A confissão da viagem que não deveríamos ter feito
A estrada vicinal se abria entre campos de girassol murcho e parcelas de pinheiro baixo, sem uma curva que valesse a pena. Bermejo conduzia com uma mão e olhava o horizonte com a expressão de alguém que acabou de fechar um bom negócio e já está pensando no próximo.
—Assinado e selado —disse, deixando a bituca cair pela janela—. Agora o que toca é voltar.
Salgado assentiu do banco do passageiro. Era um homem de poucas palavras e baixa estatura, corpo magro, com uma calvície incipiente que avançava das entradas com a mesma constância que ele não colocava em muita coisa mais. Havia quase vinte anos que trabalhavam juntos no negócio e aquele equilíbrio tácito funcionava bem: Bermejo falava, Salgado calculava, e entre os dois haviam erguido uma empresa de manutenção viária que lhes dava para viver muito bem. Bermejo era alto, de torso forte e cavanhaque grisalho, com aquele jeito de se mover que têm os homens acostumados a fazer as coisas no seu ritmo.
—Os contratos da província norte entram em janeiro. E com este novo depósito já temos toda a zona coberta —disse Bermejo.
—Ótimo.
—Ótimo? Só ótimo.
—Ótimo, e com fome.
Bermejo virou no cruzamento indicado e pegou a estrada que descia em direção à costa. Tinha visto a placa de um restaurante de frutos do mar na chegada da noite anterior e a anotara mentalmente com aquela precisão de homem que se lembra dos detalhes que lhe interessam e esquece o resto. O lugar acabou sendo uma espécie de quiosque elevado sobre uma plataforma de madeira, com mesas pintadas de azul-turquesa e uma vista que justificava o desvio.
Comeram lagosta com vinho branco da região. Pediram uísque de sobremesa. Fumaram olhando o mar com aquela calma específica dos homens que trabalharam duro e sabem quando é hora de respirar um pouco.
—Minha mulher me pediu para trocar o carro dela —disse Salgado.
—E por que você não troca?
—Porque já troquei um no ano passado.
—É que você não aprende. Com mulher tem que dizer sim antes de ela terminar a frase. Assim você sempre sai na frente. —Bermejo girou o gelo no copo—. A minha acabou de estrear um BMW. Eu sou mais desse —disse, tocando o volante do Range Rover.
Salgado olhou para o copo sem responder.
***
Saíram para caminhar um pouco pela beira d’água antes de continuar. A praia era estreita, com um molhe de pedras ao fundo e pouca gente para uma tarde de metade do dia. O ar cheirava a sal e a algas secas. Na extremidade mais distante, sentados ao lado das mochilas na areia, havia um casal jovem ouvindo música num alto-falante portátil.
Ele tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, camiseta sem mangas e bermuda curta. Brincos nas duas orelhas, um piercing no septo e tatuagens nos antebraços que subiam até os cotovelos. Ela era miúda e ruiva, com sardas nos ombros e nas maçãs do rosto, uma camiseta branca de alças sem nada por baixo e uma minissaia jeans que ia até a metade da coxa. Os dois deviam ter uns vinte anos, com pouca margem de erro.
A moça os viu se aproximando de longe. Sem que ninguém pedisse, levantou-se devagar, deu as costas para eles e começou a se mexer no ritmo. Dobrou os joelhos, arqueou as costas e movimentou os quadris em círculos lentos e deliberados, com uma fluidez que não era ensaiada, mas completamente natural. O fio-dental aparecia por cima do cós da minissaia. O rapaz batia palmas sentado na areia.
Bermejo e Salgado pararam.
—Puta merda —disse Bermejo, em voz baixa.
O rapaz os observava com um sorriso tranquilo, sem se levantar.
—Têm fogo? —perguntou.
Bermejo lhe estendeu o isqueiro. O rapaz acendeu um cigarro de enrolar e o devolveu. A moça parou de dançar e se virou para eles. Tinha olhos grandes e verdes, e aquele tipo de sorriso que não precisa ser de nenhum jeito em particular para funcionar.
—Vocês estão de férias? —perguntou Salgado.
—Viemos trabalhar na temporada, como garçons. Mas já acabou e temos que voltar para casa. Para Rivamar del Monte, que fica a uns oitenta quilômetros.
—De ônibus?
—Se houvesse. O serviço por aqui é uma porcaria. E também não estamos nadando em dinheiro.
Bermejo olhou para Salgado por um momento. Salgado deu de ombros.
—Passamos por lá —disse Bermejo—. Se quiserem, levamos vocês.
***
Eles se chamavam Kike e Noa. Tinham ficado juntos desde o colégio, tinham terminado por um tempo ao fazer dezoito anos, tinham voltado. Kike falou bastante nos primeiros quilômetros, sobre o verão, sobre os bares em que tinham trabalhado, sobre os planos vagos que tinham para o outono. Noa foi para o banco do passageiro e procurou música num pendrive que tirou da bolsa. O Range Rover cheirava a cigarro caro e couro novo. Os vidros escurecidos transformavam a luz da tarde em algo mais íntimo do que realmente era.
Bermejo conduzia sem pressa, observando a moça pelo canto do olho. Ela tinha as pernas cruzadas e mexia um pé no ritmo do que tocava, com a cabeça apoiada no vidro e os olhos semicerrados.
—Você sempre dança assim para desconhecidos? —perguntou ele.
—Para os que eu quero —disse ela, sem olhá-lo.
—E hoje deu vontade de nós?
Noa então o olhou, com uma expressão que não era flerte, mas algo mais direto que isso.
—Vocês têm um utilitário esportivo muito grande e vidros escuros. Isso sempre ajuda.
Kike tirou um pouco de maconha e disse que, se quisessem, podiam parar um instante. Pararam numa estrada secundária atrás de alguns arbustos. Enrolaram três baseados. A conversa ficou mais solta, mais honesta. Kike apontou para os anéis dos dois homens.
—Casados os dois, né?
—Há anos —disse Bermejo.
—E não se incomodam?
—Com o quê?
—Isso.
Bermejo puxou uma longa tragada no baseado e olhou a estrada pelo para-brisa antes de responder.
—Tirar o anel é perder tempo. E eu não perco tempo.
Noa soltou uma gargalhada curta. Kike também riu.
—Gostei desse cara —disse Kike.
***
Foi Salgado quem começou, no banco de trás, com uma naturalidade que não admitia discussão. Pôs a mão na coxa de Kike e Kike não a tirou. Disse algo no ouvido dele. Kike respondeu com um meio sorriso e encostou a cabeça no encosto.
Bermejo viu pelo retrovisor e a mandíbula se lhe tensionou. Não por incômodo, mas por aquele tipo de excitação seca que sempre lhe subia quando via alguém ceder sem esforço.
—Seu garoto é sempre assim? —perguntou a Noa.
—Assim como?
—Fácil.
—Kike é curioso —disse ela, como se isso explicasse tudo—. Sempre foi. Quando terminamos por um tempo, ele ficou com homens. Quando voltamos, me contou.
—E isso não te incomodou?
—Eu também fiquei com outras pessoas. Nenhum dos dois guardou nada do outro. É assim que funcionamos.
No banco de trás, Salgado tinha aberto o zíper da bermuda de Kike e acariciava o volume com uma lentidão que parecia quase técnica. Kike respirava mais fundo a cada carinho, com as pernas abertas e a cabeça jogada para trás, engolindo em seco como se a garganta tivesse ficado pequena demais. Salgado não tinha pressa; apertava, soltava, apertava de novo, medindo a resposta do rapaz com precisão de homem acostumado a mandar pelo toque. Kike mordeu o lábio e deixou escapar um gemido baixo, rouco, que fez Bermejo sorrir pelo espelho.
—Seu sócio também não perde tempo —disse Noa.
—Aprendi com ele —disse Bermejo.
Noa desligou a música. O silêncio que entrou não era silêncio: eram respirações, o ruído do asfalto e algo mais, algo que vinha do banco de trás com uma regularidade cada vez maior.
—Kike —chamou Noa, em voz baixa.
—Hum.
—Me passa o gel da bolsa lateral.
Houve movimento no banco de trás. A bolsa passou entre os assentos. Noa remexeu e tirou um frasquinho, olhou-o por um instante e o passou para trás sem dizer mais nada.
Bermejo pegou uma saída e desviou o Range Rover por uma trilha de terra entre dois campos de girassóis. Parou o motor. Através do para-brisa se viam as copas de alguns pinheiros e o céu laranja da tarde.
No banco de trás, Kike já tinha baixado a calça por completo e se ajeitara de lado, dobrado sobre si mesmo, com um joelho no assento e o outro pendendo. Salgado, atrás dele, afastou a cueca na medida certa e tirou a rola com um gesto seco, pesado, sem a menor dúvida. Kike olhou de lado, abriu mais as pernas e se apoiou com uma mão no encosto da frente. Salgado deslizou a ponta úmida entre as pregas da bunda dele, lambuzando-o primeiro com saliva e depois com o gel que Noa havia passado para trás. Kike soltou um gemido curto, entre excitado e assustado, e mexeu o quadril em busca de mais contato.
—Isso, é? —murmurou Salgado, com a voz baixa e áspera—. Sente direito.
Empurrou devagar no começo, milímetro a milímetro, até a cabeça entrar e Kike cravar os dedos no couro do banco. O rapaz cerrou a mandíbula, respirou fundo e depois abriu a boca num suspiro trêmulo que lhe quebrou na garganta. Salgado não deixou de olhá-lo nem por um segundo. Foi entrando com paciência, alargando-o a cada centímetro, até ficar todo metido. Kike estava quente, apertado, e os músculos da coxa tremiam quando Salgado começou a se mover de verdade.
As primeiras investidas foram lentas, de sondagem, com aquele tipo de controle que só os homens que sabem esperar para depois arrebentar têm. O couro do banco rangia. Kike, com a cara enterrada no encosto, deixava sair gemidos mais claros, mais altos, que se misturavam ao ofegar de Salgado e ao ruído surdo do carro balançando sobre a terra. Bermejo olhou pelo retrovisor e viu o rosto de Kike em brasa, a boca úmida, os olhos fechados com força. Viu Salgado se inclinar sobre ele, agarrá-lo pela cintura, meter a rola com uma regularidade brutal que ia crescendo em intensidade.
—Você gosta assim? —perguntou Salgado.
—Sim —disse Kike, quase sem voz—. Porra, sim.
Então Salgado começou a enfiar mais forte. Sem elegância. Sem pausa. As investidas já não eram exploração, mas castigo rítmico, a rola entrando e saindo com golpes secos que faziam o banco vibrar e sacudiam de leve o painel. Kike se segurou como pôde, com as costas arqueadas e a respiração quebrada, e começou a empurrar também, querendo receber cada golpe mais fundo. Um gemido longo lhe escapou quando Salgado o agarrou pelo cabelo e o obrigou a manter a cabeça erguida.
—Isso —disse Salgado—. Não vem de machinho agora.
Bermejo, que já havia aberto a calça, levou a mão para baixo e fechou os dedos em torno da própria rola enquanto observava Noa. Ela não tirava os olhos do que acontecia atrás, mas também não parecia surpresa. Já tinha visto o bastante da vida para não se escandalizar com uma vara entrando num cu jovem no meio de um utilitário estacionado entre girassóis. Virou-se para Bermejo, tirou a mão dele de cima e lambeu dois dedos antes de colocá-los de novo onde ele queria. Tinha a boca morna, a língua lenta, e isso bastou para Bermejo soltar uma risada curta e vulgar.
—Você é uma graça —disse ele.
—Não seja cafona.
Ela se ajoelhou entre os bancos da frente e puxou a camiseta até a cintura. Não usava sutiã. Tinha os seios pequenos e firmes, os mamilos escuros e duros, e a tatuagem da clavícula se movia com cada respiração. Bermejo a abriu com as mãos, chupou primeiro um mamilo e depois o outro, lambendo ao redor, mordiscando o suficiente para fazê-la se arquear para ele. Noa apoiou uma mão na cabeça dele e apertou o cabelo com posse, guiando-o sem precisar falar.
—Olha pra mim —disse Bermejo.
Noa o olhou, e naquele olhar havia uma impaciência limpa, carnal, sem vergonha.
Bermejo se afastou o bastante para baixar a calça de vez. Sua rola saiu pesada, grossa, já dura como pedra. Noa sorriu ao vê-la e passou a língua pelos lábios. Bermejo segurou-lhe o quadril, puxou-a para perto e afastou a minissaia com um puxão para deixar a xota à mostra: raspada, úmida, brilhando de vontade. Roçou os lábios com a ponta, devagar, aproveitando o modo como o corpo dela se contraía.
—Está encharcada —murmurou.
—Então enfia de uma vez.
Bermejo lhe deu um tapa leve na coxa e Noa soltou uma risadinha rouca. Depois ele a penetrou de uma vez, até o fundo, e ambos soltaram um som diferente, mas igualmente imediato: ela pelo impacto, ele pela pressão deliciosa de senti-la se fechar ao redor dele. Noa agarrou a borda do assento e começou a se mover sozinha, para cima e para baixo, marcando o ritmo, enquanto Bermejo a segurava pelas nádegas e dava investidas curtas, duras, daquelas que fazem a buceta se abrir e se fechar de novo com violência.
O interior do carro começou a se encher dos sons dos quatro corpos trabalhando ao mesmo tempo: o batido seco contra a carne, os gemidos de Kike, o ofegar rouco de Salgado, a respiração quebrada de Noa, o resfolegar de Bermejo cada vez que a rola entrava mais fundo nele, numa gargalhada de prazer mal-humorado. O vidro escurecido devolvia o céu laranja como se o mundo continuasse intacto lá fora, alheio ao que acontecia dentro.
—Enfia mais forte —disse Noa, com a voz já quebrada.
Bermejo se inclinou, meteu a língua na boca dela e a fodeu com mais raiva, agarrando-a pelos quadris até que as coxas dela começassem a tremer. Noa se arqueou, jogou a cabeça para trás e deixou escapar um gemido longo, bem aberto, que se misturou ao rosnado de Kike quando Salgado lhe deu uma investida particularmente profunda e o fez soltar uma reclamação abafada, metade dor, metade tesão.
—Porra, Kike —sussurrou Noa da frente, sem parar de olhar para trás—. Se olha.
Kike abriu os olhos justamente para vê-la semidesnuda, fodida a poucos centímetros dele, e aquilo acabou de desmontá-lo. Ele gozou de novo, em seco, no banco, com o rosto desfeito e o corpo inteiro estremecendo. Salgado cerrou os dentes, deu mais dois golpes longos e depois saiu dele com um gemido baixo, agarrando-lhe a bunda enquanto se esfregava no lado interno das coxas e na almofada do banco, grosso e quente.
—Merda —disse Salgado, respirando forte.
Kike se deixou cair para trás, completamente rendido, com as pernas abertas e a pele brilhando de suor.
Bermejo, que já estava no limite havia um tempo, sentiu Noa se tensionar ao redor dele com espasmos curtos, quase violentos, e cravou os dedos na cintura dela para continuar movendo-a. Enterrou a rola até o fundo uma última vez, bem dentro, e ela soltou um grito abafado, como se lhe tivessem arrancado o ar. Então Bermejo gozou dentro dela numa descarga longa, quente, sentindo a xota pulsar ao redor enquanto cerrava os dentes e ficava imóvel por um segundo, tremendo.
Noa continuou subindo e descendo devagar sobre ele mais algumas vezes até esvaziá-lo por completo. Depois se deixou cair contra ele, respirando entrecortado, com o rosto escondido em seu pescoço.
—Isso foi muito bom —murmurou ela.
—Eu sei.
***
Bermejo e Salgado desceram para fumar enquanto os dois jovens se recuperavam. A tarde já tinha caído por completo. O campo cheirava a terra seca e pinho. Acenderam os Marlboros em silêncio.
—Como ela está? —perguntou Salgado.
—Muito bem treinada —disse Bermejo.
—Terminou?
—Ainda falta.
Noa saiu do utilitário envolta na camiseta de Kike. Pediu um cigarro a Bermejo. Ele acendeu no próprio cigarro e lhe passou. Fumaram um instante sem falar.
—Vai terminar o que começou? —perguntou ela.
—Depende de você.
Noa jogou o cigarro pela metade fora, deu meia-volta e entrou no Range Rover pela porta traseira. Bermejo olhou para Salgado.
—Dois minutos —disse.
—Leve os que precisar —disse Salgado, dando outra tragada.
***
Foi então que apareceu o trator. Um John Deere verde que avançava devagar pela estrada de terra, com um homem ao volante de uns cinquenta anos: boné com aba, rosto curtido pelo sol, barriga saliente. Parou o motor a dez metros do Range Rover e desceu do estribo com a lentidão de quem nunca tem pressa.
—Boa tarde —disse, olhando para o carro—. Algum problema?
—Nenhum —disse Salgado—. Só uma parada técnica.
O homem olhou para a porta traseira do utilitário, que estava entreaberta. Ouvia-se coisas lá dentro.
—Entendo —disse.
Ficou onde estava. Acendeu um cigarro de enrolar e apoiou o braço no para-lama do trator, com aquela calma de quem considera que a situação lhe pertence tanto quanto a qualquer outro.
—Isso aqui é propriedade particular —disse, embora sem muita convicção.
—Não demoramos —disse Salgado.
O homem assentiu devagar e não se mexeu.
Bermejo terminou alguns minutos depois. Saiu do utilitário fechando o cinto e viu o homem limpar uma mão na perna da calça enquanto subia o zíper com a outra. Entendeu tudo num único olhar.
—Na saída, tome cuidado com a plantação —disse o homem, erguendo dois dedos em cumprimento.
—Fique tranquilo —disse Bermejo.
***
Deixaram-nos em Rivamar del Monte, na rotatória da entrada da cidade. Kike e Noa pegaram as mochilas e se despediram com a mesma despreocupação com que teriam se despedido de qualquer conhecido de verão. Kike apertou a mão de Bermejo com um sorriso. Noa levantou uma mão sem olhar para trás e se afastou com aquele jeito de caminhar que tinha, como se o chão lhe devesse alguma coisa.
O fio-dental vermelho de Noa ficou no chão do banco de trás. Nenhum dos dois viu até Salgado encontrá-lo ao procurar o isqueiro, já de volta à rodovia.
—Lembrancinha —disse, e o deixou onde estava.
***
Dois dias depois, o Range Rover entrou no serviço de limpeza interna da rua Olivares com um ticket em nome de Bermejo Salcedo. Referência: Land Rover Defender, placa 4291 KPT.
A senhora que veio buscá-lo usava um vestido de linho cinza, óculos escuros e brincos de argola dourados. Tinha acabado de sair do cabeleireiro. Entregou o ticket na recepção e esperou de pé, com aquela postura de quem não está acostumada a esperar.
—São duzentos e oitenta euros —disse o encarregado.
—Duzentos e oitenta? Meu marido disse que era uma limpeza normal.
—Vou verificar.
Foi à oficina. Um dos rapazes levantou os olhos do celular.
—O Range Rover cinza, o que tinha?
—As manchas do estofamento traseiro não saíam com o tratamento normal. No painel também havia. E na alavanca. Levamos quatro horas para deixá-lo apresentável.
—Cheirava a quê?
O rapaz o olhou por um instante.
—Ao que o senhor está imaginando.
O encarregado voltou à recepção e explicou à senhora, com tato e rodeios, que o interior havia exigido um tratamento especial para manchas de origem orgânica.
—Não entendo —disse ela—. Meu marido disse que tinha feito uma longa viagem de trabalho.
—Sim, senhora. Também encontramos uma peça no chão do banco de trás. Colocamos numa sacola, dentro do carro; não quisemos tocar mais.
A senhora pagou com cartão sem dizer mais nada. Pegou as chaves e saiu.
Antes de dar partida, olhou para a sacola plástica que estava no banco do passageiro. Dentro havia um fio-dental vermelho com o elástico esticado e algumas manchas que não eram de lama.
Olhou aquilo por um bom tempo.
Depois ligou o motor.
