Ninguém desconfia do que faço no último vagão
Tenho cara de tarada e todos percebem. No último vagão, apertada contra corpos desconhecidos, deixo minhas mãos fazerem o que minha cabeça já decidiu.
Tenho cara de tarada e todos percebem. No último vagão, apertada contra corpos desconhecidos, deixo minhas mãos fazerem o que minha cabeça já decidiu.
Comprei umas meias pretas com o coração na garganta, sabendo que, assim que trancasse a porta de casa, viraria a mulher que vinha imaginando o dia todo.
Achei que teria a casa toda para mim. Quando ouvi aquela voz grave atrás de mim, soube que meu segredo tinha acabado de ser descoberto.
Colocaram a fita azul no meu pescoço, a única diferente das demais, e desci aquelas escadas sabendo que aqueles seis homens iam descobrir o que eu escondia.
Naquela manhã, minha irmã me emprestou seu nome, seu vestido e sua vida inteira. À tarde, um garoto me olhou como ninguém jamais olhara e, pela primeira vez, eu me reconheci.
Oito anos no exterior me transformaram na mulher que eu sempre fui. Mas, ao cruzar a porta de casa, encontrei primeiro o olhar faminto de Mauricio.
Minha família foi viajar e eu me vi sozinha com uma lingerie vermelha, um app anônimo e um estranho que topou me foder em cinco minutos.
Só me visto quando tenho um encontro, sempre num quarto de hotel, e naquela noite o desconhecido que me esperava não fazia ideia do que encontraria sob meu vestido.
Voltei depois de vinte anos a uma cidade do sul. Nessa noite, num hotel da zona vermelha, duas desconhecidas decidiram que eu não ia dormir sozinho.
Passada a meia-noite, coloquei os saltos vermelhos, abri o portão com o controle e saí para caminhar. Só queria me sentir vista. Não esperava que alguém parasse.
Eu gostava de me sentir olhada, desejada, escolhida entre todas. Nessa noite um homem do campo me tirou da pista e me levou a um lugar sem volta.
Eu fumava desde os dezoito e nada tinha conseguido me fazer parar. Até minha mulher encontrar aquela doutora de saltos impossíveis e sorriso de predadora.
Sou uma travesti de armário. Passei meses obedecendo aos seus e-mails quando ele me escreveu que viria à minha cidade, e eu soube que naquela tarde ele faria comigo tudo o que me tinha ordenado.
Segui a moça para a rua convencido de que seria só mais uma noite. Não imaginava o que ela escondia sob aquele vestido colado nem até onde iria me levar.
Essa madrugada eu vesti a tanga vermelha, as meias arrastão e a peruca diante do espelho do hotel, e pela primeira vez não reconheci o garoto de sempre.
Ninguém sabe. Nem mesmo a pessoa com quem durmo todas as noites. Mas, quando fecho os olhos, me vejo diante do espelho, transformado em outra, pronta para ele.
Eu estava de quatro, tremendo, com o cu empinado e meu próprio pau pingando sozinho. Ele mal tinha enfiado a ponta e eu já implorava para ele me arrebentar inteira.
Baixei o vidro, troquei duas palavras com ela e a convidei para subir. Não imaginava que aquela morena da esquina sem luz me esperava com uma surpresa entre as pernas.
Quando o último aplauso se apagou, Damián trancou a porta do camarim, sabendo que naquela noite aquela voz — e todo o resto — lhe pertencia.
Eu vinha me preparando havia meses para Adrián, mas foi outro homem que me ensinou naquela noite o que significava se entregar de verdade.