O escravo que dobrou três dominadoras
O condomínio privado onde Valeria morava dormia envolto naquele silêncio próprio dos bairros onde o dinheiro compra também a quietude. Sua vila de dois andares erguia-se atrás de um muro de pedra cinzenta coroado por câmeras, cercada por um jardim meticulosamente aparado que ninguém visitava por prazer. Ninguém visitava aquela casa por prazer.
Valeria tinha trinta anos e uma reputação cuidadosamente construída. Sua especialidade era a dominação financeira: homens ricos que pagavam para se render diante de uma mulher de gestos lentos e voz suave, capaz de transformar a submissão em algo de que seus clientes precisavam com a mesma urgência com que precisavam respirar. Cabelos castanho-escuros, olhos cor de avelã, uma estatura que ninguém teria destacado numa reunião de trabalho. Isso fazia parte do truque. Ninguém esperava que aquela mulher pequena e precisa fosse a pessoa mais perigosa da sala.
Naquela tarde, esperava Marco. Alto, de ombros largos, com aquele tipo de físico que, em outro contexto, teria projetado autoridade sobre qualquer sala. Mas, quando atravessava o limiar da vila de Valeria, tudo isso desaparecia. Ele era dela. Havia sido dela durante quase um ano.
A campainha tocou às oito em ponto. Valeria abriu sem pressa, sabendo que cada segundo de espera já fazia parte do jogo. Marco estava à soleira com a cabeça ligeiramente inclinada, os ombros baixos, a expressão de quem deposita a própria vontade antes de entrar.
— Entre — disse ela, e aquilo bastou.
Ele entrou. A porta se fechou atrás dele. E, como em todas as vezes anteriores, o homem que lá fora tomava decisões corporativas que movimentavam milhões deixou-se cair de joelhos no chão do vestíbulo, inclinando a testa na direção dos pés de Valeria com uma devoção que ela considerava ao mesmo tempo satisfatória e útil. Não era afeto. Era arquitetura do poder.
Valeria usava um vestido preto curto que se colava aos quadris, sem calcinha por baixo, como costumava fazer nas sessões com Marco. Levantou uma perna e apoiou o salto pontudo sobre a nuca dele, pressionando o suficiente para que a testa tocasse o mármore frio. Depois subiu a ponta do sapato pela mandíbula do homem, lentamente, e roçou seus lábios.
— Chupe — murmurou.
Marco abriu a boca e lambeu o couro do salto, a sola, cada centímetro, sem mudar de expressão. Valeria afastou a perna e separou as suas, deixando-o ver a boceta depilada a poucos centímetros do rosto. Ele permaneceu de joelhos, esperando.
— Ainda não — disse ela, rindo baixinho. — Primeiro quero ver você implorar por ela.
Foi então que o telefone vibrou sobre o aparador do corredor.
Valeria o pegou com uma expressão irritada. O nome na tela era Sofia, e lê-lo tensionou sua mandíbula imediatamente. Sofia não era uma amiga nem uma aliada. Era uma colega com quem mantinha uma relação de cortesia armada, e devia-lhe um favor que ela aguardava havia meses pelo momento adequado para cobrar.
Atendeu mantendo o pé firme sobre o ombro de Marco, que não se abalou e continuou sua laboriosa adoração como se nada tivesse mudado no ambiente.
— Olá, Sofia — disse, forçando um tom neutro.
— Querida, preciso de um favor urgente. — A voz do outro lado soava segura, quase satisfeita por estar em posição de pedi-lo. — Tenho uma sessão de alto nível amanhã e meu escravo principal está fora de circulação. Preciso de alguém preparado ainda esta noite.
Valeria olhou para baixo. Marco continuava com a testa roçando o chão, a língua ainda trabalhando distraidamente sobre o peito do sapato, alheio à conversa. Uma ideia foi se formando com uma lentidão deliberada, como o veneno que se mistura a uma taça de vinho tinto sem que ninguém o veja.
— Veja só, tenho aqui mesmo o homem ideal — respondeu ela, baixando a voz para um tom de veludo. — Físico impressionante. Submissão absoluta. Pica grossa e resistência para horas. Ele fará tudo que mandarem, sem questionar. Não vai decepcionar você.
— Parece bom demais — disse Sofia, com aquele tom de ambição que Valeria conhecia perfeitamente porque ela mesma o usava.
— Eu o mando em uma hora. Considere que estamos quites.
Desligou. O silêncio voltou à vila, mas era um silêncio diferente do anterior, carregado de algo parecido com expectativa.
Valeria indicou a Marco que se levantasse. Explicou o que precisava com precisão clínica: ele iria à casa de Sofia, fingiria ser o escravo prometido para aquela sessão e voltaria com ela. Não como convidada. Como prisioneira. Era uma dívida que Sofia vinha meses sem reconhecer por completo, e naquela noite Valeria pretendia cobrá-la com juros.
Marco ouviu sem piscar. Assentiu uma única vez, com aquela calma estoica que era seu modo habitual de confirmar qualquer ordem.
— Se fizer isso direito — acrescentou Valeria, com um sorriso que não chegava aos olhos —, vou recompensar você como nunca fiz antes.
Para reforçar a promessa, empurrou-o contra a parede do vestíbulo e baixou o zíper da calça dele de um só puxão. O pau de Marco caiu pesado em sua mão, já meio duro. Valeria se agachou sem tirar os saltos e enfiou-o na boca até o fundo, provocando uma ânsia seca que a fez babar sobre os colhões dele. Chupou sem pressa, deixando que o homem visse suas bochechas incharem, a saliva escorrer pelo queixo, os lábios apertarem-se contra a base sempre que engolia o pau inteiro. Quando o sentiu pulsar, afastou-se de repente e deu duas palmadas suaves com a ponta da glande nos lábios dele.
— Nada de gozar esta noite — ordenou, enquanto guardava o pau duro dentro da calça dele e fechava o zíper com dificuldade. — Você vai com as bolas cheias. E, quando voltar, se tiver cumprido sua missão, deixo você se esvaziar onde escolher. Dentro de mim, na boca de Sofia, no rosto de nós duas. O que quiser.
Marco engoliu em seco. Foi a única coisa que indicou que a tinha ouvido.
***
A casa de Sofia era diferente da de Valeria: linhas limpas, fachada minimalista, nada que anunciasse da rua o que acontecia lá dentro. Marco tocou a campainha exatamente às nove e meia.
A própria Sofia abriu a porta.
Era uma mulher de uns trinta e cinco anos, magra e de movimentos estudados, com os cabelos louros presos num rabo de cavalo apertado e olhos claros que tinham o hábito de avaliar tudo o que entrava em seu campo de visão antes de decidir o que fazer com aquilo. Vestia um conjunto justo de couro preto, como quem leva o próprio uniforme a sério.
— Você deve ser Marco — disse, percorrendo-o de cima a baixo sem disfarçar em nada. — É melhor do que eu esperava. Entre.
Marco entrou. A fechadura soou às suas costas com aquele clique definitivo que, em outras circunstâncias, teria sido um sinal de controle. Naquela noite, era outra coisa.
A mulher que acreditava ter recebido um presente não tinha como saber que o presente chegara com suas próprias instruções.
Sofia conduziu-o à sala. Mandou que se despisse sem preâmbulos, estalando os dedos, e assobiou baixinho ao ver o corpo do homem completamente nu: os peitorais trabalhados, as coxas densas e, entre as pernas, um pau já semiereto, grosso e venoso, pendendo pesado sobre os colhões inchados.
— Valeria não exagerou — murmurou. — De joelhos.
Marco obedeceu. Sofia sentou-se no braço do sofá, abriu a calça de couro e baixou-a até a metade das coxas, deixando à mostra uma boceta depilada e já brilhante. Agarrou-o pelos cabelos e empurrou o rosto dele contra seu sexo.
— Chupe. E faça direito, não tenho a noite inteira.
Ele abriu seus lábios com a língua e começou a lamber o clitóris dela com movimentos longos e firmes, exatamente como Valeria o ensinara ao longo de onze meses. Sofia jogou a cabeça para trás, puxando-lhe os cabelos, e começou a esfregar-se contra a boca dele com crescente descaramento, roçando a boceta molhada por todo o rosto do homem até seu queixo brilhar de corrimento. Marco enfiou dois dedos nela e curvou-os em seu interior, procurando o ponto que fazia as mulheres arquearem o corpo. Sofia estremeceu.
— Porra, sim, assim — arfou. — Continue, não pare, seu filho da puta.
Marco não parou. Chupou o clitóris dela com sucções lentas enquanto a fodia com os dedos, sentindo as paredes internas apertarem-se ao redor dos nós dos dedos. Sofia gozou sobre sua boca com um espasmo longo, empurrando o rosto dele contra o púbis como se quisesse sufocá-lo ali dentro. Molhou-lhe o queixo, o pescoço, o peito.
Ainda respirando entrecortadamente, deixou-se escorregar do braço do sofá e empurrou os ombros dele para jogá-lo de costas sobre o tapete. Olhou para o pau dele, agora completamente duro, apontando para o teto, com uma gota de líquido pré-ejaculatório brilhando na ponta.
— Vamos ver se ele é tão bom para foder quanto é para lamber — disse, sentando-se montada sobre ele.
Enfiou-se nele de uma vez. O pau entrou inteiro numa única descida, e Sofia soltou um gemido gutural, quase ofendida pela grossura. Começou a cavalgar com energia, apoiando-se no peito do homem com as unhas cravadas, deixando os peitos sacudirem para fora do corpete de couro. Marco deixou que ela fizesse isso por algum tempo, seguindo o roteiro perfeito do escravo passivo. Observava seu rosto, a boca aberta, os olhos vidrados, calculando o momento exato.
Quando Sofia se inclinou para a frente para beijar-lhe o pescoço, embriagada pelo próprio poder, Marco agiu.
Agarrou-a pelos pulsos com as duas mãos, levantou-a de repente e virou-a no chão, deixando-a de bruços com o pau ainda dentro dela. Pôs um joelho na parte inferior das costas dela e torceu-lhe um braço para trás. Sofia gritou, mais de surpresa que de dor. Antes que pudesse reagir, Marco tirara de suas roupas jogadas uma abraçadeira plástica grossa e prendera-lhe os pulsos às costas com um movimento ensaiado. Depois penetrou-a novamente, agora por trás, e começou a fodê-la com estocadas duras e secas contra o tapete, segurando-a pelos cabelos.
— Escute bem — disse ao ouvido dela enquanto a arrebentava na pica. — Nós dois temos uma noite longa pela frente. E amanhã você vai à casa de Valeria como um presente do caralho.
Sofia tentou gritar. Ele tapou-lhe a boca com uma das mãos enquanto continuava enfiando o pau até o fundo, num ritmo brutal que fazia sua testa bater contra o tapete a cada empurrão. Sentiu-a gozar outra vez, contra a vontade, com um tremor surdo que apertou seu pau como um punho. Marco não gozou. Saiu, levantou-a pelos cabelos e arrastou-a nua até o quarto onde ela mesma mantinha seus instrumentos preparados.
Usou-a durante horas. Em todas as posições. Enfiou o pau na boceta dela até perder a conta dos orgasmos que arrancou à força e depois no cu, seco no começo, até que ela chorou, suplicou e aceitou ser o que ele dissesse que ela era. Encheu-lhe a boca de saliva e de seu próprio corrimento e fez com que engolisse tudo. E não gozou. Nem uma vez. Guardava a carga para Valeria, tal como prometera silenciosamente a si mesmo.
Ao amanhecer, Sofia era outra coisa.
***
Valeria passou o dia seguinte caminhando pelos salões de sua vila com a calma calculada de quem sabe ter colocado as peças no lugar certo. Não ligou para Marco. Não precisava. Conhecia sua capacidade de executar uma ordem sem deixar vestígio de hesitação.
Às dez da noite, a campainha da vila ressoou no corredor.
Valeria abriu a porta.
Marco estava à soleira. Erguido, com a expressão neutra de quem acabara de cumprir uma tarefa difícil sem maior esforço. Em sua mão direita segurava uma guia de couro preto, esticada, que terminava no pescoço de Sofia.
A imagem era exatamente o que Valeria imaginara durante todo o dia e, ao mesmo tempo, completamente diferente do que esperava ver.
Sofia engatinhava pelos ladrilhos frios do hall de entrada, com os joelhos avermelhados e os olhos fundos de tanto chorar durante horas. Usava apenas roupa íntima, os cabelos louros soltos e desgrenhados, o rabo de cavalo apertado completamente desfeito. A segurança da noite anterior desaparecera tão completamente que ela parecia outro ser humano. Nada restava da mulher que abrira a porta com um sorriso de superioridade.
— Bom trabalho — murmurou Valeria.
Estendeu a mão. Marco entregou-lhe a guia sem dizer nada, sem mudar de expressão.
Valeria puxou-a. Sofia avançou desajeitadamente para dentro. A porta fechou-se com um baque que soou definitivo.
Ela se agachou diante da outra mulher, afastou uma mecha de seus cabelos do rosto com uma ternura completamente fingida e falou bem perto dela.
— Nunca fui com a sua cara — disse em voz baixa. — Cada favor cobrado e cada sorriso falso queimavam em algum lugar. Isto é o que sempre deveria ter existido entre nós.
Sofia tentou falar. O que saiu de sua boca não foi uma súplica, mas um aviso urgente e quebrado, no tom de quem entendera algo tarde demais.
— Valeria, escute. Marco não é o que você pensa. Você precisa sair daqui agora mesmo, ele é—
Não terminou a frase.
A porta da sala abriu-se de repente. Marco entrou, e já não era o mesmo homem que atravessara o limiar daquela mesma vila quase um ano antes. Cruzou a sala em três passos e pegou Valeria pelo braço com uma técnica que não admitia interpretações: torceu-o para trás com uma pressão precisa e calculada que lhe arrancou um grito antes que pudesse decidir se gritar era uma boa ideia.
— Cale a boca — disse ele, com uma voz completamente diferente daquela que Valeria conhecera durante todos aqueles meses.
Ela lutou. Foi inútil. Ele a imobilizava com a mesma eficiência que devia ter usado com Sofia na noite anterior, e a dor no ombro era suficiente para lembrá-la de que resistir só piorava as coisas.
— O que você está fazendo? — conseguiu dizer entre os dentes. — Eu sou sua ama. É uma ordem. Solte-me agora.
— Não mais — disse Marco, sem nenhuma inflexão na voz.
Sofia, no chão, soluçava de cabeça baixa. Tentara avisá-la. Pagara por isso.
***
Marco imobilizou Valeria com algemas metálicas, prendendo-lhe os cotovelos atrás das costas de modo a anular completamente seus movimentos e deixar seu peito exposto. Ajustou-lhe uma mordaça com uma calma mais assustadora que qualquer ameaça verbal. Depois deixou-a sobre o sofá da sala e ficou olhando para ela por um momento, como quem avalia o trabalho antes de passar ao passo seguinte.
— Passei onze meses estudando como você funciona — disse. — Quanto cobra. De quem. O que os mantém presos. E então você me pediu que fosse buscar Sofia. — Fez uma breve pausa. — Foi como se você mesma tivesse aberto a porta.
A campainha da vila tocou pela segunda vez naquela noite.
Valeria empalideceu. Esquecera completamente que, naquela tarde, num acesso de arrogância, convidara Natalia para testemunhar a chegada de Sofia como troféu. Natalia era outra dominadora dos mesmos círculos, e Valeria queria testemunhas de sua pequena vitória. Cometera o erro que ela mesma criticava em seus clientes: acreditar que tinha controle total sobre todas as variáveis.
Marco virou-se para ela e retirou a mordaça.
— Quem é?
— Natalia — disse Valeria, com a voz quebrada. — Convidei-a esta manhã. Não sabia que... antes de tudo isso acontecer.
Marco voltou a colocar-lhe a mordaça. Pegou Sofia pela guia e aproximou-a de Valeria, prendendo os tornozelos das duas com uma corrente curta. Inclinou-se diante delas e falou em voz muito baixa, sem precisar elevar o tom.
— Se eu ouvir um único ruído enquanto estiver lá embaixo, começamos tudo de novo. As duas.
As duas mulheres assentiram com os olhos arregalados.
***
Natalia chegou com exatamente a segurança de quem não sabe que está caminhando para uma armadilha. Era alta, de cabelos negros e lisos que caíam pelos ombros até a clavícula, traços precisos e um sorriso que usava como instrumento de avaliação. Vestia um vestido justo cor de vinho e botas altas de salto que produziam um som deliberado sobre o chão.
— Sofia já chegou? — perguntou quando Marco abriu a porta, no mesmo tom que se usaria para perguntar se o jantar já estava pronto.
Ele assentiu em silêncio e fez um gesto para que entrasse.
Natalia atravessou o limiar. Seguiu Marco pelo corredor e subiu as escadas. Quando empurrou a porta da sala e viu Valeria e Sofia amarradas sobre o sofá, o sorriso congelou em seu rosto com a rigidez de algo que já não pode desaparecer naturalmente.
Virou-se para sair.
Tarde demais.
Marco a imobilizou antes que pudesse dar dois passos. Natalia era fisicamente mais forte que as outras duas e resistiu por vários segundos, o que lhe custou mais que a elas. Quando cedeu, foi porque a dor no ombro não lhe deixou outra opção.
— Está bem — disse entre os dentes, com os olhos cheios de lágrimas que ainda não queria derramar. — Pare. Pare já.
Marco parou. Algemou-a. Amordaçou-a. Acrescentou-a à cena que já tinha montado.
Três mulheres. Amarradas na sala da vila de Valeria, olhando para o homem que, até o dia anterior, beijava seus pés.
***
Marco levou-as ao porão. O mesmo que Valeria equipara com a precisão de alguém que leva o próprio trabalho a sério: correntes de aço inoxidável ancoradas à parede, tiras de couro de várias espessuras organizadas por tamanho, um cavalete de madeira maciça com argolas nas quatro extremidades. Ela o construíra com o dinheiro de seus antigos clientes. Agora era o espaço onde perderia tudo o que aquele dinheiro representava.
Prendeu Sofia e Natalia em duas jaulas separadas, feitas de barras de metal. Ficou com Valeria no centro do cômodo frio.
Retirou-lhe a mordaça.
— Você ainda acha que isto é temporário — disse ele, olhando-a de cima. — Que em algum momento vai recuperar o controle. Quero que permaneça com essa ideia por mais um instante.
Valeria não respondeu. Seu orgulho estava esmagado demais para construir uma frase que soasse como algo além de desespero, e ela era inteligente o bastante para entender que qualquer ameaça que pudesse formular seria ridícula naquela posição.
O que ela não esperava era a reação do próprio corpo.
Era uma umidade quente e involuntária, que lhe encharcava a parte interna das coxas por baixo do vestido preto. Não era uma excitação escolhida nem bem-vinda. Era algo mais primitivo: uma resposta do sistema nervoso diante da inversão total da dinâmica que ela construíra durante anos. Valeria passara uma década sendo sempre a pessoa com controle absoluto sobre todas as suas interações. Que alguém lhe tirasse esse controle, um homem que ela mesma treinara, produzia um curto-circuito que não sabia administrar nem nomear.
Marco percebeu. Agachou-se diante dela, ergueu a barra do vestido com dois dedos e passou a palma aberta sobre a boceta nua. Quando levantou a mão, ela estava brilhante.
— Olhe só — disse, sem emoção alguma. — Escorrendo. E eu ainda nem toquei em você de verdade.
Ele limpou os dedos na bochecha dela, lambuzando sua maçã do rosto com o próprio corrimento. Valeria fechou os olhos, mas não conseguiu fechar as pernas: ele já as separava com o joelho.
— Eu sabia que isso aconteceria — disse por fim. — Sabia desde o primeiro mês.
A sessão que se seguiu foi longa e meticulosa. Marco conhecia cada instrumento daquele porão melhor que a própria Valeria, porque estivera presente quando ela os usava com outros, observando com aquela atenção silenciosa que ela confundira durante todo aquele tempo com devoção. Sabia o que produzia cada efeito. Sabia onde estavam os limites e como se aproximar deles sem ultrapassá-los, o que era muito mais eficaz do que ultrapassá-los.
Arrancou o vestido dela de um puxão, deixando-a de peitos nus e com a boceta exposta, e foi movendo-a de instrumento em instrumento como quem testa ferramentas. Primeiro contra a cruz de madeira, algemada pelos pulsos e tornozelos, para açoitar sua bunda com uma chibata de couro fino até deixá-la riscada de um vermelho vivo. Cada golpe fazia-a gritar e arquear os quadris contra a madeira, e cada arqueada deixava à mostra o fio de corrimento que escorria pela parte interna de sua coxa. Entre um golpe e outro, Marco passava dois dedos por sua fenda para verificar o quanto ela havia molhado ainda mais, e oferecia-os para que ela chupasse. Ela os chupava, com a mordaça deslocada, saboreando a si mesma sem conseguir evitar.
Depois desamarrou-a e levou-a ao cavalete. Colocou-a de bruços sobre a madeira polida, com a barriga apoiada e as pernas abertas para os dois lados, prendendo seus pulsos e tornozelos às quatro argolas. Nessa posição, sua bunda ficava levantada e a boceta completamente aberta e exposta, apontada para o centro do porão.
Marco despiu-se pela primeira vez naquela noite. Seu pau saltou pesado, inchado de toda a resistência que acumulava desde o dia anterior. Sofia, da jaula, reconheceu-o e baixou os olhos. Natalia, por outro lado, não conseguiu desviar o olhar.
Ele aproximou-se por trás e esfregou a glande contra os lábios da boceta de Valeria, sem penetrá-la, para cima e para baixo, molhando-se com sua umidade.
— Implore por ela — disse.
Valeria negou com a cabeça. Apertou os dentes contra a mordaça.
Marco deu-lhe um tapa seco com a palma aberta sobre uma nádega marcada. Ela gritou, e o grito saiu metade de dor, metade de um prazer surdo que a horrorizou ao reconhecer.
— Implore por ela.
Retirou-lhe a mordaça. Valeria respirou três vezes antes de conseguir falar.
— Mete em mim — murmurou, com o rosto ardendo.
— Mais alto. E diga direito.
— Mete em mim, por favor. Mete até o fundo. Quero seu pau dentro de mim.
Marco enfiou-o com uma única estocada longa. Entrou inteiro, até a base, e Valeria gemeu de boca aberta contra a madeira do cavalete. O pau a abria de um modo que nenhum dos brinquedos que ela mesma usara com clientes conseguira. Ele agarrou sua cintura com as duas mãos e começou a fodê-la com estocadas metódicas, retirando-o quase por inteiro e tornando a enfiá-lo com um estalo molhado que ricocheteava nas paredes de pedra.
— Diga o que você é — arfou ele, sem acelerar o ritmo.
— Sua — respondeu Valeria, apertando os olhos.
— De novo.
— Sou sua. Sou sua puta. Foda-me.
Ele a fodeu durante o que pareceu a Valeria uma hora inteira. Virou-a sobre o cavalete, prendeu-a de barriga para cima com as pernas dobradas em direção aos ombros e continuou enfiando o pau nela enquanto chupava seus peitos e mordia seus mamilos até deixá-los roxos. Fez com que gozasse três vezes contra a vontade, cada uma mais violenta que a anterior, cada uma acompanhada por um gemido mais quebrado. No terceiro orgasmo, Valeria urinou um pouco sobre si mesma, e ele não se abalou: passou a língua por sua barriga como se aquilo fizesse parte do roteiro.
Depois retirou-se, sem gozar ainda, e aproximou-se da jaula de Sofia. Tirou-a pela guia, colocou-a de quatro junto ao cavalete e fez com que lambesse a boceta de Valeria enquanto ele voltava a enfiá-lo por trás. Sofia obedeceu sem protestar, com o rosto enterrado entre as coxas da mulher que a vendera, comendo-lhe o clitóris com uma devoção que só se aprende sob ameaça. Valeria, com a língua de Sofia na boceta e o pau de Marco movendo-se dentro dela, gozou pela quarta vez e perdeu qualquer resto de compostura que ainda lhe restasse.
— Diga — ordenou ele, com a voz sem inflexão.
— Não — respondeu ela. A palavra lhe custou, embora já não fizesse sentido dizê-la.
O tapa foi seco e preciso sobre a pele exposta. O som ressoou nas paredes de pedra do porão.
— Diga.
Houve um silêncio que Valeria manteve por mais tempo do que ela mesma esperava conseguir. Foi ela quem o rompeu, sem que ele precisasse repetir uma terceira vez.
— Sou sua — disse, com uma voz que não reconheceu como própria.
— Mais alto.
— Sou sua — repetiu, e dessa vez a frase saiu inteira, sem rachaduras.
Das jaulas, Sofia e Natalia observavam com os olhos arregalados. O terror inicial dera lugar a algo mais ambíguo, uma química corporal que nenhuma das duas queria reconhecer e que seus corpos ignoravam todos os esforços para negá-la. Natalia tinha uma mão entre as pernas sem perceber, esfregando-se por cima da calcinha rasgada; Sofia, ainda ajoelhada junto ao cavalete com a boca brilhante do corrimento alheio, apertava as coxas com um tremor surdo. O ambiente do porão, carregado de couro, controle e da voz daquele homem que nunca precisava elevar o tom, afetava-as de uma maneira que não encontravam em seus próprios referenciais.
Marco segurou Valeria pelos cabelos com firmeza suficiente para obrigá-la a arquear as costas contra o cavalete. Inclinou-se perto de seu ouvido.
— Estudei cada um dos seus movimentos durante onze meses — disse. — Quando você entra no modo de castigo. Quando afrouxa. Quando finge afeto para que a entrega seja mais profunda. — Fez uma pausa. — E, quando me pediu que fosse buscar Sofia, pensei que o destino estivesse me fazendo um enorme favor.
Sofia, de sua jaula, ouvia aquilo e fechava os olhos.
— Mas a surpresa final foi Natalia — continuou Marco, quase bem-humorado. — Eu não esperava por ela. Isso sim foi um presente.
Saiu de Valeria no último segundo, tirou-a do cavalete puxando-a pelos cabelos e ficou de pé diante das três. Sacudiu o pau duas vezes com a mão e gozou com um grunhido baixo e prolongado, disparando jatos grossos de sêmen sobre o rosto de Valeria, a boca aberta de Sofia e os peitos de Natalia através das barras da jaula. Marcou as três ao mesmo tempo, sem fazer distinção. Quando terminou, ordenou que lambessem os restos umas das outras. As três obedeceram. Ninguém disse nada.
***
Na manhã seguinte, Ernesto chegou. Era um homem de uns cinquenta anos, advogado, com um terno cinza perfeitamente passado e o hábito de não demonstrar surpresa diante de nenhuma situação apresentada por um cliente. Entrou no porão, avaliou por alguns segundos o que viu com uma expressão profissional e estendeu uma pasta de documentos sobre o único móvel disponível no cômodo.
Marco pegou a pasta e deixou-a cair sobre o chão de pedra diante das três mulheres, que estavam ajoelhadas em fila, nuas, com o sêmen seco ainda grudado na pele.
Os documentos eram transferências de propriedade. A vila de Valeria. As contas bancárias onde ela acumulara anos de negócios. Os ativos vinculados ao seu nome. Tudo passava para o nome de Marco com uma única assinatura. Uma única assinatura em cada documento.
— Assinem — disse ele.
Sofia foi a primeira a abrir a boca para se recusar. O olhar que Marco lhe dirigiu foi suficiente para que mudasse de ideia antes que a frase se completasse.
As três assinaram. Com as mãos não inteiramente firmes, mas assinaram.
Ernesto recolheu os papéis, revisou-os com a calma de quem já executara aquele tipo de procedimento muitas vezes, em circunstâncias que não convinha descrever em voz alta, e assentiu.
— Tudo em ordem — disse.
Marco apertou sua mão.
— Como pagamento pelos seus serviços, você leva uma delas. Escolha. Garanto que ela não vai dar problema.
Ernesto percorreu as três mulheres com um olhar avaliador, sem pressa. Parou diante de Natalia. Ela sustentou seu olhar por exatamente dois segundos antes de baixar os olhos para o chão.
— Esta — disse o advogado.
Antes de levá-la, Ernesto baixou o zíper sem pressa alguma e tirou o pau ali mesmo, diante das outras duas. Era uma pica grossa e ligeiramente curvada, já pronta. Fez um gesto seco para Natalia com dois dedos, em direção à boca. Ela aproximou-se de joelhos pelo chão de pedra e enfiou-o inteiro na boca, chupando-o num ritmo obediente, sem qualquer expressão de nojo, enquanto o homem agarrava sua nuca com a mão livre e impunha o ritmo. Usou-a assim por alguns minutos, sem dizer palavra, até gozar dentro de sua boca e ordenar que engolisse tudo diante de Marco. Natalia engoliu. Depois limpou os lábios com as costas da mão e baixou os olhos outra vez.
Natalia não protestou. Não disse mais nada. Fez o caminho do porão até o carro de Ernesto em silêncio, com a guia esticada na mão daquele homem mais velho e os pés descalços sobre o chão frio do corredor.
***
Marco voltou ao porão. Prendeu Sofia e Valeria em jaulas separadas, com o silêncio eficiente de quem já não precisa explicar nada. Antes de apagar a luz, ficou por um momento à soleira, com a mão sobre o interruptor.
— Acostumem-se — disse. — A partir de agora, isto é tudo o que existe.
A escuridão chegou com um clique.
No porão, Valeria ouvia a própria respiração e o gotejar distante de algum cano dentro da parede. O medo continuava ali, real e concreto, sem ter para onde ir. Mas, sob o medo, sepultada sob dez anos de controle, autoridade e poder cuidadosamente construídos sobre a necessidade alheia, havia algo que ela ainda não sabia bem como chamar. Ainda estava com as coxas pegajosas e a boceta inchada e pulsando, e descobriu-se, na escuridão, apertando-as lentamente para reviver a sensação de estar cheia.
Uma rendição que ninguém jamais lhe pedira.
Uma rendição que, na escuridão e no silêncio daquela jaula que ela mesma mandara instalar, parecia estranhamente um alívio.