitar, deixando seus peitos expostos contra a parede fria. Valeria desceu a boca pelo pescoço, chupou forte, mordeu, e desceu ainda mais até fechar os lábios sobre um mamilo. Mamou nele devagar, com a língua girando ao redor, puxando com os dentes o suficiente para que Sofia apertasse a nuca contra a parede e deixasse escapar um gemido que já não tentou disfarçar.
***
Ela não soube muito bem como terminaram no quarto de Rodrigo. Houve uma mão em seu pulso, alguns passos pelo corredor, uma porta se fechando atrás delas. Sofia estava de pé ao lado da cama, com os braços cruzados sobre o peito, tentando se cobrir, embora o sutiã pendurado e aberto não escondesse muita coisa.
Valeria ficou atrás dela e terminou de tirar o sutiã. Fez com que ela se virasse. Tirou-o completamente e o deixou cair no chão sem olhar. Depois a olhou, sem pressa, com aquela atenção concentrada que não pedia permissão para nada. Passou a ponta do dedo pelo mamilo direito, bem devagar, e o beliscou até Sofia dar um sobressalto.
— Você tem uns peitos lindos — disse Valeria em voz baixa. — Faz dois anos que eu quero morder eles.
Sofia não soube o que responder. Valeria a empurrou suavemente até a cama e Sofia deixou-se cair. A colcha era a mesma de sempre, a do irmão, e esse detalhe atravessou sua cabeça por meio segundo antes de se dissolver em outra coisa.
Valeria desabotoou o jeans, desceu o zíper e puxou a roupa para baixo num único gesto limpo. Calça e calcinha juntas, até os tornozelos. Sofia sentiu o ar frio no xoxota molhada, e o rubor subiu-lhe ao rosto ao pensar na poça que sabia estar deixando no tecido da calcinha. Valeria olhou e sorriu.
— Olha como você está. Está encharcada, Sofia.
Ela se ajoelhou no chão, segurou Sofia pelos joelhos e abriu suas pernas com as mãos, escancarando-as. Começou a beijar a parte interna da coxa direita, devagar, avançando centímetro por centímetro. Sofia tinha os punhos apertados sobre a colcha e olhava para o teto sem ver nada. Quando a boca de Valeria estava a dois dedos do xoxota, ela pulou para a outra coxa e começou de novo desde o joelho, e Sofia deixou escapar um gemido de frustração que não tinha planejado emitir.
— Paciência — disse Valeria.
Cada contato chegava com uma precisão que não deixava margem para equívoco. Ela não era desajeitada nem impaciente. Era lenta e metódica de um jeito quase insuportável, e Sofia percebeu que a resistência que continuava dizendo a si mesma que tinha estava cada vez menos parecida com resistência e cada vez mais com outra coisa completamente diferente.
Valeria terminou de tirar o jeans e a calcinha dos tornozelos e os jogou no chão. Levou um segundo antes de continuar. Sofia ouviu a respiração dela. Depois sentiu o hálito quente entre as pernas. E então a língua.
O primeiro contato foi plano e longo, uma lambida inteira de baixo para cima, lenta, pressionando forte contra os lábios da xoxota até terminar no clitóris. Sofia se agarrou à colcha com as duas mãos e arqueou as costas de repente. Valeria repetiu o movimento, outra vez, e outra, sem mudar o ritmo, até que Sofia sentiu cada nervo do corpo se concentrar em um ponto minúsculo.
— Você está docinha — murmurou Valeria contra a carne molhada. — Sabia que você ia estar docinha.
E desceu de novo. Abriu os lábios da xoxota com dois dedos, deixando o interior exposto ao ar e à boca dela, e começou a chupar o clitóris com os lábios fechados, puxando-o de leve, soltando-o, tornando a prendê-lo. A língua entrava e saía da xoxota de Sofia desenhando círculos, achatando-se contra a entrada, afundando o máximo que podia. A boca de Valeria se movia com uma calma sem nenhuma pressa de acabar, percorrendo cada parte com uma atenção que tornava pensar cada vez mais difícil. Sofia deixava escapar sons involuntários, curtos e fundos, que batiam nas paredes do quarto do irmão e que ela não teria conseguido conter mesmo se tentasse.
— Meu Deus — disse Sofia sem perceber. — Meu Deus, Valeria.
Valeria sorriu sem tirar a boca. Subiu uma mão pela barriga de Sofia, apertou um peito inteiro com a palma, beliscou o mamilo entre o indicador e o polegar até Sofia dar outro sobressalto. Com a outra mão desceu até a xoxota e passou dois dedos pela entrada, encharcando-os nos fluidos que corriam pela parte interna da coxa. Deslizou-os para cima e para baixo, tateando, até encontrar a abertura.
— Vou enfiar tudo em você — disse Valeria, olhando-a de baixo. — Me olha.
Sofia a olhou. Valeria introduziu dois dedos devagar, muito devagar, e Sofia sentiu a xoxota se abrindo ao redor deles com uma precisão que lhe arrancou um gemido longo. Os dedos entraram até o fundo, até os nós, e ficaram ali um segundo antes de começar a se mover. Sofia fez um som que não reconheceu como seu e fechou os olhos com força, apertando a cabeça para trás contra a colcha.
— Eu mandei você me olhar.
Sofia abriu os olhos. Valeria estava entre suas pernas, com o queixo brilhando de saliva e fluidos, com dois dedos enterrados até o fundo da xoxota de Sofia e movendo-os num ritmo lento e firme, curvando-os para cima a cada impulso para pressionar um ponto que fazia Sofia ver manchas no teto. A boca de Valeria desceu de novo sobre o clitóris e se fechou em torno dele, chupando com força, enquanto os dedos continuavam a entrar e sair com um som molhado que enchia a sala.
— Não para — disse Sofia, e se surpreendeu por dizê-lo. — Por favor, não para.
— Eu não vou parar. Vou fazer você gozar na cama do seu irmão. Vou deixar sua xoxota molhando esses lençóis.
Sofia gemeu de boca aberta. A mão de Valeria encontrou um ritmo mais rápido, agora com três dedos, e a boca continuou trabalhando em paralelo, com uma coordenação que não deixava nenhum lugar para se refugiar. A língua lambia o clitóris de um lado para o outro enquanto os dedos a fodiam com investidas curtas e precisas, empurrando-a para cima, para dentro, para o ponto exato em que Sofia sabia que já não iria aguentar por muito mais tempo. As costas de Sofia se arquearam sozinhas. As pernas tremiam. Sentiu os músculos internos se contraindo ao redor dos dedos de Valeria, cada vez mais forte, cada vez mais seguido.
— Vou gozar — ofegou Sofia. — Valeria, vou gozar.
— Goza. Goza na minha boca.
Veio de repente e se espalhou em ondas: uma contração que começou no centro e se propagou para fora, e Sofia apertou a colcha e reteve a respiração por um segundo antes de soltá-la num gemido longo que encheu o quarto inteiro. A cintura se moveu sozinha várias vezes, empurrando-se contra a boca de Valeria, contra os dedos que continuavam dentro, e ela notou um jato quente saindo da xoxota e encharcando a mão de Valeria e o lençol por baixo. As mãos se soltaram da colcha e buscaram os próprios seios sem que ela tivesse decidido, apertando-os, puxando os mamilos, enquanto Valeria continuava a chupar o clitóris através dos espasmos até Sofia ter de afastar o rosto dela com a mão porque não aguentava mais.
Quando terminou, o quarto ficou em silêncio, salvo pela respiração das duas. Sofia estava deitada de barriga para cima, olhando o teto, com a respiração irregular e as pernas sem força, ainda abertas, ainda tremendo. Valeria tirou os dedos da xoxota de Sofia com um ruído úmido e os manteve no ar por um segundo antes de levá-los à boca. Chupou-os um a um, olhando para ela.
— Você está deliciosa — disse. — Eu já sabia.
Sentou-se e limpou o queixo com o dorso da mão. Olhou-a de cima com aquela expressão que não pedia permissão para nada.
— Troca os lençóis quando terminar — disse. — E se veste. Rodrigo não demora.
— Tá — disse Sofia em voz baixa.
Valeria saiu do quarto e fechou a porta.
***
Rodrigo chegou perto das seis e meia. Sofia estava na sala com a televisão ligada sem estar vendo nada, com as mãos no colo e o olhar fixo em um ponto da tela. Rodrigo a cumprimentou, beijou Valeria na boca por um segundo longo demais e largou a mochila no chão ao lado da poltrona. Perguntou como tinha sido o dia. Valeria disse que tinham ido ao centro comprar roupa. Sofia disse alguma coisa da qual não se lembraria.
Rodrigo subiu para trocar de roupa. Valeria entrou com ele e fechou a porta.
Sofia aumentou o volume da televisão. Não adiantou muito. O quarto do irmão ficava logo acima da sala e as paredes daquela casa nunca tinham sido grossas demais. Ouviu primeiro o rangido da cama, depois a voz de Valeria dizendo para Rodrigo enfiar de uma vez, depois as pancadas rítmicas e surdas da cabeceira contra a parede. Reconheceu a voz de Valeria, seus gemidos, e ouviu como ela não se dava ao trabalho de contê-los. “Mais forte”, ela disse com toda a clareza, “mais forte, me dá tudo”. Sofia pensou, com uma nitidez que a incomodou, que há apenas uma hora aquela mesma boca estivera entre suas pernas e que os dedos de Valeria provavelmente ainda cheiravam a ela quando agarravam a rola de Rodrigo. Sentiu uma mistura de coisas que não soube organizar: vergonha, incômodo e algo mais que preferiu não examinar, algo quente que voltava a se instalar entre suas pernas apesar dela.
Quando Valeria desceu vinte minutos depois, já tinha trocado de roupa e usava o cabelo solto. Passou ao lado de Sofia, colocou uma mão em sua nuca e lhe deu um beijo no canto dos lábios, devagar, sem pressa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sofia percebeu que o hálito dela cheirava a sêmen.
— Vou esquentar a janta — disse.
E foi para a cozinha como se nada tivesse acontecido.
Sofia ficou imóvel no sofá por mais alguns segundos, olhando a tela sem ver nada. Em algum momento da tarde, sem que ela pudesse dizer exatamente quando, algo tinha mudado de lugar dentro dela, e suspeitava que não havia como recolocar aquilo onde estava antes.
Mais tarde os pais chegaram, e o jantar foi como sempre: comida demais, conversa, o ruído familiar de talheres e cadeiras. Valeria serviu os pratos, fez a mãe de Sofia rir, discutiu amigavelmente com Rodrigo sobre alguma coisa que Sofia não acompanhou. Em nenhum momento olhou para Sofia de um jeito diferente do habitual. Só uma vez, quando ninguém olhava, roçou o antebraço dela ao passar, e foi tão breve e tão deliberado que Sofia não soube se havia sido intencional ou se tinha inventado aquilo sozinha. Debaixo da mesa, apertou as coxas e sentiu que a calcinha limpa que vestira depois do banho já não estava limpa.
***
Nessa noite, antes de dormir, Sofia ficou de pé diante do espelho do quarto. Ficou um momento assim, imóvel, examinando o que a tarde tinha deixado: uma pequena marca no pescoço, outra na curva do peito, a pele levemente avermelhada em algum lugar. Não eram cicatrizes. Eram, antes, uma forma de pontuação. O começo de algo que ainda não tinha nome.
Mordeu o lábio inferior com um leve sorriso que não tinha planejado. Depois apagou a luz, entrou na cama e demorou bem mais do que o normal para pegar no sono.
