O que calei durante catorze meses com ele
Não sei seu nome, mas sei o que te espera. Eu também achei que era amor antes de aprender a obedecer a cada uma das ordens dele.
Não sei seu nome, mas sei o que te espera. Eu também achei que era amor antes de aprender a obedecer a cada uma das ordens dele.
Fiquei olhando-a do balcão até nossos olhares se cruzarem. Eu ainda não sabia que naquela noite ela me chamaria de «senhor» e faria tudo o que eu ordenasse.
Quando ele se agachou na minha frente sob a chuva e me pediu para mostrar os dentes, soube que aquele homem de terno preto não queria me dar uma moeda.
Ela sempre foi a forte, a que cuidava de todos. Numa tarde chuvosa, um desconhecido mandou que ela entrasse no carro — e ela obedeceu.
Começou com uma tanga vermelha e um «coloca isso, amor». Terminou com ela sorrindo da bancada, decidindo pelos dois como seria o resto da minha vida.
Passei dois anos imaginando esse dia. Não sabia que um homem de terno, com a idade do meu pai e os olhos cravados em mim, decidiria como seria minha primeira vez.
Ela me mandou ficar de quatro nos fundos e, enquanto seus dedos me exploravam, entendi que acabava de descobrir algo que eu escondia havia anos.
Eu a observava havia semanas atrás do balcão da clínica. Na noite em que sua vida desmoronou, convidei-a para subir ao meu apartamento e ofereci a única coisa que ela não podia recusar.
A cama da frente rangia toda madrugada no ritmo de um desconhecido, e ela fingia dormir enquanto calculava o quanto estava disposta a perder.
Ela tinha fome, frio e nenhuma razão para confiar nele. Mas quando ele a olhou nos olhos e lhe ofereceu um teto, soube que dizer sim mudaria tudo.
Cheguei tremendo ao quarto, fechei as cortinas e me despi seguindo as instruções dele. Eu só queria ser uma boca utilizável. Não imaginava o que sairia dali.
Nos conectamos por semanas através de uma tela, mas e se, pessoalmente, não sobrasse nada daquela faísca? Então o vi cruzar o bar e meu corpo respondeu antes da minha cabeça.
Eu voltava do surf, com o cabelo úmido e o biquíni ainda molhado, quando me mandaram parar. Não imaginava que naquela noite descobriria até onde ia o meu desejo.
Sentei naquela cadeira fingindo uma emergência, mas sob o top sem sutiã meu corpo só obedecia a uma voz que não estava na sala: a do meu amo.
Dirigi até a fábrica abandonada com o coração disparado. Tirei a roupa entre os vidros quebrados e cruzei a porta sem saber o que me esperava nos andares de cima.
Saí disposta a que ele me visse com outros, mas acabei entre dois carros, numa rua vazia, me deixando usar por alguém que mal conhecia.
Saí da academia com a mesma roupa de sempre e todos os olhos em cima de mim. Naquela noite entendi que não queria mais esconder o quanto me excitava ser desejada.
Sei que deveria sentir vergonha, mas, naquela hora, apertada contra corpos que não conheço, deixo de fingir que o roçar é um acidente.
Eu tinha oito meses de barriga, os hormônios a mil e um homem suado trabalhando no quarto do bebê. Naquela tarde, deixei de ser a esposa recatada que todos pensavam conhecer.
Voltei ao colégio naquela tarde com a desculpa de estudar na biblioteca, mas nenhuma de nós ia abrir um único livro. Íamos por eles.