Eu a convenci a descer nua pela escada
Nos conhecemos na inauguração de um bar que já não existe, numa rua do centro que agora tem outro nome. Marta chegou com uma amiga que eu mal conhecia, e a primeira coisa que notei foi como segurava o copo: com as duas mãos, como se estivesse com frio, embora fosse julho e o ar não se movesse. Me aproximei com a desculpa de pedir fogo e acabamos conversando por três horas num canto do balcão, tão colados que o garçom pedia licença para passar.
Eu me chamo Diego. Tinha vinte e cinco anos, um trabalho medíocre numa consultoria e um apartamento alugado no quarto andar sem elevador. Ela tinha vinte e três, dividia quarto com duas colegas da faculdade e uma energia que me fazia sentir que eu tinha passado a vida inteira dormindo. Marta era magra, com o cabelo castanho sempre um pouco desgrenhado e uns olhos escuros que pareciam registrar tudo. Não era a mulher mais chamativa de uma sala, mas, quando olhava para você, o resto desaparecia.
Em seis semanas já estávamos morando juntos. Ela deixou o apartamento compartilhado sem pensar duas vezes. Trouxe uma mala, uma caixa de livros e uma luminária de mesa que ainda tenho. Desde o começo havia algo diferente em como nos comunicávamos. Não havia assuntos proibidos. Se algo nos agradava, dizíamos. Se algo nos incomodava, também. Essa transparência virou a base de tudo o que veio depois.
Uma noite, deitados na cama depois de foder por quase uma hora, com a xoxota dela ainda pingando minha porra entre as coxas, confessei uma coisa que nunca tinha dito a ninguém: me excitava a ideia de alguém poder nos ver. Não num sentido agressivo nem forçado. Era mais a possibilidade, o risco latente, a fronteira entre o privado e o exposto. Eu esperava que ela risse ou mudasse de assunto. Em vez disso, ficou em silêncio por alguns segundos, passou dois dedos pela xoxota para recolher o sêmen que escorria, enfiou-os na boca sem tirar os olhos de mim e disse:
— E se começarmos com algo pequeno?
Aquela frase mudou tudo. Agarrei sua nuca e a pus de joelhos em cima de mim antes de ela terminar de engolir. Ela riu, cravou os dentes no meu lábio inferior e desceu a mão até agarrar meu pau, que já estava duro outra vez. Masturbou-me devagar, olhando nos meus olhos, puxando o prepúcio para baixo com o polegar até a glande ficar arroxeada. Depois se inclinou e me chupou sem pressa, com a língua enroscando-se ao redor da cabeça e descendo pela veia grossa até os ovos, que ela sugou um por um enquanto continuava batendo uma punheta em mim com a mão. Quando voltou a subir, enfiou meu pau inteiro na boca até a garganta, apertando os lábios e engolindo saliva ao redor do tronco. Gozei em dois minutos e ela engoliu cada gota enquanto cravava as unhas nas minhas coxas.
***
Nosso prédio era perfeito para o que tínhamos em mente. Quatro andares, um subsolo com garagem e uma escada interna que quase ninguém usava porque havia elevador. Os vizinhos eram pessoas mais velhas que iam dormir cedo e um casal de estudantes que saía às sextas e só voltava no domingo. Durante a semana, a partir das onze da noite, o prédio ficava num silêncio denso, quebrado apenas pelo zumbido do quadro elétrico do hall.
A primeira noite foi simples. Pedi que saísse para o patamar só de calcinha e sutiã. Só isso. Abrir a porta, dar dois passos, ficar ali dez segundos e voltar. Marta se inclinou como se estivesse conferindo se chovia, com metade do corpo para fora e uma mão agarrada à moldura. Quando voltou a entrar, estava com a respiração acelerada, os seios subindo sob o sutiã de renda e um sorriso que eu nunca tinha visto antes. Enfiei a mão dentro da calcinha antes que ela fechasse a porta e estava encharcada, tanto que meus dedos deslizaram até a junta com um único movimento.
— De novo — disse.
A segunda vez ela saiu inteira. A terceira, sem sutiã, com os mamilos duros como pedra por causa do ar frio do patamar. Quando entrou, agarrei seus seios, apertei com força, lambi os mamilos um por um e mordi o direito até fazê-la gemer. A quarta vez saiu sem nada. Quando fechou a porta, ficou na minha frente, abriu as pernas apoiando-se na parede e me disse com a voz rouca:
— Me come. Aqui, contra a porta. Não me deixa nem respirar.
Ajoelhei-me e enterrei meu rosto na xoxota dela. Estava raspada, inchada, com os lábios já separados e o clitóris para fora. Passei a língua chapada de baixo para cima, bem devagar, saboreando-a inteira, e depois cravei a ponta no clitóris e comecei a chupá-lo em círculos apertados. Ela agarrou minha cabeça com as duas mãos e começou a foder meu rosto sem vergonha, esfregando a xoxota na minha boca. Enfiei dois dedos e os curvei procurando o ponto, sentindo tudo se contrair por dentro. Ela gozou em três minutos, apertando meu rosto entre as coxas até quase me sufocar, com um jato morno banhando meu queixo.
Havia algo fascinante em vê-la se transformar. Durante o dia, Marta era organizada, prudente, do tipo que confere duas vezes antes de mandar um e-mail. Mas, quando tirava a roupa no limiar da nossa porta, com a luz do patamar banhando sua pele, se convertia em outra. Não em alguém diferente, mas numa versão mais completa de si mesma. Como se essa parte sempre tivesse estado ali, esperando autorização para sair.
Logo o patamar ficou pequeno. Uma noite ela me olhou da porta e perguntou:
— Até onde você quer que eu desça?
— Até onde você quiser.
Ela desceu até o terceiro andar. Descalça, nua, com cada degrau rangendo sob seus pés como uma delação. Eu a esperei em cima, com a porta entreaberta, ouvindo sua respiração amplificada pelo vão da escada. Quando voltou, quase correndo, lançou-se sobre mim e me beijou com uma urgência que tinha gosto de adrenalina.
Aquela noite fodemos no chão da entrada, sem nem chegar ao quarto. Arranquei a porta com um empurrão, joguei-a de bruços sobre os azulejos frios e levantei sua bunda com as duas mãos. Cuspi na xoxota dela, cuspi no meu pau e o enfiei de uma só investida, até o fundo. Marta gritou contra o chão, mordendo o tapete da entrada. Fodi-a assim, com os joelhos cravados no chão e as mãos em seus quadris, metendo com tanta força que os seios dela quicavam contra os azulejos e cada golpe soava molhado, obsceno, impossível de disfarçar. Dei uma palmada na bunda dela e uma marca vermelha apareceu na hora. Outra. Mais uma. Ela enfiava a mão por baixo e esfregava o clitóris enquanto eu a penetrava, e, quando gozou, a xoxota apertou tanto meu pau que eu não aguentei. Tirei e ejaculei tudo nas costas dela, na bunda, no cabelo. Ela se virou, passou dois dedos pela bochecha recolhendo um fio de sêmen e o chupou sem tirar os olhos de mim.
***
O jogo foi crescendo como crescem as coisas entre duas pessoas que confiam cegamente uma na outra: sem pressa, mas sem pausa. Cada noite a aposta subia um pouco. Um andar a mais para baixo. Alguns segundos a mais de exposição. Eu comecei a descer com o roupão dela até a garagem e deixá-lo dobrado sobre o capô do meu carro. O trato era simples: ela descia os quatro andares completamente nua, atravessava o hall envidraçado que dava para a rua, entrava na garagem e colocava o roupão. Se conseguisse sem ser vista, a recompensa seria minha.
O trecho mais perigoso era o hall. Uma parede de vidro que dava diretamente para a calçada. À noite, com a luz interna acesa, qualquer um que passasse na rua poderia tê-la visto. Marta o atravessava quase agachada, colada à parede, com o coração batendo tão forte que dizia poder ouvi-lo ricochetear contra o vidro.
Se alguém me vê, se alguém olhar exatamente neste segundo, acaba tudo.
Mas ninguém olhava. Ou, pelo menos, era o que acreditávamos.
Na garagem, entre dois carros, nos encontrávamos. Às vezes eu já a esperava sentado no chão de cimento, com as costas contra o pneu traseiro do meu carro, com o pau já para fora da calça, duro, esperando por ela. Ela chegava tremendo, não de frio, mas de algo mais fundo, algo que vibrava do ventre até as pontas dos dedos. Ajoelhava-se diante de mim sem dizer nada e já me enfiava o pau na boca antes mesmo de me cumprimentar. Me chupava com fome, com a garganta aberta, engolindo-me até o fundo e deixando fios de saliva pendurados do queixo até os seios. Eu agarrava seu cabelo com as duas mãos e fodava sua boca marcando o ritmo, e ela me olhava de baixo com os olhos marejados, deixando eu fazer, deixando eu usá-la ali, no cimento sujo, entre o cheiro de óleo de motor.
— Me diz o que eu sou — sussurrava com a voz partida por causa do meu pau na garganta.
— Minha puta. Minha puta safada que desce nua quatro andares para eu enfiar em você.
— De novo.
— Minha puta.
Ela gozava só com isso, esfregando a xoxota com a mão enquanto continuava me chupando. E, quando terminava de gozar, tirava meu pau da boca, o colocava entre os seios e me masturbava com eles, apertando-os ao redor do tronco até que eu gozava na cara dela, na boca aberta, na língua de fora.
Outras vezes era diferente. Eu a pegava contra o capô, com uma mão na nuca e a outra no quadril, e ela gemia contra o metal frio enquanto o eco da garagem multiplicava cada som. Eu a colocava de bruços sobre a lataria, com os seios esmagados contra o metal, abria suas pernas com um chute e enfiava o pau de uma só vez. Fodia-a assim, dobrada sobre o capô, com a mão esquerda pressionando sua nuca contra o carro e a direita marcando sua bunda com palmadas. Cada investida fazia o carro estalar sobre a suspensão. Cada gemido de Marta ricocheteava nas quatro paredes da garagem como se estivéssemos numa catedral.
— Mais forte — ofegava —. Me quebra.
Cuspi na bunda dela, enfiei o polegar dentro e continuei fodendo sua xoxota, com o polegar pressionado contra a parede interna, sentindo meu próprio pau através do septo. Ela gozava assim, com as duas entradas ocupadas, mordendo o braço para não gritar.
Havia algo primitivo nesses encontros, algo que as quatro paredes do nosso quarto não conseguiam reproduzir. Era o contexto: o cheiro de gasolina e umidade, a luz amarelada do fluorescente, a possibilidade constante de alguém descer pelo elevador.
E essa possibilidade se cumpriu mais de uma vez.
***
A primeira vez que quase nos pegaram foi numa terça-feira. Estávamos na garagem, ela de costas contra o meu carro, com as pernas fechadas ao redor da minha cintura e o pau dentro até os ovos, quando ouvimos o motor do elevador se pôr em movimento. Olhamos um para o outro. Dois segundos de puro pânico. Marta se agachou atrás do carro vizinho e eu fechei o zíper prendendo um pelo do púbis com o pau ainda pingando, enquanto caminhava com falsa naturalidade em direção ao quarto dos medidores, como se estivesse conferindo alguma coisa. Um vizinho do segundo andar saiu do elevador, pegou um saco de lixo do depósito e voltou a subir sem olhar para onde estávamos.
Quando a porta do elevador se fechou, Marta soltou uma risada silenciosa, com a boca tampada e os olhos úmidos de riso e nervosismo. Depois me agarrou pela camiseta e me puxou para perto, desceu o zíper da minha calça, tirou meu pau outra vez e o enfiou de novo na xoxota em pé, com uma perna sobre o capô.
— Nem pense em parar agora — sussurrou.
Não parei. Peguei-a no colo, sentei-a sobre o capô do carro do vizinho e a fodi ali mesmo, com as mãos apoiadas na lataria ao lado dos quadris dela, investindo com tanta força que eu temia que o alarme do carro disparasse. Ela se segurava com uma mão no retrovisor e com a outra beliscava os próprios mamilos. Gozou jorrando, molhando minha calça e a lataria do carro alheio, e eu gozei dentro dela um minuto depois, apertando as nádegas contra mim para que não escapasse uma gota sequer.
A segunda vez foi pior. Ela estava descendo as escadas, no segundo andar, quando a porta de um dos apartamentos se abriu. Marta ficou petrificada no vão entre os andares, colada à parede, completamente nua e sem lugar nenhum para se esconder. Ouviu passos, uma chave girando, uma porta se fechando. O vizinho havia saído para deixar o lixo no patamar e voltado a entrar sem olhar para a escada.
Nessa noite, quando chegou à garagem, estava tremendo de verdade. Coloquei o roupão sobre seus ombros e a abracei por um longo tempo sem dizer nada. Pensei que ela quisesse parar.
— Na próxima vez — disse contra meu peito —, tranca a porta do apartamento para mim.
Olhei sem entender.
— Para que eu não tenha saída fácil. Para que a única opção seja descer até você.
Meu Deus, pensei. Essa mulher vai me matar.
Abri o roupão ali mesmo, sentei-a sobre o capô e abri suas pernas. Chupei sua xoxota até ela gozar duas vezes seguidas, agarrada ao limpador de para-brisa, e depois tornei a fodê-la até que as duas mamas dos meus joelhos começaram a sangrar do cimento.
***
Comecei a trancar a porta para ela. Sem chaves, sem roupa, sem opções. Ela saía para o patamar e ouvia o clique da fechadura atrás de si. A partir daquele momento, seu único destino era a garagem. Não podia voltar, não podia esperar, não podia ficar parada em qualquer patamar, porque a qualquer momento alguém poderia aparecer.
Observei-a uma vez da janela da cozinha, que dava para o pátio interno. Vi-a atravessar o hall agachada, com movimentos rápidos e precisos, como um animal cruzando uma estrada à noite. Senti algo que não consigo descrever com exatidão: uma mistura de orgulho, desejo e uma ternura quase insuportável. Aquela mulher confiava em mim o bastante para se colocar numa situação assim. E eu a esperava lá embaixo, todas as vezes, com o roupão pronto e as mãos abertas.
Às vezes eu falava com ela durante o sexo com palavras que, fora de contexto, soariam imperdoáveis. Ela tinha me pedido isso. Queria que eu a chamasse de puta, safada, vadia, minha porca da garagem, minha putinha nua do patamar. Eu dizia que ela era uma safada por descer daquele jeito, que se deixava foder como uma cadela no cio, que só servia para ter pau dentro. Ela respondia ofegante, com os olhos virados, que sim, que era tudo isso, que eu a usasse, que enchesse sua xoxota, que gozasse onde quisesse. Eram palavras que funcionavam porque vinham de alguém que também lhe preparava o café da manhã, que cobria com a manta quando ela dormia no sofá, que conhecia seus medos e suas alergias. Sem essa base, seriam apenas insultos. Com ela, eram outra forma de se despir.
Numa dessas noites, quando ela chegou à garagem já encharcada só de descer, eu a deitei no banco de trás do carro com as pernas abertas apoiadas nos encostos de cabeça. Chupei sua xoxota e seu cu alternadamente, com a língua saltando de um ao outro, até o banco de couro ficar pegajoso de seus fluidos. Depois subi em cima, ergui suas pernas até os ombros e enfiei no cu dela devagar, milímetro por milímetro, enquanto ela mordia o punho para não gritar. Quando já tinha o pau dentro até a raiz, comecei a fodê-la enquanto enfiava três dedos na xoxota. Marta se convulsionava inteira, dobrada ao meio no banco, gozando repetidas vezes, encharcando o estofado a cada orgasmo. Gozei dentro do cu, e quando tirei, um fio grosso de sêmen começou a escorrer até a xoxota e dali até o banco. Passei dois dedos, enchi-os de porra e os enfiei em sua boca. Ela os chupou até ficarem limpos.
***
Houve uma noite que nenhum dos dois esquecerá. Era sexta-feira, mais tarde que o habitual. Marta tinha descido sem problema até o primeiro andar quando ouvimos — ela de dentro, eu da garagem — vozes na porta do prédio. Alguém tentava enfiar a chave. Ouvia-se risadas, o barulho de uns saltos, uma conversa entre duas pessoas que tinham bebido o bastante para falar alto demais.
Marta ficou paralisada no último trecho da escada, a três metros do hall de vidro. Se essas pessoas entrassem pela porta principal, a veriam. Não havia onde se esconder. Não havia roupão. Não havia desculpa possível.
Os segundos se esticaram como se o tempo tivesse decidido castigá-la. Eu estava do outro lado da porta da garagem, com a mão na maçaneta, pronto para abrir assim que a visse aparecer. Mas ela não aparecia.
Então as vozes se afastaram. Tinham ido para o prédio ao lado.
Marta desceu os últimos degraus correndo e empurrou a porta da garagem com as duas mãos. Encontrou-me ali, esperando por ela. Coloquei o roupão e senti suas coxas tremendo contra as minhas. Enfiei a mão por baixo do roupão e ela estava tão molhada que escorreu pelo meu pulso até o cotovelo.
— Foi demais — eu disse.
— Foi perfeito — respondeu —. Me fode. Aqui. Agora.
Eu a imprensei contra a parede da garagem, arranquei o roupão de uma vez e ergui uma perna até apoiá-la no meu quadril. Enfiei o pau com um golpe seco e ela gritou, um grito de verdade, sem filtro, que ricocheteou no teto do subsolo. Fodi-a contra a parede com as duas mãos sob a bunda, sustentando-a no ar, sentindo como ela me apertava as costas com os calcanhares descalços e me cravava as unhas nos ombros até tirar sangue. Cada investida a levantava alguns centímetros e a fazia cair empalada de novo sobre mim. Mordi seu pescoço, seus seios, o ombro. Ela mordeu minha orelha e sussurrou toda a lista de putarias que vinha guardando.
— Arrebenta minha xoxota. Me enche. Me engravida aqui na garagem. Que alguém saia e nos veja. Que vejam como você me fode, como sua puta goza em cima do seu pau.
Ela gozou com um espasmo longo que atravessou todo o corpo, mordendo minha clavícula, apertando-me tanto que me arrancou a porra sem que eu pudesse segurar. Esvaziei-me dentro dela em três jatos longos, com a testa colada à parede, ofegando o nome dela. Quando a soltei, meu sêmen começou a escorrer pelas coxas dela até o cimento. Ela se abaixou, passou dois dedos entre as pernas recolhendo-o e os chupou enquanto me olhava de baixo.
Caímos no chão e ficamos ali, sentados no cimento frio, com o roupão como única manta, rindo sem motivo como dois idiotas apaixonados, com a xoxota dela ainda pingando porra entre minhas pernas.
***
Não éramos exibicionistas no sentido clássico. Não queríamos que ninguém nos visse. Queríamos que alguém pudesse nos ver. A diferença é enorme. Era o risco que nos alimentava, não a exposição. A possibilidade, não o fato. Caminhávamos sobre uma lâmina que cortava o bastante para fazer sentir algo mais intenso que a rotina, mas nunca o suficiente para nos ferir.
Marta costumava dizer que esses jogos a faziam se sentir mais viva do que qualquer outra coisa. Que medo e prazer usavam os mesmos caminhos do corpo, e que, quando se misturavam, produziam algo que não tinha nome. Eu concordava, embora expressasse pior. Para mim era mais simples: eu confiava nela, ela confiava em mim, e juntos podíamos ir a lugares onde, sozinhos, jamais teríamos chegado.
Esse foi o começo. Nosso vocabulário secreto, nosso território privado dentro de um prédio que dividíamos com desconhecidos que nunca suspeitaram de nada. Ou talvez tenham suspeitado. Talvez o vizinho do segundo, o do saco de lixo, tenha visto mais do que demonstrou. Talvez o casal do primeiro tenha ouvido ruídos que não soube explicar. Não sei. E, no fundo, essa incerteza era parte do jogo.
Porque o melhor de tudo aquilo não era o que fazíamos. Era o que sentíamos enquanto fazíamos: que éramos os únicos dois acordados num mundo dormindo, inventando regras que só nós entendíamos.
E isto, como eu disse a Marta naquela primeira noite no patamar, com minha porra ainda escorrendo por dentro das coxas dela, era só o começo.
