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Relatos Ardientes

O padrasto que aprendeu a nos compartilhar em silêncio

Tenho vinte e três anos e ainda não sei se esta história me pertence ou se a herdei de outra pessoa. Vou contá-la como posso, sem enfeites. Se você chegar até o fim, vai entender por que precisei escrevê-la.

Minha mãe, Marisol, me teve quando ela mesma era uma menina. Meu pai biológico sumiu antes de eu aprender a andar e nunca mais voltou. Cresci entre paredes de chapa, num quarto emprestado por uma vizinha que teve mais piedade do que a família inteira. Quando saía da escola, nós duas ficávamos paradas nos semáforos pedindo moedas. Eu baixava a cabeça para que nenhum colega me reconhecesse. Minha irmã mais nova, Carla, quase não se lembra desses dias.

Joaquín apareceu quando eu tinha doze anos. Era pedreiro, calado, de mãos enormes e riso fácil. Propôs à minha mãe construir uma casa de verdade para nós e cumpriu: levantou ele mesmo dois quartos, um banheiro e um pátio pequeno com um pé de limão. Trouxe móveis aos poucos, roupas, brinquedos para Carla e, quando entrei no ensino médio, um celular para mim. Nos chamava de suas princesas com uma naturalidade que não parecia teatro. Pela primeira vez dormimos em colchões que não cheiravam a umidade.

Ele tinha um defeito e as três sabíamos: quando bebia, ficava insuportável. Alguns sábados voltava com o hálito doce da aguardente e quebrava um copo, uma cadeira, uma promessa. De manhã chorava e minha mãe o perdoava. Eu aprendi a não olhar.

A doença chegou como chegam as coisas que a gente não quer nomear: com uma palavra num consultório e um silêncio no carro. Câncer. A quimio a deixou sem cabelo e quase sem forças. A casa começou a cheirar a desinfetante e a sopa que ninguém tomava. Joaquín afundou, bebia mais, e nós vivíamos de olho no humor dele.

Uma tarde eu a visitei no hospital. Levei um térmo com caldo e um livro que eu sabia que ela não ia ler. Ela estava com o rosto fino e os olhos enormes.

— Senta, meu amor — ela disse, e eu obedeci.

Ela segurou minha mão. Tinha os dedos frios.

— Preciso te pedir uma coisa. E preciso que você não me julgue até eu terminar.

Assenti.

— Eu não sei quanto tempo mais vou ter. E eu conheço o Joaquín. Conheço ele melhor do que ninguém. É um bom homem, mas é um homem. Se eu for embora e ninguém cuidar dele, vai procurar consolo onde não deve. E aí a casa acaba, e acaba tudo o que ele construiu para vocês.

Engoli em seco. Eu sabia para onde ela estava indo.

— Você é uma mulher feita. Eu te criei sabendo o que é não ter. Não estou te pedindo que o ame. Estou te pedindo que não o deixe sozinho. Por você, pela sua irmã, pela casa.

Quis responder alguma coisa e a voz não saiu. Apertei a mão dela e fui embora sem responder.

***

Passei três noites sem dormir. Só a ideia me dava náusea. Joaquín tinha quarenta e tantos anos, mãos calejadas, costas largas. Eu o tinha visto milhares de vezes saindo do banheiro de toalha e nunca tinha sentido absolutamente nada. Não me atraía. Ele me criou.

Mas houve uma quinta-feira em que voltei cedo da escola e o ouvi no banheiro falando baixinho ao telefone. A voz do outro lado era de mulher. Ele dizia “amor” e “que horas?” e “tenho outro cliente depois”. Joaquín respondia em sussurros. Senti o ar me faltar no peito.

Quando ele saiu, eu estava na porta da rua com as mãos suadas.

— Aonde você vai? — perguntei.

— Tomar umas cervejas, já volto.

— Você não vai.

Ele me olhou sem entender.

— Eu sei com quem você vai se encontrar. Eu ouvi.

Ele tentou passar. Eu bloqueei o caminho com o corpo. Estávamos perto, perto demais. Sem pensar, tirei a camisa do uniforme e deixei cair no chão. Depois o sutiã. Fiz rápido, antes de me arrepender. Fiquei no corredor com o peito nu e o coração prestes a quebrar minhas costelas.

Joaquín parou. Me olhou fixamente por um tempo que me pareceu longo demais. Depois fechou a porta da rua com o pé. Caminhou até mim, segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou como se estivesse anos esperando para fazer aquilo. Senti o gosto de cerveja velha e de outra coisa, algo urgente.

Ele me levou para o quarto sem dizer uma palavra. Eu ia atrás, descalça, com o uniforme pela metade. Quando ele se despiu, entendi duas coisas ao mesmo tempo: que minha mãe tinha razão sobre o que ele precisava, e que eu não ia conseguir fingir que aquilo era só um favor. Era maior do que qualquer namorado adolescente tinha sido. Ele me deitou na cama, arrancou minha saia com cuidado e baixou a cabeça entre minhas pernas. O que veio depois apagou da minha mente qualquer ideia anterior que eu tivesse sobre ele. Nenhum garoto da minha idade tinha sabido fazer assim.

A primeira vez foi rápida, desajeitada, com culpa e saliva. Ele gozou dentro de mim porque eu disse que tinha implante e porque, naquele momento, eu já não queria que fosse fora. Depois me abraçou como se eu fosse de cristal.

— Obrigado — ele disse no meu ouvido.

Não soube o que responder.

***

O que veio depois foi uma rotina nova e secreta. Joaquín parou de beber tanto. Voltava do trabalho, tomava banho, jantávamos as quatro como uma família normal e, quando Carla dormia, eu ia para o quarto dele. Aprendi o corpo dele de memória. Aprendi a ler seu humor pela forma como deixava as botas na entrada. Aprendi que ele era carinhoso, que gostava de rir na cama, que pedia as coisas com educação mesmo quando o que pedia era uma safadeza.

Visitava minha mãe a cada dois dias. No começo eu não conseguia olhar nos olhos dela. Depois ela passou a me perguntar, baixinho, como iam as coisas. Ela não usava a palavra que nós duas pensávamos. Dizia “como está?”, e eu dizia “bem”, e ela sorria com uma mistura de tristeza e alívio.

— Eu conheço ele — ela me disse uma vez —. Se você tratar bem, ele vai te tratar como uma rainha.

E foi assim. Joaquín me mimava como se eu fosse namorada, não enteada. Comprava roupa para mim, me levava ao cinema aos domingos, me levava para passear na moto velha que consertou para ele. Carla nos observava sem entender direito e eu tentava protegê-la da mudança no ar da casa.

Até que minha mãe piorou de novo.

***

Passei quinze noites seguidas no hospital. Joaquín me levava comida e dinheiro. Nas primeiras visitas ele estava pegando fogo, ansioso, me dizia no ouvido o quanto sentia minha falta. Uma manhã ele me fez ajoelhar entre os bancos do carro, no estacionamento do hospital, e gozou com um gemido contido contra o volante.

No terceiro dia algo mudou. Chegou com um beijo na bochecha. Distante. Educado. Perguntei o que estava acontecendo e ele disse “nada, amor”, mas o “amor” saiu fraco. Voltou para casa e eu não o vi por dois dias inteiros.

Minha mãe morreu numa quarta-feira de madrugada. Não consegui me despedir como queria. Voltei para casa quebrada, com os olhos inchados, sem ter comido por horas. Joaquín me abraçou na soleira e me levou para dentro quase no colo.

Naquela mesma noite, depois do velório, dormi na cama dele. Ele fez amor comigo com uma ternura que me desmontou. Devagar, olhando nos meus olhos, sussurrando que agora eu era dele, que ele ia cuidar de nós. Pensei que estávamos bem.

Até ele se levantar para buscar uma toalha e não voltar.

Esperei vinte minutos. Depois ouvi barulhos no fundo do corredor. Pancadas surdas, uma respiração acelerada, uma voz aguda que eu conhecia bem demais. Saí da cama, descalça, com um nó subindo do estômago.

A porta do quarto de Carla estava trancada por dentro. Bati. Bati mais forte. Quando abriu, Joaquín estava com o cabelo despenteado e o olhar perdido. Atrás dele, de quatro na cama, minha irmã esperava ele entrar de novo.

Ela tinha dezessete anos. Tinha meu mesmo rosto. Tinha o corpo mais jovem, mais novo, mais inteiro.

— Sua irmã também precisa — Joaquín me disse, com uma calma que me gelou.

Quis gritar e não consegui. Ele segurou meu braço, me levou de volta ao quarto e fechou a porta. Ouvi o que veio depois como se estivessem fincando agulhas nos meus tímpanos. Chorei sem parar até amanhecer.

No dia seguinte perguntei a Joaquín há quanto tempo. Ele me confessou que minha mãe, numa das últimas visitas, tinha dito para Carla o mesmo que tinha me dito. Que nós duas cuidássemos dele. Que nenhuma sentisse ciúme. Que naquela casa a gente ia sobreviver se ficasse junta.

Levei semanas para falar com Carla. Quando falei, ela não me pediu perdão. Pediu que eu a entendesse.

***

O que segue é a parte que custa contar.

A novidade de Carla na cama de Joaquín me doeu até parar de doer. Uma noite, sem saber como, acabamos as três pessoas no mesmo quarto, minha irmã e eu nos beijando desajeitadamente enquanto ele observava aos pés da cama. Depois ele entrou na brincadeira. Aprendi que olhar para ela enquanto ele a comia me excitava mais do que qualquer cena imaginada. Aprendi que ela sentia o mesmo quando eu estava por baixo.

A casa virou um lugar estranho. Era nossa e não era nossa. Joaquín continuava trazendo o dinheiro. Continuávamos sendo suas princesas, mas também éramos outra coisa. De manhã íamos para a escola ou para o trabalho. À noite, ninguém falava do que acontecia atrás das portas.

Num sábado de inverno ele chegou com duas caixas embrulhadas em papel brilhante. Dentro havia lingerie para nós duas: renda preta para mim, renda vermelha para Carla. Experimentamos no quarto e, quando descemos, ele aplaudiu como se fôssemos modelos na passarela.

— Hoje tem festa — anunciou.

Carla soltou um “sim” com um entusiasmo que me fez virar o rosto. Como se já soubesse.

Às nove bateram à porta. Joaquín foi abrir. Entraram quatro homens que eu não conhecia. Minha irmã conhecia. Saltou nos braços de um deles como se fossem namorados há anos e o levou para o quarto do fundo, rindo. Outro a seguiu.

Joaquín me pegou pela cintura.

— Esses amigos vieram te cumprimentar — sussurrou no meu ouvido —. Se comporte como você sabe.

Um dos homens lhe passou um envelope. Vi de relance. Não era fino. Joaquín dobrou e colocou no bolso da calça.

***

Não vou descrever tudo o que aconteceu naquela noite. Não tenho palavras para narrar e, se tivesse, não tenho certeza se gostaria de usá-las. Direi que durante as primeiras duas horas estive a ponto de chorar três vezes, e que depois, num momento que não consigo situar com precisão, algo em mim se apagou e algo se acendeu. Direi que minha irmã e eu nos olhamos nos olhos através de corpos que não eram nossos e que esse cruzamento de olhares me deu mais vertigem do que qualquer outra coisa que vivi. Direi que terminei encharcada de suor alheio, com as costas contra um travesseiro que eu não reconhecia, ouvindo a risada rouca de Joaquín da porta.

Na manhã seguinte ele nos acordou com café da manhã na cama. Café com leite, medialunas, um buquê de flores. Tratou-nos como deusas. Naquela tarde comprou roupas novas para nós. Naquela noite dormimos as três na mesma cama, abraçadas, sem nos tocar demais.

***

Hoje tenho vinte e três anos. Carla está grávida e não sabemos de quem. Joaquín diz que isso não importa, que o bebê vai ter tudo o que nós não tivemos, e pela primeira vez em muito tempo eu acredito nele. As festas continuam acontecendo uma vez por mês. Eu ainda uso o implante. Minha irmã não quis colocar outro.

Às vezes, quando saio do trabalho e volto para a casa que ele construiu com as próprias mãos, penso na minha mãe. Penso na conversa no hospital. Penso no que ela sabia e no que não quis me dizer em voz alta. Eu a perdoo e não a perdoo ao mesmo tempo. Algo parecido sinto por Joaquín. Algo parecido sinto por mim.

Se você chegou até aqui, obrigado por ler. Talvez um dia você se veja diante de uma escolha parecida e entenda que as coisas não são tão simples quanto parecem de fora.

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