O que fizemos naquele teatro às escuras
Começou como um jogo na última fileira do teatro e acabou virando um vício: buscar o canto mais impossível da cidade para perder o controle.
Começou como um jogo na última fileira do teatro e acabou virando um vício: buscar o canto mais impossível da cidade para perder o controle.
Ele me pediu para fechar os olhos diante da vitrine. Quando abri, soube que Hugo queria me ver transformado em algo que sempre desejei ser sem ter coragem de dizer.
Entrou achando que os chuveiros estavam vazios, mas o vapor escondia outra pessoa. Seu companheiro de equipe não o tinha ouvido chegar, e ele já não conseguia desviar os olhos do que via.
Diziam que o azul do seu macacão dava sorte. Mas naquela noite, sob o chuveiro e os olhares dos companheiros, ele soube que a sorte tinha outro nome.
Tinham montado a tela, servido a sidra e aguentado os murmúrios. Sozinhos enfim na praça vazia, só restava uma coisa a fazer: subir para o sótão.
Ele vinha dias só pela tela. Quando enfim a porta se fechou atrás de nós, eu soube que aquela noite ia recuperar cada hora roubada pela distância.
Quando minha mãe encontrou as manchas na minha roupa, achou o pior. Ela não sabia que Marco não me machucava: me ajudava a deixar de ter medo de ser quem sou.
Pensei que o mais difícil da volta seria a faixa na entrada da vila. Eu estava enganado: o difícil foi a mesa, quando começamos a dizer a verdade.
Ele ficou no meu sofá por algumas semanas, cortês e distante, até que numa tarde deixou cair a frase que despertou tudo o que enterramos naqueles verões.
Estava duas semanas sem gozar e a imaginação me pregou uma peça no meio do turno. O que eu não esperava era que alguém percebesse antes de mim.
Passava meses fingindo que não olhava quando ele saía do banheiro de cueca. Nestas férias, sozinho no apartamento, abri a sacola da roupa suja dele.
Quando o oficiante perguntou se alguém tinha algo a dizer, o noivo ergueu a mão. Não para aceitar, mas para confessar o que vinha calando havia meses.
Tenho trinta e quatro anos e nunca duvidei do que era. Até que essa semente começou a crescer dentro de mim, silenciosa e persistente, e eu já não pude ignorá-la.
Eu conhecia os horários dele, o som das botas, o momento exato em que tirava a camisa por causa do calor. O que eu não sabia era até onde essa obsessão ia me levar.
Elas ficaram ao lado do capacho, ainda mornas pelos pés descalços dela. Bastou minha filha se distrair um instante para eu cometer a loucura.
Cada vez que sua irmã virava as costas, ela tirava as sandálias e deixava os pés à mostra, sabendo o que estava fazendo comigo e curtindo cada segundo da minha tortura.
À uma da madrugada, ela tirou os saltos para provocar, como sempre. Não sabia que naquela noite alguém transformaria seu capricho em ordem.
Levei três meses para chegar ao sofá de Mariana, tirar suas sapatilhas devagar e descobrir se ela realmente se importava com eu não conseguir parar de olhar seus pés.
Eu disse que gostava dos pés dela e ela riu. Não imaginava que, naquela tarde, enquanto cuidava das sobrinhas, eu estaria de joelhos diante da cama dela com os tênis nas mãos.
Aprendi a contar as horas até ela dormir. Só então, na escuridão do beliche, as sandálias eram minhas e ninguém podia ver o que eu fazia com elas.