A mulher madura que saiu do script em Tarifa
Quando descobri que Rodrigo vinha transando fazia meses com uma garota de vinte e três anos, não gritei. Não chorei. Fiquei imóvel no corredor de casa, com uma xícara de café na mão e o coração fazendo o barulho que um cano faz quando se rompe por dentro: silencioso para o mundo, ensurdecedor para quem o escuta.
Soube pelo cheiro. Essas coisas não mentem. Rodrigo chegou tarde de um jantar de trabalho, com o terno impecavelmente passado e a gravata no lugar, como sempre. Me beijou na bochecha e eu me inclinei um pouco na direção dele, por costume, pelos vinte e seis anos de casamento que pesavam sobre aquele gesto rotineiro. Sob o perfume de sempre havia outro: mais jovem, mais doce, mais insolente. Como se o mundo de outra mulher tivesse vindo se sentar na minha cozinha sem pedir licença.
— Como foi o jantar? — perguntei, com voz de dona de casa exemplar.
— Bem. Longo, mas produtivo — disse, soltando os botões de punho sem me olhar.
Fiquei encostada na bancada com um copo d’água pela metade e o sangue fervendo por dentro.
Não foi uma confissão dramática nem uma descoberta casual. Foi aquele detalhe físico, impossível de falsificar, que só conhece quem esteve numa cama onde você não estava. Quando contei a ele três dias depois, Rodrigo demorou pouco para admitir. Falou em erro, em uma loucura passageira, em que me amava. Ouvi tudo sem interrompê-lo e depois pedi que fosse dormir no quarto de visitas.
A terapia de casal que lhe exigi acabou sendo mais útil do que eu esperava, embora não exatamente pelos motivos habituais. O terapeuta nos ouvia com a paciência de um tabelião, tomando notas num caderno de capa escura. “Você se sente traída ou se sente invisível?” Eu nem conseguia dar nome ao que sentia para mim mesma, então muito menos diante de um estranho. Naquelas sessões aprendi, sobretudo, que eu vinha sendo invisível até para mim mesma havia anos.
Salvamos o casamento. Ou algo parecido com ele. Mas confiança é o que faz uma mulher de cinquenta e quatro anos se deitar com o marido de olhar aceso, em vez de apagar a luz e virar para a parede. Isso demorou mais para voltar.
***
Pilar e Raquel insistiam havia semanas. Colegas da academia, quarentonas, solteiras por escolha, me olhavam com uma mistura de compaixão e exaustão. Pilar com seu mantra de “não devo nada a ninguém” e Raquel, que sempre dizia que sua melhor decisão tinha sido não se casar, me deram o mesmo ultimato em três ocasiões diferentes.
— Lucía, ou você vai com a gente para Tarifa ou a gente te sequestra. Escolhe.
Arrumei desculpas várias vezes com o de sempre: a casa, o trabalho de Rodrigo, as meninas. Paula, a mais velha, tinha terminado Turismo e ido para a Côte d’Azur com um francês por quem estava apaixonada havia dois anos. Elena, a caçula, tinha conseguido o primeiro contrato como fisioterapeuta e um namorado que, ao que parecia, a mantinha bastante ocupada.
Uma tarde, enquanto dobrava roupas que não eram minhas, olhei para o céu cinzento sobre os telhados de Majadahonda e percebi que, se eu não saísse da minha própria vida, ninguém viria me tirar dali. Abri o chat do grupo com os dedos tremendo mais do que eu gostaria de admitir:
— Reservem para três. Eu vou.
Comprei dois biquínis, algumas roupas novas. Minha cabeleireira recomendou clarear um pouco a tintura, que ficaria bem com o castanho dos meus olhos. Deixei as compras encomendadas para uma semana. Rodrigo não reclamou. Beijo morno na bochecha e um “divirta-se” que, pela primeira vez em muitos anos, não me soou como ordem, mas como verdade.
***
O hotel era simples, mas suficiente: um prédio branco de dois andares quase colado na areia, venezianas de madeira pintadas de azul e lençóis com cheiro de sabão antigo. Do terraço no último andar, o Estreito se estendia com uma paciência geológica, como se levasse séculos esperando que alguém o olhasse sem pressa. No primeiro dia me sentei ali sozinha enquanto Pilar e Raquel dormiam a sesta e pensei que fazia muito tempo que eu não encarava o horizonte sem que alguém me pedisse alguma coisa.
A primeira noite saímos para jantar num bar da rua principal: teto caiado, paredes cheias de fotografias de veleiros, o ar carregado de música, salitre e cigarro frio. Estávamos arrumadas sem exagero, com o bronzeado recente e vontade de rir de alguma coisa. O garçom era jovem, alto, com um sorriso torto que parecia feito para fazer as pessoas deixarem gorjetas mais generosas do que haviam calculado.
— Mais uma bebida, senhoras?
— Escuta — disse Raquel, com aquela voz que usa quando está prestes a dizer algo insolente —. Senhora será a sua mãe. Da próxima vez que falar assim, quem te dá a lição sou eu.
— Mil desculpas. Onde eu disse senhoras, digo distinta companhia.
— Assim está muito melhor — sorriu Raquel.
Ele se chamava Marcos. Quando me levantei para pagar no balcão, encontrei algo dobrado entre as moedas do troco: um guardanapo. “Você me agrada. Quando não estou trabalhando, estou em La Escollera.”
— O que está escrito? — perguntou Pilar.
— Que ele trabalha até meia-noite — menti.
Guardei o guardanapo na bolsa e não disse mais nada. Mas naquela noite demorei a dormir, pensando que ainda era capaz de agradar alguém. Na minha idade, isso não acontece com frequência. Ou talvez aconteça e a gente deixe de perceber. Descobrir aquilo foi como lembrar que eu ainda tinha pulso.
***
No dia seguinte fui eu quem propôs o programa da noite. Vesti um vestido longo floral, um pouco de sombra nos olhos e os brincos compridos que eu não usava havia anos. Meus pés me levaram para La Escollera, um quiosque sem pretensão, mas bem iluminado, onde a maior parte das pessoas tinha menos de trinta anos. Por um momento quis dar meia-volta. O que é que eu estou fazendo aqui?, pensei.
— Já que foi você que escolheu, também fica — disse Raquel, me segurando pelo braço —. Solta um pouco o cabelo. Se você não voltar para o hotel esta noite, Pilar e eu não contamos nada para ninguém.
— Não vim procurar nada.
— Claro que não — disse Pilar, com o sorriso de quem já sabe exatamente o que está acontecendo —. Vai, que daqui eu já vejo seu rubor.
Marcos estava no fundo, encostado no balcão de madeira, de camiseta branca e jeans gastos. Quando me viu, ergueu o copo num gesto tranquilo de saudação. Eu assenti. O rubor subiu às minhas bochechas com a velocidade de algo que havia anos não acontecia.
A música mudou de ritmo. Raquel me arrastou para a pequena pista de dança e eu me deixei levar, surpresa ao descobrir que o corpo ainda se lembrava de como se mover quando ninguém o observava com expectativas. Senti uma mão no ombro.
— Se importa se eu entrar?
Era ele.
— Eu não sei dançar direito — disse.
— Eu também não. Aqui ninguém vai nos dar nota.
Começamos desajeitados. Minhas mãos não sabiam muito bem onde ir. As dele me seguravam com cuidado, sem apertar, mas sem deixar que o espaço entre nós aumentasse demais. Dançamos por um bom tempo, deixando que a música e o ar carregado fizessem o trabalho deles. Depois nos sentamos no balcão com uma cerveja e um mojito e começamos a fazer perguntas um ao outro.
— Há quanto tempo você não dança assim?
— Assim como?
— Sem pensar em quem te espera em casa nem em que conversa você ainda tem pendente.
Ri, porque ele acertara em cheio sem me conhecer de nada.
— Faz muito tempo.
— Dá para notar — respondeu, sem me julgar —. Você se move como se estivesse fora de si há bastante tempo.
Conversamos por um bom tempo, sem perceber. Em algum momento ele perguntou pelo meu marido e eu respondi sem rodeios:
— Está em Madri. Com a vida dele. Com a qual me traiu, se você quiser precisão.
Marcos não se afastou nem mudou a expressão.
— Isso diz tudo e nada ao mesmo tempo.
— O que você está insinuando?
— Que, quando alguém te decepciona assim, você acaba duvidando de quem você é, não só de quem ele é.
Olhei para minhas mãos. A aliança de casada ainda estava ali, me lembrando que compromisso não se apaga com uma semana no litoral.
— Eu me sinto exatamente assim.
— E o que você gostaria de sentir agora mesmo?
Não era uma pergunta de sedução barata. Era a pergunta de alguém que queria entender.
— Disponível.
***
A noite foi avançando. O barulho do quiosque diminuiu e as conversas ficaram menores, mais íntimas. Em algum momento Pilar e Raquel desapareceram discretamente em direção ao balcão do outro lado.
— Vamos dar uma caminhada? — propôs Marcos —. O porto a esta hora vale a pena.
Caminhamos até a água. A brisa do Estreito cheirava a sal, óleo diesel de barco e a algo indefinido que só existe em portos à noite. Falamos de coisas sem importância e de outras muito importantes. Foi então que ele parou e me olhou de um jeito diferente.
— Você é a mãe da Paula? Paula Arenas?
Fiquei gelada, como se o sangue tivesse deixado de circular.
— Sim. Como você a conhece?
— Fui namorado dela por quase um ano.
O mundo levou alguns segundos para se reorganizar. Marcos tinha sido namorado de Paula. Minha filha mais velha. Essa frase, repetida três vezes na minha cabeça, deixava um rastro frio descendo pela nuca. Senti-me enorme e minúscula ao mesmo tempo: grande demais para ser a mãe que observa de longe a história da vida alheia, pequena demais para suportar que o mundo me colocasse bem diante do eco dos meus próprios erros.
— O que aconteceu entre vocês?
— Ela me traiu. Disse que tinha conhecido alguém mais interessante.
— Minha filha te traiu — repeti, precisando ouvir em voz alta —. E você está aqui, comigo, sem saber que eu sou a mãe dela.
— E você me agradou antes de saber quem eu era — disse Marcos, com um sorriso que misturava humor e uma certa dor —. A vida tem dessas coisas.
Silêncio. O murmúrio da água contra o cais. A brisa mexendo o tecido do meu vestido.
Marcos me beijou devagar, com calma, sem pedir licença, mas sem tomar nada à força. Uma corrente percorreu minha espinha de cima a baixo. Não senti medo. Só a satisfação íntima de saber que meu corpo ainda era capaz de sentir algo assim, de responder daquela maneira, de desejá-lo com uma urgência que eu achava esquecida.
— Você sempre faz isso? Com o que você tem, vai funcionar maravilhosamente — sorri.
— Não. A hotelaria escraviza muito e eu já não tenho idade para ficar por aí indo de um lado para o outro. Mas tem mulheres que merecem que a gente tome o tempo necessário.
— Mulheres mais velhas, você quer dizer.
— Mulheres que sabem o que querem. Isso é completamente diferente.
Eu o beijei desta vez, com mais decisão do que eu tinha tido em anos.
— Leva-me para sua casa.
***
O apartamento de Marcos era um estúdio no bairro do Río, segundo andar sem elevador, escadas que rangiam sob os pés. Um sofá-cama com almofadas desencontradas, uma mesa abarrotada de livros, uma cozinha pequena. Mas a janela ampla que dava para uma varanda de ferro enferrujado de onde se via o Estreito compensava tudo. O barulho das ondas chegava misturado ao murmúrio das pessoas nas varandas de baixo, e o ar cheirava a sal, madeira velha e café queimado.
Fechei a porta atrás de mim, convencida de que não haveria volta.
— Há quanto tempo ninguém te beija sem pensar em mais nada? — perguntou Marcos. A voz dele era mais baixa agora, quase roçando meu ouvido.
— Tempo demais. Meu corpo acha que o desejo é um museu em que já não se entra.
Ele se aproximou devagar. As mãos subiram pelos meus braços até o pescoço, roçando a pele com a delicadeza de quem não quer quebrar nada. O primeiro beijo foi quase uma pergunta. O segundo já não foi.
Tirei a camiseta dele. Ele desabotoou meu vestido com uma paciência insuportável, dedo a dedo, como se cada botão precisasse merecer o direito de cair. Quando o tecido se abriu, me segurou pela cintura e me olhou de cima a baixo com uma fome serena que me fez arder o rosto e o peito ao mesmo tempo.
— Você está linda.
— Não minta.
— Não estou mentindo. Eu estou te vendo. E isso é melhor do que qualquer elogio.
Desci o zíper da calça dele e enfiei a mão dentro da cueca, sentindo de imediato a dureza quente do pau. Era maior do que eu esperava, pesado na palma, vivo, e isso me arrancou um suspiro que o fez sorrir contra a minha boca.
— Puta merda — murmurou. — Você sabe mesmo tocar.
— Não me subestime.
Ele riu baixinho e me levou até a cama. Ali me sentou na beira e se ajoelhou entre minhas pernas com uma naturalidade que me deixou sem fôlego. Abriu minhas coxas devagar, olhando o que havia embaixo da calcinha com uma concentração quase reverente. Puxou a lingerie para baixo de uma vez só, sem brutalidade, e quando meu sexo ficou exposto diante da boca dele senti uma pancada de vergonha e excitação que percorreu minha garganta até o ventre.
— Que buceta bonita — disse, sem tirar os olhos —. Está encharcada.
Tapei o rosto com uma mão, meio rindo, meio morrendo de prazer.
— Você é um grosseiro.
— E você está morrendo de vontade que eu continue sendo.
Ele me lambeu primeiro por fora, devagar, desenhando a fenda com a língua e me abrindo com dois dedos para entrar melhor. Depois chupou meu clitóris com uma precisão brutal, alternando a língua plana com sucções curtas que me arrancavam pequenos espasmos. Agarrei seu cabelo, sem saber se queria afastá-lo ou afundá-lo ainda mais ali. Marcos me segurou pelos quadris para me manter quieta enquanto continuava enfiando a língua entre as dobras úmidas, lambendo toda a minha boceta como se estivesse com fome de mim de verdade. Gozei uma vez com um gemido longo, descontrolado, que me deixou tremendo à beira do colchão.
— Não para — disse, sem reconhecer minha própria voz.
— Nem pensar.
Ele baixou a cabeça de novo e continuou me lambendo com mais insistência, enfiando um dedo na minha boceta enquanto a língua seguia atacando o ponto exato de prazer. Senti o corpo inteiro se contrair ao redor desse centro e uma segunda onda me fez arquear as costas. Marcos soltou um rosnado satisfeito, como se meu prazer estivesse alimentando a boca dele.
— Me olha — ordenou.
Levantei a cabeça e o vi entre minhas pernas, a boca brilhando, a mandíbula tensa, os olhos escuros de desejo. Esse contraste acabou de me desmontar. Gozei outra vez, mais forte, e desta vez gritei mesmo, sem pudor, com as mãos afundadas nos lençóis.
— Isso — disse ele, se erguendo para me beijar na boca. — Assim mesmo. Assim, você fica ótima.
Quando finalmente se afastou, me sentei um pouco e puxei a cueca dele para baixo. O pau pulou contra o ventre, grosso, úmido de pré-gozo, com uma leve curva para cima. Agarrei com a mão e ele soltou um chiado.
— Você está duro como pedra.
— Porque você é um perigo.
Lambi a ponta devagar, saboreando o gosto salgado e quente antes de levá-lo mais fundo na boca. Engasguei um pouco com o tamanho, mas continuei, levando o pau até a garganta o máximo que pude enquanto o segurava pelas coxas. Marcos me guiou com a mão no cabelo, sem empurrar, só marcando o ritmo. Quando me afastei, eu estava ofegante e com os lábios úmidos.
— Se você continuar assim, eu gozo em dois minutos.
— Então aguenta.
Ele colocou uma camisinha com uma pequena desajeitadez que me pareceu curiosamente humana. Me deitou de costas, ergueu minhas pernas e apoiou a cabeça do pau na entrada da minha boceta com uma pressão que me fez fechar os olhos. Entrou devagar, centímetro por centímetro, me alargando, me preenchendo, me abrindo com uma lentidão deliciosa que me fez respirar entrecortado. Quando entrou por completo, ficou imóvel por um instante, a testa encostada na minha, enquanto eu sentia o pulsar do pau dentro de mim, duro, atento, perfeitamente encaixado.
— Me diga se eu te machucar.
— Não me faça falar agora.
Ele se moveu então com uma cadência profunda, saindo quase por completo para voltar com uma investida firme que me fez gemer de boca aberta. Os quadris dele batiam nos meus com um som úmido, cru, e eu sentia cada golpe no fundo do ventre. Ele abriu mais minhas pernas, mudou o ângulo e voltou a entrar com mais força. O atrito repetido contra o ponto exato me fez perder completamente a compostura. Cravei as unhas em seus ombros e me movi com ele, levantando os quadris para recebê-lo melhor, deixando que me comesse como se conhecesse de memória o caminho até o meu corpo.
— Que gostoso te sentir dentro — murmurei, quase sem voz.
— E como te cai bem ser comida assim.
Ele agarrou meus seios, apertando-os com a mão aberta enquanto continuava me enfiando o pau de novo e de novo. O calor ficou insuportável, uma mistura de atrito, respiração e desejo. Quando ele enfiou dois dedos na minha boceta ao mesmo tempo em que continuava empurrando, gozei com violência, apertando-o por dentro até arrancar dele um rosnado quase selvagem.
— Puta que pariu, Lucía.
— Não para, filho da puta.
Ele voltou a me pegar pelos quadris, me virou de lado e continuou me fodendo por trás, uma mão na minha cintura, a outra segurando uma perna levantada para entrar mais fundo. Nessa posição eu sentia o pau roçando cada parede da minha boceta, duro, cheio, exato. O som de nossas peles se chocando encheu o quarto. Eu ia dizendo o nome dele entre suspiros, pedindo mais, mais forte, mais fundo, enquanto ele soltava palavrões no meu ouvido com a voz quebrada pela tensão.
— Vou te deixar tremendo.
— Deixa.
A cama rangia sob nossos corpos. Marcos alternou investidas longas com golpes mais secos, como se estivesse me procurando no escuro e já me conhecesse de memória. A tensão foi crescendo na respiração dele, no tremor das coxas, na maneira como me apertava cada vez mais forte. Senti isso um instante antes de ele gozar: o pau enrijecendo de repente dentro de mim, o corpo tenso, o rosnado fundo que lhe saiu do peito enquanto esvaziava a camisinha com uma violência contida. Continuei me movendo sobre ele até que o prazer subiu de novo, mais limpo e mais fundo, e gozei uma última vez com a cabeça jogada para trás e a boca entreaberta.
Ficamos quietos por um bom tempo, com a respiração descompassada e o cheiro de sexo flutuando no ar que entrava da varanda.
— Nunca tinha gozado tantas vezes seguidas — disse quando consegui. — Achei que isso já não fosse possível.
Marcos riu baixinho e me beijou na testa.
— Pois é. E isso é só o começo.
***
Na manhã seguinte o sol entrava oblíquo pela janela. Marcos dormia de bruços, com o cabelo desalinhado e os braços estendidos. Fui ao banheiro, me refresquei, preparei café descalça na cozinha pequena. Li uma mensagem de Raquel que me fez rir sozinha.
Quando ele apareceu com cara de sono, me abraçou por trás sem dizer nada. Tomamos café da manhã apoiados no pequeno balcão da cozinha. À luz do dia, o estúdio tinha seu charme: azulejos coloridos, livros com lombadas tortas na estante, uma planta no parapeito que tinha sobrevivido como podia.
— Foi ótimo — disse —. Acho melhor deixar por aqui.
— Por quê?
— Para não estragar algo que está bom.
Marcos assentiu sem insistir. Me acompanhou até a porta e colocou algo dobrado na minha mão: um papel com o número dele.
— Caso você mude de ideia.
***
Não mudei de ideia naquele dia. Mudei dois dias depois.
Telefonei ao meio-dia, com a culpa de deixar minhas amigas rondando os pensamentos.
— É a Lucía. Você aceitaria um convite para almoçar?
— Por você, eu aceito qualquer coisa.
Marcamos num bar de tapas no centro, daqueles com mesas de madeira e cardápio escrito em lousa. Marcos chegou pontual, com calça de linho e camisa azul, em tom com os olhos. Almoçamos durante duas horas longas. Ele me contou uma infância difícil, pais que morreram jovens, uma juventude cheia de trabalhos diferentes: ajudante de armazém, garçom em Ibiza, animador na Costa del Sol. Economizava quatro meses para viver o resto do ano em Madri, onde estava terminando o último ano de Relações Internacionais e estudando inglês e chinês.
— Não te imaginava universitário — disse, e me arrependi na mesma hora.
— Por quê? Porque eu sirvo bebida?
— Não. Foi uma bobagem. Desculpa.
Ele riu. Paguei em dinheiro e ele insistiu em oferecer o café. Eram quase cinco quando saímos do terraço e nenhum dos dois especificou para onde íamos enquanto caminhávamos devagar até a rua dele.
Subimos as escadas mais rápido do que da primeira vez. Mal fechou a porta, nos beijamos com urgência, deixando a roupa espalhada pelo hall. Na cama, Marcos percorreu meu corpo inteiro com os lábios, descendo devagar até onde eu precisava dele. Fez eu gozar com a boca antes que pudéssemos falar de qualquer outra coisa, arrancando de mim um grito que amortecei contra o ombro dele.
Depois me virei sozinha, me apoiei nos joelhos e me ofereci. Marcos se posicionou atrás, segurou meus quadris com as duas mãos e entrou devagar, com uma lentidão deliberada que me arrancou um gemido longo. As mãos dele subiram até meus seios enquanto empurrava. Foi aumentando o ritmo aos poucos. Eu gritava contra o travesseiro, acumulando sensações que não chegavam a terminar por completo antes de começar a onda seguinte. Quando gozou, fez isso com um rosnado que ecoou no quarto pequeno. Caí no colchão com as pernas tremendo.
— Você fode muito bem — murmurei com o rosto contra o lençol.
Marcos se deitou ao meu lado rindo. O ar do quarto estava espesso de calor e suor. Levaram vários minutos até que a vida voltasse ao meu corpo. Os olhos azuis dele me olhavam com uma expressão que eu não saberia nomear exatamente.
— Você é uma mulher esplêndida, Lucía.
— Estou com uns quilos a mais.
— Você me parece uma deusa. E alguém que não merece passar tanta fome de sexo bom.
A espontaneidade dele me fez rir. Adormeci por meia hora longa. Quando acordei, Marcos parecia dormindo de bruços, com o corpo bronzeado e relaxado. Acariciei-o devagar, sem pressa, até o corpo dele responder. Quando abriu os olhos, me olhei neles e me coloquei por cima sem dizer nada. Dessa vez fui eu quem o conduziu, marcando o ritmo que me apetecia, aproveitando a sensação de estar cheia e de poder me mover como quisesse, sem dar explicações. Marcos segurou meus quadris sem tentar controlar nada. Quando acabamos os dois, caí sobre o peito dele ofegante, com o coração batendo rápido contra a pele dele.
— Juventude, divino tesouro — disse, e não consegui evitar rir alto.
***
Voltei para o hotel depois do banho, tranquila. Pilar e Raquel me esperavam no terraço com perguntas.
— E aí? Estávamos quase ligando para a Guarda Civil.
— Descobri os orgasmos múltiplos — disse. — Não me interessa mais nenhum outro assunto de conversa.
Elas riram tanto que as outras mesas se viraram para olhar. O resto da viagem passamos na praia, conversando, pegando sol, rindo de coisas que havia anos não me faziam rir daquele jeito. Não contei a elas sobre Paula. Era estranho demais e meu demais para dividir ainda.
***
Voltei para Majadahonda a tempo da vida de sempre. Rodrigo estava mais atento do que antes, mais cuidadoso, como alguém que sabe que machucou algo frágil e tenta não fazer de novo. Em agosto me propôs uma semana no Algarve, nós dois sozinhos, algo que não fazíamos havia anos. Foi agradável. Na última noite, num hotel com vista para o Atlântico, voltamos a transar. Foi tranquilo, devagar, sem urgência. Gozei duas vezes, algo que nunca tinha acontecido com ele. Eu o amava, à minha maneira, com tudo o que isso implicava: o tempo compartilhado, as filhas, a vida construída ao longo de quase três décadas.
Nossa relação se tornou diferente. Mais calma, menos barulhenta. Com um silêncio entre nós que já não incomodava.
***
No fim de outubro, com os apontamentos do primeiro módulo de Estética abertos sobre a mesa, recebi uma mensagem.
“Estou em Madri há dois meses. Gostaria de te ver, embora eu entenda qualquer resposta.”
Sorri. Não respondi na hora. Mas sorri.
Naquele momento, soube que, acontecesse o que acontecesse depois, eu já não era a mesma mulher que saíra de casa com a mala tremendo. Algo tinha se recolocado por dentro, algo sem nome exato, mas que se parecia muito com estar viva de um jeito que eu não lembrava de ter sentido. O resto deixei como se deixa um livro aberto sobre a mesa: como uma possibilidade que ainda pode acontecer.