Andei a noite toda para ver o pai da minha amiga
Sangrei dentro da minha meia rasgada, mas continuei andando até a porta dele. Eu precisava olhar nos olhos dele e saber se o que eu sentia era recíproco.
Sangrei dentro da minha meia rasgada, mas continuei andando até a porta dele. Eu precisava olhar nos olhos dele e saber se o que eu sentia era recíproco.
Subir sete andares a pé de salto alto não era brincadeira. O que eu não sabia é que o porteiro me observava havia semanas como se eu fosse uma promessa a cumprir.
A borda dos sapatos perfurara minha meia-calça e cada passo ardia como uma penitência, mas não parei até tocar a campainha dele.
Toda manhã eu acordo com o mesmo fogo. Não é amor, não exatamente. É outra coisa, mais urgente, e nenhum alívio dura o bastante para apagá-lo por completo.
Eu sabia que não era sensato. Mesmo assim contornei a ponte, desci pelo paredão e o encontrei dormindo exatamente onde o tinha deixado.
Entrei no jogo para fazer amigos. Fiquei porque ali havia homens que queriam o mesmo que eu: algo real, sem nome e sem futuro.
Acordei no quarto dele sem lembrar como cheguei. Ele estava na cozinha, seminu e tranquilo, como se tudo fosse completamente normal.
Eu guardava seus textos em uma pasta privada e os relia à noite com a luz apagada. Passei meses assim antes de me atrever a escrever para ele.
Nunca dei like. Nunca comentei. Só lia os textos dele à meia-noite e me perguntava se ele também pensava em alguém como eu.
Quando a cobri com a manta e minha mão roçou sem querer a curva de seu quadril, soube que demoraria muito para eu tirá-la dali.
Ele guardava uma confissão que nunca tinha contado a ninguém. Ela também. Nessa noite chuvosa, com chocolate quente nas mãos, disseram tudo um ao outro.
Eu vinha ignorando os olhares dele havia semanas. Naquela noite no hotel, depois da piscina e de dançar com desconhecidos, já não consegui continuar.
Havia noites em que eu nem olhava para o rosto de quem entrava. Contava o dinheiro e esperava acabar. Mas uma vez tudo foi completamente diferente.
Passei horas andando, com o vestido rasgado e sangue nas pernas. Eu não podia parar. Precisava vê-lo, mesmo que tudo o que eu fizesse naquela noite me destruísse.
O teste já estava havia vinte minutos na prateleira do banheiro quando ele abriu a porta. Bastou ver o rosto dele para saber que tudo entre nós mudaria.
Eu o vi sair por aquela porta e meu coração disparou na hora. Eu usava o vestido mais vermelho que tinha. Queria que a primeira coisa que ele visse fosse eu.
Subi à oficina com o envelope na mochila, os óculos escuros e a saia ao vento. Naquela manhã, eu não sabia que sairia de lá sendo outra.
A cada janeiro, eu voltava ao mesmo balneário. Ela o dirigia, eu reservava sempre o mesmo quarto. Ninguém suspeitava de nada.
Subi a escada de metal com a saia colada ao corpo e a mochila cheia de notas, sentindo todos os olhares da oficina subirem pelas minhas pernas.
Deixei o carro a meia quadra para não fazer barulho. A porta estava destrancada e as luzes apagadas. O que encontrei no fundo do corredor mudou tudo.