Chamei um desconhecido para não perder meu namorado
Cheguei tremendo ao celeiro, de joelhos sobre a palha, esperando um homem cujo rosto eu jamais veria. Fiz isso pelo meu namorado. Ou foi o que disse a mim mesma.
Cheguei tremendo ao celeiro, de joelhos sobre a palha, esperando um homem cujo rosto eu jamais veria. Fiz isso pelo meu namorado. Ou foi o que disse a mim mesma.
Me inscrevi em cima da hora para uma festa no campo onde ninguém tinha namorado e valia uma única regra: o que acontecesse naquela noite, ficava ali. Não imaginava até onde eu chegaria.
“Só os três primeiros níveis”, eu prometi no avião. Nenhum de nós imaginava até onde aquele caderno de desafios nos levaria antes de voltarmos para casa.
Nunca tinha aceitado o convite de um homem que acabara de conhecer. Mas algo no sorriso dele, e no jeito como olhava para o meu decote, me fez dizer que sim.
Quando a luz acabou e ficamos presos entre dois andares, soube que aquelas horas no escuro mudariam tudo. E não fiz nada para impedir.
Minha amiga me deu bolo naquela noite, mas o desconhecido do balcão tinha outros planos para mim. E eu, mesmo sem admitir em voz alta, também.
A mão fria dele se fechou no meu braço como uma presa. Eu era noventa quilos de músculo e, ainda assim, diante dele me senti pequeno, inspecionado, comprado.
A varanda do motel se conectava à dele, e da penumbra uma voz grave me chamou de “bonito”. Eu devia ter entrado e trancado a porta. Não fiz isso.
Só queria ver o sol se pôr e fotografar o mar. Então ouvi outra bicicleta se aproximando pela areia, e soube que aquela tarde não terminaria como as outras.
Marquei três e meia quando entrei naquele banheiro deserto. Não passei o trinco. Foi o erro — ou o acerto — que mudou para sempre o que eu achava saber sobre mim.
O braço que descansava sobre seu abdômen não era o da namorada. Era pesado, quente, masculino. E Bruno não se lembrava de absolutamente nada da noite anterior.
Quando abri os olhos na sauna a vapor, ele já estava me olhando. E eu sabia perfeitamente quem era, embora jamais tivesse imaginado tê-lo tão perto.
Saí da academia com o corpo ainda pegando fogo e entrei pela trilha de terra para fumar sossegado. Não esperava que aquele carro preto parasse justo atrás de mim.
Escolheu o mictório ao lado sem pensar. Quando seus olhares se encontraram no espelho, soube que nenhum dos dois tinha entrado só para lavar as mãos.
Na sexta, por volta das dez, o ginásio quase vazio e um cara que pegava o dobro no banco ao lado. Bastou um olhar no espelho para tudo sair do eixo.
Eu tinha nadado três mil metros a toda e só queria água quente sobre os ombros. Então ele se virou no chuveiro ao lado, e soube que aquela tarde não terminaria como as outras.
Iván e Nico atravessaram a porta como se a cobertura já fosse deles, e antes mesmo de cumprimentar já tinham nos empurrado contra a parede da sala.
Passamos pela cortina preta e a escuridão nos engoliu: só duas luzes vermelhas, o pulso do techno e um colchão cercado por sombras que já nos esperavam.
Reconheci o sorriso de demônio encostado no balcão, com a toalha preta e o arnês vermelho, e soube que aquela noite a sauna inteira seria testemunha da nossa história.
Quando a porta se fechou e engoliu a última luz, só existiam as mãos, as bocas e a voz de Mateo dizendo que naquela noite eu era dele.