O médico que me ajudou a ser a mulher que eu era
A primeira vez que entrei no consultório dele, fui de cabeça baixa e com um vestido emprestado; saí de lá me sentindo, enfim, eu mesma.
A primeira vez que entrei no consultório dele, fui de cabeça baixa e com um vestido emprestado; saí de lá me sentindo, enfim, eu mesma.
Meus pais diziam que aquela vizinha não era confiável. Eu só sabia que, cada vez que a cruzava no elevador, eu tinha dificuldade para respirar e não entendia por quê.
Toda vez que voltávamos à casa velha da avó, o mesmo jogo começava de novo: uma mão roçando a outra e ninguém olhando.
Quando ele enfiou o pé descalço sob a toalha e roçou minha coxa, soube que aquele garoto que eu vinha ignorando havia semanas ia conseguir o que tanto pedia.
Entreguei a ela uma blusa um tamanho menor sem dizer por quê. Quando ouvi seu grito abafado vindo do provador, soube que ia entrar e não sairia igual.
Eu usava um chapéu de caubói e não tinha a menor intenção de voltar sozinha. Não imaginava que um desconhecido me proporia algo que eu nunca ousara experimentar.
Quando abri a porta só de toalha, não imaginei que o amigo do meu pai me olharia assim — nem que eu retribuiria sem nenhuma vergonha.
Quando vi os bilhetes que minha irmã escondia na gaveta, soube que nossa vida naquele ponto estava prestes a mudar para sempre, e que nada mais seria inocente entre nós.
Coloquei a saia por baixo da calça, entrei no carro e deixei que ele escolhesse meu nome. Naquela noite, parei de fingir o que não era.
Achei que teria tempo de me recompor antes que ele voltasse da cozinha. Eu me enganei. A voz dele às minhas costas veio justo quando eu sussurrava o nome dele.
Tinha curiosidade e um pouco de nojo, mas ela insistiu até eu me ouvir dizer que sim. O que aconteceu naquela tarde na casa dela ainda me faz sorrir.
Chovia, a casa estava vazia e eu tinha uma surpresa guardada. Nunca tinha feito aquilo, mas naquela tarde decidi descobrir a que gosto o desejo tem.
Tinha quinze anos, uma aula livre e a casa do meu namorado vazia. O que aconteceu naquela tarde eu lembro até hoje, em cada detalhe.
Ela tinha vinte anos, um encontro em três dias e um segredo: nunca havia tocado em um homem. Pediu minha ajuda, e eu conhecia alguém disposto a ser sua primeira lição.
Da escuridão, eu a via se mover sobre ele, e entendi que já não sabia se me doía mais olhar ou a vontade que eu tinha de continuar olhando.
Nunca o vi pessoalmente. Só precisei das minhas palavras, de um altar de velas e da certeza de que um homem pode se ajoelhar diante de alguém que nunca lhe devolverá o gesto.
Adrián achava que era só subir para a casa de um amigo. Não contava com Lucas acordado na sala, nem com a vontade que vinha segurando a noite toda.
Dividiam o mesmo quarto desde meninas e ela a espionava dormindo toda noite. Naquela manhã, quando a tia deixou cair a toalha diante do espelho, soube que não poderia mais fingir.
Ela sempre se sentava no fundo, intocável, até um beijo na bochecha abrir uma fenda na sua couraça. Jamais imaginei que a mais reservada da sala acabaria tremendo nos meus braços.
Quando ela correu a trava da porta e largou a jaqueta na cadeira, eu soube que aquelas horas na cama estreita não seriam passadas dormindo.