O círculo na praia que ninguém quis interromper
Quando o sol começou a cair, nenhuma das duas mulheres mandava com palavras: bastava um olhar para que cada mão soubesse onde devia pousar.
Quando o sol começou a cair, nenhuma das duas mulheres mandava com palavras: bastava um olhar para que cada mão soubesse onde devia pousar.
Ela passou a vida desejando aquele homem que tinha o dobro da sua idade. Naquela tarde, baixou a porta da loja, apagou as luzes e decidiu que não ia esperar mais.
Reservei dois ingressos para uma sala quase vazia e dei um deles a uma desconhecida que me lia. Eu não sabia se ela viria, até vê-la procurar o assento na penumbra.
O espelho do camarim devolvia uma mulher que ela não reconhecia. Em minutos, dezenas de desconhecidos a veriam nua. E, mesmo assim, ela decidiu atravessar a cortina.
Quando as portas do elevador se fecharam, ninguém mais fingia. Marina procurou minha mão e a guiou sob a saia enquanto você me beijava sem tirar os olhos delas.
Marcela me olhava pelo retrovisor com um sorriso que não era de uma mãe tranquila. Eu não sabia que aquela tarde mudaria tudo entre nós.
Ajoelhei-me diante da janela sem imaginar que um deles já tinha contornado a casa e me observava em silêncio pela porta dos fundos.
Peguei a primeira saída da rodovia sem pensar. O que ela acabara de me contar não me deixava dirigir, e eu ainda não tinha confessado o que realmente queria.
Dancei colada a um desconhecido de máscara até que sua voz me perguntou ao ouvido se eu ainda o lembrava. E meu corpo respondeu antes de mim.
«Só existe uma forma de descobrir», disse ele, aproximando-se do cavalete. Eu tinha ido para ele me tirar a cenoura, não para gozar na frente de um desconhecido de jaleco.
Corri sob o temporal até a minha porta achando que já estava segura. Não percebi que ele tinha entrado atrás de mim até sentir a mão dele nas minhas costas.
Faltava pouco para fechar quando o sininho tocou. Entraram ele e ela, pediram renda preta e, sem saber, me ofereceram a tarde com que eu vinha fantasiando sozinha havia meses.
Nessa noite desci para pegar um copo d'água e ele estava acordado no sofá. O que aconteceu depois na minha cama, com meu padrasto respirando do outro lado da porta, ainda me queima.
Segui um rastro de sangue até uma clareira onde algo me esperava pendurado entre as árvores. Não imaginei que a criatura da floresta me escolheria como presa.
Ela nadou até mim sem deixar de me olhar e, na água morna do entardecer, entendi que aquilo que sentimos quando crianças nunca tinha ido embora de verdade.
Subi ao palco sem pensar, diante de uma sala cheia de desconhecidos e de um homem que já não me olhava. Naquela noite, deixei de implorar e comecei a sentir.
Toda a minha vida achei que pertencia só a ele. Na tarde em que ele entrou na direção e me encontrou sobre a mesa, descobri o quanto ele gostava de me ver com outro.
Quando chegou meu último desafio da noite, eu sabia que podia dizer não. O que ninguém esperava era que eu dissesse sim com esse sorriso nos lábios.
Voltava ao confessionário toda semana pelo mesmo motivo, e sempre calava a parte mais importante: o homem do outro lado da grade era dono de todos os seus pecados.
Mal larguei as amarras, soube que aquela tarde não terminaria com um simples passeio: ela já me olhava diferente, com aquele meio sorriso que prometia muito mais.